terça-feira, 24 de novembro de 2020

LEI DE MURICI


Lei de Murici
(por Antonio Samarone)

“Em tempos de murici, cada um cuida de si”. Salve-se quem puder. Se cada cidadão tratar da sua vida, é quase certo que irá sobreviver. A sobrevivência alheia é assunto alheio.

Esse é o espírito da famosa Lei de Murici.

“Em tempos de murici”, qual a origem dessa assertiva? O que seria o murici? A Byrsonima crassifólia, pequena fruta do litoral nordestino, já descrita por Gabriel Soares de Souza, no século XVI? Creio que não.

Conta-se que após a morte do sanguinário Coronel Moreira César, o “Corta Cabeças”, na terceira expedição de Canudos, o seu sucessor no comando das tropas, o Coronel Pedro Nunes Tamarindo, declinou do comando e desertou, pronunciando a celebre frase: “Em tempos de murici, cada um cuide de si.”

Moreira César chegou a Canudos com a fama de crueldade. Na Ilha do Desterro, atual Florianópolis, ele determinou a enforcamento dos prisioneiros da Revolta Federalista (1893 – 1895), na Fortaleza de Anhatomirim.

A origem da Lei de Murici vem de longe.

Segundo o intelectual sergipano João Ribeiro, murici deriva de morexi ou murixy, nome asiático do Chorela-morbus, e muito usado na Índia. Murixy era o antigo nome do Cólera.

Em tempos de murixy, era em tempos do Cólera.

“O terror dos tempos do murixy se espalhou pelo mundo. A epidemia do murixy explica a origem da expressão “em tempo de murici”, bem melhor que a inofensiva frutinha de murici.”

Em Canudos, onde o apavorado Coronel Tamarindo bradou a citada sentença, o clima era de medo e pavor, semelhante aos momentos de Pestes.

“El amor en los tiempos del cólera” é título de um famoso romance de Gabriel Garcia Marques.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

JOÃO ALVES FILHO


João Alves Filho
(por Antonio Samarone)

Relendo a história política de Sergipe, dos últimos duzentos anos (1820 – 2020), poucos são os líderes que deixaram marcas duradouras.

Quais foram os estadistas, os que governaram para o futuro e saíram da mediocridade?

Quantos merecem uma biografia, sem precisar encomendar?

Correndo o risco de deixar alguém de fora, pela pressa, identifiquei apenas seis grandes líderes políticos em Sergipe: Sebastião Gaspar de Almeida Boto (o primeiro), João Gomes de Melo (Barão de Maruim), Olímpio Campos, Augusto Maynard, Leandro Maciel e João Alves Filho.

Cada um a seu modo e ao seu tempo!

O engenheiro João Alves Filho ingressou na política, nomeado Prefeito de Aracaju (1975 – 1979), pelo Governador José Leite. João Alves rompeu as cercas provincianas do Aracaju, preparando a cidade para a explosão imobiliária. Aracaju ganhou ares de Capital.

Fruto do trabalho realizado em Aracaju João Alves chegou ao Governo de Sergipe em 1982, com 76% dos votos. Uma novidade: eleições diretas depois da longa noite da ditadura.

A dança das oligarquias dos senhores de engenho, sofreu uma inflexão. Um empresário urbano, sem origem familiar na nobreza sergipana, chegou ao poder, pelas vias democráticas.

João Alves Filho governou Sergipe por três vezes, foi Prefeito do Aracaju por duas (uma nomeada e outra eleita) e Ministro do Interior no Governo Sarney.

Independente das discordâncias ideológicas e políticas, da convicção socialista, dos meus princípios e crenças de esquerda, prezo pela honestidade intelectual: João Alves Filho foi o maior nome da política sergipana no final do Século XX.

Nunca votei, nem apoiei João Alves. Nunca prestei serviços aos seus governos. Nunca gozei da sua amizade, nada disso, o meu registro é isento de paixões.

Numa análise objetiva, João Alves acertou bem mais do que errou, em suas passagens pelo Poder em Sergipe.

Quem quiser tirar Sergipe desse atoleiro dos últimos anos, precisa respeitar a memória de João Alves Filho. Um liberal conservador que colocou o Estado à serviço do desenvolvimento.

A infraestrutura de estradas, água, saúde, cultura, educação, turismo, agricultura em Sergipe possuem a marca dos Governos de João Alves Filho.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

sábado, 21 de novembro de 2020

TIPOS SERGIPANOS - CHUMBREGA


Tipos Sergipanos - Chumbrega
(por Antonio Samarone)

Wellington da Graça, filho do Cabo João, nascido e criado no Beco Novo. Abandonou a escola com o primário incompleto. Aprendeu a ler, escrever e contar. Foi o bastante para passar a vida sem registrar um dia de serviço. Nunca trabalhou.

Passou a vida nas esquinas, bares e cafuas. Cerebrino nos jogos de azar. Imbatível na sinuca, no baralho e no pio. Para não faltar com a verdade, era apontador do bolo esportivo. Passou a vida entre a esquina da Prefeitura e o bar Brasília. (Foto)

Nunca souberam o que ele pensava, ou se pensava, pois falava pouco. Tanto pode ter sido um gênio como um apoucado. Sabe-se apenas que ele nunca teve nem amigos nem inimigos. Vivia ali, numa indiferença sepulcral.

Wellington da Graça era avesso aos banhos, mas andava perfumado e de sapato e meia. Mal formado de feições, pobre, esquisito, morreu borboletão.

A molecada não perdoava, ele logo ganhou o primoroso apelido de Chumbrega.

Chumbrega não acreditava em virtudes, nem em boas intenções. Era um niilista primitivo, ainda na casca. Cultuava uma vaidade imperial!

Segundo Alberto de Carvalho, Chumbrega foi uma contra homenagem ao Conde de Schomberg, elegante nobre português da época da Restauração (Sec. XVII).

Jeronimo de Mendonça, Governador da Província de Pernambuco, era conhecido como Chumberga. O personagem de Itabaiana era Chumbrega.

Chumbrega não possuía nem rendas nem patrimônio. Vivia de favores. Ele cobrava gorjeta pela existência. Como era pacífico e não roubava, passou a ser tolerado nas rodas dos bem nascido de Itabaiana.

Chumbrega ganhou a fama de nunca ter feito um favor. Vivia de favores, sem reciprocidade. Ninguém contasse com ele para nada.

Próximo a Prefeitura morava Alemãozinho, um comerciante prospero de Itabaiana. Alemãozinho sempre foi mão aberta com Chumbrega, nunca lhe negou uma ajuda.

Num certo domingo, logo cedo, Alemãozinho foi buscar a Rural para ir à Fazenda. O carro não pegou, precisava de um empurrãozinho. Pela hora, tinha pouca gente na rua. Alemãozinho lembrou de Chumbrega, sempre ali, na esquina da Prefeitura.

“Chumbrega, faça-me um favor, ajude-me aqui a empurrar o meu carro”, disse Alemãozinho.

Chumbrega respondeu de pronto: “Jamais! Você não pode me pedir uma coisa dessa!”

“Como assim?” - reagiu Alemãozinho. “Você passou a vida me pedindo favores e quando eu preciso de uma bobagem, você nega!”

Chumbrega, indiferente, continuou: “Não tenho lembrança de ter lhe pedido para empurrar o meu carro.”

Alemãozinho teve que se virar sozinho.

Chumbrega faleceu deixando uma marca: nunca fez nem o bem nem o mal. Saldo zero!

Não se sabe se na hora do juízo final, do acerto de contas, ele fora salvo ou condenado.

Eu não arrisco!

Antonio Samarone (médico sanitarista).


 

A MORTE DAS ABELHAS E MANGÁNGAS


A Morte das Abelhas e dos Mangangás...
(por Antonio Samarone)

Com o fim do Estado Novo (1945), implantou-se em Itabaiana um modelo de dominação política dicotômica, de certa forma herdado das disputas Pebas X Cabaús da República Velha (1989 – 1930).

Esse modelo perdurou em Itabaiana até a eleição de 2020.

Essa forma de se fazer política durou 75 anos em Itabaiana. Ficou abalada com última a eleição. Nesse modelo, os que ganhavam estavam de cima e os que perdiam ficavam de baixo, não havia meio termo. A fidelidade do eleitorado era passada de pai para filhos.

Em Itabaiana, com a redemocratização de 1945, dois grupos políticos ligados ao PSD e a UDN se enfrentavam. O primeiro liderado por Manoel Teles e o segundo por Euclides Paes Mendonça. Criaram eleitores apaixonados, fanáticos, que matavam e morriam por seus líderes.

Os seguidores da PSD eram chamados “Rabos Brancos” e os da UDN “Caras Pretas”. Desconheço a origem.

A paixão política estremada do eleitorado era conveniente para os dois chefes, pois evitavam alternativas de votos. No fundo, eles disputavam o domínio do comércio atacadista da cidade.

Depois da construção da BR – 235, Itabaiana se transformou no centro comercial de Sergipe.

Essa rivalidade foi a regra em Itabaiana por quase um século.

Depois, a mesma disputa foi comandada por Chico de Miguel (herdeiro da UDN) e Luciano Bispo (herdeiro do PSD).

Os seguidores de Chico de Miguel eram denominados de “Abelhas” e os de Luciano Bispo de "Mangangás".

Há oito anos, Valmir de Francisquinho, uma dissidência do grupo de Chico de Miguel, chegou à Prefeitura de Itabaiana. Implantou uma forma diferente de se fazer política. Tratou o eleitorado sem distinção da paixão política, enfrentou os conflitos com o diálogo, modernizou a gestão pública, valorizou a educação e cuidou da cidade.

Deu certo: Valmir de Francisquinho se tornou um bom Prefeito.

Tanto os eleitores de Chico de Miguel como os de Luciano Bispo diziam privadamente: “temos que reconhecer, Valmir é um bom Gestor.”

Nessa eleição de 2020, Walmir derrotou Luciano Bispo pele terceira vez e o grupo de Chico de Miguel pela segunda, com uma vantagem esmagadora.

Nem Luciano Bispo nem o grupo de Chico de Miguel deixam herdeiros políticos. A velha disputa termina com a derrota dos dois grupos. É o fim de uma longa Era.

Claro, os atuais deputados estaduais Luciano Bispo e Maria Mendonça podem se reeleger deputados. Apenas, não serão mais polos da disputa política em Itabaiana.

A oposição em Itabaiana está vaga.

Valmir de Francisquinho conquistou a hegemonia inconteste da política em Itabaiana e derrotou inapelavelmente a oposição. Os dois grupos foram dizimados politicamente.

Uma nova oposição em Itabaiana vai ser construída. Como em política não existe vácuos, já começou a movimentação dos interessados.

Quem será a nova oposição em Itabaiana?

Enxergo três possibilidades: 1. Os derrotados dos dois grupos, arrumam-se em torno de outro líder, criando um grupo novo; 2. O candidato derrotado, Edson Passos, um empresário endinheirado da construção civil, cria um grupo político; 3. Políticos do grupo de Valmir, engrossam o pescoço e criam uma dissidência.

Dado as características socioeconômicas de Itabaiana, tradição política, base cultural, dificilmente surgirão lideranças fora desse quadro político acima traçado.

De todo jeito ocorreu uma mudança: a disputa política não retornará ao modelo Pebas X Cabaús da República Velha.

Antonio Samarone (Dos ferreiros da Itabaiana)