quinta-feira, 14 de março de 2024
O ANFITEATRO DA FILARMONICA
O Anfiteatro da Filarmônica.
Por Antonio Samarone.
Os gregos criaram o teatro e os romanos o anfiteatro. Um local ao ar livre, destinado aos espetáculos. Lutas de gladiadores, espetáculos circenses, corrida de bigas, enfrentamentos entre animais ou simulações de batalhas navais.
O anfiteatro da Filarmônica será um local de concertos, musicais, teatro e danças.
O famoso Coliseu romano é um anfiteatro.
Não sei as razoes, mas Itabaiana é infestada de anfiteatros. São dezenas! Em quase todas as avenidas. Tem até nos povoados. Nenhum ocioso.
A arte nunca é demais!
A vetusta Filarmônica Nossa Senhora da Conceição anunciou a construção de um novo anfiteatro, com a promessa de ser um novo cartão postal, uma joia da arquitetura. Não é uma concha acústica, dessas de Universidade.
O anfiteatro da Filarmônica é o que tem de mais avançado em acústica, onde os concertos se sentirão à vontade. Viva! Itabaiana aplaude a iniciativa.
A Filarmônica de Itabaiana não tem dono, não deve ter, ela é patrimônio cultural do povo.
Será um anfiteatro como os de Berlim, Siracusa, Tunísia e Milão. O Campus Martius.
Mas, tem um porém.
Em um momento infeliz, o empresário da construção civil, Edson Passos, resolveu retomar o terreno da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, por ele doado há quase uma década: alegou razões burocráticas: a Filarmônica demorou a construir.
Agora, que a Filarmônica recebeu uma promessa de ajuda financeira, tem um projeto e anuncia a construção de um anfiteatro, as coisas podem emperrar na Justiça.
Um apelo ao arquiteto Edson Passos, retire essa causa, lesiva a cultura de Itabaiana.
Antonio Samarone. Secretário de Cultura.
terça-feira, 12 de março de 2024
A LOUCURA DE SAUL.
A loucura de Saul.
(por Antonio Samarone)
Saul foi o primeiro Rei de Israel, ungido por Javé. Sua missão era exterminar os povos vizinhos.
Javé ordenou: “vai, pois, agora, e investe contra Amalec, condena-o ao anátema com tudo o que lhe pertence, não tenha piedade dele, mata homens e mulheres, crianças e recém nascidos, bois e ovelhas, camelos e jumentos.”
Nada diferente da atual carnificina contra os palestinos.
Entretanto, Saul poupou a vida de Agag, Rei dos Amalequitas. Javé não aceitou a desobediência e acometeu Saul de fortes tormentos mentais. Ora amedrontado, ora furioso, ora homicida, ora deprimido, ora delirante.
A loucura se apossou de Saul até o fim de sua vida.
A turbulência mental de Saul foi atribuída aos espíritos malignos. O tratamento foi tentado. Davi tocou a harpa, para acalentá-lo. (veja a pintura)
A música da harpa de Davi nem sempre acalmava Saul. Por duas vezes, Saul quis matar o próprio Davi. Com a lança na mão, Saul bradou: “encravarei Davi na parede”. Deus livrou Davi.
Javé abandonou Saul, que perdeu três filhos na batalha contra os filisteus. Quando os inimigos se aproximaram para matá-lo, ele caiu sobre a própria espada, cometendo o suicídio.
Depois, Davi derrotou os filisteus.
O povo palestino pede misericórdia.
Antonio Samarone.
sexta-feira, 8 de março de 2024
UM ATEU DE ALDEIA
Um Ateu de Aldeia.
(por Antonio Samarone)
Aristeu, um velho fidalgo do Beco Novo, está arrependido. Foi um crente na dialética. Um ateu, materialista puro-sangue, virou um agnóstico, um cético. “Graças a Deus, Deus não existe.”
Marx criou um ateísmo sócio econômico: a religião é o ópio do povo.
Aristeu acreditou em Friedrich Nietzsche, quando ele anunciou a morte de Deus: "Deus não existe! O que o mundo possuía de mais sagrado, de mais poderoso, sangrou sob os nossos punhais, quem lavará de nós a mancha de sangue? Com que água havemos de nos purificar?"
Hoje, aos 70 anos, Aristeu enxerga a fragilidades do materialismo científico. Ele está fazendo o caminho de volta.
Calma, não é pelo medo da morte, cada dia mais próximo.
Não!
Aristeu deseja um reencantamento do mundo, uma volta a sacralização do que é sagrado, uma necessidade do transcendente. É a revanche de Deus!
Dos três grandes enigmas: a criação do universo, o surgimento da vida e como o cérebro criou a mente consciente, talvez, esse último, seja o mais desconhecidos. Deixar a solução nas mãos exclusivas das ciências, não parece eficaz.
Aristeu suspeita que o surgimento alma, do espírito, da mente consciente não se encaixam na evolução darwinista.
Afastar a hipótese divina é uma flagrante arrogância. Não existem evidencias.
Lembrei-me de uma passagem clássica de Fernando Pessoa: “minha alma é uma orquestra oculta; não sei que instrumentos tangem e regem, cordas e harpas, timbales e tambores, dentro de mim. Só me conheço como sinfonia.”
A razão, mesmo divinizada, não deu conta do aparecimento da mente consciente.
Nossa mente consciente rompeu as barreiras dos limites da cognição. A narrativa bíblica fundamenta a expulsão do Paraíso após a tentação do fruto proibido.
A mitologia grega nunca perdoou Prometeu, por entregar o fogo aos humanos.
Aristeu não está só, nessa retorno ao sagrado.
Antonio Samarone. (médico sanitarista)
quinta-feira, 7 de março de 2024
A MEMÓRIA PÚBLICA
(por Antonio Samarone)
É a cultura que cria a identidade das comunidades humanas.
Itabaiana é uma sociedade do século XVII, que rediscute o seu passado. Como chegamos até aqui? Quais os nossos valores, crenças e comportamentos.
A Cultura iniciou a postagem de vídeos contando a história das ruas de Itabaiana, com uma pequena biografia dos homenageados que as nomeiam. Um trabalho do historiador Almeida Bispo.
Algumas ruas centrais de Itabaiana, homenagem personagem estranhos a vida da cidade. As principais Praças são a Fausto Cardoso e João Pessoa. Fausto Cardoso vá lá, mas “João Pessoa”, paciência, esse político não diz nada sobre a nossa história.
A Cultura colocou em pauta recuperar a nossa memória pública. A sugestão foi do Historiador Wanderlei Menezes. Essa homenagem às mulheres é o início desse caminho.
Nesse 08 de março, doze mulheres que ajudaram a construir a cidade, serão homenageadas, no recinto do Shopping Peixoto. O objetivo é não cair no esquecimento. A civilização se alimenta da memória.
Simbolicamente, elas representam todas as mulheres de Itabaiana.
Maria Carreiro, Dona Irami, Cecilia Parteira, Tereza do Hospital, Maria Helena, Josefa Rocha, Maria Pereira, Maria Tavares, Dona Ceiça, Maria Peixoto, Eulina Nunes e Thetis Nunes serão as homenageadas.
Todas deixaram um legado para Itabaiana. A escolha foi criteriosa. Sei que muita gente que merecia ficou de fora, mas, as escolhidas merecem muito.
A grandeza atual das mulheres Itabaianenses deve muito as mulheres do passado. Por aqui, a força das mulheres vem de longe.
No fundo, Itabaiana é um matriarcado. Todas as famílias possuem referências femininas. A mulher sempre teve um papel de vanguarda. São protagonistas da história.
O plano é fortalecer essa memória. Em breve serão os comerciantes, os caminhoneiros, os professores, os negros, entre outros grupos sociais.
Acho que o currículo das escolas municipais deve incluir a história de Itabaiana. A história não é uma curiosidade ociosa.
Sem passado não existe futuro.
Antonio Samarone.
Secretário Municipal de Cultura.
quarta-feira, 6 de março de 2024
DE QUE LADO NASCE O SOL.
(por Antonio Samarone)
A idade desfaz antigas ilusões e recria novas. A ilusão é parte da natureza humana.
Dr. Esculápio, velho professor de medicina, participou da resistência à ditadura de 1964. Nunca pertenceu aos Partidos Comunistas. Silenciosamente, era um simpatizante.
Sabendo da sua recente enfermidade, fui visitá-lo.
Para minha surpresa, encontrei-o com a bandeira de Israel sobre os ombros. No início, fiz de conta não ter percebido. A conversa enveredou por amenidades, como convém às visitas aos doentes. Rápidas e leves.
Na saída, Esculápio fez uma provocação: “o Brasil vai mal, precisamos de um Netanyahu! O Poder Público foi apropriado pela politicagem da esquerda. A democracia é o caminho da promiscuidade e dos demagogos.”
Respirei fundo, mas não respondi. Tenho muita gratidão ao Professor.
Como estudante, assistia as suas aulas com curiosidade. Esculápio era um liberal, com leve simpatia pelas teses socialistas, que circulavam no movimento estudantil. Esculápio era contra a ditadura, mesmo discretamente. Um homem culturalmente sofisticado, amante da música clássica.
O que houve com os médicos?
A base social da extrema-direita no Brasil são os pentecostais, o agronegócio e as forças de segurança. Faz sentido! O que destoa, é a força da extrema-direita entre os médicos.
Por natureza, o profissional médico cuida do sofrimento humano. A empatia e o acolhimento são princípios irrecusáveis. Como carregar as bandeiras da violência e do ódio?
Não sei explicar!
Desejei saúde ao professor Esculápio e levantei-me para as despedidas. Ele ainda profetizou: “com a vitória certa de Trump, teremos um Javier Milei no Brasil, na próxima eleição.”
Continuei em silêncio. Senti-me derrotado!
Ao fundo, em sua biblioteca, enxerguei uma suástica estilizada.
Que Deus nos proteja!
Antonio Samarone (médico sanitarista)
sábado, 2 de março de 2024
O DITO PELO NÃO DITO.
O dito pelo não dito.
(por Antonio Samarone)
Filipe da Macedônia contratou o filosofo Aristóteles como preceptor do filho, Alexandre Magno. O Rei, queria o filho bem formado. Filipe resolveu levar o filho a um conclave da realeza mediterrânea, acompanhado do novo mestre.
Dias de debates. Discursos e mais discursos, teses e mais teses, argumentos e mais argumentos. Uma torre de Babel. Ao final, Alexandre perguntou ao preceptor, Aristóteles: “quem estava com a verdade?” O filosofo respondeu sobriamente, ninguém. Não avalie a política pelo dito, as palavras servem para ocultar os interesses.
A política guia-se por interesses não revelados, em boa parte, interesses pessoais. Alexandre nunca esqueceu a lição e conquistou o mundo.
A política em Sergipe segue uma tradição centenária: os grupos no poder governam sem oposição. Sergipe é muito pequeno, uma Província conservadora. Foi sempre assim!
As eleições em Sergipe são decididas nos palácios!
Como dizia um antigo Vereador do Aracaju: “O poder é como um jegue carregado de rapadura, até o rabo é doce.”
As eleições municipais se aproximam, e o grupo no poder reúne-se em convescotes frequentes, para ratear o Poder. Escolher o eleito.
Vários pleiteiam. São reuniões onde todos sabem que todos estão mentindo. Os derrotados internamente, conformar-se-ão. Qualquer discordância será tratada como rebelião.
A escolha do candidato situacionista a Prefeito do Aracaju é um exemplo perfeito. Todos querem. Uma disputa com único critério: o escolhido não pode ameaçar a reeleição do Governador, em 2026.
Nessa lógica aristotélica, o candidato do atual Prefeito do Aracaju, Luiz Roberto, é visto com desconfiança. Edvaldo Nogueira, potencialmente, pode ser uma ameaça na sucessão, em 2026. Por isso, não pode continuar comandando a Prefeitura. Todos conspiram contra.
Por mais que Edvaldo negue, eles não acreditam. Geralmente, os políticos sabem o que os outros políticos estão pensando. Os ingênuos não sobrevivem.
Resta a Edvaldo, um gestor público qualificado, bem avaliado na opinião pública, procurar outras saídas políticas para o seu candidato.
Edvaldo Nogueira é o último político em Sergipe, com mandato, da geração que chegou ao poder com Jackson Barreto, na vitória para a Prefeitura do Aracaju, em 1985. São 39 anos! Os atuais áulicos, tem outros métodos e outros objetivos.
Edvaldo Nogueira (PC do B) chegou ao Poder em Aracaju, numa grande demonstração de habilidade. São raros. Guardando as proporções, um exemplo na linha de Flávio Dino (PC do B do Maranhão). O próprio PT em Sergipe, nunca aceitou.
Os novos políticos que governam Sergipe, olham Edvaldo com desconfiança. E não escondem. A principal crítica ao Prefeito é que ele não cumpre os acordos. Nunca dizem que acordos são esses.
É evidente que a traição em política é velada, muitas vezes, encoberta por declarações públicas de apoio. O chamado apoio de boca para fora.
Não precisa ser profeta para avaliar a política. As reuniões de cúpula, os conchavos, o disse-me-disse, é tudo blá-blá-blá. Na política, só existe gratidão se for conveniente aos interesses dos envolvidos.
A pergunta central é a quem interessa tal ou qual candidatura? Essa é chave de qualquer análise científica. E o eleitorado onde entra? Bem, essa é outra discussão.
No caso do Aracaju, são muitos os interessados do lado da situação. Todos querendo convencer ao Governador que, em sua sucessão (2026), eles não serão concorrentes. Talvez, por isso, o martelo somente será batido para valer no segundo turno.
Vamos aguardar. Em pouco tempo, saberemos se o método aristotélico continua valendo.
Antonio Samarone – médico sanitarista.
quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024
GENTE SERGIPANA - PEDRO LANGANHO
(por Antonio Samarone)
Pedro Germano de Oliveira, filho de Dionélia e Antonio Angico, foi o menino mais esperto do Beco Novo. Polêmico, gabola, conversador, levou a vida na valsa.
Ganhou notoriedade. Pedro Langanho sempre foi diferenciado. Se achava sabido. A fala, o caminhado, os gestos, lembravam a malandragem dos sambas.
Pedro Langanho, inconscientemente, passava a mensagem do samba carioca: “malandro é malandro, Mané é Mané.
De família muito pobre, Pedro vivia de pequenas espertezas. Um João Grilo ceboleiro.
Nas peladas, Pedro Langanho se achava um craque, se considerava um clone de Zanata, aquele do Vasco.
Os irmão, Mané Angico e Chico das Cobras, trabalhavam no pesado. Pedro tinha as mãos finas.
Eu sou contra o trabalho infantil!
Entretanto, a minha geração trabalhou cedo, por necessidade. Os valores eram outros. O trabalho era visto como uma virtude. Quando eu comecei a trabalhar virei cidadão, dono do meu nariz. Parte da renda era para ajudar as despesas da família.
Eu me sentia feliz, útil. O trabalho não me impediu de passar no vestibular, sem cota e sem pré-vestibular. Não estou querendo defender o trabalho infantil.
Meninos pobres que não trabalhassem eram vistos como vadios. Mesmo que estudassem. Em Itabaiana eram carimbados como “índios”, malandro. Aos 12 anos, eu vendi água na feira, peguei carrego, vendi pão dormido e não fiquei traumatizado. Pelo contrário, tinha orgulho de ter o meu dinheiro. Aos 15 anos, eu já ganhava salário mínimo.
Minha mãe era rigorosa sobre os estudos, acompanhava diariamente, procurava saber o meu comportamento. A disciplina era absoluta. A ela, devo o meu “sucesso” na escola.
Em Itabaiana, ser malandro não tinha guarida. Mesmo o falso malandro, a malandragem sadia. Pedro era um falso malandro, numa terra de trabalhadores precoces.
Na verdade, era uma malandragem inofensiva. Mais de gestos. Pedro trabalhava escondido. Casou, constituiu família. Foi Vereador de um mandato.
Encontrei-o ontem, batendo boca numa roda de amigos. O tema: quem foi o melhor jogador de futebol, entre eles. De passagem, exagerei as habilidades de Pedro Langanho. Atribui as perseguições do treinador Miguel de Rola, um disciplinador, o insucesso de Pedro no Futebol.
Miguel de Rola, odiava gabolice. Pedro Langanho, foi podado. Nunca era escalado, mesmo treinando bem.
Pedro Langanho é um personagem original, da história de Itabaiana.
Antonio Samarone. (médico sanitarista)







