Velhos Tempos...
(por Antonio Samarone)
Fui cortar o cabelo na tradicional barbearia de Unaldo, na rua das Flores, e resolvi fazer o serviço completo: barba e cabelo. Eu fui à onda da maioria: há muito tempo, faço a barba com as lâminas descartáveis de farmácias e mercadinhos. Em nome de uma maior praticidade, abandonei os mimos das barbeiras.
Tinha esquecido, fazer a barba com os barbeiros segue um ritual centenário: aplica-se uma toalha aquecida, seguida por um produto para abrir os poros. A espuma é espalhada com um pincel de pelos de lebres inglesas. Espera-se a espuma amolecer a barba. Ao final, o velho barrufo, para queimar. Nesse intervalo, bate um cochilo atávico.
Durante o cochilo, sonhei com uma história antiga:
Bidó, pai do professor Grilo, um célebre barbeiro itabaianense, ao envelhecer, perdeu o juízo. Fico Tan-Tan. Álvaro de Antonio Agostinho, um próspero comerciante, foi fazer a Barba com Bidó. Já com o rosto ensaboado, percebeu que Bidó entrou em um reservado, para amolar a navalha. Bidó retornou com a navalha amolada e chupando um bico. Álvaro deu uma risada, enxugou a espuma com uma toalha e caiu fora. Não quis arriscar.
Eu não tive esse susto. Unaldo Pedro da Costa é um sertanejo de Altos Verdes, boa conversa e fino trato. Um barbeiro ajuizado e competente. Chegou em Itabaiana em 1973, começando a trabalhar na barbearia de Rosalvo, o pai de Gude-Gude.
Eu não lembrava das delícias de se fazer a barba em uma barbearia. Já joguei no lixo, os apetrechos descartáveis dos supermercados.
Sem falar no ambiente social das barbearias, onde a vida é passada a limpo, sem pressa. Além dos clientes, sempre aparece desocupados, prontos para debulhar as fofocas.
Ontem, sobre a decisão de Trump invadir a Groenlândia, ouvi pelo menos três versões. Todas fundamentadas. As notícias ainda correm nas barbearias. Claro, perdeu a primazia para o WhatsApp.
O salão de Unaldo é climatizado, limpo, bem iluminado. No fundo, o rádio ligado no programa de Pereira Santos. O cara é líder em audiência no Agreste. Um programa leve, bem-humorado, com um repertório de antigos sucessos musicais e comentários do cotidiano.
Os ouvintes participam como antigamente: pedindo e ofertando músicas. Sem gritos, xingamentos ou recados políticos. Gente, o Pereira Santos é um grande radialista. Me lembrei da “Paradinha do Chicão”.
A milenar profissão de barbeiro foi perdendo espaço durante a história. Já foram cirurgiões-barbeiros. Arrancavam dentes, sangravam, tiravam argueiros, operavam cataratas. Barbeiros e dentistas ainda usam a mesma cadeira.
No século XX, os barbeiros faziam apenas barba e cabelo. As lâminas descartáveis, tiraram a clientela das barbas.
O baque foi grande. A barba é uma necessidade quase diária. O cabelo demora 30 dias, ou mais. Sem contar a moda dos cabeludos.
O barbeiro virou cabeleireiro, foram para os salões de beleza unissex. As navalhas foram aposentadas. O surgimento da AIDS, foi a pá de cal (o risco da transmissão). A barbearia de Unaldo ainda possui uma clientela de barbas. Sem as navalhas. Acho que vou aderir.
Unaldo é um barbeiro de "corpo e alma". A pedido, ele me apresentou as velhas navalhas, todas conservadas e guardadas a sete chaves. Uma reminiscência. As navalhas são primas dos punhais, objetos carregados de simbologias.
As velhas barbearias sobrevivem, resistem, sem perder o charme. Foram, em parte, substituídas pelos salões de belezas, cabeleireiros e barbearias de Shopping.
Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.

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