sábado, 5 de março de 2016

HOSPITAL SANTA IZABEL (PARTE UM)

Hospital de Santa Isabel.

 Antonio Samarone de Santana.

Após a grande epidemia de cólera em Sergipe (1855), com mais de trinta mil óbitos em três meses, o Presidente da Província, Salvador Correia de Sá, manda edificar um Hospital de Caridade em Aracaju, que acabava de assumir a condição de capital do Estado. A resolução número 467, de 13 de março de 1857, determina a edificação de um hospital de caridade, em local apropriado. Entretanto, essa idéia não saiu do papel. Outra resolução, a de número 498, de 24 de maio de 1858, autorizava o Governo a estabelecer na capital, um hospital de caridade, de nome “Hospital Nossa Senhora da Conceição” (o atual “Santa Isabel”). Em 26 de maio de 1858, finalmente, foram encomendados ao Major Engenheiro Sebastião José Bazilio Pyrrilio, a confecção da planta e o orçamento da obra.

Desde 20 de julho de 1858, ao Dr. Francisco Sabino Coelho Sampaio, já nomeado médico do futuro hospital, é dado à incumbência de emitir parecer sobre a referida planta[1]. O hospital só funcionará a partir de 1862.

O Presidente da Província nesse período, Dr. João Dabney D’Avellar Brotero, preocupado para que os custos do futuro hospital não viessem recair exclusivamente sobre os cofres públicos, tentou, sem sucesso, criar uma Santa Casa de Misericórdia para administrar o futuro hospital. Foi criada uma comissão composta pelo chefe de polícia, Ângelo Francisco Ramos, pelo cônego vigário geral, Ignácio Antonio da Costa Lobo, pelos tenentes-coronéis Félix Barreto de Vasconcelos e Antonio Carneiro de Menezes e pelo Dr. Francisco Sabino Coelho Sampaio visando a arrecadar fundos para a futura instituição.

“Parece-me que um estabelecimento tão piedoso e filantrópico jamais devia ficar exposto à condição de uma duração efêmera; que essas comissões obsequiosas nomeadas pelo Governo raras vezes prestam-se ao cabal desempenho de seus misteres; que um hospital assim constituído teria de exclusivamente pesar sobre os Cofres da Província, quando por ventura não fosse suprimido por qualquer eventualidade, ocorreu-me que lhes dada uma existência mais vital e duradoura revestindo sua administração de um caráter e prestígio religioso, e que por isso a criação nesta Capital de uma Santa Casa de Misericórdia, a cargo de cuja mesa administrativa viesse a ficar o dito hospital, preencheria mais normalmente os fins a que se o destina; ao mesmo tempo em que esta com maior solicitude e rigoroso dever promoveria os meios de mantê-lo, e torná-lo estável, além da incontestável vantagem de conservar-se uma instituição de tal categoria, e cuja base é a prática dos salutares princípios de caridade, em uma Capital recente, onde sequer não exige uma só Corporação Religiosa.” [2]

A empreitada para organizar uma Santa Casa em Aracaju foi um fracasso. A filantropia social já estava em declínio na Província de Sergipe em meados do século XIX. Mesmo assim, para a construção do hospital, o Governo pede ajuda aos proprietários e capitalistas da província, conforme atesta o ofício circular, datado de 04 de julho de 1861. Não encontramos referências quanto ao possível valor arrecadado. Na realidade, o hospital foi construído praticamente com recursos públicos. Sobre os gastos do Tesouro com a construção do hospital “Nossa Senhora da Conceição”, assim se pronuncia o Presidente da Província, Dr. Thomaz Alves Júnior:

“Esta obra contratada com Joaquim José Alves Guimarães está concluída. Além dos 7:000$000, valor do contrato, despendeu-se mais com a pintura —316:500 — com o aterro de um grande buraco — 390:000 — e com o cercado do quintal se deve despender 200:000.”[3]

O Hospital “Nossa Senhora da Conceição” (atual Santa Isabel), começou a funcionar na Rua Aurora (atual Rua da Frente), no trecho em entre as ruas de Estância e Maroim, em 16 de fevereiro de 1862, no governo do Presidente Joaquim Jacinto Mendonça.

Após muita discussão, o hospital foi entregue para ser administrado a uma comissão nomeada pelo Governo da Província, de acordo com o “Regulamento” aprovado em 10 de fevereiro de 1862. Para sua manutenção, o Presidente entregou as rendas do recém-construído cemitério de “Nossa Senhora da Conceição” (atual cemitério Santa Isabel), que começou a funcionar em 27/02/1862. A Comissão Administrativa, sua composição e competência foram definidas pelo Regulamento[4] do Hospital.

“Esta comissão, da qual será tesoureiro nato o tesoureiro provincial, será composta deste e de mais seis cidadãos probos e conceituados dentre os quais designará o Governo um para Diretor e outro para Secretário.”[5]

Houve muita polêmica quanto a quem deveria ser entregue a administração do novo hospital, pois havia setores que defendiam que a saída não seria a criação de uma Santa Casa de Misericórdia, houve uma tentativa frustrada; más entregar o hospital a uma instituição religiosa já existente, como a “Irmandade do Santíssimo Sacramento”, o que também não deu certo. Como vimos, o hospital findou sendo entregue a uma comissão nomeada pelo Governo e funcionando quase como uma “Repartição Pública”. O hospital era visto como uma instituição que revelava o espírito de caridade dos homens e o seu estado civilizatório.

A construção do cemitério “Nossa Senhora da Conceição” (atual Santa Isabel), que será uma das fontes de renda para o hospital, só foi possível graças a recursos enviados pelo Imperador Pedro II e pela colaboração da “Sociedade de São José dos Artistas”, que ofereceu vinte oficiais pedreiros com os respectivos serventes, para que trabalhassem gratuitamente até o final das obras.

Também para a manutenção do Hospital, o Barão de Maruim (João Gomes de Melo) doou um terreno na rua da feira, para que a administração do hospital construísse uma “casa de mercado”, que passaria a ser mais uma alternativa de renda para o Hospital. O primeiro mercado de Aracaju pertenceu ao Hospital Santa Isabel.

O Presidente Joaquim Jacinto de Mendonça (1862) nomeia para dirigir o hospital “uma comissão composta de sete cidadãos prestantes e zelosos, cuja dedicação e caridade são proverbiais”[6], assim constituída: Presidente, Dr. Joaquim José de Oliveira; Secretário, Tenente Coronel Manoel Diniz Vilas-Boas; Tesoureiro, Major João Manoel de Souza Pinto, e mais, o Tenente Coronel Antonio Carneiro de Menezes, o Capitão Antonio Rodrigues das Cotias, o Capitão José Pinto da Cruz e o Alferes Antonio José Pereira Guimarães. Foi essa a primeira diretoria do atual Hospital “Santa Isabel”.

No seu primeiro ano de funcionamento, o Hospital de Caridade de Aracaju atendeu 442 pacientes, sendo as enfermidades sifilíticas, as afecções do peito e as sezões traumáticas as moléstias mais freqüentes. O Hospital contava com três enfermarias: São Roque, Santa Isabel e São Sebastião (militar), e possuía em torno de 60 leitos. O médico do Hospital, Dr. Francisco Sabino Coelho Sampaio, que também exercia as funções de cirurgião, cedeu cinco meses dos seus vencimentos para ajudar o funcionamento do hospital.




[1] Relatório com que foi entregue à administração da Província de Sergipe, no dia 07 de março de 1858, ao Dr. Manoel da Cunha Galvão pelo Dr. João Dabney D’Avellar Brotero.
[2] Relatório do Presidente da Província, Dr. João Dabney D’Avelar Brotero, em 07 de março de 1859, ao passar o Governo ao Dr. Manoel da Cunha Galvão.
[3] Relatório apresentado à Assembléia Provincial, em 04 de março de 1861, pelo Presidente da Província, Dr. Thomaz Alves Júnior.
[4] Regulamento aprovado pelo Presidente da Província, Joaquim Jacinto Mendonça, em 10 de fevereiro de 1862, de acordo com o previsto no artigo 4o, da Resolução Provincial n.º 498, de 24 de maio de 1858.
[5] Artigo 2o do Regulamento do Hospital Nossa Senhora da Conceição.
[6] Relatório do Presidente, Joaquim Jacinto de Mendonça, em março de 1863.

terça-feira, 1 de março de 2016

MEDICINA PRIVADA EM SERGIPE


Medina Privada em Sergipe

Antonio Samarone de Santana.

No Brasil, a saúde representa 9,5% do PIB, constituindo-se num relevante setor da economia de mercado. Desta fatia, os recursos públicos (União, Estados e Munícipios) representam 45% e os recursos privados 55%. As operadoras de planos de saúde cobrem 25% da população; e o Sistema Único de Saúde 75%. Em 2014, as operadoras de planos de saúde tiveram um faturamento de 117 bilhões. O fato é que a medicina privada, que por lei seria suplementar, há muito se tornou hegemônica, ditando seu modelo assistencial, sua lógica e os seus objetivos.
Em Sergipe, a medicina comercial ocupa uma fatia menor do mercado. Em 2015, de uma população estimada em 2,2 milhões de habitantes, apenas 316 mil possuíam a cobertura de um plano de saúde (dado de set. 2015); ou seja, menos de 15%. Os demais, 1,9 milhões (85%) são atendidos pelo IPES (137 mil), Sistema Único de Saúde (SUS) e pelos 210 médicos cubanos (Mais Médicos). Como se percebe, toda a rede de clínicas, laboratórios e hospitais privados; concentrados nas imediações do Bairro São José, destinam-se ao atendimento de 15% da população de Sergipe.
Mesmo assim, a maioria desses 316 mil sergipanos possui os chamados planos de saúde mais simples, de cobertura limitada. Desses, 88 mil - UNIMED, 71 mil – Hapvida, 26 mil - Plamed, 19 mil - Bradesco Seguro, Petrobrás – 16 mil, Banco do Brasil – 13 mil, GEAP – 13 mil e a Amil – 2,9 mil. É para essa fatia da população que está montada a rede privada de saúde. A compra direta de procedimentos está restrita a meia dúzia de ricos, que mesmo assim, quando são acometidos de uma doença mais grave, procura o atendimento em São Paulo.
A venda de procedimentos aos SUS, sobretudo os de alta complexidade, ainda representa uma significativa parcela do faturamento de alguns serviços comerciais. Dos 316 mil de sergipanos, clientes da medicina privada, consumidores de procedimentos médicos, 230 mil residem em Aracaju, onde se concentram os serviços. 

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

MEMÓRIAS DA LOUCURA EM SERGIPE



Doença Mental.

Antonio Samarone de Santana
Academia Sergipana de Medicina.

O Jornal Correio de Aracaju, edição de 23 de fevereiro de 1943, divulgou com grande ênfase uma carta aberta do Dr. Garcia Moreno (foto), Diretor da Colônia de Psicopatas, anunciando importantes incorporações tecnológicas da psiquiatria sergipana. Observem os termos mais esclarecedores da missiva:
“Comunico que desde outubro de 1942 o nosso Hospital Colônia de Psicopatas inclui em seus trabalhos rotineiro, ao lado da aplicação mais antiga dos métodos de Sakel e Meduna (insulina e cardiazol), a convulsoterapia de Cerletti e Bini”.
“Possuímos um aparelho de eletrochoque terapia fabricado pela Offener Electronies, dos Estados Unidos, do tipo mais moderno e portador das mais recentes inovações técnicas, de notáveis vantagens práticas (máquina de curar louco). Custou ao Governo Estado perto de treze mil cruzeiros e chegou a Aracaju por via aérea, o aparelho pesa menos de oito quilos”.
“Quase quarenta pacientes já foram, entre nós, submetido ao método de Cerletti, num total de crises convulsivas que andam perto de novecentas”.
A convulsoterapia elétrica era apontada como um grande avanço para psiquiatria pelas seguintes vantagens: baixo custo; rapidez na aplicação; e substituir a convulsoterapia cardiozóliza, muito temida pelos pacientes devido à elevada freqüência de fratura de costelas.
Continua Dr. Garcia Moreno em sua carta:
“Aqui, como em outras partes, duas a três aplicações semanais de uma corrente elétrica de 450 miliampere, durante 0,2 segundos através do cérebro, tem em pouco mais de um mês reconduzido a vida psíquica normal homens e mulheres”.

“Como se vê, a psiquiatria não é mais uma especialidade médica de literatos e filósofos. Não na medicina moderna, afora a cirurgia, setor de maiores ousadias técnicas. Como se vê, o doente mental encontra hoje recursos terapêuticos tão eficientes quanto os que beneficiam as demais especialidades médicas”.
Entre 1917 e 1935, quatro métodos para produzir choque fisiológico nos psicopatas foram descobertos, testados e usados na prática psiquiátrica, todos no continente europeu: Febre induzida por malária, para tratar paresia neurosifilítica, descoberta em Viena por Julius Wagner-Jauregg, em 1917; Coma e convulsões induzidas por insulina, para tratar esquizofrenia, descoberta em Berlim por Manfred Joshua Sakel, em 1927; Convulsões induzidas por metrazol, para tratar esquizofrenia e psicoses afetivas, descoberta em Budapest por Ladislaus von Meduna, em 1934, e Terapia por choque eletroconvulsivo, descoberta por Ugo Cerletti e Lucio Bini em Roma, 1937.
A narcose, sono prolongado por cerca de dez dias induzido por drogas como hidrato de cloral, paraldeído e barbitúricos, foi um método terapêutico introduzido pelo psiquiatra suíço Jakob Klaesi, em 1922.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

POR QUE O MOSQUITO CONTINUA GANHANDO A GUERRA?

Por que o Aedes aegypti continua ganhando a guerra?

ANTONIO SAMARONE DE SANTANA.
ACADEMIA SERGIPANA DE MEDICINA.

A estratégia do Ministério da Saúde no combate ao mosquito não vem dando certo há 30 anos, desde a primeira epidemia de dengue em 1986. O governo insiste. Trata-se do esforço em matar o mosquito, seja com inseticida e larvicida, ou com a eliminação dos pequenos criadouros domésticos. Para isso, resolveu usar o exército, numa visível jogada de marketing; e realizar “mutirões” de convencimento, visando sensibilizar a sociedade, para que todos se engajem nessa missão. O slogan da estratégia é “um mosquito não é mais forte que um país inteiro”.
A novidade do “mata mosquito” são os recursos tecnológicos: esterilizar os mosquitos com radiações, lançar mosquitos transgênicos no meio ambiente ou mosquitos contaminados com a bactéria wolbachia, tudo dentro da lógica de eliminação por concorrência do mosquito selvagem. Tudo feito às pressas, sem uma consistente avaliação das consequências. Contudo, nem mesmo dentro dessa estratégia limitada, as ações da saúde pública têm sido permanentes e efetivas. O “mata mosquito” com a tímida participação dos agentes de saúde é um faz-de-conta.
No caso de Aracaju, nem a estratégia limitada está funcionando, o descaso é exagerado. O munícipio dispõe de 900 agentes de saúde, que se devidamente mobilizados, dariam uma grande contribuição; possui recursos para a eliminação dos grandes criadouros; e tem se limitado a rotina dos agentes de endemias. A ação do Estado tem sido mais intensa em vários municípios, inclusive na capital.
O que os pesquisadores da Saúde Pública, congregados na ABRASCO, têm insistido é na eliminação dos grandes criadouros, nas ações de saneamento ambiental, coleta do lixo, fornecimento permanente de água potável; somado a ações permanentes de saúde pública. O atual ecossistema urbano é favorável ao mosquito, onde ele se encontra no topo da cadeia alimentar. Mesmo com a provável descoberta de vacinas, como foi o caso da febre amarela e dengue, o risco de novas epidemias por outros vírus selvagens continua.

O mais perverso, é que nos próximos meses a tríplice epidemia vai arrefecer, devido ao inverno, como vem ocorrendo há décadas; e os méritos serão atribuídos às ações de marketing do Ministério da Saúde.   

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

SENHORA PRESIDENTA, O EXÉRCITO É OUTRO...



Senhora Presidenta, o Exército é outro...

Diante da repercussão internacional da tríplice epidemia (Zica, Dengue e chikungunya), e em especial da explosão dos casos de microcefalia; a Senhora resolveu organizar “um dia” (13) de esforço nacional para o combate ao mosquito. A estratégia escolhida foi a mobilização das Forças Armadas, acompanhado de uma ampla campanha de marketing. A intenção foi boa.
Mesmo considerando que a presença dos mosquitos decorre sobretudo da falta de saneamento ambiental, é consenso, que ação do poder público eliminando os criadouros domiciliares e peridomiciliares, em parceria com a população, reduz a infestação dos mosquitos, e pode interromper a transmissão das doenças.  
Em dezembro de 2015, o Sistema Único de Saúde (SUS) possuía 332.289 agentes comunitários de saúde credenciados pelo Ministério da Saúde, presentes em 5.504 municípios; profissionais que residem nas comunidades onde atuam, conhecem as pessoas, as vilas e veredas, já visitaram cada casa dezenas de vezes, são experientes; esses agentes estão vinculados a 48.391 equipes de Saúde da Família; compostas por médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem, e que já cadastraram e visitaram a imensa maioria dos domicílios. Essa é a rede básica do SUS.
Senhora Presidenta, esse é Exército da Saúde pública. Qualquer estratégia para dar certo precisa centrar o combate ao mosquito nesses profissionais. A Senhora poderia organizar uma Força Sanitária Nacional, com esses agentes, centralizar o comando, com a missão prioritária de visitar todas as casas, permanentemente, e fazer uma varredura rigorosa dos criadouros do mosquito. Estamos diante de uma emergência. Claro que a ajuda das forças armadas, das igrejas, das escolas, dos sindicatos, das entidades empresariais, e de que mais quiser ajudar, será muito importante. Mas a base da ação não pode deixar de ser o SUS.

Só mais um pedido, a tarefa é reduzir o número de criadouros, suspenda imediatamente o envenenamento do meio ambiente e das pessoas, com o uso abusivo de inseticidas (fumacês) e larvicidas, já condenado por especialistas da ABRASCO. A experiência com o uso dos organoclorados (DDT, BHC, etc.) foi desastrosa para a saúde pública. 

Antonio Samarone - médico sanitarista.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A GRIPE ESPANHOLA EM SERGIPE (1918)


Antonio Samarone de Santana.
Academia Sergipana de Medicina.

A gripe ou influenza é uma doença infecciosa, geralmente benigna, provocada por vírus e transmitida por contato direto. Algumas vezes, em decorrência de mutações genéticas do vírus, pode transformar-se em doença fatal. A causa da gripe foi inicialmente atribuída a um bacilo, isolado em 1891, pelo médico alemão Richard Pfeiffer. Somente em 1933 o vírus da doença é identificado por cientistas britânicos, abrindo a possibilidade de elaboração de vacinas contra a gripe.
Em 1918, uma epidemia de gripe originada na Espanha se generalizou pela Europa, então marcada pelos efeitos da I Guerra Mundial, e de lá se propagou para a Ásia e o continente americano, tornando-se uma pandemia. As estimativas apontaram cerca de vinte milhões de mortos entre os seiscentos milhões de infectados em todo o mundo.
A gripe espanhola chegou ao Brasil a bordo do navio S. S. Demerara, que em 21 de setembro aportou no Recife proveniente do porto de Dacar, na África, a epidemia se espalhou, em poucas semanas, pelas principais cidades do país.
Em Sergipe, a gripe espanhola chegou em 20 de outubro de 1918, quando seis pessoas contaminadas pelo referido mal desembarcam do “Vapor Itapacy”. Logo que a informação chegou ao conhecimento do Diretor de Higiene, essas pessoas foram removidas para o Lazareto Público, mas já era tarde. Em 04 de novembro, o mal já havia se espalhado pelo Estado, sendo a primeira vítima fatal Georgina de Jesus, negra de 25 anos e residente à Rua de Campos, em Aracaju[i].
O Governo tomou todas as providências que a sua estrutura permitia: criou um “Serviço de Combate à Gripe Espanhola” e entregou a coordenação ao Dr. Eronides de Carvalho. Convocou, para fazer parte do serviço, todo o pessoal médico ligado aos serviços públicos, ou seja, os Drs. Octaviano Melo, Diretor de Higiene; Pimentel Franco, Diretor da Assistência Pública; Carlos Menezes, Diretor do Gabinete de Identificação e Estatística e Médico legista da Policia; Álvaro Telles de Menezes, médico da Prefeitura e Alexandre Freire, Diretor do grupo Escolar “General Valladão”. Além do seu pessoal, comissionou os Drs. José Francisco da Silva Melo, médico, e Durval Madureira Freire, João Alfredo de Marsillac Motta, José Alves Tavares e Pedro Garcia Moreno, farmacêuticos, e Francisco Accioly Sobral, cirurgião-dentista[ii].
O Presidente recorreu à Assembléia Legislativa pedindo liberação de recursos para enfrentar o problema. Em 08 de novembro, a lei n.º 765 abriu créditos especiais de 10 contos de réis para o combate à epidemia e, poucos dias após, em 16 de novembro, a gravidade e velocidade de expansão da doença obrigou a aprovação de uma nova lei, a de n.º 766, abrindo créditos de cem contos de réis para o mesmo fim. A previsão orçamentária do Estado para o ano de 1918, destinava à rubrica Higiene e Saúde Pública pouco mais de 33 contos de réis[iii].
Diante das deficiências do Poder Público para enfrentar a epidemia, a sociedade reagiu de forma inusitada: pela primeira vez, em Sergipe, a população se mobilizou para enfrentar um problema de saúde pública. Entidades, empresas, clero, instituições beneficentes movimentaram recursos e pessoas para enfrentar a epidemia. A loja Maçônica “Cotinguiba” assumiu a responsabilidade pela assistência da área que ia da Rua Barão de Maruim até a localidade denominada “carro quebrado”. A Maçonaria entregou a coordenação dos trabalhos ao professor José de Alencar Cardoso, e contratou o Dr. Berílio Leite para realizar os trabalhos clínicos. 885 doentes foram atendidos pela loja maçônica, com 19 óbitos.
Importante também foi à participação da Associação Comercial, responsável pelas ruas Divina Pastora, Bonfim, Socorro, Vitória, Desaperta, Topo e Ignácio de Loyola. A entidade comercial contratou os serviços clínicos do Dr. Álvaro Teles de Menezes e atendeu a um total de 795 doentes. O Posto de Santo Antônio atendeu 1.200 doentes e ficou sob a responsabilidade do padre Abílio Mendes, de Garcia Rosa e Silvério Fontes e os serviços clínicos entregues à farmacêutica Cesartina Regis. Participaram também no combate à epidemia a Cruz Vermelha (320 doentes), Hospital Santa Isabel (50 doentes), quartel do 41.º Batalhão de Caçadores (352 doentes), fábrica Confiança (382 doentes), fábrica Sergipe Industrial (763 doentes), Escola de Aprendizes de Marinheiros (72 doentes), quartel de polícia (77 doentes), cadeia pública (83 doentes), Compagnie des Chemins de Fer (123 doentes) e Lazareto Público (32 doentes).
O atendimento consistia, basicamente, na distribuição de medicamentos entre a população indigente, distribuição de alimentos ou dinheiro, desinfecção das casas onde ocorriam óbitos e na remoção dos cadáveres. O tratamento usado para enfrentar a gripe era um purgativo, óleo de rícino ou água laxativa vienense, um antitérmico, cápsula de aspirina, pyramidon ou antipyrina, e um xarope de alcatrão. Para desinfetar as casas usava-se creolina, alcatrão e gás sulfuroso, como também se queimavam alcatrão nas ruas e praças.
“Em noite de 03 de dezembro de 1918, ordenei que se queimasse alcatrão nas praças Tobias Barreto e na do mercado, bem como nas ruas de Estância, Laranjeiras, São Cristóvão, Tôpo, São José, Estrada Nova, Alecrim, Geru, Divina Pastora, Bonfim, Victória e São João.”[iv]
Como demonstração da importância do atendimento prestado pela sociedade civil em Aracaju durante a epidemia, a Diretoria de Higiene, ou seja, o Poder Público, atendeu 2.790 doentes, enquanto as organizações não governamentais atenderam 4.488, ou seja, quase o dobro do Estado.
Durante os três meses que a pandemia assolou Sergipe. O número de casos registrados e o número de óbitos da epidemia de gripe espanhola, segundo o relatório de 1919, do Presidente Pereira Lobo, foram de 25.910 casos, com 997 óbitos em todo o Estado; sendo que somente em Aracaju aconteceram 7.974 casos, com 229 óbitos.
Esses dados foram contestados, inclusive pelo próprio chefe do combate, Dr. Eronides de Carvalho, que afirmava em seu relatório que o número de casos foi bem superior, devido a duas razões principais: os serviços de registros não eram merecedores de fé e só eram registrados os casos que se verificavam em indigentes que precisaram do socorro público.
O que ficou demonstrado é que Sergipe, pelo menos até o ano de 1919, ainda não tinha como enfrentar as epidemias. As ações eram improvisadas. Nesse caso da gripe espanhola toda rede escolar foi fechada, como várias outras instituições coletivas. O que ficava cada vez mais claro era a necessidade de uma ampla reforma dos serviços de higiene e saúde pública.



[i] Mensagem apresentada à Assembléia Legislativa, em 07 de setembro de 1919, pelo Presidente do Estado, Coronel Dr. José Joaquim Pereira Lobo.
[ii] Mensagem apresentada à Assembléia Legislativa, em 07 de setembro de 1919, pelo Presidente do Estado, Coronel Dr. José Joaquim Pereira Lobo.
[iii] Mensagem apresentada à Assembléia Legislativa, em 07 de setembro de 1919, pelo Presidente do Estado, Coronel Dr. José Joaquim Pereira Lobo.
[iv] Relatório do Chefe do Combate à Espanhola em Sergipe, Dr. Eronides de Carvalho, publicado no jornal “O Estado de Sergipe”, edições a partir de 08 de fevereiro de 1918.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O FIM DA SAÚDE PÚBLICA


ANTONIO SAMARONE
Academia Sergipana de Medicina.

O Ministério da Saúde decretou “estado de emergência” em Saúde Pública. O Nordeste foi surpreendido por uma epidemia de microcefalia, doença incapacitante e sem tratamento. Para agravar, os infectologistas suspeitam que o zika vírus seja a causa. Como esclarecimento, o zika vírus, febre amarela, febre chicungunha e a conhecida dengue são transmitidos pelo mesmo mosquito, o Aedes Aegypti. No momento, o único recurso eficaz para o combate a essas enfermidades é a erradicação do mosquito ou, no mínimo, o seu controle. Essa luta é centenária.
No inicio do Século XX (1902 a 1907), Oswaldo Cruz teve sucesso no controle do Aedes aegypti, eliminando a febre amarela do Rio de janeiro, através das brigadas sanitárias. Com o incentivo da Fundação Rockefeller, nas décadas de 1930 e 1940, foram executadas intensas campanhas de erradicação de Aedes aegypti no Brasil. Em 1947, a Organização Pan-Americana da Saúde e a Organização Mundial da Saúde decidiram coordenar a erradicação do Aedes aegypti no continente. Em 1956, foi criado o Departamento Nacional de Endemias Rurais (DENERu), órgão que assumiu as ações de combate à febre amarela e à malária, incorporando o Serviço Nacional de Febre Amarela e a Campanha de Erradicação da Malária.
Em 1958, na XV Conferência Sanitária Pan-Americana, em Porto Rico, foi oficialmente declarado que o Brasil conseguira erradicar o Aedes aegypti. Em 1967, criou-se a Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam), que absorveu as funções do DENERu. No mesmo ano, o mosquito é encontrado no Estado do Pará, e dois anos depois, em 1969, no Estado do Maranhão. Em 1973, um último foco foi eliminado e o vetor, novamente, considerado erradicado do território brasileiro.
Em 1976, entretanto, o Aedes aegypti retornou ao Brasil, em função de falhas na vigilância epidemiológica. Com o fim da SUCAM em 1991, no Governo Collor, a responsabilidade pelo controle das endemias passou para os munícipios, pondo fim a qualquer esperança no controle do Aedes aegypti. Em 1996, o Ministério da Saúde elaborou o Plano de Erradicação do Aedes aegypti (PEAa), cuja principal preocupação residia nos casos de dengue hemorrágica, que podem levar à morte. Quase nada deu certo, a dengue grassou solta durante esses anos. Em julho de 2001, o Governo abandonou oficialmente a meta de erradicar Aedes aegypti do País e passou a trabalhar com o objetivo de controlar o vetor.
Em 2002, foi implantado o Programa Nacional de Controle da Dengue (PNCD), com a seguinte estratégia: elaboração de programas permanentes, desenvolvimento de campanhas de informação e de mobilização da população, fortalecimento da vigilância epidemiológica e entomológica, melhoria da qualidade do trabalho de campo no combate ao vetor, integração das ações de controle da dengue na atenção básica, com a mobilização do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e do Programa Saúde da Família (PSF), utilização de instrumentos legais que facilitem o trabalho do poder público na eliminação de criadouros em imóveis comerciais, casas abandonadas, atuação multissetorial, no fomento à destinação adequada de resíduos sólidos e à utilização de recipientes seguros para armazenagem de água e desenvolvimento de instrumentos mais eficazes de acompanhamento e supervisão.

Portanto, o caminho para o controle ou até mesmo a erradicação (já conseguimos antes), são conhecidos, o que falta é vontade política, responsabilidade, seriedade para se tomar decisões, e recursos para a execução dos trabalhos. Nos oito primeiros meses de 2015, o número de mortes causadas pela dengue no país foi de 693, e já constitui o maior índice anual desde que a doença começou a ser monitorada em detalhes, em 1990. O recorde anterior havia sido atingido em 2013, com 674 mortes. Se não bastasse, estamos diante da epidemia de microcefalia, 739 casos notificados até agora. Vamos aguarda as providências, não basta declarar “estado de emergência em saúde pública”. Chama atenção a indiferença da sociedade. Que Deus nos proteja.