Itabaiana – 350 anos. Zequinha da Cenoura
(por Antonio Samarone)
Na segunda metade do século XX, Itabaiana tornou-se uma economia comercial, polo de abastecimento de Sergipe. Os serviços de transporte (caminhão) e o comércio foram as locomotivas do desenvolvimento.
A mudança na economia refletiu na vida das pessoas. Zequinha é um bom exemplo. Viveu as duas fases. Na zona rural até os 13 anos, cuidando do gado da família; e depois, na cidade, de onde veio para ser um bem-sucedido comerciante.
Até a década de 1960, a Itabaiana rural vivia nos sítios. Os mais abastados, possuíam uma casa de rancho na cidade, para as festas religiosas, datas especiais e as feiras.
Hoje, se vive na cidade.
Volta-se a zona rural com as chácaras recém-construídas, para as celebrações e descansos. A chácara é uma demonstração de sucesso, a “casa de praia”, de quem vive nas montanhas. A troca da economia rural pelo comércio elevou a qualidade de vida dos itabaianenses.
A revolução urbana em Itabaiana, com os modernos condomínios, foi acompanhada de uma modificação da vida rural: com as chácaras dos ricos e remediados e a urbanização dos povoados, com luz, água encanada, saneamento, estradas, pavimentação, praças, escolas e unidades de saúde.
José Paes Santos (Zequinha da Cenoura), nasceu no Pé do Veado, em 12 de agosto de 1974. Filho de Zé de Branquinha da Farinha e Dona Terezinha, numa família de seis irmãos: Antonio, João, Gilson, Genilson, Carminha e Maria José.
Gente do Pé do Veado. O pai de Zequinha possuía um bom sítio e vendia farinha nas feiras de Itabaiana e Ribeirópolis. Era a Itabaiana rural, o celeiro de Sergipe, vivendo da agricultura. A mãe, Dona Terezinha, de tradicional família camponesa, é filha de Joãozinho de Venancio e irmã de Francisquinho dos Porcos.
Zequinha estudou as primeiras letras com a professora Zefinha de Pedro de Severo, no Pé do Veado. Eu sou do tempo do Professor Zé de Bila. Depois, já na cidade, Zequinha foi aluno de Dona Magnólia, no Grupo Escolar Airton Teles.
Aos 16 anos, Zequinha já estava envolvido no comércio, ajudando ao irmão. Montou a sua banca de verdura, nas feiras de Propriá e Areia Branca. Aquelas bancas cheias de verde que enfeitam as feiras de Sergipe, são todas de Itabaiana. No grande negócio dos hortifrutigranjeiros, o varejo começa na banca de verdura.
Zequinha fez de tudo. Hoje, lidera a venda de cenouras no estado. Vende e produz. O negócio das verduras em Sergipe, passa tudo por Itabaiana. Cresceu tanto, que houve uma especialização. É fulano disso, sicrano daquilo. Ninguém abarca tudo. As cenouras são produzidas na região de Irecê, na Bahia. Isso mesmo, Irecê que já foi um grande produtor de feijão.
Ele não se chama Zequinha da Cenoura à toa. Nesse campo, ele é o Rei. São cinco caminhões de cenoura e beterraba por semana. Itabaiana comanda o comércio de hortifrutigranjeiros. Produz as folhagens nos perímetros irrigados e distribui os demais, mesmo as cebolas. Hoje, até a farinha de Itabaiana é produzida nos municípios vizinhos.
Itabaiana domina a distribuição dos hortifrutigranjeiros em Sergipe, são 70 grandes comerciantes, organizados na ACHI. O Estado construiu (fevereiro de 2021) um CEASA inadequado. Um CEASA para pequenos verdureiros, para a venda no varejo, com boxes minúsculos. Itabaiana precisa de uma Central de Distribuição em grande escala.
Por questões políticas, o CEASA de Itabaiana nunca foi repassado para a administração municipal, nem para a autogestão dos comerciantes. Já foi até de local de festas, “um forrodromo”, mas nunca cumpriu a sua finalidade.
Não pensem que Zequinha só vive para trabalhar. Tem bom gosto, a sua casa de praia é em Pão de Açúcar, na beira do São Francisco. Onde, nas folgas, ele aproveita a vida com uma geladinha, regada a tira gosto de pitu. Era ele me contando e eu enchendo a boca d´´água. Zequinha é um “bon-vivant”.
Se derem o direito de escolher o que trazer para Itabaiana, o mar do Aracaju ou o Rio São Francisco, não teria dúvidas, o Velho Chico.
E a política? Zequinha é o vice Prefeito de Itabaiana, com grande chance de virar Prefeito. Perguntei como ele pensava. Se tinha ambição de passar para política. Ele foi direto: o chefe político é Valmir e eu sigo as suas orientações. Sem ambições, sem risco de ser mordido pela mosca azul.
Mais uma vez, Valmir fez a escolha certa.
Zequinha é uma pessoa realizada economicamente. Relaxado, de bom humor, sem traumas, ressentimentos, grato a Deus pela vida que leva. Não sonha em ser o dono do mundo, de possuir mais do que o que já possui.
Zequinha é pai de três filhos, em dois casamentos. O primeiro com Maria e o atual com Adenilza.
No final da conversa fiz uma pergunta inoportuna: se ele tinha medo da morte. A resposta foi ótima: “Samarone, eu tenho mais medo de quebrar do que de morrer”. Senti a expressão viva da alma itabaianense, onde “quebrar” é uma derrota imperdoável!
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
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