domingo, 1 de novembro de 2026

A INGRATIDÃO DO CORPO

A ingratidão do Corpo.
(por Antonio Samarone)

Só agora, na velhice, descobri que o corpo é um poço de ingratidão. Não vale uma bufa. Passei a vida a bajulá-lo, tratando-o a pão de ló. Procurei sempre dar-lhe conforto, sombra e água fresca. Os melhores unguentos.

Para proteger o corpo, evitei o frio e o calor extremo, o vento pelas costas, as sobrecargas, as lesões, as feridas, os insetos picadores, o pano branco, as impinges, as coceiras, a sarna, os piolhos e as pulgas.

Sempre tratei o corpo com as regalias de um príncipe árabe. Mesmo sabendo da sua efemeridade, mesmo sabendo que é ele era pó e não valia grande coisa, e que terminaria na cidade de pés juntos. Acabo de descobri que o corpo não merecia os afagos e mimos.

Na juventude, cheguei a pensar que Eu e o meu corpo éramos da mesma laia. Pensei que Eu era o meu corpo e o meu corpo era Eu, em carne e osso. Um ser humano total.

Hoje, descobri que o corpo não merecia a consideração que lhe devotei, chegando a considera-lo em pé de igualdade. Se a alma, o sopro divino, o espírito, a self, a psiquê, seja lá qual for o nome, não merece essa consideração, imagine o “relés” corpo.

Quem está falando é a minha consciência, que também não sou Eu, mas tem mais autoridade. Pelo menos é imortal. Espero...

O cristianismo medieval tratava o corpo em sua insignificância passageira (tu és pó), merecedor das dores, sofrimentos e flagelos. O corpo era a carne, fonte de pecados e fraquezas. Por outro lado, a igreja criou o corpo de Cristo.

O renascimento descobriu a beleza do corpo e o pintou no teto do Vaticano. A medicina encontrou a sede das doenças, nas dissecações de Vesálius e na patologia de Virchow. A arquitetura encontrou a simetria em Vitrúvio.

O iluminismo encantou-se com o corpo, criou o humanismo (um equívoco). Procura-se, até hoje, os elixires da longa vida, para paparicar o corpo. Aumentou-se, em seu benefício, a vida média. Criou-se as academias, os personal trainers, os fisioterapeutas, os esteticistas, tudo para adular o corpo.

Na velhice, o corpo envaidecido e ingrato responde com covardia, sofrimentos e martírios. Desmonta-se de vez. Enfartei, sem mais nem menos. A ciência médica adiou a minha morte, impondo-me condições tiranas: “Isso não pode, nem aquilo, nem aquilo, e dana-se a impor restrições. Nomeou fiscais.

A medicina, em parceria com a indústria farmacêutica, prescreve uma dúzia de medicamentos. Precisei fazer uma tabela e pregar na parede. Para não esquecer.

Fico filosofando: a quem o organismo, que funciona com os seus controles e vigilâncias, enzimas, hormônios, anticorpos e neurotransmissores, tudo natural, organizados pela evolução, vai ignorá-los, para atender a esses novos comandos. Sei não.

Somos reféns da iatrogenia. Tudo isso é uma ilusão? Pelos menos, a dor é real. Faço qualquer negócio para aliviá-la. Mesmo por instantes. Vivemos uma Era paliativa.

No cateterismo, eu vi o meu coração cravejado de estreitamentos. Sem ilusões. Botei as molas (Stent). Na mesma semana, a artrose mostrou as suas garras. E o que parecia tão consistente, desabou de vez, sem pedir prazo, nem fazer conceções.

A gente descobre que o corpo está se lixando, ele segue o seu fim. Muitas vezes para de pensar, se esquece de tudo; outras vezes, para de obedecer aos comandos e nos joga imóveis no leito, anos a fio. Não pensa duas vezes, vai deixando de funcionar aos poucos.

Sem contar as células rebeldes, que começam a se multiplicar desordenadamente, a doer sem parar, sem motivos conhecidos. Raivosamente. Só de cânceres, são mais de cem.

Com certeza, o corpo pode caprichar em sofrimentos, mas vou viver intensamente, até a prorrogação. A vida é uma graça. O corpo sabe que sou eu que sinto as dores. Ele é uma máquina biológica. Não sente nada. É a sua natureza.

A minha vingança é que o corpo vai virar pó, devorado pelos vermes. Eu sigo em frente, sou a minha consciência, quase eterna. Na reta final, nos últimos cem metros, precisamos de resignação, sofrer sem reclamar. Enfrentar os serviços de saúde agradecido.

Já entendo porque tem hora, que a morte é um descanso. Um martírio muito breve, não faz um grande santo.

Uma curiosidade: as redes sociais passaram a me oferecer tratamentos de todos os tipos. A maioria com resultados garantidos. Para a artrose no ombro, até chifre de unicórnio me ofereceram. Se a dor não ceder, estou disposto a experimentá-lo.

Antonio Samarone. (quem?)