01 de outubro – dia dos Idosos.
(por Antonio Samarone)
Eu nem sabia da existência desse dia. Fazer o que, comemorar ou reclamar?
Somos 14,7% dos brasileiros, ou seja, 31,2 milhões de pessoas. Em 2050, seremos 22%, é muita gente. No início do século XX a vida média no Brasil era de 24 anos, já estamos chegando aos 78 anos.
O que fazer com essa sobrevida?
Segundo o Ministério da Saúde, 25,1% dos idosos tem diabetes, 18,7% são obesos, 57,1% têm hipertensão e 66,8% têm excesso de peso. Também somos responsáveis por mais de 70% das mortes do país.
Somos bons morredores, mas sobrevivemos a pandemia.
Vão à merda com essas estatísticas eugênicas. Queremos viver a nosso modo.
Quero dizer que gosto muito da velhice, por enquanto. Já entendo o conselho que Nelson Rodrigues deu aos jovens: envelheçam!
O número de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos vai mais que dobrar no mundo em 2050, passando de 900 milhões em 2015, para cerca de 2 bilhões.
Gente, vamos parar de bajular os jovens. Somos o futuro! Quem não morrer antes, termina envelhecendo. A saída para o Brasil é entregar o poder aos velhos, a um Conselho de Anciões.
A juventude é o passado. A velhice é o futuro de quem não morrer antes, para todos e para cada um individualmente.
A velhice é a única alternativa razoável à morte.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
terça-feira, 18 de outubro de 2022
DIA DOS IDOSOS
A PENSÃO DA VIÚVA
A Pensão da Viúva.
(por Antonio Samarone)
Tobias Barreto, o maior dos sergipanos pelo talento e pela erudição, faleceu pobre, em 1889. Deixou a viúva, Grata Malfada Barreto, com 9 filhos, em dificuldade financeira.
Em 1892, um projeto de lei concedendo pensão anual de 3.600 reis a viúva de Tobias Barreto, tramitou no Senado. Para espanto e surpresa, o Senador por Sergipe, Coronel Manuel da Silva Rosa Júnior, mais conhecido como Rosa Júnior (1840 —1915), liderou a oposição ao projeto, alegando que o Brasil não poderia ser onerado.
A indignação tomou conta dos sergipanos. Tobias Barreto é uma das glórias raras de Sergipe. Mesmo quem nada sabe sobre o poeta e jurista, se orgulha da sua grandeza.
Sílvio Romero apresentou um requerimento ao Marechal Deodoro, em defesa da pensão da viúva, acompanhado de um abaixo assinado por todos os professores da Faculdade de Direito de Recife.
Trechos do requerimento de Sílvio Romero:
“Venho dirigir-me a Vossa Excelência no intuito de requerer-vos uma pensão que deva prover a subsistência de Dona Grata Malfada Barreto, viúva do finado Tobias Barreto, hoje reduzida ao completo desamparo, em companhia de nove filhos menores... A viúva do venerando professor e homem de letras ficou na mais angustiosa pobreza.”
A comunidade sergipana residente no Rio de Janeiro, liderada por Martinho Garcez, realizou uma grande mobilização em defesa da pensão da viúva.
Em manifesto público, a comunidade sergipana no Rio de Janeiro reagiu:
“O senador sergipano Rosa Junior teve a coragem de combater a mesquinha esmola de pensão anual de 3.600 reis, que o Senado queria conferir a viúva e filhos do eminente sábio sergipano. O que ficou sendo o Senador Rosa Junior depois desse combate? Menos que um defunto, uma irrisão. Os sinos dobram para ele.”
A Assembleia Legislativa de Sergipe, historicamente sem grandeza, aprovou por unanimidade um requerimento ao Senado, apoiando a pensão da viúva.
Transcrevo trechos de uma artigo de Martinho Garcez, nos Jornais do Rio de Janeiro.
“Rosa Junior ganha os seus bons cobrinhos de Senador e do posto de Coronel, passeia, fuma os seus charutos de havana de 600 reis cada um, goza teatros e das boas petisqueiras, sem se incomodar com o dia do amanhã. Rosa Junior entende que a viúva e os filhos de um grande brasileiro não precisam alimentar-se, nem de vestir-se, nem de habitar um teto decente.”
Rosa Junior passou para a história de Sergipe, como um indigno representante no Senado, que agiu como o carrasco da viúva de Tobias Barreto.
Antonio Samarone. (médico sanitarista)
A DEGOLA
A Degola.
(por Antonio Samarone)
Na República Velha (1889 – 1930), a eleição de um candidato carecia da aprovação da Comissão de Verificação de Poderes do Congresso. A Comissão da degola.
Era uma Comissão formada por cinco parlamentares, que dava a palavra final sobre a vitória de algum candidato. Mesmo eleito, o candidato precisava do reconhecimento.
Em 1905, na disputa pelo Senado em Sergipe, o eleito foi Josino Menezes, a Comissão de Verificação, por influência de Pinheiro Machado, preferiu reconhecer Coelho e Campos. A justificativa consta em ata: “assim, Sergipe estará melhor representado”. Uma fraude para melhor.
Não foi o primeiro caso.
Em 1896, o eleito em Sergipe para a Câmara Federal foi o médico Antonio Pedro da Silva Marques. Na leitura do parecer na Comissão de Verificação, um dos integrantes fez uma emenda: “Onde se lê Antonio Pedro, leia-se Manuel Presciliano de Oliveira Valadão.”
Isso foi contado por Acrísio Cruz, em “Pó dos Arquivos”.
O Código Eleitoral de 1932 criou a Justiça Eleitoral e a mesma “Degola”, ganhou ares de legalidade jurídica.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
EM DEFESA DOS PASSARINHOS
Em defesa dos passarinhos!
(por Antonio Samarone)
Após o longo confinamento, voltei a caminhar matinalmente no Parque da Sementeira.
Pouca gente, caminhantes tristes, cabisbaixos.
O que houve, para onde foram os passarinhos. Os canários da terra, as rolinhas fogo-pagou, os joão-de-barro, com a suas casas. Nada! Um ou outro Bem-te-vi. O que fizeram com os passarinhos?
Soube que secaram as fontes de água doce. Passarinho não bebe água salgada.
E os patos e os gansos da lagoa, o que fizeram? Soube que foi contenção de despesa, os patos comem muito. Me ofereço para levar a comida.
Não encontrei a velhinha que levava comida para os gatos, que os patos também comiam. Ainda é viva?
Continuam os longos descampados, não se plantou arvores. Uma ou outra, perdida. As arvores são as mesmas plantadas na primavera do sequescentenário do Aracaju.
Dei bom dia as velhas arvores, algumas responderam, me reconheceram. Outras não.
Perguntei a uma craibeira conhecida, pelas flores. Já estamos em plena primavera. Ela fechou a cara e não respondeu. Entendi como um protesto.
Sentei-me no eterno banco, puxei conversa com Marcelo Déda. Falei sobre política. Déda não desliga de Sergipe, sabe tudo. Eu não sabia, no Céu já tem 5G. Perguntei pelos passarinhos, ele riu, como se soubesse de alguma coisa, mais não queria dizer.
Prefeito Edvaldo, vamos caminhar na Sementeira, antes da reforma. Tenho algumas ideias. A sementeira é uma parque da vida.
A Sementeira estava limpinha, com cerca nova, mato aparado, iluminação de "led" nos postinhos, porteiros fardados, mas não é só isso, a Sementeira precisa de vida.
Quero os passarinhos de volta!
Antonio Samarone (médico sanitarista).
ANUAÊ
Anauê!
(por Antonio Samarone)
Anauê significa em Tupi (você é meu), era a saudação dos integralistas no Brasil. Uma imitação da saudação romana dos fascistas.
Recebi de um colega médico pelo WhatsApp, um vídeo onde Roberto Jeferson cheio de ódio, prega o golpe. Eu sei, não se pode levar Roberto Jeferson a sério, logo agora, que o partido dele, o PTB, só elegeu um deputado federal. Isso mesmo, um! O Partido dele acabou pelo voto.
O grave é esse material asqueroso está sendo distribuído por gente normal, que se diz cristão e civilizado. Por um médico que se considera humanista.
O bolsonarismo não foi uma criação de Bolsonaro. A antiga maioria silenciosa, após as manifestações de 2013, assumiu a militância de extrema direita. Somos um país desigual, onde prevalece os privilégios. A herança escravocrata é forte.
O bolsonarismo elegeu uma bancada de 235 deputados do Centrão. Os esquemas do orçamento secreto funcionaram. Sem contar o perfil da maioria eleita para o Senado. Se facilitar, eles revogarão a Lei Áurea. A barbárie avançou!
A esquerda insiste no discurso de “união” das famílias brasileira. Não se faz história com ingenuidade.
Toda a esquerda (a federação do PT, PSOL, PDT e PSB) elegeu apenas 124 deputados federais. Lula ganhando, terá uma governabilidade precária e onerosa aos cofres públicos.
Para os otimistas: São Paulo elegeu Ricardo Sales, isso mesmo, o que pregou a passagem da boiada, com 640 mil votos; enquanto o doutor em filosofia, professor titular da USP, músico, escritor, Vladimir Safatle, recebeu apenas 17 mil votos.
Ontem, Bolsonaro recebeu o apoio dos governadores do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Lula recebeu o apoio de Ciro Gomes, se é que podemos chamar aquilo de apoio.
“A política exige a coragem tacanha e malvada das brigas de rua... A política é a arena dos vícios, não das virtudes. A única virtude que exige é a paciência.” - Mussolini.
Outra coisa, a força política de Lula é pessoal, ele não transfere. Veja o resultado das eleições para governador, senador e deputado federal nos estados.
Eu sei, é preciso ser pessimista no pensamento e otimista nas ações. Isso é frase feita! Antes Lula era acusado de comunista, já era demais, agora a acusação é de satanismo.
General Mourão, o vice que andava com o escudo do Flamengo na lapela, derrotou Olívio Dutra, um símbolo da esquerda. Não vou cansá-los com dezenas de outros exemplos.
No domingo, eu fui advertido por familiares para não ir votar de vermelho, que não era prudente, que era necessário se evitar a violência e não sei o que mais. Já chegamos a esse ponto. Eu preferi correr o risco.
Mesmo que Bolsonaro perca o segundo turno, o bolsonarismo continuará forte e arrogante. Já cansei de ouvir: “por que você não vai para a Venezuela.” Ou seja, o Brasil é deles. Eu cá comigo, eu volto para a República de Itabaiana.
O Bolsonarismo continuará forte, mesmo com a derrota do Mito. Mas existe um risco maior: Bolsonaro ganhar. Não subestimem! O já ganhou é uma porta aberta à derrota. O 2º turno é uma nova eleição, ou se vai para as ruas pedir votos, convencer os indecisos, ou se ressuscita a militância de esquerda, ou as milícias tomarão conta.
O fascismo não é um Partido, é um credo político onde o ódio é a medida de todas as coisas.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
OS GALHARDETES ESTÃO NAS RUAS
Os Galhardetes estão nas ruas.
(por Antonio Samarone)
O Fake News não é uma mentira. É o apagamento dos limites entre o verdadeiro e o falso, o real e o virtual, o bom e o mal, a razão e a paixão. É o fim da referência ao milenar binômio verdade/mentira, onde a mentira tinha pernas curtas.
É a chamada pós verdade, isto é, o fim da verdade! A verdade é uma ilusão, como afirmava Nietzsche. Essa conversa que a verdade nos libertará, acabou.
Não existem mais verdades factuais, que possam ser usadas para desmontar as mentiras. O relativismo é absoluto, cada um acredita em seu sistema de referências. Por mais absurda, as fake news terão um infinidade de crentes e repassadores, infensos a qualquer argumentação em contrário.
O fim das grandes narrativa deu início a pós-modernidade. O fascismo é a ação pela ação, não precisa de narrativas. O fascismo é guiado pelo irracionionalismo.
Não é difícil entender o ódio aos artistas, acusados de privilégios, de beneficiários da lei Rouanet. No dizer de Umberto Eco: “Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas”.
As fake news são dirigidas às crenças atávicas, preconceitos, pulsões primitivas, fora do comando racional. Os fake news brotam de instintos obscuros e pulsões insondáveis, selecionadas por algoritmos, atingindo as profundezas da psique humana. Não são simplesmente mentiras.
O fascismo adapta-se a cada realidade, na Itália de Mussolini era nacionalista, no Brasil atual é um aliado do neoliberalismo extremo. A pauta de costumes é uma nuvem de fumaça, a motivação central é econômica.
“Com o fascismo se pode jogar de muitas maneiras, sem que se mude o nome do jogo.” – Umberto Eco.
No primeiro turno, eles fizeram maioria no Parlamento, pelo voto livre do povo brasileiro, como disse ontem o reeleito Arthur Lira, Presidente da Câmara Federal.
O segundo turno é uma nova eleição. Não precisa ser cientista político para compreender a marcha dos governadores.
O combate ao sistema de fake news com argumentos e demonstrações racionais é ineficaz. O “terraplanismo” viraliza facilmente, ao contrário da extinta verdade.
Com o fim da verdade, tudo é possível, tudo é respeitável, tudo é verossímil.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
A EPIDEMIA DOS ESQUECIDOS
A Epidemia de Esquecidos.
(por Antonio Samarone)
Perguntei a um filho, pelo professor Alípio, em foi sucinto: “o velho não regula mais, perdeu a memória, está com Alzheimer avançado.”
Alípio foi o cirurgião mais talentoso de sua época, um professor adorado por sua didática, educação e bom humor. Fora da sala de aula, o Dr. Alípio não dava um bom-dia, sempre de cara amarrada. Na sala, era um homem show, um espetáculo. A sala de aula era o seu palco.
Não fiquei satisfeito com a resposta do filho e insisti: sim, além do Alzheimer, como anda a vida do velho? Ele foi grosseiro: “o meu pai não existe mais. Nem morreu, nem está vivo. Acabou!
A memória sobre o brilhante professor, acabou com o fim da sua memória biográfica. Nem o Dr. Alípio se reconhece, nem a sociedade o reconhece. Literalmente, um vivo/morto.
O Alzheimer é uma doença neurodegenerativa progressiva que provoca demência. Por razões óbvias, a perda da memória apressa a perda de autonomia. A sociedade é cruel com quem não produz.
A medicina reconhece outras patologias que levam a perda da função cognitiva e da memória. As demências Vascular; por Corpos de Lewy; pela Doença de Parkinson; a Fronto temporal; a de Huntington; a Alcoólica; de Creutzfeldt-Jakob e, mais recentemente, as sequelas da Covid-19.
Entretanto, o Alzheimer, por ser a mais frequente, virou a doença símbolo das demências.
Eu comecei com um esquecimento seletivo. Encontro com pessoas conhecidas, sei quem é, lembro-me dos detalhes do fulano, só não me lembro do nome. É um constrangimento. E quando se trata daqueles chatos que perguntam: “Tá lembrado de mim?” Aí o constrangimento aumenta.
A acho que a saída é as pessoas andarem com o seu “CR Code” à mostra, para que possamos identificá-los com o celular.
Voltando ao professor Alípio, hoje não se fala mais nele, foi esquecido ainda vivo.
Em minha infância, a caduquice não levava ao esquecimento, pelo contrário, era como se o velho voltasse a ser criança, para que o fardo da velhice se tornasse mais leve. E assim era visto.
O Seu Pepita de Dona Bobina, foi o caduco padrão de minha infância. A cidade o respeitava, com uma observação sagrada: “o seu Pepita está caducando, ninguém mexe com ele.”
Eu achava a caduquice a antessala do paraíso, uma preparação para a eternidade. Uma forma serena de desapego com vida.
O caduceu era uma insígnia de autoridade, o bastão dos deuses, o cajado dos pastores, a varinha das fadas e o condão de Asclépio.
A velhice chegava com o “arrastar os pés e o tremer das mãos”. Os velhos eram poucos, mas divinamente rabugentos, cheios de razões e de verdades. Os velhos metiam medo: “o velho pega!”, me advertia mamãe. Era um preconceito respeitoso. Só a caduquice as abrandava.
Hoje não se presta a atenção aos velhos. Eu passei a vida esperando a hora da rabugice, tenho contas a acertar! Mas estamos na Era do esquecimento. Os velhos não contam mais, foram transformados em idosos, uma forma domesticada de velhice.
Hoje todos tem razão e a verdade foi extinta.
Rabugice Já!
Antonio Samarone (médico sanitarista)