quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

VIS MEDICATRIX NATURAE

Vis medicatrix naturae.
(por Antonio Samarone)

Quase todos os médicos, independente do credo, liberais ou conservadores, acreditam que o humanismo abandonou a medicina. Atribuem a tragédia, a precária formação acadêmica. Uma faculdade de medicina em cada esquina.

Não tocam na questão central.

Para adequar-se à organização mercantil, voltada para o lucro, os cuidados com os doentes, se transformaram em procedimentos voltados para as doenças. A relação médico/paciente, uma relação entre humanos, tornou-se uma relação do médico com as doenças, uma relação "homem/objeto", portanto, desumanizada.

O cuidado médico, em sua forma de mercadoria, tornou-se impessoal, padronizado, produzido em escala (protocolos) e destinado ao consumo de massa. Saúde é vista como dependente consumo de bens e serviços de saúde.

As categorias das relações humanas, afeto, acolhimento, compaixão e solidariedade não encontram espaço.

O mercado não tem intenções, não tem objetivos, não tem propósitos, move-se pelo lucro. As únicas criaturas neste universo que podem estabelecer objetivos, que podem criar e dar sentido à vida, são os próprios seres humanos.

Sem mistificações: humanismo médico é uma medicina voltada para as pessoas, voltada para aliviar o sofrimento. Convenhamos, nos afastamos muito. A medicina voltou-se para o mercado, com o álibi da ciência.

Concordo com Foucault: “Existe uma distância entre a cientificidade da medicina e a positividade dos seus efeitos, ou entre a cientificidade e a eficácia da medicina.”

A prática médica está pronta, aguardando resignada a Inteligência Artificial (IA). Creio que alcançaremos as mudanças.

Os medicamentos foram os primeiros a se transformaram em mercadoria. São produzidos industrialmente, no pós-2ª Guerra. As consequências foram afrontosas. Circulam nas farmácias brasileiras, aprovados pela ANVISA, cerca de 40 mil medicamentos.

Não precisa ser um cientista social, para saber o que move esse grande negócio. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME), do Ministério da Saúde, apresenta menos de 400 medicamentos.

Esse pretensioso arrodeio acadêmico, foi só uma introdução. Eu queria relembrar, impunemente, o meu mundo farmacológico, na infância. Eu nasci e me criei precisando de meia dúzia de remédios, que os mais antigos vão lembrar.

Mamãe dominava essa farmacopeia, vendida em farmácias.
Dor de barriga, elixir paregórico. Depois fiquei sabendo que continha ópio. Biotônico Fontoura, criado em 1940. Emulsão de Scott, um suplemento a base de óleo de fígado de bacalhau e Xarope Bromil.

As verminoses desapareceram para a medicina. Em meu tempo, mamãe usava o Uvilon, um remédio a base de piperazina. O tratamento era acompanhado do óleo de rícino e um bom fortificante. A quantidade de lombrigas impressionava.

Antibiótico era a benzetacil, injetável na bunda, quando a infecção era grave. Era o que se usava para as doenças do mundo. Infecções menores, remédios a base de sulfas.

O pó de sulfamida, pomada Minâncora e a violeta genciana para perebas, frieira e doenças de pele.

Os cortes e aranhões eram punidos com mertiolate (dos que ardiam). Um suplício. Os tratamentos, por norma, eram cruentos. Se desconfiava de injeção que não doía.

Certa feita, concordei com o uso do bicarbonato de sódio no tratamento do meu sapinho (infecção por Candida albicans, na boca). A limpeza causava uma dor insuportável.

Foi a condição, para que mamãe deixasse eu ir ao futebol, com Tio Gerson, no velho Etelvino Mendonça.

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário