quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O ESPORTE BRETÃO (um)


 O Esporte Bretão (um)...
(por Antonio Samarone)

O futebol é um esporte inglês, canibalizado no Brasil. O bi campeonato mundial (1958/62), fomentou uma ilusão nos meninos: é possível deixar a pobreza pelo futebol. Basta talento! O exemplo de Pelé, criava esperança.

O menino pobre, esperava de Papai Noel uma bola. Velocípede, era sonho de rico. Bastava uma bola.

A intelectualidade, no início, rejeitou o esporte inglês. Cito Lima Barreto, em “Feiras e Mafuás”, e Graciliano Ramos, em “Linhas Tortas”. “A moda pode dar certo nas grandes cidades, que estão no litoral. Isto aqui é diferente, é Sertão. Parece-me que o football não se adapta a estas boas paragens do cangaço. O football não pega, tenham certeza.” – Graciliano Ramos.

Fiquei sabendo, lendo a obra-prima, “Pelé, o negão planetário”, de Antonio Risério, o nosso maior livre-pensador, na atualidade.

O mundo parou em 20 de julho de 1969, para assistir à chegada do homem à lua. O Beco Novo, parou em 19 de novembro de 1969, para assistir o milésimo gol de Pelé. Eu assisti ao pé do rádio, com lagrimas nos olhos. Pelé dedicou o gol aos meninos pobres.

Em 9 de julho de 1969, a Seleção Brasileira inaugurou o Batistão. Juntei dinheiro e embarquei no pau de arara de Mané de Jason. Às 17 horas, eu já estava na arquibancada, quase lotada. Achei muito distante do campo, desci para a geral e encostei-me no alambrado – como no velho Etelvino Mendonça. Um pouco antes do início da partida, sair para mijar. Perdi o ponto.

O Brasil vivia sob as patas da ditadura – O AI-5, foi baixado em 13 de dezembro de 1968. A minha geração só pensava em jogar bola. Admirávamos as feras de Saldanha. Eu só li “1968: O Ano que não Terminou”, de Zuenir Ventura, em 1975, na UFS, sob influência do Movimento Estudantil.

Bastava um terreno baldio, duas traves de pedra e uma bola qualquer (mesmo de meia), para se montar o palco. Fazer um gol numa pelada de rua, despertava as mesmas emoções que um gol na final de Copa do Mundo. Jogávamos descalços. Muitos craques esquecidos, nunca calçaram uma chuteira.

Tonho de Marieta foi o maior craque da minha geração. Desconhecia as chuteiras.

Em 1968, Dr. Pedro criou o juvenil do Itabaiana. Encarei como uma chance de ascensão social. O treinador, Miguel de Rola, era um disciplinador. Nada de atrasos nos treinos. Um problema: eu trabalhava, e nem sempre chegava a tempo.

Outro empecilho: o Itabaiana encomendou as chuteiras a Joãozinho Baú, uma marca de qualidade. As chuteiras vestiam de 38 a 42. Não se suspeitava que um menino, calçasse um número maior. Eu calçava 44. Imaginem o aperto, correr com um calçado 2 números a menos. Não tive jeito. Terminava as partidas com os dedos estropiados.

Em 1968, aos 14 anos, eu trabalhava num armazém de cerais, estudava a noite no Murilo Braga e era juvenil do Itabaiana. Cheio de esperanças em ser alguém e sair do atoleiro da pobreza.

Política, só as brigas locais entre UDN e PSD. Com exceção do contato com um padre italiano, Antonino Ruffalo (foto), que apareceu por Itabaiana, na década de 1960. Não sei, até hoje, qual era a missão desse padre: pregar o evangelho, politizar ou vigiar os jovens.

Foi nessas catequeses, que soube da existência de livros proibidos. Paulinho de Maria de Branquinha me emprestou um. Li e nada entendi. Acho que foi “Teses sobre Feuerbach”, do Velho Marx. Um ensaio sobre a essência religiosa do homem.

O meu sonho era ser jogador de futebol. Aliás, era o sonho de muitos meninos daquela época.

Antonio Samarone. Juvenil do Itabaiana.

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