Os Fortes da Praia: De Garcia d’Ávila a João Gualberto.
(por Antonio Samarone).
A Praia do Forte tornou-se um polo de ecoturismo. A convivência de condomínios de luxo, vila de pescadores, conservação do meio ambiente e uma diversificada rede de pousadas, hotéis de luxo e resort internacional. Um exemplo bem-sucedido do turismo sustentável.
O sucesso do complexo turístico Praia do Forte, não dependeu apenas das piscinas marítimas, decorrente da cordilheira de corais. Não! A conservação do meio ambiente e a integração da comunidade nativa foram decisivos. A Villa de Pescadores é o centro cultural do projeto, e os seus moradores grandes beneficiados.
A Enseada de Tatuapara foi ocupada pelos portugueses, com a chegada do primeiro Governador Geral do Brasil, Tomé de Souza (1549).
A região foi doada ao seu filho, Garcia d’Ávila, que se tornou o maior latifundiário do Brasil. Garcia, envolveu-se ativamente na conquista de Sergipe, pelos portugueses (1590).
No século XVII, o atual município de Mata de São João, onde fica a Praia do Forte, foi ponto de descanso das boiadas, oriundas dos curais itabaianenses, para o Salvador e Recôncavo.
A relação de Sergipe com essa região baiana é ancestral.
O padroeiro do Castelo de Tatuapara é Santo Antonio. Em 1705, o Santo guerreiro foi nomeado Capitão das forças públicas. O soldo era pago ao mosteiro franciscano.
A Enseada foi fazenda dos D’Ávilas, até meados do século XIX. Na década de 1980, a Praia do forte era uma Vila de Pescadores e uma bela praia deserta. Eu a visitei nesse período. Na década de 1970, a praia mais famosa no Norte da Bahia era Arembepe, uma Aldeia Hippie.
Nesse período, um alemão maluco e endinheirado, Klaus Peters, comprou a antiga fazenda dos d’Ávilas, e construiu um grande eco resort, implantando a lógica sustentável de turismo. Tudo começou com o alemão.
O alemão foi embora e faleceu, deixando as ideias e as condições para o ecoturismo florescer.
Aqui apareceu um itabaianense, o filho de João Padre, com alma empreendedora, inteligência, poder político e capital, e resolveu transformar a Praia do Forte, num gigantesco complexo de eco turismo. Deu andamento o projeto de Klaus Peters.
João Gualberto Vasconcelos, comprou a fazenda do alemão e montou um empreendimento sustentável. Viabilizou a implantação da unidade dinâmica e rentável do Projeto Tamar, para conservação das tartarugas; do Projeto Baleia Jubarte; da Reserva Sapiranga, com 757 hectares de Mata Atlântica; de um Parque com 264 hectares de Restinga e recuperou o Castelo Garcia d’Ávila (foto).
A Fundação Garcia d’Avila é um sucesso turístico e de negócios, com festas e shows. Por coincidência, em minha passagem pelo Castelo, o cenário estava sendo montado para um show de Natanzinho. Claro, me gabei que ele é de Itabaiana.
A Vila de Pescadores foi urbanizada, com hotéis e pousadas, adequadas ao ambiente bucólico, um forte comércio, respeitando as tradições culturais. No centro da Villa tem uma casa de farinha, com um beiju de tapioca divino, pé de moleque, com o exuberante sabor da Carimã. A culinária baiana raiz predomina.
A segurança é garantida pela incorporação de todos nos negócios. Uns mais, outros menos, mas todos ganham. Claro, o trade turístico é controlado pelo grande capital. Mas, não vi pedintes, morador de rua, ou outras vítimas do capitalismo selvagem.
O papel de João Gualberto foi decisivo para que a ocupação dos entornos com grande condomínios de luxo, respeitasse o meio ambiente. O Poder Público limitou a área construída a 10% dos terrenos. Sobrava uma enorme área verde, onde as matas foram respeitadas.
João Gualberto Vasconcelos, nasceu em Itabaiana, 06 de julho de 1958. Filho de João Pereira Vasconcelos (João Padre) e Dona Maria Otília Mendonça. João estudou no Murilo Braga até a oitava série.
Em 1973, João Gualberto se meteu numa encrenca em Itabaiana, sendo obrigado a mudar-se para Salvador, onde concluiu os estudos. Em Salvador, João teve a sombra de Mamede Paes Mendonça, seu tio, irmão de Dona Maria Otília.
João Gualberto, mesmo sendo sobrinho dos Paes Mendonça, cresceu na vida por méritos próprios. Formou-se em química e montou a rede de hipermercado Ideal.
Meteu-se na política. Em 2008, elegeu-se Prefeito de Mata de São João (onde se situa a Praia do Forte); reeleito em 2012; foi Deputado Federal (2015/19). Em 2020, voltou a Prefeitura. Nessa eleição, ele declarou o patrimônio de 170 milhões. Nas últimas eleições municipais (2024), João Gualberto, elegeu um correlegionário, Bira da Barraca.
O motorista do Bugre que fiz os passeios, Seu Evandro, foi direto: João Gualberto por aqui elege qualquer um, até o senhor.
João Gualberto é o líder político inconteste da Região. O povo atribui a ele e ao alemão, a virtude de terem construído um império ecológico. Transformando uma vila de pescadores, num complexo turístico internacional.
O mais importante, sem expulsar os pescadores. Teve muitos nativos que alugaram as suas casas, outros venderam e outros montaram negócios. Convivem pacificamente com os magnatas do mercado imobiliário e do turismo.
Eu não conheço João Gualberto pessoalmente, ele é 4 anos mais novo. Fui amigo de Balancinha, seu irmão, já falecido. Fui aluno de matemática de Bernadete Vasconcelos, sua irmã. E conhecia o pai, João Padre.
Hoje, João Gualberto estendeu os seus negócios a Portugal.
A família Paes Mendonça, da Serra do Machado, brilhou no comércio e na política: Pedro, dono da Rede Bompreço, em Pernambuco; Mamede, dono da Rede Paes Mendonça, na Bahia; e Euclides, chefe político em Itabaiana.
Dos descendentes, lembro-me do famoso João Carlos (87 anos), filho de Pedro do Bompreço, e João Gualberto Vasconcelos (67 anos), filho de Maria Otília Mendonça, o criador do complexo turístico Praia do Forte.
A força empreendedora dos itabaianenses vai longe.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
terça-feira, 23 de dezembro de 2025
A SERGIPANIDADE NO SENADO
A Sergipanidade no Senado.
(por Antonio Samarone)
O Senado Federal é uma representação dos Estados, por isso a igualdade nas vagas. Sergipe e a Bahia, possuem, cada, três representantes.
Sergipe, nunca deu muita importância ao Senado.
Entre 1826, primeira legislatura do Senado e a décima, em 1859, ou seja, nos primeiros trinta e três anos, foram Senadores por Sergipe, o gaúcho José Teixeira da Matta Bacellar e o baiano José da Costa Carvalho (Marques de Monte Alegre). Os dois, nunca pisaram os pés em Sergipe.
Essa desonra política original, foi solenemente esquecida.
O primeiro sergipano a representar o Estado no Senado (1859), foi o senhor de engenho Antonio Diniz de Siqueira Mello, que lutou contra a libertação dos escravos. Diniz era da família de Leandro Maciel, governador e senador por Sergipe, na segunda metade do século XX.
Durante o Império, apenas mais dois sergipanos chegaram ao cargo de Senador: João Gomes de Mello (Barão de Maruim), em 1861, e Antonio Dias Coelho e Mello (Barão de Estância), em 1885.
Com a República, entre os três primeiros senadores eleitos por Sergipe, um era baiano, Thomaz Rodrigues da Cruz. E assim, a história anda.
Sem contar o amazonense, Lopes Gonçalves, eleito Senador por Sergipe (1924 – 1930), sem saber onde ficava Sergipe. Foi cassado pela Revolução de 1930.
Sem esquecer o baiano Lourival Batista, Senador por Sergipe por 24 anos. A esquerda teve a sua vez, o carioca Zé Eduardo Dutra, também representou Sergipe no Senado (1995 – 2003).
Um amigo, bolsonarista, crente na sergipanidade, argumentou:
“Era assim antigamente, hoje, ser ou não filho de Sergipe tem peso relevante na escolha.”
Será?
Na atual bancada sergipana no Senado, dos três, um é gaúcho e o outro pernambucano.
Acho que qualquer brasileiro pode representar Sergipe. Os critérios são políticos. O estranho é porque tantos, não sergipanos. Na história, não sei se por coincidência, os melhores senadores foram os naturais de Sergipe.
É evidente que não basta ser sergipano. O desempenho dos políticos obedece a outras variáveis. Se existem bons candidatos nas duas condições, no perfil ideológico de cada eleitor, com a competência e honradez necessárias, por que optamos quase sempre pelos de fora?
Para evitar distorções, não estou defendendo votar num sergipano despreparado, só porque ele é sergipano. Entretanto, a histórica escassez de sergipanos no Senado Federal é sintomática.
Quem se lembra de um sergipano eleito Senador, pela Bahia?
Antonio Samarone – observador da política.
domingo, 21 de dezembro de 2025
DOCE PROVÍNCIA
Doce Província.
(por Antonio Samarone)
Luiz Antonio Barreto lembrava que Aracaju era um aterro embelezado. Obra dos sergipanos. A natureza foi hostil: mangues, dunas e alagados. Enquanto o Rio de Janeiro e Salvador já nasceram belas, Aracaju foi uma luta contra os pântanos. O embelezamento foi obra dos homens.
Sonhei atravessando o Rio Sergipe a nado, à altura da Ponte do Imperador. Fui salvo por Zé Peixe. Até o centenário (1955), Aracaju era um doce província, no dizer de Garcia Moreno.
Os versos de Gregório de Mattos sobre São Cristóvão, cabiam bem para capital de Inácio Barbosa: “Três dúzias de casebres remendados,/ Seis becos, de mentrastos entupidos,/ Quinze soldados, rotos e despidos,/ Doze porcos na praça bem-criados.”
A população de Aracaju, em 1960, era de 112.516 mil habitantes. A cidade possuía 22.541 edificações, sendo 21.171 residências, 960 comércios, 78 indústrias, 123 repartições públicas, 142 escolas e 67 destinadas a outros fins.
Chama a atenção a precariedade dessas edificações: 7.662 (31,7%) eram casas de taipas e 1.135 eram barracos (casas toscas, cobertas com palhas de coqueiros ou latas velhas).
Existiam 540 vilas de quartos, totalizando 3.435 quartos (habitações coletivas de um cômodo). Os quartos de vilas eram higienicamente piores que os barracos das favelas, devido ao confinamento. 18,3% das residências possuíam piso de chão batido.
A rede geral de esgoto cobria apenas 2.255 (10%) residências. Como agravante, entre as residências não cobertas pelo esgoto, 9.870 não possuíam fossa. Na prática, 10 toneladas de fezes eram jogadas nas ruas e quintais, depois drenados para o Rio Sergipe.
A metade da população não recebia água encanada e 33,8% não tinha luz elétrica em casa, viviam à luz do candeeiro.
Em 7.817 residências não existia coleta de lixo. O balneário de Atalaia só recebia coleta de lixo no período de veraneio. Na cidade foram identificados 316 chiqueiros de porcos e 54 estábulos para bovinos. Vários matadouros para suínos, ovinos e caprinos.
A fonte dos dados é um criterioso estudo do DENERu (Departamento Nacional de Endemias Rurais), publicados pelo Dr. Alexandre Menezes, na Revista Científica do Hospital de Cirurgia.
Em 2025, o saneamento continua atrapalhando Aracaju. Com a privatização, a IGUÁ adquiriu a concessão por 35 anos, do tratamento e coleta do esgoto, em 74 municípios de Sergipe, incluindo Aracaju.
Pelo tempo, não alcançarei os resultados dessa privatização desastrada. A primeira impressão da IGUÁ é negativa.
Acho que os banhos no Rio Sergipe e a travessia a nado, da Ponte do Imperador para a Barra dos Coqueiros, são sonhos inexequíveis. Por enquanto...
Antonio Samarone – médico sanitarista.
(por Antonio Samarone)
Luiz Antonio Barreto lembrava que Aracaju era um aterro embelezado. Obra dos sergipanos. A natureza foi hostil: mangues, dunas e alagados. Enquanto o Rio de Janeiro e Salvador já nasceram belas, Aracaju foi uma luta contra os pântanos. O embelezamento foi obra dos homens.
Sonhei atravessando o Rio Sergipe a nado, à altura da Ponte do Imperador. Fui salvo por Zé Peixe. Até o centenário (1955), Aracaju era um doce província, no dizer de Garcia Moreno.
Os versos de Gregório de Mattos sobre São Cristóvão, cabiam bem para capital de Inácio Barbosa: “Três dúzias de casebres remendados,/ Seis becos, de mentrastos entupidos,/ Quinze soldados, rotos e despidos,/ Doze porcos na praça bem-criados.”
A população de Aracaju, em 1960, era de 112.516 mil habitantes. A cidade possuía 22.541 edificações, sendo 21.171 residências, 960 comércios, 78 indústrias, 123 repartições públicas, 142 escolas e 67 destinadas a outros fins.
Chama a atenção a precariedade dessas edificações: 7.662 (31,7%) eram casas de taipas e 1.135 eram barracos (casas toscas, cobertas com palhas de coqueiros ou latas velhas).
Existiam 540 vilas de quartos, totalizando 3.435 quartos (habitações coletivas de um cômodo). Os quartos de vilas eram higienicamente piores que os barracos das favelas, devido ao confinamento. 18,3% das residências possuíam piso de chão batido.
A rede geral de esgoto cobria apenas 2.255 (10%) residências. Como agravante, entre as residências não cobertas pelo esgoto, 9.870 não possuíam fossa. Na prática, 10 toneladas de fezes eram jogadas nas ruas e quintais, depois drenados para o Rio Sergipe.
A metade da população não recebia água encanada e 33,8% não tinha luz elétrica em casa, viviam à luz do candeeiro.
Em 7.817 residências não existia coleta de lixo. O balneário de Atalaia só recebia coleta de lixo no período de veraneio. Na cidade foram identificados 316 chiqueiros de porcos e 54 estábulos para bovinos. Vários matadouros para suínos, ovinos e caprinos.
A fonte dos dados é um criterioso estudo do DENERu (Departamento Nacional de Endemias Rurais), publicados pelo Dr. Alexandre Menezes, na Revista Científica do Hospital de Cirurgia.
Em 2025, o saneamento continua atrapalhando Aracaju. Com a privatização, a IGUÁ adquiriu a concessão por 35 anos, do tratamento e coleta do esgoto, em 74 municípios de Sergipe, incluindo Aracaju.
Pelo tempo, não alcançarei os resultados dessa privatização desastrada. A primeira impressão da IGUÁ é negativa.
Acho que os banhos no Rio Sergipe e a travessia a nado, da Ponte do Imperador para a Barra dos Coqueiros, são sonhos inexequíveis. Por enquanto...
Antonio Samarone – médico sanitarista.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
0 AUTO-RETRATO DE VAN GOGH.
O auto-retrato de van Gogh.
(por Antonio Samarone).
Eu estava, distraidamente, comendo a minha fatia matinal de manuê de arroz, num daqueles quiosques, na Praça da Igreja, em Itabaiana. Exato, onde nos tempos de Vila existia um frondoso jenipapeiro, quase em frente a antiga casa paroquial.
De forma inesperada, fui abordado por um senhor, com um olhar no infinito, atemporal, que me pediu dinheiro. As pessoas por aqui, pedem muito. Dependendo das motivações do suplicante, eu sou generoso.
Desta vez, este senhor me despertou velhas memórias. Tive uma sensação de intimidade (esse olhar não me é estranho) e fui direto: eu lhe conheço! José Hamilton, afirmei sem convicção.
Ele não falava, nem ria. Só balançava a cabeça, ou que sim ou que não. Criou-se um clima de simpatia. O senhor é de que família? Sempre pergunto. Ele continuou calado. Achei-o muito parecido com um auto-retrato de van Gogh, que eu tinha visto em Amsterdã.
Um senhor ao lado, entrou na conversa: ele mora no Cruzeiro, anda assim à toa, mas é manso. Não mexe com ninguém. Quis saber, e os outros mexem com ele? Não, respondeu o senhor.
Hipócrates identificava dois tipos de doenças da alma (manias): “os loucos pela fleuma, que são calmos, não gritam nem agitam; e os loucos pela bile, que nunca ficam quietos”.
O Conselho de Abdera (cidade grega), pediu ajuda a Hipócrates, para curar o sábio Demócrito, que ria de todos e de tudo e desprezava os seus concidadãos. A loucura de Demócrito não foi confirmada pelo Pai da medicina. Ao contrário, a loucura era da sociedade.
Esse mesmo enredo foi usado por Machado de Assis, no conto “O Alienista”. No conto de Machado, o alienista é Simão Bacamarte, que diagnosticou e internou como louco toda a cidade de Itaguaí, até mesmo a sua esposa. No final do conto, o doutor dá alta aos internos e interna-se sozinho, o louco era ele:
“Mas o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científica, trancou os ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde (o manicômio), entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada.” – Machado de Assis.
Pinel e Esquirol acreditavam que com a Revolução Francesa e fim do “ancien régime” a insanidade seria reduzida. Engano, aumentou. A modernidade criou os grandes manicômios. A loucura resistiu ao tratamento moral.
A psiquiatria de mercado nada tem a nos dizer, atribui o sofrimento mental a um desarranjo dos neurotransmissores, para a felicidade da indústria farmacêutica.
O estranho nesse encontro com Zé Hamilton, foi a minha memória que se abriu. Não sei como, mesmo sem ele ter dito nenhuma palavra, eu lembrei-me do nome dele. Uma interação das almas profundas.
O senhor é filho de Manuel Teles (Mané Lombriga) e Dona Maria Queimado, neto de Dona Zabilinha, da Moita Formosa? Ele arregalou os olhos, confirmando. Uma memória de 60 anos foi ativada.
Ele foi novo para São Paulo, como era regra para os pobres daqueles tempos. Tentar a vida no Sul. A minha memória fui buscar os arquivos de infância.
Eu não suspeitava que o meu velho cérebro ainda captava memórias tão distantes. Onde essas informações estavam arquivadas? Com certeza, não estavam guardadas nos neurônios ou em suas sinapses. Não estavam no cérebro. Não foi uma descarga físico-química. A ciência fechou-se para esse entendimento.
Voltando ao encontro.
Aí ficou fácil. Seu Mané, o pai, foi um carroceiro que ficou conhecido pelo peso que conseguia carregar nas costas: 120 quilos. Eu trabalhava num armazém de cereais, comprando farinha diretamente aos produtores, para revendê-la ao Paes Mendonça, na Bahia.
Mané Lombriga, pela disposição, era o carroceiro preferido. Como era previsível, ele fraturou a coluna cervical e morreu com a sequela, com um colete protetor no pescoço.
A família da mãe de Zé Hamilton é grande e enraizada em Itabaiana. Dona Maria (a mãe) é irmã de Sílvio, Manuel, Otília e Antonio Queimado, gente bem situada na sociedade. Filhos de João Queimado e Dona Maria Isabel dos Santos (Zabilinha).
Hamilton vive sob os cuidados de uma irmã, Vaneide, no Bairro São Cristóvão (Cruzeiro). Ele não é assistido pelo CAPS, mesmo sendo dependente do álcool. Ele resiste. Vou procurá-lo. Sei que ele tem muita coisa a contar. Em minha roda infantil de amigos, a insanidade mental era frequente.
O fato reforça a minha suspeita de que a consciência não é produzida nem armazenada no cérebro, como pensa a neurociência. O cérebro age como um receptor da consciência. Esse espaço não permite o aprofundamento dessa hipótese.
A nossa comunicação foi possível, sem que Zé Hamilton dissesse uma palavra. Tenho certeza que da mesma forma que lembrei dele, ele lembrou de mim. Houve uma vibração harmônica entre as nossas consciências.
Não adianta os colegas psiquiatras procurarem o caso no CID. Essas loucuras são doenças da alma, da consciência e da civilização.
Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
(por Antonio Samarone).
Eu estava, distraidamente, comendo a minha fatia matinal de manuê de arroz, num daqueles quiosques, na Praça da Igreja, em Itabaiana. Exato, onde nos tempos de Vila existia um frondoso jenipapeiro, quase em frente a antiga casa paroquial.
De forma inesperada, fui abordado por um senhor, com um olhar no infinito, atemporal, que me pediu dinheiro. As pessoas por aqui, pedem muito. Dependendo das motivações do suplicante, eu sou generoso.
Desta vez, este senhor me despertou velhas memórias. Tive uma sensação de intimidade (esse olhar não me é estranho) e fui direto: eu lhe conheço! José Hamilton, afirmei sem convicção.
Ele não falava, nem ria. Só balançava a cabeça, ou que sim ou que não. Criou-se um clima de simpatia. O senhor é de que família? Sempre pergunto. Ele continuou calado. Achei-o muito parecido com um auto-retrato de van Gogh, que eu tinha visto em Amsterdã.
Um senhor ao lado, entrou na conversa: ele mora no Cruzeiro, anda assim à toa, mas é manso. Não mexe com ninguém. Quis saber, e os outros mexem com ele? Não, respondeu o senhor.
Hipócrates identificava dois tipos de doenças da alma (manias): “os loucos pela fleuma, que são calmos, não gritam nem agitam; e os loucos pela bile, que nunca ficam quietos”.
O Conselho de Abdera (cidade grega), pediu ajuda a Hipócrates, para curar o sábio Demócrito, que ria de todos e de tudo e desprezava os seus concidadãos. A loucura de Demócrito não foi confirmada pelo Pai da medicina. Ao contrário, a loucura era da sociedade.
Esse mesmo enredo foi usado por Machado de Assis, no conto “O Alienista”. No conto de Machado, o alienista é Simão Bacamarte, que diagnosticou e internou como louco toda a cidade de Itaguaí, até mesmo a sua esposa. No final do conto, o doutor dá alta aos internos e interna-se sozinho, o louco era ele:
“Mas o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científica, trancou os ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde (o manicômio), entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada.” – Machado de Assis.
Pinel e Esquirol acreditavam que com a Revolução Francesa e fim do “ancien régime” a insanidade seria reduzida. Engano, aumentou. A modernidade criou os grandes manicômios. A loucura resistiu ao tratamento moral.
A psiquiatria de mercado nada tem a nos dizer, atribui o sofrimento mental a um desarranjo dos neurotransmissores, para a felicidade da indústria farmacêutica.
O estranho nesse encontro com Zé Hamilton, foi a minha memória que se abriu. Não sei como, mesmo sem ele ter dito nenhuma palavra, eu lembrei-me do nome dele. Uma interação das almas profundas.
O senhor é filho de Manuel Teles (Mané Lombriga) e Dona Maria Queimado, neto de Dona Zabilinha, da Moita Formosa? Ele arregalou os olhos, confirmando. Uma memória de 60 anos foi ativada.
Ele foi novo para São Paulo, como era regra para os pobres daqueles tempos. Tentar a vida no Sul. A minha memória fui buscar os arquivos de infância.
Eu não suspeitava que o meu velho cérebro ainda captava memórias tão distantes. Onde essas informações estavam arquivadas? Com certeza, não estavam guardadas nos neurônios ou em suas sinapses. Não estavam no cérebro. Não foi uma descarga físico-química. A ciência fechou-se para esse entendimento.
Voltando ao encontro.
Aí ficou fácil. Seu Mané, o pai, foi um carroceiro que ficou conhecido pelo peso que conseguia carregar nas costas: 120 quilos. Eu trabalhava num armazém de cereais, comprando farinha diretamente aos produtores, para revendê-la ao Paes Mendonça, na Bahia.
Mané Lombriga, pela disposição, era o carroceiro preferido. Como era previsível, ele fraturou a coluna cervical e morreu com a sequela, com um colete protetor no pescoço.
A família da mãe de Zé Hamilton é grande e enraizada em Itabaiana. Dona Maria (a mãe) é irmã de Sílvio, Manuel, Otília e Antonio Queimado, gente bem situada na sociedade. Filhos de João Queimado e Dona Maria Isabel dos Santos (Zabilinha).
Hamilton vive sob os cuidados de uma irmã, Vaneide, no Bairro São Cristóvão (Cruzeiro). Ele não é assistido pelo CAPS, mesmo sendo dependente do álcool. Ele resiste. Vou procurá-lo. Sei que ele tem muita coisa a contar. Em minha roda infantil de amigos, a insanidade mental era frequente.
O fato reforça a minha suspeita de que a consciência não é produzida nem armazenada no cérebro, como pensa a neurociência. O cérebro age como um receptor da consciência. Esse espaço não permite o aprofundamento dessa hipótese.
A nossa comunicação foi possível, sem que Zé Hamilton dissesse uma palavra. Tenho certeza que da mesma forma que lembrei dele, ele lembrou de mim. Houve uma vibração harmônica entre as nossas consciências.
Não adianta os colegas psiquiatras procurarem o caso no CID. Essas loucuras são doenças da alma, da consciência e da civilização.
Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
sábado, 13 de dezembro de 2025
MEMÓRIAS DE MANÉ BARRACA
Memórias de Mané Barraca.
(por Antonio Samarone)
O banzo (loucura nostálgica) e a tísica pulmonar eram frequentes no Tabuleiro dos Caboclos. Seu Manuel cuidava do banzo. A peste branca matava. Não existia tratamento para a tuberculose: o poeta Castro Alves (38 anos) e o Imperador Pedro I (36 anos), foram vítimas.
Mané Barraca era o pajé do Tabuleiro. Um negro alto, de fala mansa e gestos imponentes. No alto do seu oratório tinha um quadro de Jacques de Molay, a caminho da fogueira; ao lado da figura de Bafomé, esculpida em barro.
Se dizia que essa influência templária, foi deixada por um “maçone”, dono de engenho no Zanguê, no final do século XIX. Um ancestral do doutor Átalo e Grampão.
Seu Manuel era um misto de sacerdote, pajé e curador. Fazia as suas mandingas em Iorubá. No canto do oratório existia um manuscrito, com a farmacopeia jesuítica, incluindo a composição do “triaga brasílica!”. Fui seu cliente. Mamãe temia o quebranto, uma prostração causada por maus-olhados.
Seu fosse necessário, em casos urgentes, o mandingueiro Mané Barraca, lancetava, sangrava, sarjava e partejava. Era pau para toda a obra. Um benemérito, não cobrava.
A casuística de Mané Barraca incluía a gota serena (avitaminose A), bicho de pé (tunga), sarna, sapinho, impingem, antraz, pereba, ventosidade, opilação, gonorreia, malinas, tosse comprida, bexiga, sezões, fleimão e unheiro. O "morbus sacer" era tida como possessão.
Entretanto, o caso mais famoso de Mané Barraca, foi a cura de Zuzu do Matebe, ex escravizado, paneleiro e Pai de Santo. Seu Zuzu entristeceu, depois que a polícia mandou fechar o seu Terreiro.
Deixou de comer, só andava muzumbudo, emburrado pelos cantos.
Seu Zuzu perdeu a liberdade religiosa e cultural. Uma melancolia profunda pela perda da liberdade. O diagnóstico foi preciso: banzo! Uma doença que acometia os escravizados, quando chegavam ao Brasil, uma nostalgia profunda da pátria africana.
Mané Barraca, percebeu as semelhanças, no fundo, era a mesma perda da liberdade.
Martim Cascavel, um poderoso Coronel do Bom Jardim, ficou sabendo do caso e se ofereceu para ajudar. O tratamento era a reabertura do Terreiro. Dito e feito. A ordem foi dada: pode abrir!
Ouvia Seu Sancho contar, nas bodegas do Beco Novo, esse caso de banzo. Talvez o último, tratado por Mané Barraca. Nesse tempo, a doença já estava em extinção. Seu Zuzu montou o novo Terreiro, nas proximidades do Açude Velho. O banzo foi curado.
Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2025
O REINO DE MIL ANOS
O reino de mil anos.
(por Antonio Samarone)
“Se alguém está destinado à prisão,/ irá para a prisão;/ se alguém deve morrer pela espada,/ é preciso que morra pela espada.” – Apocalipse 13,10.
A Besta foi vista no Caribe.
A Besta tem cabelos de fogo.
O tempo está próximo.
Aniquilarei os homens da face da terra.
Está próxima a grande tribulação.
Gaza já foi abandonada.
A sétima trombeta anunciou
A rosa hereditária.
É o fim das terras de Bolívar. Nos resta, uma madura solidariedade.
Eu sempre tive uma fantasia tridentina: assistir ao Armagedom pela TV, comparecer ao juízo final e ser um dos poucos escolhidos.
Entendam, o Paraíso não cabe todo o mundo. Creio que o juízo final será transmitido ao vivo, com acesso a perguntas. Basta saber o login e a senha.
Que me digais,/ Pois morri tão sem aviso,/ Se a barca do Paraíso/ É esta em que navegais?” – Gil Vicente.
Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.
(por Antonio Samarone)
“Se alguém está destinado à prisão,/ irá para a prisão;/ se alguém deve morrer pela espada,/ é preciso que morra pela espada.” – Apocalipse 13,10.
A Besta foi vista no Caribe.
A Besta tem cabelos de fogo.
O tempo está próximo.
Aniquilarei os homens da face da terra.
Está próxima a grande tribulação.
Gaza já foi abandonada.
A sétima trombeta anunciou
A rosa hereditária.
É o fim das terras de Bolívar. Nos resta, uma madura solidariedade.
Eu sempre tive uma fantasia tridentina: assistir ao Armagedom pela TV, comparecer ao juízo final e ser um dos poucos escolhidos.
Entendam, o Paraíso não cabe todo o mundo. Creio que o juízo final será transmitido ao vivo, com acesso a perguntas. Basta saber o login e a senha.
Que me digais,/ Pois morri tão sem aviso,/ Se a barca do Paraíso/ É esta em que navegais?” – Gil Vicente.
Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2025
A MISSA DO GALO
A Missa do Galo.
(por Antonio Samarone)
Os Natais começavam com os presépios. Na primeira semana, Dona Dezí esposa de Seu Jeconias, montava o seu presépio, na sala de visitas de sua casa. O menino Jesus ficava na manjedoura, esperando os Reis Magos. Se sabia até os nomes dos monarcas orientais: Belchior, Gaspar e Baltazar. Eles seguiam uma estrela e traziam ouro, incenso e mirra. Não me perguntem, eu não sei o que é “mirra”.
O presépio de Dona Dezí era de visita obrigatória.
O Natal nasceu em Roma, como festa pagã. Saturnália e o Natalis Solis Invicti (Nascimento do Sol Invicto) celebradas no solstício de inverno (25 de dezembro). O cristianismo associou a data ao nascimento de Cristo. Eu ainda alcancei o Natal como uma festa cristã.
O Natal sempre foi um tempo de presentes e roupas novas. O ponto máximo do Natal era a missa do galo, tarde da noite.
Depois da missa, os ricos organizavam um jantar em família. Os pobres e remediados iam à Feirinha de Natal, comer arroz amigo com galinha de capoeira, nas banquinhas das cozinheiras, no final da Praça de Santa Cruz. Quando me lembro, sinto o cheiro e ainda me dá água na boca.
No Beco Novo, se dizia que um galo tinha cantado a meia-noite, anunciando a boa nova, o nascimento de Cristo. Eu, até hoje, acredito no canto desse galo. Fiquei sabendo que não existe mais a missa do galo.
Depois da missa, descíamos aos magotes para Praça de Santa Cruz, onde estava montada a Feirinha de Natal. A festa consistia num parque de diversão, totalmente artesanal. Os principais brinquedos eram: barcas, carrosséis, o balanço de Seu Otávio, a onda de Zé Costa, o trivoli de Miguel Fagundes, todos empurrados pelos músculos humanos.
Outra atração para os adultos eram os jogos de azar. Carteado, pio, roleta, argola e o jogo do preá. Os prêmios das roletas eram goiabadas, peixe e palmeiron. Meu pai gastava as economias nas roletas de natal. Ele chegava em casa, cansado, com os bolsos vazios e as mãos cheias de goiabadas.
Papai se considerava um vencedor nas roletas de Natal. Chegar em casa com as mãos abanando, era um sinal de derrota.
O jogo do preá era uma mesa enfeitada, cercada de casinhas numeradas. O coitado do preá era solto no meio da mesa e, empurrado aos gritos, para se esconder dos humanos, em uma das casinhas. O número da casa escolhida pelo atordoado preá, era o número vencedor. Naquele tempo, era permitido se maltratar os animais.
A Feirinha de Natal era sortida de vendas de doces, frutas e bugigangas. Foi numa dessas feirinhas, aos 13 anos, onde eu experimentei a maça pela primeira vez. Gastei tudo o que tinha, mas comprei a maça. Movido pela curiosidade em saber o que Adão viu na maça, para ele perder o Paraíso, e pelo cheiro de um papel azul que enrolava o fruto proibido.
Uma decepção: não gostei da minha primeira maça. Preferia ingá, tamarindo, oiti, cajarana, imbu e juá.
Ao fundo da feirinha, um alto-falante tocava boleros e mandava recados para os enamorados: alguém oferece, apaixonadamente, a uma moça de saia plissada e blusa de alcinha, as músicas que seguem. A música mais tocada era “Esta noite eu queria que o mundo acabasse...”, na voz de Silvinho.
Papai Noel já existia, trazido por Fefi, do Armarinho Tem-Tem. Porém, nunca passou no Beco Novo. Para ser sincero, eu nunca acreditei. Eu conheci o Papai Noel em Aracaju.
A chamada Festa de Natal, se repetia no Ano Bom e no dia de Reis. Cada povoado fazia a sua, em dias diferentes. Meu pai me levava para o Natal das Candeias, onde ele nasceu.
Hoje, as cidades se iluminam de leds, pisca-piscas, arvores de natal, renas e Papai Noel. Muitos, um em cada esquina tem um. Nada contra, o Natal voltou a ser uma festa pagã.
Em Itabaiana, além das luzes, montaram um moderno parque de diversões, onde tem até montanha-russa e, acompanhando as novidades, o competente Marquinhos inventou um castelo medieval, daqueles da Disney. O castelo foi fabricado pela Tuchê Impressão, uma empresa local.
A festa está bonita e animada em Itabaiana, com corais, bandas e teatro.
Eu só acho que a igreja católica, assistiu à derrota passivamente. Gente, pelo menos deixassem a missa do galo.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
(por Antonio Samarone)
Os Natais começavam com os presépios. Na primeira semana, Dona Dezí esposa de Seu Jeconias, montava o seu presépio, na sala de visitas de sua casa. O menino Jesus ficava na manjedoura, esperando os Reis Magos. Se sabia até os nomes dos monarcas orientais: Belchior, Gaspar e Baltazar. Eles seguiam uma estrela e traziam ouro, incenso e mirra. Não me perguntem, eu não sei o que é “mirra”.
O presépio de Dona Dezí era de visita obrigatória.
O Natal nasceu em Roma, como festa pagã. Saturnália e o Natalis Solis Invicti (Nascimento do Sol Invicto) celebradas no solstício de inverno (25 de dezembro). O cristianismo associou a data ao nascimento de Cristo. Eu ainda alcancei o Natal como uma festa cristã.
O Natal sempre foi um tempo de presentes e roupas novas. O ponto máximo do Natal era a missa do galo, tarde da noite.
Depois da missa, os ricos organizavam um jantar em família. Os pobres e remediados iam à Feirinha de Natal, comer arroz amigo com galinha de capoeira, nas banquinhas das cozinheiras, no final da Praça de Santa Cruz. Quando me lembro, sinto o cheiro e ainda me dá água na boca.
No Beco Novo, se dizia que um galo tinha cantado a meia-noite, anunciando a boa nova, o nascimento de Cristo. Eu, até hoje, acredito no canto desse galo. Fiquei sabendo que não existe mais a missa do galo.
Depois da missa, descíamos aos magotes para Praça de Santa Cruz, onde estava montada a Feirinha de Natal. A festa consistia num parque de diversão, totalmente artesanal. Os principais brinquedos eram: barcas, carrosséis, o balanço de Seu Otávio, a onda de Zé Costa, o trivoli de Miguel Fagundes, todos empurrados pelos músculos humanos.
Outra atração para os adultos eram os jogos de azar. Carteado, pio, roleta, argola e o jogo do preá. Os prêmios das roletas eram goiabadas, peixe e palmeiron. Meu pai gastava as economias nas roletas de natal. Ele chegava em casa, cansado, com os bolsos vazios e as mãos cheias de goiabadas.
Papai se considerava um vencedor nas roletas de Natal. Chegar em casa com as mãos abanando, era um sinal de derrota.
O jogo do preá era uma mesa enfeitada, cercada de casinhas numeradas. O coitado do preá era solto no meio da mesa e, empurrado aos gritos, para se esconder dos humanos, em uma das casinhas. O número da casa escolhida pelo atordoado preá, era o número vencedor. Naquele tempo, era permitido se maltratar os animais.
A Feirinha de Natal era sortida de vendas de doces, frutas e bugigangas. Foi numa dessas feirinhas, aos 13 anos, onde eu experimentei a maça pela primeira vez. Gastei tudo o que tinha, mas comprei a maça. Movido pela curiosidade em saber o que Adão viu na maça, para ele perder o Paraíso, e pelo cheiro de um papel azul que enrolava o fruto proibido.
Uma decepção: não gostei da minha primeira maça. Preferia ingá, tamarindo, oiti, cajarana, imbu e juá.
Ao fundo da feirinha, um alto-falante tocava boleros e mandava recados para os enamorados: alguém oferece, apaixonadamente, a uma moça de saia plissada e blusa de alcinha, as músicas que seguem. A música mais tocada era “Esta noite eu queria que o mundo acabasse...”, na voz de Silvinho.
Papai Noel já existia, trazido por Fefi, do Armarinho Tem-Tem. Porém, nunca passou no Beco Novo. Para ser sincero, eu nunca acreditei. Eu conheci o Papai Noel em Aracaju.
A chamada Festa de Natal, se repetia no Ano Bom e no dia de Reis. Cada povoado fazia a sua, em dias diferentes. Meu pai me levava para o Natal das Candeias, onde ele nasceu.
Hoje, as cidades se iluminam de leds, pisca-piscas, arvores de natal, renas e Papai Noel. Muitos, um em cada esquina tem um. Nada contra, o Natal voltou a ser uma festa pagã.
Em Itabaiana, além das luzes, montaram um moderno parque de diversões, onde tem até montanha-russa e, acompanhando as novidades, o competente Marquinhos inventou um castelo medieval, daqueles da Disney. O castelo foi fabricado pela Tuchê Impressão, uma empresa local.
A festa está bonita e animada em Itabaiana, com corais, bandas e teatro.
Eu só acho que a igreja católica, assistiu à derrota passivamente. Gente, pelo menos deixassem a missa do galo.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
AS SANDÁLIAS DA HUMILDADE
As Sandálias da Humildade.
(por Antonio Samarone)
As matas de Itabaiana foram derrubadas para se plantar algodão, na segunda metade do século XIX. Os povoados Saco do Ribeiro e Chã do Jenipapo tornaram-se Vilas, depois Cidades (Ribeirópolis e Frei Paulo).
No Brasil, as árvores perderam as identidades biológicas, para facilitar o desmatamento. Uma nobre braúna preta vira um anônimo pé-de-pau. Só recentemente, a arborização em Itabaiana se tornou realidade. As pessoas não queriam árvores, para não quebrar as suas calçadas.
Nesse Natal, o Prefeito decidiu embelezar a Praça da Igreja. Um jardinagem bem cuidada e o plantio de novas árvores. Na execução, o trabalho voluntário de um ex Deputado Federal.
Está lá o homem (foto), gadanho na mão, acompanhando os plantios de flores tropicais. Parece um Burle Marx de aldeia, um maestro da natureza.
Quem é esse Deputado?
Sua excelência Wilson Cunha (Jia). Vereador de Itabaiana por dois mandatos, Deputado Estadual (1991/95) e Deputado Federal (1995/99).
Wilson Cunha (Jia), nasceu no Povoado Água Branca, em 10 de agosto de 1951. Filho de Antonio Francisco da Cunha e Dona Joana Perpétua da Cunha. Uma família numerosa: Zé Cunha, Nivaldo, Zé Augusto, Ireno, Arnaldo (Cunha), Rivaldo, Maria, Bernadete, Neném, Carminha e João Namorador.
João Namorador morreu novo, com o amigo Carbureto, num acidente de trânsito, na perigosa ladeira de Frei Paulo.
Seu Antonio de Franco, o pai, foi um rico comerciante, represente da farinha-do-reino (Moinhos, Salvador e Sergipe), para todo o agreste. A família foi criada em rédea curta, sob férrea disciplina.
Wilson Cunha fez o primário na escola da temida Maria de Branquinha, uma professora que não se acanhava em usar a palmatória e os castigos merecidos (ou não).
Wilson começou a gazear, faltar as aulas para acompanhar a malandragem. A infração tornou-se insuportável, para os princípios do educandário.
Dona Maria de Branquinha ameaçou Wilson de expulsão. Quando Seu Antonio de Franco soube, tomou as providências. Nessas gazeadas, Wilson foi com a molecada tomar banho no Açude do Matadouro. O pai e a professora resolveram armar um flagrante, foram em comitiva buscar o peralta no banho.
Com a chegada da volante na beira do açude, os meninos saíram rapidamente e botaram as suas roupas (tomavam banhos nus). Wilson resistiu. Quanto mais a professora gritava, sai Wilson, já lhe vimos. Não precisa se esconder.
Wilson, acuado e com medo da surra, encontrou uma saída: eu sou uma Jia, vocês estão enganados, não sou eu. Um prato cheio: virou Jia até hoje.
Jia ainda foi aluno do Professor Airton Silva (Órion). Concluiu o curso ginasial no Murilo Braga. Jia não continuou os estudos.
O Pai era rico, permitiu que Jia começasse a inventar coisas.
Montou o time de futebol de salão, e batizou-o com o nome de Curitiba. Depois foi para o futebol de campo, chegando a disputar o campeonato de profissionais. O vício de Cartola é forte. Ele ainda possui uma escolinha de futebol, que se mantém com subsídios da Prefeitura.
Jia casou bem, em 16/12/1978, com uma neta de Viera do Couro. A bem nascida Vânia Vieira, e tiveram 4 filhos.
Um cidadão pacato, amigo de todo mundo, Wilson foi estimulado a entrar para a política, pelo grupo de Chico de Miguel. Elegeu-se Vereador por dois mandatos. Tomou gosto, entrou no PDT de Almeida Lima, e chegou a Assembleia Legislativa. O PDT elegeu 2 deputados. De forma inesperada, Jia foi o segundo, tomou a vaga do famoso Bosco Mendonça.
Durante o seu mandato estadual, o Governador João Alves, concedeu ao Curitiba, em comodato, o antigo Módulo Esportivo, em Itabaiana. Para facilitar a administração, Jia construiu uma casa e foi morar no Módulo.
Depois, no local, foi construído o atual Ginásio Poliesportivo Chico do Cantagalo.
Como outsider, sem pertencer aos grupos tradicionais da política, Jia elegeu-se Deputado Federal. Um milagre político. Jia votou pela reeleição de Fernando Henrique, seu principal voto. No mandato Federal, Jia passou a frequentar a intimidade do Rei Pelé (Ministro dos Esportes). Ele quer criar um monumento a Pelé, em Itabaiana.
Em outra aventura, Jia adquiriu, com escritura pública, uma área de 219 hectares no miolo da Serra de Itabaiana. Foi dono dos Poços das Moças. O objetivo era construir uma reserva particular e um Parque. Encomendou o projeto a célebre Kátia Loureiro, uma arquiteta que encantou Sergipe.
Já fora da política, Jia enfrentou reações e protestos ao seu projeto. Areia Branca se mobilizou contra. O seu pedido no IBAMA não andava.
Nesse conflito, o Presidente do IBAMA em Sergipe, conseguiu, em 15 de junho de 2005, a aprovação do decreto, criando o “Parque Nacional Serra de Itabaiana”, com 8 mil hectares, que continua sem as necessárias desapropriações.
Os 219 hectares do Parque de Jia, foram desapropriados por uma ninharia: 300 reais por hectares. Fazendo a conta: R$ 65.700,00, ou seja, só o Poço das Moças valia mais. Nesse episódio, Jia foi acusado de ter invadido a Serra de Itabaiana.
O pacato Jia, 75 anos, vive da aposentadoria de deputado estadual. Não possui patrimônio, em seu nome. Vive modestamente. Não ficou rico. Como forma de retribuir o que recebeu dos itabaianenses, dedica-se a jardinagem pública. Sente-se bem com a beleza das flores.
Jia conseguiu uma velhice feliz, sem apegos as coisas materiais.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
(por Antonio Samarone)
As matas de Itabaiana foram derrubadas para se plantar algodão, na segunda metade do século XIX. Os povoados Saco do Ribeiro e Chã do Jenipapo tornaram-se Vilas, depois Cidades (Ribeirópolis e Frei Paulo).
No Brasil, as árvores perderam as identidades biológicas, para facilitar o desmatamento. Uma nobre braúna preta vira um anônimo pé-de-pau. Só recentemente, a arborização em Itabaiana se tornou realidade. As pessoas não queriam árvores, para não quebrar as suas calçadas.
Nesse Natal, o Prefeito decidiu embelezar a Praça da Igreja. Um jardinagem bem cuidada e o plantio de novas árvores. Na execução, o trabalho voluntário de um ex Deputado Federal.
Está lá o homem (foto), gadanho na mão, acompanhando os plantios de flores tropicais. Parece um Burle Marx de aldeia, um maestro da natureza.
Quem é esse Deputado?
Sua excelência Wilson Cunha (Jia). Vereador de Itabaiana por dois mandatos, Deputado Estadual (1991/95) e Deputado Federal (1995/99).
Wilson Cunha (Jia), nasceu no Povoado Água Branca, em 10 de agosto de 1951. Filho de Antonio Francisco da Cunha e Dona Joana Perpétua da Cunha. Uma família numerosa: Zé Cunha, Nivaldo, Zé Augusto, Ireno, Arnaldo (Cunha), Rivaldo, Maria, Bernadete, Neném, Carminha e João Namorador.
João Namorador morreu novo, com o amigo Carbureto, num acidente de trânsito, na perigosa ladeira de Frei Paulo.
Seu Antonio de Franco, o pai, foi um rico comerciante, represente da farinha-do-reino (Moinhos, Salvador e Sergipe), para todo o agreste. A família foi criada em rédea curta, sob férrea disciplina.
Wilson Cunha fez o primário na escola da temida Maria de Branquinha, uma professora que não se acanhava em usar a palmatória e os castigos merecidos (ou não).
Wilson começou a gazear, faltar as aulas para acompanhar a malandragem. A infração tornou-se insuportável, para os princípios do educandário.
Dona Maria de Branquinha ameaçou Wilson de expulsão. Quando Seu Antonio de Franco soube, tomou as providências. Nessas gazeadas, Wilson foi com a molecada tomar banho no Açude do Matadouro. O pai e a professora resolveram armar um flagrante, foram em comitiva buscar o peralta no banho.
Com a chegada da volante na beira do açude, os meninos saíram rapidamente e botaram as suas roupas (tomavam banhos nus). Wilson resistiu. Quanto mais a professora gritava, sai Wilson, já lhe vimos. Não precisa se esconder.
Wilson, acuado e com medo da surra, encontrou uma saída: eu sou uma Jia, vocês estão enganados, não sou eu. Um prato cheio: virou Jia até hoje.
Jia ainda foi aluno do Professor Airton Silva (Órion). Concluiu o curso ginasial no Murilo Braga. Jia não continuou os estudos.
O Pai era rico, permitiu que Jia começasse a inventar coisas.
Montou o time de futebol de salão, e batizou-o com o nome de Curitiba. Depois foi para o futebol de campo, chegando a disputar o campeonato de profissionais. O vício de Cartola é forte. Ele ainda possui uma escolinha de futebol, que se mantém com subsídios da Prefeitura.
Jia casou bem, em 16/12/1978, com uma neta de Viera do Couro. A bem nascida Vânia Vieira, e tiveram 4 filhos.
Um cidadão pacato, amigo de todo mundo, Wilson foi estimulado a entrar para a política, pelo grupo de Chico de Miguel. Elegeu-se Vereador por dois mandatos. Tomou gosto, entrou no PDT de Almeida Lima, e chegou a Assembleia Legislativa. O PDT elegeu 2 deputados. De forma inesperada, Jia foi o segundo, tomou a vaga do famoso Bosco Mendonça.
Durante o seu mandato estadual, o Governador João Alves, concedeu ao Curitiba, em comodato, o antigo Módulo Esportivo, em Itabaiana. Para facilitar a administração, Jia construiu uma casa e foi morar no Módulo.
Depois, no local, foi construído o atual Ginásio Poliesportivo Chico do Cantagalo.
Como outsider, sem pertencer aos grupos tradicionais da política, Jia elegeu-se Deputado Federal. Um milagre político. Jia votou pela reeleição de Fernando Henrique, seu principal voto. No mandato Federal, Jia passou a frequentar a intimidade do Rei Pelé (Ministro dos Esportes). Ele quer criar um monumento a Pelé, em Itabaiana.
Em outra aventura, Jia adquiriu, com escritura pública, uma área de 219 hectares no miolo da Serra de Itabaiana. Foi dono dos Poços das Moças. O objetivo era construir uma reserva particular e um Parque. Encomendou o projeto a célebre Kátia Loureiro, uma arquiteta que encantou Sergipe.
Já fora da política, Jia enfrentou reações e protestos ao seu projeto. Areia Branca se mobilizou contra. O seu pedido no IBAMA não andava.
Nesse conflito, o Presidente do IBAMA em Sergipe, conseguiu, em 15 de junho de 2005, a aprovação do decreto, criando o “Parque Nacional Serra de Itabaiana”, com 8 mil hectares, que continua sem as necessárias desapropriações.
Os 219 hectares do Parque de Jia, foram desapropriados por uma ninharia: 300 reais por hectares. Fazendo a conta: R$ 65.700,00, ou seja, só o Poço das Moças valia mais. Nesse episódio, Jia foi acusado de ter invadido a Serra de Itabaiana.
O pacato Jia, 75 anos, vive da aposentadoria de deputado estadual. Não possui patrimônio, em seu nome. Vive modestamente. Não ficou rico. Como forma de retribuir o que recebeu dos itabaianenses, dedica-se a jardinagem pública. Sente-se bem com a beleza das flores.
Jia conseguiu uma velhice feliz, sem apegos as coisas materiais.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2025
O DIREITO DE MIJAR
O Direito de Mijar.
(por Antonio Samarone)
A Constituição Federal, de 1988, em seu artigo 5º, estabeleceu os direitos fundamentais. O direito de ir e vir, lazer, transporte, liberdade de expressão, inviolabilidade, de expressão, de resposta, de propriedade... , etc. Quase uma centena.
E o direito de mijar? Nada! Vamos apresentar uma emenda coletiva, de iniciativa popular.
A necessidade incontida de mijar, sem um local disponível, é um sofrimento que só sabe quem precisa. Nas festas públicas, ensopados de cervejas, os brincantes mijam atrás dos postes, dentro de garrafas PET ou em um canto escuro.
A lei obriga a existência banheiros provisórios. Um horror: quentes, inseguros, sem privacidade, malcheirosos, sem papel higiênicos e piso sujo. Um inferno!
Se alguém soltar o barro nesses banheiros, ficam interditados para o resto da festa. O mau cheiro chega ao palco.
No dia-a-dia, os idosos, diabéticos, os que sofrem de algum tipo de incontinência, padecem em via pública, em busca de um simples sanitário.
Os bares e restaurantes são obrigados a ofertarem esse serviço a clientela. Como transeunte, tente usá-los. Será recebido com uma cara feia. No mínimo.
A maioria desses banheiros estão fechados, a pessoa que precisar, vai pedir a chave ao gerente, que deixa claro, com a má vontade, que está lhe fazendo um grande favor. Na Bahia, os turistas pagam uma taxa do mijo.
Antes, as Prefeituras construíam banheiros nas praças, mercados e logradouro. O difícil era a manutenção. A sujeira e a depredação eram regras. O que fazer?
A Prefeitura de Itabaiana recorreu à Inteligência Artificial, e implantou banheiros públicos, que se limpam sozinhos. Liberam bom ar. O papel higiênico é automático, o cristão basta não se mexer muito.
Vejam a foto. A máquina é automática.
O mais interessante, o banheiro fala. O abençoado para na porta, o banheiro ordena: aperte o botão. A porta se abre, o banheiro parece que nunca foi usado. Cem por cento limpo e cheiroso.
O banheiro comanda: pode começar. O sujeito, desconfiado, olha para ter a certeza que não tem uma câmara escondida. E relaxa. Terminado o serviço, o banheiro detona a descarga. E ainda pergunta, satisfeito? Você não sabe se responde ou apenas balança a cabeça confirmando.
Terminada a necessidade, o banheiro avisa: você ainda tem 15 minutos. Tem que fique, só admirando.
Não adianta querer mijar fora do vaso. O banheiro não deixa. Nada de depredações, nada de escrever bobagens nas paredes (como nos antigos banheiros públicos), cuspir no chão, nem falar alto. O banheiro é uma lição de higiene.
Soube, que já existem caravanas, que veem fazer compras em Itabaiana, só para aproveitar o sanitário inteligente e mijarem sossegados. E ainda, sair contando para os descrentes.
Tem gente que vai aproveitar o Natal em Itabaiana, só para soltar o mijo preso.
A Revolução Francesa esqueceu de incluir em seus “Direitos Humanos”, o direito de mijar, a hora que precisar, protegido dos olhares indiscretos.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
O CORETO DE ROUPA NOVA
O Coreto de roupa nova.
(Por Antonio Samarone)
Os Coretos nasceram na China. Originalmente, um local ao ar livre para apresentações musicais, sobretudo os cânticos.
Quando o homem começou a cantar, já dançava, soprava flauta, pintava e esculpia. Todas voltadas para a sobrevivência. Só o canto é sublime. Canta-se para seduzir os deuses.
Os antropólogos conhecem as dificuldades para as mulheres sertanejas entoarem as “excelências”, em velórios e sepultamentos. Os cânticos sacralizam os velórios, encantam os deuses e aproxima a eternidade.
Os Templários subiam as fogueiras cantando. Quem canta, seus males espantam.
“A ferida de Ulisses, feita pelo javali no monte Parnaso, foi sarada pelo filho de Autólicus, cantando a fórmula que fazia cessar a hemorragia.” – Câmara Cascudo.
No Brasil, os coretos datam do período colonial. Entretanto, a sua disseminação deveu-se ao movimento Tenentista, na ânsia de difundir o nacionalismo. As bandas marciais precisavam de um espaço para os seus dobrados.
A Revolução de 1930, trouxe os coretos. O de Itabaiana (foto) é de 1934, construído na gestão do Intendente Othoniel Dorea. Um coreto quase centenário, 91 anos.
Com o tempo, os coretos caíram em desuso. Foram meio esquecidos.
Esse ano, em Itabaiana, os velhinhos da Praça da Igreja tomaram as dores do coreto. Protestaram: não é justo a prefeitura colocar na praça, sanitários comandados pela inteligência artificial, que até fala, e deixar o velho coreto abandonado.
A Praça está sendo ajardinada nos moldes de Versalhes, superando os jardins suspensos da Babilônia. Já é a Praça mais bela de Sergipe.
Pedido atendido: o coreto foi embelezado e entrará o ano novo de roupa nova.
Por falar em Natal, Itabaiana acenderá as luzes na sexta-feira, dia 05, depois da missa das 19 horas, na Matriz de Santo Antonio e Almas. Vale a pena.
Antonio Samarone – Secretario de Cultura de Itabaiana.
(Por Antonio Samarone)
Os Coretos nasceram na China. Originalmente, um local ao ar livre para apresentações musicais, sobretudo os cânticos.
Quando o homem começou a cantar, já dançava, soprava flauta, pintava e esculpia. Todas voltadas para a sobrevivência. Só o canto é sublime. Canta-se para seduzir os deuses.
Os antropólogos conhecem as dificuldades para as mulheres sertanejas entoarem as “excelências”, em velórios e sepultamentos. Os cânticos sacralizam os velórios, encantam os deuses e aproxima a eternidade.
Os Templários subiam as fogueiras cantando. Quem canta, seus males espantam.
“A ferida de Ulisses, feita pelo javali no monte Parnaso, foi sarada pelo filho de Autólicus, cantando a fórmula que fazia cessar a hemorragia.” – Câmara Cascudo.
No Brasil, os coretos datam do período colonial. Entretanto, a sua disseminação deveu-se ao movimento Tenentista, na ânsia de difundir o nacionalismo. As bandas marciais precisavam de um espaço para os seus dobrados.
A Revolução de 1930, trouxe os coretos. O de Itabaiana (foto) é de 1934, construído na gestão do Intendente Othoniel Dorea. Um coreto quase centenário, 91 anos.
Com o tempo, os coretos caíram em desuso. Foram meio esquecidos.
Esse ano, em Itabaiana, os velhinhos da Praça da Igreja tomaram as dores do coreto. Protestaram: não é justo a prefeitura colocar na praça, sanitários comandados pela inteligência artificial, que até fala, e deixar o velho coreto abandonado.
A Praça está sendo ajardinada nos moldes de Versalhes, superando os jardins suspensos da Babilônia. Já é a Praça mais bela de Sergipe.
Pedido atendido: o coreto foi embelezado e entrará o ano novo de roupa nova.
Por falar em Natal, Itabaiana acenderá as luzes na sexta-feira, dia 05, depois da missa das 19 horas, na Matriz de Santo Antonio e Almas. Vale a pena.
Antonio Samarone – Secretario de Cultura de Itabaiana.
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
PEDRO DA JABÁ
Pedro da Jabá.
(por Antonio Samarone)
A carne salgada e seca é milenar, não foi inventada no Nordeste. Aqui, virou carne do sol. Nos Pampas, a carne seca, salgada, com cura úmida e prensagem, virou Jabá (charque), que teve excelente aceitação no Nordeste.
A jabá pode ser consumida crua, conservada fora da geladeira e combina com farinha. A farofa de jabá de Zefinha de Catulino, já é servida nos melhores restaurantes de Paris.
Nas feijoadas, o único prato exclusivamente brasileiro, cabe de tudo, mas só não pode faltar a jabá. Pode faltar até pé e orelha de porco, mas a jabá é imprescindível.
A paçoca é uma iguaria.
Jabá ou jabaculê também é sinônimo de propina. O tradicional “jabá com abóbora”, oferecido por Rosalvo Alexandre aos jornalistas, em Aracaju, no final do ano, era uma sátira provocativa bem recebida.
Itabaiana, já foi um centro distribuidor do charque. A banca de Joãozinho de Norato era a mais sortida da feira. Joãozinho era casado com Dona Melinha, filha de Nicolau do Fumo.
Joãozinho de Norato morreu “de repente”, num domingo de 1959, no mesmo dia em que o Itabaiana foi campeão da Zona Centro. Guardei na memória esse dia.
Joãozinho e Melinha tiveram uma prole numerosa. Melinha, era irmã da minha avó, Maria do Céu.
Aqui entra o nosso personagem. Pedro da Jabá, que por 30 anos, monopolizou a distribuição da jabá em Sergipe.
Pedro Almeida Meira (Pedro da Jabá), nasceu em Itabaiana, no povoado Alto do Coqueiro (atual Moita Bonita), em 30 de janeiro de 1924, filho de Francisco Antonio Meira e Maria Francisca de Jesus.
Pedro, tirou a sorte grande, casou-se, em 1947, com Zuzu (Maria Amélia), filha de Joãozinho de Norato. Com pouco tempo, envolveu-se com o sogro no negócio da Jabá. Com o talento empreendedor nato, Pedro começou a crescer.
Pedro se meteu em política, apoiando Jason Correia, do PSD. Euclides Paes Mendonça, da UDN, virou chefe politico e botou Pedro para correr de Itabaiana.
Aracaju, foi um paraíso para os negócios de Pedro. Com a morte do sogro, herdou o negócio da jabá. Montou a Casa do Charque, na Avenida José do Prado Franco. Depois montou filiais na Rua Santa Rosa e na Avenida Coelho e Campos. Se tornou o Rei da Jabá.
Pedro da Jabá importava toda a produção do Sul do País. Passou a integrar uma plêiade de comerciantes itabaianenses, regionalmente bem sucedidos, a partir da década de 1950.
Lembrando alguns: Oviedo Teixeira, Mamede Paes Mendonça, Albino Silva da Fonseca, José Francisco da Cunha (Zé de Luiz de Rola), Pedro Paes Mendonça, Gentil Barbosa e Noel Barbosa. Faltou alguém?
Em meados do século XX, com a chegada da BR – 235, Itabaiana tornou-se um polo comercial. Um salto no desenvolvimento. A mudança foi impulsionada pelos caminhoneiros e talento mercantil dos ceboleiros. O itabaianense é bom de balcão, ou seja, sabe vender o “peixe”.
Sem bairrismo, o tino comercial do itabaianense, até hoje, é mola propulsora da economia sergipana. Pedro da Jabá foi pioneiro, deixou o exemplo.
Pedro da Jabá e Dona Zuzu deixaram muitos filhos: Reges Meira (médico oncologista), Regivalda, Rivanda, Renato, Ronaldo (Chita, meu colega das peladas de praia, no sítio Bonanza) e Ronmildo. Deixou uma centena de netos e bisnetos.
Pedro da Jabá cresceu por méritos, e compõe a galeria de ceboleiros que iniciaram a caminhada, que desembocou na grandeza econômica de Itabaiana.
Um nome que não pode ser esquecido. Pedro da Jabá, faleceu em 12 de março de 1997, aos 73 anos. Está sepultado no Cemitério de Santo Antonio e Almas.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
(por Antonio Samarone)
A carne salgada e seca é milenar, não foi inventada no Nordeste. Aqui, virou carne do sol. Nos Pampas, a carne seca, salgada, com cura úmida e prensagem, virou Jabá (charque), que teve excelente aceitação no Nordeste.
A jabá pode ser consumida crua, conservada fora da geladeira e combina com farinha. A farofa de jabá de Zefinha de Catulino, já é servida nos melhores restaurantes de Paris.
Nas feijoadas, o único prato exclusivamente brasileiro, cabe de tudo, mas só não pode faltar a jabá. Pode faltar até pé e orelha de porco, mas a jabá é imprescindível.
A paçoca é uma iguaria.
Jabá ou jabaculê também é sinônimo de propina. O tradicional “jabá com abóbora”, oferecido por Rosalvo Alexandre aos jornalistas, em Aracaju, no final do ano, era uma sátira provocativa bem recebida.
Itabaiana, já foi um centro distribuidor do charque. A banca de Joãozinho de Norato era a mais sortida da feira. Joãozinho era casado com Dona Melinha, filha de Nicolau do Fumo.
Joãozinho de Norato morreu “de repente”, num domingo de 1959, no mesmo dia em que o Itabaiana foi campeão da Zona Centro. Guardei na memória esse dia.
Joãozinho e Melinha tiveram uma prole numerosa. Melinha, era irmã da minha avó, Maria do Céu.
Aqui entra o nosso personagem. Pedro da Jabá, que por 30 anos, monopolizou a distribuição da jabá em Sergipe.
Pedro Almeida Meira (Pedro da Jabá), nasceu em Itabaiana, no povoado Alto do Coqueiro (atual Moita Bonita), em 30 de janeiro de 1924, filho de Francisco Antonio Meira e Maria Francisca de Jesus.
Pedro, tirou a sorte grande, casou-se, em 1947, com Zuzu (Maria Amélia), filha de Joãozinho de Norato. Com pouco tempo, envolveu-se com o sogro no negócio da Jabá. Com o talento empreendedor nato, Pedro começou a crescer.
Pedro se meteu em política, apoiando Jason Correia, do PSD. Euclides Paes Mendonça, da UDN, virou chefe politico e botou Pedro para correr de Itabaiana.
Aracaju, foi um paraíso para os negócios de Pedro. Com a morte do sogro, herdou o negócio da jabá. Montou a Casa do Charque, na Avenida José do Prado Franco. Depois montou filiais na Rua Santa Rosa e na Avenida Coelho e Campos. Se tornou o Rei da Jabá.
Pedro da Jabá importava toda a produção do Sul do País. Passou a integrar uma plêiade de comerciantes itabaianenses, regionalmente bem sucedidos, a partir da década de 1950.
Lembrando alguns: Oviedo Teixeira, Mamede Paes Mendonça, Albino Silva da Fonseca, José Francisco da Cunha (Zé de Luiz de Rola), Pedro Paes Mendonça, Gentil Barbosa e Noel Barbosa. Faltou alguém?
Em meados do século XX, com a chegada da BR – 235, Itabaiana tornou-se um polo comercial. Um salto no desenvolvimento. A mudança foi impulsionada pelos caminhoneiros e talento mercantil dos ceboleiros. O itabaianense é bom de balcão, ou seja, sabe vender o “peixe”.
Sem bairrismo, o tino comercial do itabaianense, até hoje, é mola propulsora da economia sergipana. Pedro da Jabá foi pioneiro, deixou o exemplo.
Pedro da Jabá e Dona Zuzu deixaram muitos filhos: Reges Meira (médico oncologista), Regivalda, Rivanda, Renato, Ronaldo (Chita, meu colega das peladas de praia, no sítio Bonanza) e Ronmildo. Deixou uma centena de netos e bisnetos.
Pedro da Jabá cresceu por méritos, e compõe a galeria de ceboleiros que iniciaram a caminhada, que desembocou na grandeza econômica de Itabaiana.
Um nome que não pode ser esquecido. Pedro da Jabá, faleceu em 12 de março de 1997, aos 73 anos. Está sepultado no Cemitério de Santo Antonio e Almas.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
sábado, 29 de novembro de 2025
O BECO DO OUVIDOR
O Beco do Ouvidor.
(Por Antonio Samarone)
Em meados do século XX, Itabaiana era geográfica e economicamente dividida.
1) A Praça da Igreja, ruas do Sol e das Flores, e adjacências, onde moravam os ricos e remediados.
2) O grande Beco Novo, onde viviam os pobres de todos os gêneros e um ou outro rico. Claro, a cidade não era só isso, existiam outras tribos: os pobres das ruas do Fato, Cacete Armado e Nova; e os remediados, das praças de Santa Cruz e da Feira e rua da Vitória.
O Beco Novo, era a antiga entrada da cidade, para quem vinha do Aracaju, por Riachuelo ou Laranjeiras, e era a trilha de fuga de Santo Antonio, quando fugia da Igreja Velha.
As famílias no Beco Novo eram numerosas.
Os meninos pululavam aos magotes, jogando bola de meia, brincando de cipó queimado e de roda (Eu sou pobre, pobre, pobre de marré deci). Vivíamos, de calção e pés descalços, a procura de peraltices. Alguns se destacavam pela valentia: os filhos de Euclides Barraca e os de Rosalvo do Cabo Quirino. Eu, era do time dos "morfinas'.
O Beco Novo era uma rua comunitária, as distinções casa/rua eram nulas. A molecada entrava casa adentro, de qualquer um, sem pedir licença. As portas eram escancaradas.
O primeiro trecho do Beco estreito, nascia na rua do sol e cruzava a rua da Pedreira (onde Conselheiro, passou uns dias, em 1874).
O segundo trecho, findava no Beco do Ouvidor, onde nasci, que depois foi rebatizado como Monsenhor Constantino. Nesse trecho, moravam famílias tradicionais do Beco Novo: Dona Bilô, Antonio de Anjinho, Armelindo, Antonio Angico, Cabo João Mole, Seu Agenor, sapateiro, Dona Branquinha e Dona Gemelice, a melhor rezadeira do pedaço. Lembro-me das festas de roda junina na casa de Seu Sancho, onde se cantava “quebra, quebra gobiraba..”
O terceiro trecho, findava na rua Padre Felismino. Moravam Palmeirinha, Dona Sula, a mãe dos Geobas, Nilo Alfaiate, Antonino de Liberato, Tonho de Gustavo (recém falecido), Dona Graça, que fazia peido velho, e Zé de Artemiro, pai do Vereador João Candido.
O quarto e último trecho, ia até a rua Miguel Teixeira. No meio do trecho, funcionava o Clube do Trabalhador, organizado pelos comunistas, antes de 1964. Nos carnavais, os alto-falantes alegravam a rua com os frevos de Capiba. Quase em frente, moravam Miguel Fagundes e Seu Bebé dos Passarinhos.
No restante, até o Tabuleiro dos Caboclos, ficavam os três campos de futebol. A ocupação era menor. Dos famosos, lembro-me Seu Pierrô e Divo.
O preconceito, dizia que Santo Antonio dera as costas para o Beco Novo, pois a rua terminava no fundo da matriz. Mamãe achava o contrário, que a posição do Santo era de proteção ao Beco, mesmo por quê, era Santo Antonio dos Pobres.
A única procissão que passava no Beco Novo, era a de São Cristóvão, organizada pelo motorista João de Balbino. Depois Santo Antonio assumiu a proteção dos motoristas, tornando-se na atual Festa dos Caminhoneiros.
No perpendicular Beco do Ouvidor, só existem casas voltadas para o sol. O outro lado, era o muro de Zeca Mesquita, de ponta a ponta. Aliás, permanece assim. Na esquina, eram os quartos de aluguel de Manesinho Clemente. Cinco ou seis, todos ocupados pelas Damas da noite.
Na sequência, uma vila perpendicular, com sanitário comum; a casa do funileiro Zé de Alaíde (Fóbica) e a minha, essa da foto, com 4 metros de largura. Eu passava horas numa preguiçosa, na casa vizinha, assistindo à arte de furar ralos.
Na sequência, moravam uma filha de Seu Justino (Finha), casada com Orlando do Bom Jardim. Depois, mais uma vila, essa recuada do alinhamento, onde Dona Jovem fazia a vida. Uma famosa prostituta, acusada de transmitir lepra para a clientela. Morreu no leprosário do Conjunto Jardim.
Quase no meio do trecho, Seu Marinho, o eletricista da companhia de luz, com uma filharada incontável. Seu Marinho, trabalhava de bicicleta, com a escada no ombro. Ele, e Belmiro. O outro eletricista, era seu Álvaro, já idoso. Eram os únicos eletricistas da cidade.
Depois chegaram outros eletricistas: Jua, irmão de Pulga de Cós, Teixeirinha, Zé, irmão de Amorosa e o irmão de Tereza do Hospital.
No final do Beco do Ouvidor, pela ordem: Pedrinho, dentista, Seu João Mena, o pai de André, um marceneiro especialista em tamboretes de três pés; Cosme, funileiro, Seu Russo, o pai de Nilson, craque do Itabaiana. No mais, a memória apagou. O Alzheimer ameaça a todos.
Seu Justino, sapateiro, foi quem primeiro teve radiola e liquidificar no Beco Novo. Passaram a fazer “vitamina de banana” em casa. Um luxo. Quase uma ostentação.
O Bar Brasília, servia lanche de vitamina e pão com quitute fiambre, em especial, para os bancários do Banco do Brasil.
A famosa vitamina, com banana, leite e Toddy batidos, em forma cremosa, é filha do liquidificador. Uma iguaria esquecida. Os mais sofisticados pediam vitamina de abacate. No filme o “Exorcista”, a vítima vomitava uma gosma, parecida com vitamina de abacate.
Possuir um liquidificador, era um sinal de prosperidade familiar. Como era possuir um rádio de pilha Sharp, encouraçado, potente, sinal claro. No Beco Novo, o primeiro rádio Sharp, foi de Dedé de Olga, causando inveja e admiração.
Nesse tempo, Itabaiana era culturalmente guiada pelo Concílio de Trento. A música estava sob a batuta do Maestro Antonio Silva, da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, que está completando 280 anos.
Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
OS TELEFONEMAS DE LAMPIÃO
Os Telefonemas de Lampião.
(por Antonio Samarone)
Que me perdoem os doutores do cangaço, mas quero tirar a limpo uma estória que ouço desde menino. O médico e escritor Ranulfo Prata, escreveu um manifesto pedindo a cabeça de Lampião, em 1933.
Ranulfo se apresentou como porta-voz da angústia dos seres humildes, dos párias e pés-rapados, na verdade, falava em nome dos senhores dos latifúndios.
Lampião chegou a Sergipe por volta de 1929, saindo de sua toca, no Raso da Catharina.
O Raso é um deserto encravado entre Jeremoabo e a Várzea da Ema, com uma “flora de espessa trama de dilacerantes espinhos e folhagem urticante.
No livro/manifesto “Lampião”, Ranulfo transcreveu um diálogo insólito:
“Fazia meses que Lampião vivia em guerra aberta com a Bahia, mas em paz com Sergipe. Do Saco do Ribeiro, telefonou ao delegado de polícia e chefe da cidade de Itabaiana, Othoniel Dórea, chamando-o de colega.
- Colega, por quê? Indaga, intrigada, a autoridade.
Explica o Capitão:
- Pruque você é cego de um oio, cumo eu.
Dorinha morreu com a fama de valente, por peitar Lampião. O certo, é que Lampião seguiu o seu caminho.
Aqui, temos um impasse: Lampião telefonou de onde?
O telefone só chegou à Itabaiana em 1955, depois da chegada da luz elétrica de Paulo Afonso. Imagine no povoado Saco do Ribeiro.
“O telefone desembarcou em Itabaiana, funcionando numa central, no sobrado onde Aprígio Ferreira Passos morava, na esquina da Fausto Cardoso, com a atual Ivo de Carvalho.” – pag. 242, do livro Euclides Paes Mendonça, do mestre Vladimir Carvalho.
Essa versão do telefonema entre Lampião e Dorinha circula até hoje, como verdadeira, mesmo sem existir linhas telefônicas à época, nem na cidade de Itabaiana, nem no povoado Saco do Ribeiro. O que vale é a lenda!
Na bem documentada visita à Capela, onde Lampião foi ao cinema, a comunicação com as autoridades do Aracaju, foi feita pela via do telégrafo. O telegrafista era o famoso jornalista Zózimo Lima.
Vou pedir socorro ao pesquisador Robério Santos.
Antonio Samarone. Secretário Municipal de Cultura.
(por Antonio Samarone)
Que me perdoem os doutores do cangaço, mas quero tirar a limpo uma estória que ouço desde menino. O médico e escritor Ranulfo Prata, escreveu um manifesto pedindo a cabeça de Lampião, em 1933.
Ranulfo se apresentou como porta-voz da angústia dos seres humildes, dos párias e pés-rapados, na verdade, falava em nome dos senhores dos latifúndios.
Lampião chegou a Sergipe por volta de 1929, saindo de sua toca, no Raso da Catharina.
O Raso é um deserto encravado entre Jeremoabo e a Várzea da Ema, com uma “flora de espessa trama de dilacerantes espinhos e folhagem urticante.
No livro/manifesto “Lampião”, Ranulfo transcreveu um diálogo insólito:
“Fazia meses que Lampião vivia em guerra aberta com a Bahia, mas em paz com Sergipe. Do Saco do Ribeiro, telefonou ao delegado de polícia e chefe da cidade de Itabaiana, Othoniel Dórea, chamando-o de colega.
- Colega, por quê? Indaga, intrigada, a autoridade.
Explica o Capitão:
- Pruque você é cego de um oio, cumo eu.
Dorinha morreu com a fama de valente, por peitar Lampião. O certo, é que Lampião seguiu o seu caminho.
Aqui, temos um impasse: Lampião telefonou de onde?
O telefone só chegou à Itabaiana em 1955, depois da chegada da luz elétrica de Paulo Afonso. Imagine no povoado Saco do Ribeiro.
“O telefone desembarcou em Itabaiana, funcionando numa central, no sobrado onde Aprígio Ferreira Passos morava, na esquina da Fausto Cardoso, com a atual Ivo de Carvalho.” – pag. 242, do livro Euclides Paes Mendonça, do mestre Vladimir Carvalho.
Essa versão do telefonema entre Lampião e Dorinha circula até hoje, como verdadeira, mesmo sem existir linhas telefônicas à época, nem na cidade de Itabaiana, nem no povoado Saco do Ribeiro. O que vale é a lenda!
Na bem documentada visita à Capela, onde Lampião foi ao cinema, a comunicação com as autoridades do Aracaju, foi feita pela via do telégrafo. O telegrafista era o famoso jornalista Zózimo Lima.
Vou pedir socorro ao pesquisador Robério Santos.
Antonio Samarone. Secretário Municipal de Cultura.
quinta-feira, 20 de novembro de 2025
QUINTINO DE LACERDA E A CONSCIÊNCIA NEGRA.
Quintino de Lacerda e a Consciência Negra
(Por Antonio Samarone)
Comemora-se hoje, 20 de novembro, o dia da Consciência Negra, em homenagem a Zumbi dos Palmares, morto em 1695. A data foi instituída em 2011, pela Lei Federal 12.519 e, em 2023, tornou-se feriado nacional.
O Brasil é surpreendente. O dia da Consciência Negra Municipal, em Itabaiana, é 08 de junho, dia do nascimento de Quintino de Lacerda (08/06/1829), instituído pela Lei Municipal 965, de 2001, ou seja, 10 anos antes, da consciência nacional.
A mesma lei, elevou Quintino de Lacerda a herói abolicionista municipal, em Itabaiana.
Em Itabaiana, Quintino era escravizado por Antonio dos Santos Leite, no povoado Flechas. Ele foi vendido em 1874, aos 35 anos, para Antonio Lacerda Santos, em São Paulo. Foi escravo de ganho de Lacerda, de quem se tornou amigo e herdou o sobrenome. Alforriado em 1882.
Quintino liderou a fundação do Quilombo de Jabaquara, em Santos–SP, lutou pela abolição, ganhou fama e se tornou o primeiro Vereador negro do Brasil, em 1895.
O itabaianense, Quintino de Lacerda, faleceu em 10 de agosto de 1898, em Santos, aos 69 anos. O seu féretro foi conduzido por uma multidão.
Doutor Petronio Domingues, professor de história da UFS, em seu polêmico texto “João Mulungu: a invenção de um herói afro-brasileiro”, publicado em 2015, numa revista de Curitiba, também nega o heroísmo abolicionista do itabaianense Quintino de Lacerda, acusando-o de ter furado uma greve, em 1891, no Porto de Santos, e de ter oferecido serviços ao Governo de Floriano Peixoto, na Revolta da Armada, em 1893, tornando-se “Major Honorário do Exército".
O Dr. Petronio ressalva que, mesmo assim, Quintino se tronou um cidadão respeitado pela patuleia, granjeando prestígio político, tornando-se uma liderança popular e negociadora.
Desconsiderando os saberes acadêmicos, Itabaiana continuará homenageando o seu líder abolicionista. Em 14 de novembro de 2025, a semana passada, a Câmara Municipal aprovou a criação da Medalha Quintino de Lacerda.
A Comenda será concedida, anualmente, as personalidades negras, naturais ou residentes em Itabaiana, que tenham prestado relevantes serviços a sociedade.
Sobre o polêmico João Mulungu, outro herói negro sergipano, também itabaianense, nascido em 1840, no Engenho Piedade:
Entre a ciência do mundo acadêmico, os achismos do Conselho Estadual de Cultura ou a militância da Casa de Cultura Afro-Sergipana, coordenada pelo doutor honoris causa pela UFS, Severo d’Acelino, fui convencido que Severo está certo.
A Câmara de Vereadores de Itabaiana vai entronizar uma estátua de Quintino, em sua sede. Merecida!
Minhas simples homenagens aos dois itabaianenses, heróis negros: Quintino de Lacerda e João Mulungu e ao contemporâneo líder negro sergipano, Severo d’Acelino.
Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.
domingo, 16 de novembro de 2025
A MARCA DO SAGRADO
A marca do Sagrado...
(por Antonio Samarone).
“O Universo é assimétrico e estou persuadido de que a vida, como nós a conhecemos, é resultado direto dessa assimetria do Universo ou de suas consequências indiretas.” Louis Pasteur
Somos mesmo, a medida de todas as coisas?
A ciência descobriu que toda a diversidade da natureza está interligada e possui uma origem comum. As religiões, procuram religar essa variedade, com uma explicação divina. A ciência busca um código secreto da natureza.
Aristóteles propôs que esse código fosse uma quinta substância, a quintessência, eterna e incorruptível, distinta dos quatro elementos (terra, água, ar e fogo) que compunham as substâncias encontradas na Terra.
A ciência é uma narrativa humana.
O medo das trevas é o medo do escuro (do frio, do silêncio e do buraco negro). Na infância, brinquei de quem ia mais longe, em direção ao escuro. Eu sei, Deus já tinha criado a luz (fiat lux), mas só estava garantida durante o dia. As noites precisavam de luzes artificiais. Os meninos de hoje perderam esse medo.
A fuga da vida rural era em boa parte uma fuga dessa escuridão do campo. Bem ou mal, as cidades eram iluminadas, no início com lampiões, hoje com led.
Claro, existe uma ordem oculta mediando a natureza. A busca permanente dessa verdade, alivia o sofrimento, trata-se de uma “pró-cura”. As evidências cartesianas são ilusões. Somos capazes de acreditar em algo, mesmo sem qualquer evidência.
Precisamos de um consolo para a finitude: acreditar na vida pós-morte é um elixir poderoso. Essa crença atenua a ansiedade, gerando um conforto temporário, até o descanso eterno.
Por segurança, muita coisa precisa ser ressacralizada.
Antonio Samarone.
(por Antonio Samarone).
“O Universo é assimétrico e estou persuadido de que a vida, como nós a conhecemos, é resultado direto dessa assimetria do Universo ou de suas consequências indiretas.” Louis Pasteur
Somos mesmo, a medida de todas as coisas?
A ciência descobriu que toda a diversidade da natureza está interligada e possui uma origem comum. As religiões, procuram religar essa variedade, com uma explicação divina. A ciência busca um código secreto da natureza.
Aristóteles propôs que esse código fosse uma quinta substância, a quintessência, eterna e incorruptível, distinta dos quatro elementos (terra, água, ar e fogo) que compunham as substâncias encontradas na Terra.
A ciência é uma narrativa humana.
O medo das trevas é o medo do escuro (do frio, do silêncio e do buraco negro). Na infância, brinquei de quem ia mais longe, em direção ao escuro. Eu sei, Deus já tinha criado a luz (fiat lux), mas só estava garantida durante o dia. As noites precisavam de luzes artificiais. Os meninos de hoje perderam esse medo.
A fuga da vida rural era em boa parte uma fuga dessa escuridão do campo. Bem ou mal, as cidades eram iluminadas, no início com lampiões, hoje com led.
Claro, existe uma ordem oculta mediando a natureza. A busca permanente dessa verdade, alivia o sofrimento, trata-se de uma “pró-cura”. As evidências cartesianas são ilusões. Somos capazes de acreditar em algo, mesmo sem qualquer evidência.
Precisamos de um consolo para a finitude: acreditar na vida pós-morte é um elixir poderoso. Essa crença atenua a ansiedade, gerando um conforto temporário, até o descanso eterno.
Por segurança, muita coisa precisa ser ressacralizada.
Antonio Samarone.
sexta-feira, 14 de novembro de 2025
PROFESSORA MARIA DE ZIZI.
Professora Maria de Zizi (80 anos).
Por Antonio Samarone
Até meados do século XX, no ensino primário (primeiro grau), em Itabaiana, predominavam as escolas particulares, com turmas multisseriadas. A professora cuidava de alunos de séries e idades diferentes. Hoje, predomina a rede pública municipal, com 11.803 alunos, em 46 escolas.
A Escola Nossa Senhora de Fátima, da professora Maria de Zizi, não fugia a regra. Para manter a disciplina, o método de ensino mais usado era a Pedagogia da Palmatória. A tabuada e a conjugação dos verbos se apendia nas sabatinas. Errou, o pau comia.
Não estou falando da Idade Média. Os espancamentos e castigos cruéis só foram abolidos das escolas brasileiras com o (ECA), em 1990. Antes, se tentou, sem sucesso, substituir os castigos físicos por castigos morais.
Os alunos deveriam deixar o primeiro grau sabendo ler, escrever e contar. Eu aprendi a ler de carreirinha e fazer as quatro operações. Aliás, somar, eu somava até de cabeça. Escrever, foi o grande problema, colei grau no primário, sem saber redigir uma carta. Até hoje me embaraço com a escrita.
Maria José dos Santos (Maria de Zizi), nasceu em 14 de abril de 1945. Filha de Maria Zizi e Antonio José dos Santos. O pai, fogueteiro, morreu cedo. A mãe trabalhou pesado para criar os dois filhos: a professore e o seu irmão, Zé de Zizi.
Maria José (Maria de Zizi), começou a ensinar cedo. Aos 13 anos, ainda estudante, já ensinava banca, na própria residência. Fez o primário, com destaque, no Grupo Escolar Guilhermino Bezerra. Antes, fez as primeiras letras com a Professora Lenita Porto, irmã do Senador Passos Porto.
Era comum as meninas mais sabidas ensinarem as colega da mesma idade.
O Ginásio, Maria de Zizi cursou no Murilo Braga.
Logo, ela abriu a sua escola: Escola Nossa Senhora de Fátima. Encheu de alunos. Maria de Zizi já nasceu professora. Estudiosa, inteligente, vocacionada para o magistério. Por sua escolinha passou gente famosa. Ela se lembra dos detalhes da escrita do canhoto, doutor Átalo, filho de Zé Crispim.
Maria de Zizi concluiu o pedagógico na Pio Décimo, em 1980. Entretanto, desde 1978, ingressou na rede pública estadual, tornando-se professora do Murilo Braga. Fez uma carreira brilhante no magistério. Ocupou vários cargos técnicos pedagógicos.
Foi coordenadora pedagógica na rede estadual, nos Colégios Dr.Airton Teles e Deputado Djalma Lobo; Diretora do Colégio Estadual Nestor Carvalho e vice-diretora da DRE'3
Hoje, aposentada, memória afiada, vive feliz e em paz. Casada com Raimundo, um pacato funcionário público federal, aposentado. Meu colega, no Ministério do Trabalho. Eles não seguiram os ensinamentos bíblicos do “crescei e multiplicai”. O Casal não teve filhos biológicos.
Entretanto, quando Maria se casou com Raimundo, ele tinha um filho, com 4 anos.
O filho, Rogério, tornou-se o amado casal.
Rogério, seguiu a carreira do magistério. É bacharel em direito, oficial da polícia civil de Sergipe e professor de história do estado.
Missão cumprida, professora Maria de Zizi.
Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.
Por Antonio Samarone
Até meados do século XX, no ensino primário (primeiro grau), em Itabaiana, predominavam as escolas particulares, com turmas multisseriadas. A professora cuidava de alunos de séries e idades diferentes. Hoje, predomina a rede pública municipal, com 11.803 alunos, em 46 escolas.
A Escola Nossa Senhora de Fátima, da professora Maria de Zizi, não fugia a regra. Para manter a disciplina, o método de ensino mais usado era a Pedagogia da Palmatória. A tabuada e a conjugação dos verbos se apendia nas sabatinas. Errou, o pau comia.
Não estou falando da Idade Média. Os espancamentos e castigos cruéis só foram abolidos das escolas brasileiras com o (ECA), em 1990. Antes, se tentou, sem sucesso, substituir os castigos físicos por castigos morais.
Os alunos deveriam deixar o primeiro grau sabendo ler, escrever e contar. Eu aprendi a ler de carreirinha e fazer as quatro operações. Aliás, somar, eu somava até de cabeça. Escrever, foi o grande problema, colei grau no primário, sem saber redigir uma carta. Até hoje me embaraço com a escrita.
Maria José dos Santos (Maria de Zizi), nasceu em 14 de abril de 1945. Filha de Maria Zizi e Antonio José dos Santos. O pai, fogueteiro, morreu cedo. A mãe trabalhou pesado para criar os dois filhos: a professore e o seu irmão, Zé de Zizi.
Maria José (Maria de Zizi), começou a ensinar cedo. Aos 13 anos, ainda estudante, já ensinava banca, na própria residência. Fez o primário, com destaque, no Grupo Escolar Guilhermino Bezerra. Antes, fez as primeiras letras com a Professora Lenita Porto, irmã do Senador Passos Porto.
Era comum as meninas mais sabidas ensinarem as colega da mesma idade.
O Ginásio, Maria de Zizi cursou no Murilo Braga.
Logo, ela abriu a sua escola: Escola Nossa Senhora de Fátima. Encheu de alunos. Maria de Zizi já nasceu professora. Estudiosa, inteligente, vocacionada para o magistério. Por sua escolinha passou gente famosa. Ela se lembra dos detalhes da escrita do canhoto, doutor Átalo, filho de Zé Crispim.
Maria de Zizi concluiu o pedagógico na Pio Décimo, em 1980. Entretanto, desde 1978, ingressou na rede pública estadual, tornando-se professora do Murilo Braga. Fez uma carreira brilhante no magistério. Ocupou vários cargos técnicos pedagógicos.
Foi coordenadora pedagógica na rede estadual, nos Colégios Dr.Airton Teles e Deputado Djalma Lobo; Diretora do Colégio Estadual Nestor Carvalho e vice-diretora da DRE'3
Hoje, aposentada, memória afiada, vive feliz e em paz. Casada com Raimundo, um pacato funcionário público federal, aposentado. Meu colega, no Ministério do Trabalho. Eles não seguiram os ensinamentos bíblicos do “crescei e multiplicai”. O Casal não teve filhos biológicos.
Entretanto, quando Maria se casou com Raimundo, ele tinha um filho, com 4 anos.
O filho, Rogério, tornou-se o amado casal.
Rogério, seguiu a carreira do magistério. É bacharel em direito, oficial da polícia civil de Sergipe e professor de história do estado.
Missão cumprida, professora Maria de Zizi.
Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.
quarta-feira, 12 de novembro de 2025
OUTRA, RESIDÊNCIA TERAPEUTICA
Outra, Residência terapêutica.
(por Antonio Samarone)
Com a redução dos manicômios, o Ministério da Saúde criou uma rede de atenção psicossocial. A orientação é cuidar dos pacientes, inseridos na sociedade. Interná-los, só em casos específicos.
Para os pacientes crônicos, após longos períodos de internação, com famílias desestruturadas, foram pensadas as “residências terapêuticas”. O Poder Público oferece uma casa, e os pacientes formam, entre si, novas formas de convivência, uma família assistencial livre, com autonomia, mas, ainda monitorados pelo poder público. A assistência médica e psicológica são feitas pelos CAPs.
Em Itabaiana, oficialmente, existe uma dessas residências terapêuticas, ligada ao SUS municipal.
Fazendo o meu périplo regular por Itabaiana, ao passar pela entrada do Canto Escuro, na esquina de Seu Jubal, deparei-me com uma cena comovente, para um velho militante da luta antimanicomial.
Na varanda da casa, onde Seu Firmino do Fosco residiu, no sofá, dois irmãos, José Carlos (o Mudo de Firmino), e Airton (Grilo), portador de esquizofrenia, jogavam alegremente um carteado. Um exercício de ludoterapia.
Para quem se interessou, vou esmiuçar um pouco essa história.
Seu Firmino do Fosco (José Tiburcio de Oliveira), era um negro, magro, calmo, simpático, de fala mansa, chegou a Itabaiana para ser agregado na casa de Dona Graça de Rosendo. Não se sabe a origem. Seu Firmino faleceu de meningite, aos 61 anos.
Firmino constituiu uma grande família, ao lado de Dona Maria, vivendo de fabricar botes de fósforo, de sete pancadas. A moderna indústria de fósforos em palitos, levou Seu Firmino a falência. Para sustentar a família, ele mudou de ofício. Passou a consertar bicicletas, uma novidade em Itabaiana. Para completar a renda, ele ainda era apicultor. Criava abelhas-sem-ferrão, no quintal.
A família entrou para a história da psiquiatria. Uma evidência das raízes familiares da loucura. Para os mais apressados, uma influência genética.
O primeiro filho, Zé Luiz, logo cedo a esquizofrenia se manifestou. A cidade atribuía o transtorno, aos estudos. “Tá vendo, foi estudar demais.” Zé Luiz morreu novo. Assistido pela caridade, sobretudo de Dona Maria, esposa de Durval do Açúcar.
O segundo,Tonho, é um mecânico conceituado. Desde menino, se virou para ganhar a vida. Vendia rolete de cana na Praça da Igreja.
O terceiro, Airton (Grilo), um menino valente, foi o goleiro do Bahia de Melcíades, e do meu time, campeão do torneio do Campo de Baltazar. Meu primeiro título: Grilo, Beijo de Seu Bebé, Vadinho de Nilo, Zé Augusto de Zé Oinho, Eu e Nego Gato (Valter de Seu Bonito).
Grilo foi um grande goleiro, até ser vítima da violência policial, que deixou sequelas. Foi o mesmo delegado, que aleijou Zé das Cuias, um negro forte, que levantava uma mesa grande de sinuca, com a coxa. Não tardou a aparecer em Grilo, o mesmo transtorno mental do irmão mais velho.
O quarto, José Carlos (surdo/mudo de nascença), contrariou a medicina, que prognostica baixa capacidade cognitiva, para esses casos. O Mudo de Firmino sempre foi muito inteligente, perspicaz, mesmo sem acesso a uma educação específica. Apesar de tudo, José Carlos sempre entendeu como o mundo funciona. Hoje, é o comandante da casa terapêutica, onde vive com os irmãos.
O quinto filho, Beto, um craque, meia esquerda, também não tardou a chegar ao mesmo transtorno dos irmãos. E por último, dos homens, Vado, foi goleiro do Itabaiana. Os quatro, já viveram na mesma casa. Atualmente, Vado mora em Nossa Senhora do Socorro.
Os outros, continuam lá, na mesma casa, vivendo sem a tutela institucional dos Serviços de Saúde.
Seu Firmino ainda teve duas filhas. Uma falecida, e Maria José, casada, mãe de família, e é quem coordena e assiste aos irmãos. Todos continuam na casa do pai, formando uma residência terapêutica.
Os irmãos moram juntos, tudo muito limpo e arrumado. O Mudo cozinha e Maria José, a irmã, sempre zelosa, lava as roupas e supervisiona. São medicados pelo CAPs.
Tive a certeza que assistência aos portadores de transtornos mentais, pode ser feita no domicílio, sem o enclausuramento dos manicômios.
Quem os encontra pelas ruas, não imagina que eles vivem bem, harmônica e, regularmente, medicados. Todos recebem o BPC/LOAS. Sem romantismo, creio que são mais felizes, que muitos que os consideram loucos. Na verdade, pesa sobre os psíquicos divergentes um estigma.
De perto, ninguém é normal!
Antonio Samarone – Psiquiatra não praticante. Diplomado pela Estácio de Sá!
(por Antonio Samarone)
Com a redução dos manicômios, o Ministério da Saúde criou uma rede de atenção psicossocial. A orientação é cuidar dos pacientes, inseridos na sociedade. Interná-los, só em casos específicos.
Para os pacientes crônicos, após longos períodos de internação, com famílias desestruturadas, foram pensadas as “residências terapêuticas”. O Poder Público oferece uma casa, e os pacientes formam, entre si, novas formas de convivência, uma família assistencial livre, com autonomia, mas, ainda monitorados pelo poder público. A assistência médica e psicológica são feitas pelos CAPs.
Em Itabaiana, oficialmente, existe uma dessas residências terapêuticas, ligada ao SUS municipal.
Fazendo o meu périplo regular por Itabaiana, ao passar pela entrada do Canto Escuro, na esquina de Seu Jubal, deparei-me com uma cena comovente, para um velho militante da luta antimanicomial.
Na varanda da casa, onde Seu Firmino do Fosco residiu, no sofá, dois irmãos, José Carlos (o Mudo de Firmino), e Airton (Grilo), portador de esquizofrenia, jogavam alegremente um carteado. Um exercício de ludoterapia.
Para quem se interessou, vou esmiuçar um pouco essa história.
Seu Firmino do Fosco (José Tiburcio de Oliveira), era um negro, magro, calmo, simpático, de fala mansa, chegou a Itabaiana para ser agregado na casa de Dona Graça de Rosendo. Não se sabe a origem. Seu Firmino faleceu de meningite, aos 61 anos.
Firmino constituiu uma grande família, ao lado de Dona Maria, vivendo de fabricar botes de fósforo, de sete pancadas. A moderna indústria de fósforos em palitos, levou Seu Firmino a falência. Para sustentar a família, ele mudou de ofício. Passou a consertar bicicletas, uma novidade em Itabaiana. Para completar a renda, ele ainda era apicultor. Criava abelhas-sem-ferrão, no quintal.
A família entrou para a história da psiquiatria. Uma evidência das raízes familiares da loucura. Para os mais apressados, uma influência genética.
O primeiro filho, Zé Luiz, logo cedo a esquizofrenia se manifestou. A cidade atribuía o transtorno, aos estudos. “Tá vendo, foi estudar demais.” Zé Luiz morreu novo. Assistido pela caridade, sobretudo de Dona Maria, esposa de Durval do Açúcar.
O segundo,Tonho, é um mecânico conceituado. Desde menino, se virou para ganhar a vida. Vendia rolete de cana na Praça da Igreja.
O terceiro, Airton (Grilo), um menino valente, foi o goleiro do Bahia de Melcíades, e do meu time, campeão do torneio do Campo de Baltazar. Meu primeiro título: Grilo, Beijo de Seu Bebé, Vadinho de Nilo, Zé Augusto de Zé Oinho, Eu e Nego Gato (Valter de Seu Bonito).
Grilo foi um grande goleiro, até ser vítima da violência policial, que deixou sequelas. Foi o mesmo delegado, que aleijou Zé das Cuias, um negro forte, que levantava uma mesa grande de sinuca, com a coxa. Não tardou a aparecer em Grilo, o mesmo transtorno mental do irmão mais velho.
O quarto, José Carlos (surdo/mudo de nascença), contrariou a medicina, que prognostica baixa capacidade cognitiva, para esses casos. O Mudo de Firmino sempre foi muito inteligente, perspicaz, mesmo sem acesso a uma educação específica. Apesar de tudo, José Carlos sempre entendeu como o mundo funciona. Hoje, é o comandante da casa terapêutica, onde vive com os irmãos.
O quinto filho, Beto, um craque, meia esquerda, também não tardou a chegar ao mesmo transtorno dos irmãos. E por último, dos homens, Vado, foi goleiro do Itabaiana. Os quatro, já viveram na mesma casa. Atualmente, Vado mora em Nossa Senhora do Socorro.
Os outros, continuam lá, na mesma casa, vivendo sem a tutela institucional dos Serviços de Saúde.
Seu Firmino ainda teve duas filhas. Uma falecida, e Maria José, casada, mãe de família, e é quem coordena e assiste aos irmãos. Todos continuam na casa do pai, formando uma residência terapêutica.
Os irmãos moram juntos, tudo muito limpo e arrumado. O Mudo cozinha e Maria José, a irmã, sempre zelosa, lava as roupas e supervisiona. São medicados pelo CAPs.
Tive a certeza que assistência aos portadores de transtornos mentais, pode ser feita no domicílio, sem o enclausuramento dos manicômios.
Quem os encontra pelas ruas, não imagina que eles vivem bem, harmônica e, regularmente, medicados. Todos recebem o BPC/LOAS. Sem romantismo, creio que são mais felizes, que muitos que os consideram loucos. Na verdade, pesa sobre os psíquicos divergentes um estigma.
De perto, ninguém é normal!
Antonio Samarone – Psiquiatra não praticante. Diplomado pela Estácio de Sá!
quinta-feira, 6 de novembro de 2025
A CULTURA DOS VAQUEIROS
A Cultura do Vaqueiro.
(por Antonio Samarone)
O gado chegou a Itabaiana com os primeiros colonos (1602), acompanhando os vaqueiros da Casa da Torre. Foi a principal atividade econômica por 200 anos. Itabaiana nasceu à sombra dos currais.
O gado é uma mercadoria que anda, vai a pé aos mercados e matadouros. O gado era a força motriz, alimentação e transporte dos engenhos do Recôncavo Baiano e de Olinda.
De couro eram as portas das cabanas, os leitos, as camas para os partos, as cordas, as bolsas para se carregar água, o alforje para se levar comida, a maca para guardar roupa, a mochila para milhar cavalos, a peia para prendê-los, as bainhas das facas, as bruacas e surrões, as roupas para se entrar no mato e os bangues para os curtumes.
O gado era criado em “soltas”. O transporte em lombos de burros e carros de bois.
Os curraleiros deixaram uma profunda herança cultural. A carne é o prato típico de Itabaiana. Uma churrascaria em cada esquina. Acredita-se, que só a carne dá sustança.
A carne hoje é uma commodity. O gado é criado com alta tecnologia, genética apurada, chips, rações balanceadas e vigiados por drones. O vaqueiro é um técnico especializado.
O modo de vida dos antigos vaqueiros tornaram-se manifestações culturais. Mantiveram-se as tradições das pegas de bois, das toadas e dos aboios. Da mesma forma que os rodeios americanos e as touradas madrilenhas.
As pegas de bois na caatinga, ganharam regras e se transformaram em vaquejadas. Criaram-se parques, com essa finalidade. O Parque São José fez história. Hoje, Itabaiana possui o Parque Cunha Menezes, com uma estrutura invejável.
As cavalgadas são manifestações bucólicas da vida rural, saudades e reminiscências. Uma forma popular de hipismo.
Em Itabaiana, a tradição da vaqueirama aflorou com Djalma Lobo e a Rádio Princesa da Serra. Em seu programa, Manhãs Nordestinas (das 4 a 7 da madrugada), Djalma trouxe a cultura dos vaqueiros para o rádio.
As quintas, a dupla Leo e Zito, fazia o Canta Sertão, com aboios e toadas. Vavá Machado e Marcolino sempre presentes.
Marcolino gravou o prefixo: “A Rádio Princesa da Serra fala, e Djalma Lobo abala, a cidade de Itabaiana”. Quem se lembra? Palmeirinha e Neve Branca, na viola; Vânia Silva e o trio Cariri; Josa, o Vaqueiro do Sertão; Erivaldo de Carira, o pai de Mestrinho; Aurelino, o pai de Tatua; Adélson, seu irmão; e Cobra Verde, o velho.
Nessa empreitada, Zito (José Costa), um artista aboiador de Palmeiras dos índios, se mudou para Itabaiana. Hoje, ele tem gravado: 8 LP, 4 compactos duplos e 30 CDs. Com o filho, Ruan Costa, dominam o mercado das vaquejadas e festas de vaqueiros, em Sergipe.
Djalma Lobo foi mais longe. Em 1979, inspirado na Missa do Vaqueiro de Serrita, trouxe a festividade para Itabaiana. A festa repetiu-se em 1980/81.
O sucesso dessas missas, ascendeu a cultura do vaqueiro em Sergipe. A festa não teve continuidade, por conta da política. Djalma Lobo se tornou o Deputado Estadual mais votado de Sergipe.
A semente estava plantada. Em 1990, foi construído o Parque de Vaquejada São José.
Em 1993/94/95, com a chegada de João de Zé de Dona à Prefeitura de Itabaiana, o seu irmão Zé Milton, ressuscitou a Missa do Vaqueiro. Dessa vez, com mais força, tornando-se uma festa interestadual. Na última, 30 vaqueiros encouraçados vieram de Serrita. Vaqueiros de todo o Nordeste, mais de mil.
O cortejo de vaqueiros encouraçados encheram Itabaiana de alegria e espanto. Era uma tradição de 300 anos, que ressurgia fortalecida. A festa foi animada pelo Grupo Asa Branca: Dr. Wellington Mendes, sua esposa Dirce e a talentosa Amorosa.
Novamente, a missa do vaqueiro em Itabaiana foi interrompida pela política: Zé Milton se elegeu Deputado. Tomou posse a cavalo, com 500 vaqueiros montados, que subiram as escadarias da Assembleia Legislativa.
O mundo cultural do Aracaju, achou estranho, não entendeu. A cultura sertaneja é desconhecida no litoral.
Já se passaram 30 anos.
O Prefeito Valmir decidiu retomar a tradição. Missa, missa mesmo, parece que a diocese do Aracaju proibiu. Não sei as razões. O profano e o sagrado andam juntos em outras manifestações.
Como missa não pode, em Sergipe, vamos fazer a Festa do Vaqueiro. Com o mesmo proposito de cultuar uma tradição dos antigos. Será, no domingo, 30 de novembro. Os vaqueiros encouraçados voltarão as ruas de Itabaiana, com suas toadas e aboios.
Como sempre, será uma grande festa!
Zito e Zeti, só mudou o parceiro, vão abrilhantar. Vavá e Marcolino já morreram. Iguinho & Lulinha, naturais de Canindé de São Francisco, mas moram em Petrolina; e Arreios de Ouro, uma banda do Sertão de Moxotó, Pernambuco. Tudo dentro dos valores e tradições dos vaqueiros.
Os vaqueiros encouraçados voltarão a encantar às ruas de Itabaiana. Não percam...
Itabaiana, festejará as raízes e as tradições dos curraleiros. A Terra das Filarmônicas e da cultura erudita, também sabe festejar a cultura popular!
Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.
Foto: a última missa do vaqueiro em Itabaiana (1995).
(por Antonio Samarone)
O gado chegou a Itabaiana com os primeiros colonos (1602), acompanhando os vaqueiros da Casa da Torre. Foi a principal atividade econômica por 200 anos. Itabaiana nasceu à sombra dos currais.
O gado é uma mercadoria que anda, vai a pé aos mercados e matadouros. O gado era a força motriz, alimentação e transporte dos engenhos do Recôncavo Baiano e de Olinda.
De couro eram as portas das cabanas, os leitos, as camas para os partos, as cordas, as bolsas para se carregar água, o alforje para se levar comida, a maca para guardar roupa, a mochila para milhar cavalos, a peia para prendê-los, as bainhas das facas, as bruacas e surrões, as roupas para se entrar no mato e os bangues para os curtumes.
O gado era criado em “soltas”. O transporte em lombos de burros e carros de bois.
Os curraleiros deixaram uma profunda herança cultural. A carne é o prato típico de Itabaiana. Uma churrascaria em cada esquina. Acredita-se, que só a carne dá sustança.
A carne hoje é uma commodity. O gado é criado com alta tecnologia, genética apurada, chips, rações balanceadas e vigiados por drones. O vaqueiro é um técnico especializado.
O modo de vida dos antigos vaqueiros tornaram-se manifestações culturais. Mantiveram-se as tradições das pegas de bois, das toadas e dos aboios. Da mesma forma que os rodeios americanos e as touradas madrilenhas.
As pegas de bois na caatinga, ganharam regras e se transformaram em vaquejadas. Criaram-se parques, com essa finalidade. O Parque São José fez história. Hoje, Itabaiana possui o Parque Cunha Menezes, com uma estrutura invejável.
As cavalgadas são manifestações bucólicas da vida rural, saudades e reminiscências. Uma forma popular de hipismo.
Em Itabaiana, a tradição da vaqueirama aflorou com Djalma Lobo e a Rádio Princesa da Serra. Em seu programa, Manhãs Nordestinas (das 4 a 7 da madrugada), Djalma trouxe a cultura dos vaqueiros para o rádio.
As quintas, a dupla Leo e Zito, fazia o Canta Sertão, com aboios e toadas. Vavá Machado e Marcolino sempre presentes.
Marcolino gravou o prefixo: “A Rádio Princesa da Serra fala, e Djalma Lobo abala, a cidade de Itabaiana”. Quem se lembra? Palmeirinha e Neve Branca, na viola; Vânia Silva e o trio Cariri; Josa, o Vaqueiro do Sertão; Erivaldo de Carira, o pai de Mestrinho; Aurelino, o pai de Tatua; Adélson, seu irmão; e Cobra Verde, o velho.
Nessa empreitada, Zito (José Costa), um artista aboiador de Palmeiras dos índios, se mudou para Itabaiana. Hoje, ele tem gravado: 8 LP, 4 compactos duplos e 30 CDs. Com o filho, Ruan Costa, dominam o mercado das vaquejadas e festas de vaqueiros, em Sergipe.
Djalma Lobo foi mais longe. Em 1979, inspirado na Missa do Vaqueiro de Serrita, trouxe a festividade para Itabaiana. A festa repetiu-se em 1980/81.
O sucesso dessas missas, ascendeu a cultura do vaqueiro em Sergipe. A festa não teve continuidade, por conta da política. Djalma Lobo se tornou o Deputado Estadual mais votado de Sergipe.
A semente estava plantada. Em 1990, foi construído o Parque de Vaquejada São José.
Em 1993/94/95, com a chegada de João de Zé de Dona à Prefeitura de Itabaiana, o seu irmão Zé Milton, ressuscitou a Missa do Vaqueiro. Dessa vez, com mais força, tornando-se uma festa interestadual. Na última, 30 vaqueiros encouraçados vieram de Serrita. Vaqueiros de todo o Nordeste, mais de mil.
O cortejo de vaqueiros encouraçados encheram Itabaiana de alegria e espanto. Era uma tradição de 300 anos, que ressurgia fortalecida. A festa foi animada pelo Grupo Asa Branca: Dr. Wellington Mendes, sua esposa Dirce e a talentosa Amorosa.
Novamente, a missa do vaqueiro em Itabaiana foi interrompida pela política: Zé Milton se elegeu Deputado. Tomou posse a cavalo, com 500 vaqueiros montados, que subiram as escadarias da Assembleia Legislativa.
O mundo cultural do Aracaju, achou estranho, não entendeu. A cultura sertaneja é desconhecida no litoral.
Já se passaram 30 anos.
O Prefeito Valmir decidiu retomar a tradição. Missa, missa mesmo, parece que a diocese do Aracaju proibiu. Não sei as razões. O profano e o sagrado andam juntos em outras manifestações.
Como missa não pode, em Sergipe, vamos fazer a Festa do Vaqueiro. Com o mesmo proposito de cultuar uma tradição dos antigos. Será, no domingo, 30 de novembro. Os vaqueiros encouraçados voltarão as ruas de Itabaiana, com suas toadas e aboios.
Como sempre, será uma grande festa!
Zito e Zeti, só mudou o parceiro, vão abrilhantar. Vavá e Marcolino já morreram. Iguinho & Lulinha, naturais de Canindé de São Francisco, mas moram em Petrolina; e Arreios de Ouro, uma banda do Sertão de Moxotó, Pernambuco. Tudo dentro dos valores e tradições dos vaqueiros.
Os vaqueiros encouraçados voltarão a encantar às ruas de Itabaiana. Não percam...
Itabaiana, festejará as raízes e as tradições dos curraleiros. A Terra das Filarmônicas e da cultura erudita, também sabe festejar a cultura popular!
Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.
Foto: a última missa do vaqueiro em Itabaiana (1995).
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
SERGIPANIDADE E LUIZ ANTONIO BARRETO
Sergipanidade e Luiz Antonio Barreto.
(por Antonio Samarone)
A Prefeita Emília fez justiça, ao renomear o Centro Cultural de Aracaju em Palácio-museu Luiz Antonio Barreto.
Sem muitas dúvidas, Luiz foi o maior intelectual sergipano, na segunda metade do século XX.
Luiz Antonio Barreto é o “Senhor Sergipanidade”, um guardião da cultura sergipana, como disse recentemente o sobrinho de Zé Calazans.
Luiz Antonio, acreditava que a sergipanidade era um conceito em construção, e começou com Tobias Barreto. Foi longe!
Contudo, sergipanidade é um conceito, por enquanto, mal construído.
Luiz Antonio deixou algumas dicas:
“Sergipanidade é o conjunto de traços típicos, a manifestação que distingue a identidade dos sergipanos, tornando-o diferente dos demais brasileiros, embora preservando as raízes da história comum.”
“A sergipanidade inspira condutas e renova compromissos, na representação simbólica da relação dos sergipanos com a terra, e especialmente com a cultura, e tudo o que ela representa como mostruário da experiência e da sensibilidade.”
Os atuais entusiastas da sergipanidade não acrescentaram nada.
Quais são esses traços típicos? Nada de consistente. Havia divergências sobre o dia da sergipanidade. O dia 24 de outubro foi instituído como dia da sergipanidade. A data foi oficializada em 2019, pela Lei nº 8.601, para celebrar o conjunto de traços culturais e o orgulho do povo sergipano.
“Alegrai-vos sergipanos, ressurge a mais bela aurora./ Com cânticos doces/ Vamos festejar, festejar, festejar...” Hino de Sergipe.
O Governador Marcelo Déda foi um entusiasta da sergipanidade.
Déda encomendou uma História do Povo de Sergipe, ao intelectual baiano Antonio Risério. O livro, não sei as razões, foi recolhido.
A comunicóloga e ex-secretária de Estado da Comunicação e da Cultura durante a gestão do governador Marcelo Déda (PT), Eloísa Galdino, destacou que, ao longo da gestão, parte do projeto e da missão era elevar a autoestima do povo sergipano, através do resgate de símbolos, datas, patrimônios. Mangue jornalismo (05/072023).
O jornal enxerga a criação do conceito de sergipanidade, a uma ação vinculada ao marketing governamental e aos intelectuais criadores da política cultural de Sergipe.
Parece que avançamos: sem muita convicção, a sergipanidade passou a interessar a acanhada política pública de turismo.
Luiz Antonio Barreto deixou uma ideia em construção.
Continuamos patinando.
Ao ser perguntado, um doutor da UFS, deu uma resposta evasiva: “A sergipanidade se manifesta no falar, no comer, no rezar e no viver cotidiano de cada sergipano. É um sentimento que não se vê, não se explica, mas se sente.”
Ou seja, a gente sente, mas não sabe o que é!
Luiz Antonio conhecia o pensamento de Gilberto Freire, que liderou a criação cultural do Nordeste, com o seu Manifesto Regionalista de 1936.
O Nordeste é uma realidade inventada pela literatura, música, movimentos messiânicos, cangaço, cordel, teatro, religião.
No início do século XX, não existia o Nordestino, como singularidade cultural.
Darcy Ribeiro teorizou sobre a criação do brasileiro, Gilberto Freire pensou o nordestino, Luiz Antonio teve a ideia de criar culturalmente o sergipano. Ele sabia muito, e sonhou com a sergipanidade.
Deixou a tarefa: o que o sergipano tem que não é comum aos demais brasileiros e mais, especificamente, que não é comum aos demais nordestinos.
O que torna o sergipano culturalmente original?
Cultura vista como a dimensão simbólica da existência humana.
Marcelo Déda acreditava que o conceito de sergipanidade aumentaria a nossa auto-estima, aliás, que continua baixa.
O dia da sergipanidade é comemorado pelo Poder Público com músicas, danças e bandas baianas.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
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