sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

UM BARRIL DE CHOPP

Um Barril de Chopp.
(por Antonio Samarone)

Domingo, 08 de maio de 1945, Itabaiana ouviu a notícia do fim a Segunda Guerra para o Brasil, pelo rádio de Seu Marcelino. Ele colocou o aparelho no muro do Grupo Guilhermino Bezerra (o muro era baixo), e uma multidão ansiosa, parou para ouvir a PJ – 4, de Berlim, transmitindo em português. Confirmado o fim da guerra, a Filarmônica desfilou garbosa pela cidade.

Nessa época (1945), só três pessoas possuíam rádio em Itabaiana: Zeca Mesquita (o primeiro), Marcelino e o padre Eraldo Barbosa.

Itabaiana abria-se para urbanidade, com o crescimento do comércio e a força do caminhão. A luz de Paulo Afonso chegou em 1954. Seu Marcelino foi um desbravador da cultura.

Marcelino Andrade, nasceu na Matapoã, em 06 de abril de 1919. Filho de Francisco Pereira de Andrade (Chico Fogueteiro ou Chico Gordo) e Ana Maria de Oliveira, irmã do meu Avô Totonho. Os dois, descendentes dos ferreiros da Matapõa, bisnetos de João José de Oliveira).

A família de Chico Gordo (fogueteiro), além de Marcelino, tinha: João, Vicente e Pedro de Anita (tido como doido); Esther, Maria, Augusta, Idalina, Tina, Josefa (mãe de Djalma Lobo) e Cecilia.

Quando o pai se mudou da Matapoã para a cidade, Marcelino tinha 6 anos. Fez as primeiras letras com Dona Glorinha. Concluiu o primário. Logo cedo foi aprender a arte de ferreiro com o tio-avô Zentonho. Com grande inteligência e destreza, logo superou o mestre.

Marcelino serviu o exército no Rio de Janeiro, no famoso Regimento Sampaio, o que tomou o Monte Castelo. Concluída a obrigação militar, retornou a Itabaiana.

Se Casou em 1947, com Dona Maria Dolores, uma fidalga da família Lobo, descendente do Padre Francisco da Silva Lobo (1745). Dona Dolores era sobrinha-neta de José Calazans, Governador de Sergipe (1892 – 1894). O casal constituiu uma numerosa família: Marta, professora Margarida, Rosa, Jorge, Ana Cristina, Marquinhos, Marcelino e Stela.

Em Itabaiana, Marcelino abriu uma oficina diversificada: cuidando de motores de explosão, motores de casa de farinha, serviços de ferreiro, veículos, recondicionava baterias e consertava rádios. O homem era pau para todo obra. Fazia de tudo bem feito.

Seu Marcelino foi um amante e divulgador da música em Itabaiana. Logo cedo, adquiriu uma vitrola americana RC – Victor 1904, movida a manivela. Foi uma atração na bucólica Itabaiana.

Pouco depois, o Iate clube, em Aracaju, comprou uma potente radiola Mullard, com um possante toca-discos, rádio e caixa de som externa. O Iate não ficou com o aparelho. Seu Marcelino soube, e assumiu a compra. O equipamento era de número 29, e recebeu um selo nominal do novo dono.

Certamente, a primeira radiola Mullard em Sergipe. Com o tempo, Seu Marcelino comprou um toca-discos Garrard, automático, onde o braço funcionava sozinho, potencializando a sua radiola.

Os granfinos de Itabaiana (Dr. Pedro, Padres Artur e Everaldo, Zé Silveira, Tonho de Dóci), a nascente classe média urbana, passaram a frequentar a casa de Marcelino, todas as quintas-feiras, para um alegre sarau. 

O intelectual Luciano Oliveira, filho de Oliveirinha, exilado em Recife, me confidenciou: "Zeca Mesquita foi o nosso Barão de Mauá e Marcelino o nosso Mário de Andrade, divulgando João Gilberto e a Bossa Nova. Ele merece uma biografia."

 
A casa virou ponto de cultura. Carnaval, São João e Natal.

Música de boa qualidade e dança tornaram-se frequentes. Os mais chegados entravam, os demais dançavam na rua. Euclides Paes Mendonça, chefe politico e amigo de Marcelino, mandava fechar as ruas para os bailes populares.

Seu Marcelino iniciava e encerrava os bailes de carnaval, sem dizer uma palavra. Botava a mesma música, “Barril de Chopp”, para iniciar e encerrar as festas. Tocou, estava hora de acabar. Quem não se lembra dessa música, ponha aí no celular, que vai entender a mensagem musical.

Itabaiana vai realizar uma feirinha cultural, no domingo, dia 18/01. Entre os objetivos, homenagear todos os que incentivaram a nossa vida cultural. Marcelino foi um baluarte.

Marcelino, torcedor do Botafogo, foi goleiro do Itabaiana, que no início, se chamava Botafogo.

Esse gênio da mecânica, a quem a cultura de Itabaiana muito deve, incentivador da música, bailes, saraus e festas, faleceu em 1989, aos 70 anos, vítima de infarto agudo do miocárdio.

Deixou saudades!

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

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