quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A ESQUINA DO SEU FLORIANO.


 A Esquina do Seu Floriano.

(por Antonio Samarone)

Na década de 1960, em Itabaiana, existia uma bodega em cada esquina. Bodega ou bar. Creio que em decorrência das mudanças econômicas da cidade. De cidade celeiro (agrícola), para polo comercial.

A bodega do Seu Floriano, chamava a atenção. Era uma bodega especializada em charutos. Localizada na esquina das ruas da Pedreira e Macambira, (atuais ruas Marechal Deodoro e Antonio Dutra).

Até o início da década de 1960, o fumo (Nicotina tabacum) era um produto apreciado por muitos, visto como um hábito saudável. Usado como rapé, mascar, fumar (cachimbos, charutos e elegantes cigarros e cigarretes).

Só os granfinos, fumavam charutos Montecristo ou Romeo y Juliueta. Zeca Mesquita, o único nobre de linhagem, em Itabaiana, só andava com ternos de linho branco, engomados, relógio de algibeira, sapato e meia e, em momentos solenes, fumando um charuto importado.

Os menos ricos, mas com pose de rico, fumavam um Suerdieck, produzidos no Recôncavo Baiano. A classe média e os funcionários do Banco do Brasil, se contentavam com um charuto Walkíria, fabricados na próspera Estância.
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O povo atrevido, se esbaldava nos ‘mata-ratos”. Acho que Durval do Açucar, mesmo rico, traçava um bom mata-rato, pelo prazer das cusparadas. O cuspe dos mata-ratos é denso, pastoso, e contamina com o cheiro forte um raio de 2 Km.

Mamãe, descendente direta dos Tupinambás, mascava capas de fumo e usava um cachimbo de bola de barro e canudo-de-pito. Um vegetal encontrado no sertão baiano. Eu não gostava do cheiro, mas, naquele tempo, menino não apitava.

A bodega de Seu Floriano tinha um bom estoque de charutos.

Não me lembro de granfinos em Itabaiana, fumando cachimbos, a moda inglesa. Desconheço imitadores de Sherlock Holmes em minha infância. Em Aracaju, eu tenho um grande amigo, um aristocrata: Ivan do Cachimbo, que desfilava solene na Atalaia Nova.

O prestigio do fumo declinou, quando um pesquisador inglês, Richard Doll, publicou em 1950, no British Medical Journal, as evidencias que o fumo causava câncer de pulmão. A notícia se espalhou rápido. Fumar virou quase uma estupidez.

Por conta da medicina inglesa, a marinete de Seu Oviedo, que fazia linha para Aracaju, estampou no para-brisa: “É proibido fumar charutos, cachimbo e cigarros de palha”. Os cigarros da Souza-Cruz, ainda eram permitidos. O hábito de fumar foi combatido.

Com a perda de prestigio do fumo, difamado pela medicina inglesa, os consumidores dos charutos diminuíram. Para a minha tristeza a bodega do Seu Floriano, sem clientes, fechou.

Deixe-me explicar. Não fiquei triste pelo fim dos charutos.

A bodega de Seu Floriano não vendia só charutos. Foi lá, que pela primeira vez eu comi “espécia”. Um doce divino, que eu chamei de ambrosia. Talvez influenciado pela ambrosia (doce de leite, com ovos), ou pela mitologia grega, onde ambrosia era um alimento dos deuses no Olimpo.

Eu ainda não tinha lido Homero, mas lembrei-me da ambrosia.
A minha ambrosia é um doce de amendoim, que não é paçoca, popularmente chamado de “espécia” ou “espeça”, composto de amendoim torrado, pisado no pilão; com raspa de rapadura ou açúcar mascavo; canela, cravo-da-índia, noz-moscada e gengibre.

O doce é uma mistura das especiarias da Índia, com a culinária portuguesa. A “espécia” recebeu forte influência árabe.

Hoje, o doce foi muito modificado. Ando a procura da “espécia” com o sabor da primeira, da bodega do Seu Floriano. Já experimentei várias, sem sucesso. Cada doceira, inventa a sua receita.

Antonio Samarone. Academia Itabaianense de Letras.

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