terça-feira, 29 de setembro de 2026

A MORTE DE ÁTALO CRISPIM DE SOUZA

A morte de Átalo Crispim de Souza.
(por Antonio Samarone)

A morte de uma das maiores cultura médica de Sergipe, ensejou controvérsias, e reascendeu a pretensão da medicina oficial em intitular-se única. A herdeira da ciência, portanto, a dona da verdade sobre a saúde e a doença, a vida e a morte.

A resistência de um homeopata em manter-se fiel a sua doutrina, foi tratada como inaceitável. Uma intolerância corporativa e ideológica. Claro que ele conhecia a causa bacteriana da erisipela e a eficácia da penicilina; mas conhecia também a capacidade de resistência do organismo.

Átalo era um profundo conhecedor dos agentes infecciosos, das descobertas de Pasteur ao "Príon", proteínas com memória, que se propagam no organismo. Agente bem menores que os vírus e não contém nem DNA, nem RNA, e podem causar doenças. Os príons são partículas proteicas infecciosa. Aprendi essa novidade com ele.

Hoje se sabe que as proteínas possuem memória, coisa que Claude Bernard, que inventou a medicina experimentar e descobriu o “meio interno”, não sabia no século XIX. A bioquímica que estudei na faculdade era a tradicional, onde as químicas orgânica e inorgânica ainda obedeciam às mesmas leis.

Átalo era homeopata por convicção, mas conhecia profundamente as narrativas da chamada medicina científica. O arcabouço de sustentação das ciências do corpo é fundado num físico/química tradicional, do início do século XX. Essa química comparada com a atual é quase uma alquimia.

Átalo diagnosticava a esquizofrenia pelo olfato.

Os novos conhecimentos da física quântica e da química orgânica e suas propriedades emergentes, em decorrência dos sistemas vivos, são ainda curiosidades para alguns médicos. A multiplicidade dos exames bioquímicos, hoje solicitados, ainda obedecem a lógica da revolução cientifica do século XIX. Apenas, tentam substituir a falência da propedêutica dos sentidos.

Os tratados médicos de farmacologia, quando ainda eram lidos, eram divagações hipotéticas, sobre a farmacodinâmica e a farmacocinética das substancias químicas.

A pratica médica atual ainda é centrada no paradigma celular (Virchow – 1849). A ciência já avançou para os paradigmas moleculares e atômicos. E a medicina ficou com as suas antigas certezas. A transição da pratica médica é lenta, pois contrariaria interesses e saberes constituídos. A substituição do paradigma humoral de Hipócrates e Galeno, se arrastou por 500 anos.

O organismo de Átalo foi derrotado por uma doença aguda, a erisipela, onde possivelmente a antibioticoterapia seria eficaz. Entretanto, essa é uma certeza probabilística. As evidencias de eficácia são percentuais estatísticos.

Outras comorbidades: diabetes descontrolada, estado emocional, nível de resistência imunológica reduzido, entre outras, podem ter contribuído para o desenlace. Não estou negando, apenas relativizando as certezas médicas. O método estatístico tem as suas limitações.

Sem ir longe, as dificuldades atuais no tratamento das septicemias e infecções hospitalares são conhecidas. Um outro amigo, faleceu medicado, dentro da UTI, acompanhado por uma equipe médica que dispunha todo o arsenal da indústria farmacêutica, vítima de uma septicemia originária de uma infecção urinária.

Outras práticas médicas são vistas como obscuras e lesivas. O complexo médico industrial não aceita condutas fora do seu protocolo, mesmo comprovadamente benéficas. ]

Com a hegemonia da medicina de mercado, as necessidades milenares de uma prática voltada para os cuidados e o alivio do sofrimento humano perderam importância. A tradicional dualidade ciência/arte, se tornou coisa do passado. A medicina comercial precisa de técnicos, que realizem procedimentos lucrativos, sob o manto de uma ciência adaptada aos interesses.

A medicina é anterior ao Homo sapiens. Os antigos humanos (neandertal, erectus, denisovanos...) já eram bípedes, fabricavam utensílios, enterravam os mortos e cuidavam dos doentes).

Varias medicinas conviveram por milênios, sem exclusões, com usos distintos. Uma medicina única e oniscientes é uma pretensão ideológica. A ciência é o método, não produz verdades acríticas.

A morte de Átalo foi uma grande perda para a humanidade, os gênios são raríssimos. Mas a homeopatia contina respirando.

Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.
 

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