sábado, 17 de março de 2018

APONTAMENTOS PARA UMA HISTÓRIA DOS REMÉDIOS


Apontamentos para uma história dos remédios.

Na primeira metade do século XX, havia duas maneiras de se produzir medicamentos. Uma artesanal, em pequena escala, centrada em fitoterápicos, sem a necessidade da intermediação médica para o consumo; e outra industrial, larga escala, centrada em substâncias químicas, exigindo a receita médica para o acesso ao consumo. Vamos ao primeiro modelo.

Pequenas empresas produziam elixires, xaropes, balsamos, grãos de saúde, fortificantes, peitoral, vinho, licor. Esses medicamentos só poderiam ser comercializados após a competente aprovação das Juntas Estaduais de Higiene. Eram pequenas fabriquetas e acanhados laboratórios, geralmente de propriedade dos inventores das misturas ali produzidas. Uma produção artesanal, totalmente descentralizada, contudo, fiscalizado pela Saúde Pública. A rede comercial oferecia desde os medicamentos produzidos por um farmacêutico famoso da Capital Federal, até os produzidos por um farmacêutico provinciano, da nossa bela Maruim.
Esses medicamentos de marca registrada, geralmente fitoterápicos, formulas secretas, de amplo espectro, que restauravam, tonificavam, fortaleciam, depuravam, reconstituíam, corrigiam, recompunham, preveniam, curavam, etc.; eram vendidos diretamente aos consumidores, sem a necessidade da intermediação médica. A sua regulação era orientada pela Farmacopeia (Coleção das fórmulas de medicamentos básicos).

No Brasil, a primeira foi a Farmacopeia Geral para o Reino e os Domínios de Portugal, sancionada em 1794, e obrigatória a partir de 1809. Após a Independência, foram utilizados, além desta, o Codex Medicamentarius Gallicus francês e o Código Farmacêutico Lusitano, hoje considerado como a 2ª edição da Farmacopeia Portuguesa. Em 19/01/1882, o Decreto n° 8.387, estabeleceu que para o preparo dos medicamentos oficiais seguir-se-á a Farmacopeia Francesa, até que fosse composta uma Farmacopeia Brasileira.

Finalmente, em 1926, as autoridades sanitárias do País aprovaram a proposta de um Código Farmacêutico Brasileiro, apresentada pelo farmacêutico e professor de farmácia Rodolpho Albino Dias da Silva. Este Código foi oficializado em 1929 e tornou-se a primeira edição da Farmacopeia Brasileira. Obra de um único autor, a primeira edição da Farmacopeia Brasileira (1.150 páginas), equiparava-se às farmacopeias dos países tecnologicamente desenvolvidos, com uma diferença, continha a descrições de mais de 200 plantas medicinais, a maioria delas de origem brasileira.

Na primeira metade do Século XX, encontravam-se à venda nas farmácias, boticas e drogarias sergipanas: o peitoral de cambará, indicado no combate as bronquites e a coqueluche; para o estomago era aconselhado que se bebesse caxambu, lambary e cambuquira; contra a queda de cabelo, o tônico de camomila; para o combate os vermes intestinais. Lumbricida Vegetal; para fortalecer a dentição, os pós calcários naturais, do farmacêutico Antonio Carvalho, de Maruim.

O balsamo humanitário, aprovado pela Inspetoria de Higiene, do farmacêutico Durval Freire, era indicado para reumatismo, inchação, feridas, mordeduras, queimaduras, inflamações do fígado e baço, bem como para as afecções do peito. Do mesmo profissional tínhamos o vinho reconstituinte de quinino fosfatado, indicado para fraqueza geral, dispepsia, anemia, neurastenia, erisipela e caquexia.
Vinho de cássia occidentalis composto, do farmacêutico Carvalho, indicado contra as febres palustres, o paludismo crônico, o ingurgitamento do fígado e do baço (vulgarmente dureza), icterícia, anemias, além de ser um excelente aperitivo.

A matricaria de F. Dutra é anunciada como medicamento homeopático indicado para fortalecer a dentição das crianças, tornando-as tranquilas. Evita também as desordens do estômago, corrige as evacuações, cura a febre, as cólicas, a insônia, previnem os vermes e tornas as crianças mais fortes, alegres e sadias. Já para as doenças do estomago, fígado e intestino usava-se os Grãos de Saúde do Dr. Antunes.

Xarope de grindelia, de Oliveira Junior, indicado para moléstias do peito, defluxo, influenza, enfisema pulmonar, tosse pertinaz, e catarro nas vias áreas. O elixir nogueira, salsa, caroba e guáiaco, indicado na cura a sarnas gálicas, tumores gomosos e reumatismos. Licor de tayuyá, indicado para sífilis, moléstia da pele, impureza do sangue, eczemas, reumatismo e ingurgitamentos linfático.
 
Outros medicamentos encontrados nas farmácias e drogarias sergipanas: água de vichy purgativa; água sulfatada maravilhosa, restaurador da vista; carne líquida de Valdez; gelol – bálsamo analgésico e estimulante; gonol, maravilhosa injeção antiblenorrágica; injeção cadet; Iodureto de potássio quimicamente puro; Licor de bismuto Schacht; Licor de Laville; pariquina, infalível remédio contra as hepatites agudas e crônicas; pastilhas anti-sépticas de Jones, para a garganta; Pastilhas peitorais do Dr. Zed; Pílulas de ocreina Gremy; Piperazina granulada de Midy; p        ó laxativo de Vichy, do Dr. Souligoux. Vinol, o delicioso preparado de fígado de bacalhau sem óleo.

Xarope anti-artritico de Orlando Rangel; Xarope de bromureto de stroncio de Laroze; xarope fenicado de Vial; xarope de thiocol Roche. Elixir estomacal de camomila e caricina – Dória. – Heroico medicamento que pode ser usado sem nenhum resguardo, indicado para azia e cólica, fastio, vômitos, indigestões, sonhos, pesadelos, dores de cabeça, gastralgia, clorose, anemia, etc. Pílulas e Xarope de Blancard. Iodureto de Ferro inalterável, indicadas no tratamento de anemia, Clorose, tuberculose, escrófula e papeira. Medicamento francês.  

Emulsão de Scott (1902), óleo de fígado de bacalhau com hipofosfito de cal e soda, de Scott e Bowne, químicos de Nova York, contra anemia, tísica, raquitismo, enfermidades nervosas, do peito e pulmão, alterações do sangue e dentições difíceis. Visicatório de Albespeyres, medicamento francês.
Cápsula Raquin – Copaivato de sódio. Curam os fluxos agudos ou crônicos. Medicamento francês. Moléstias Secretas Cápsulas Raquin Únicas cápsulas de glúten de copaíba aprovadas pela Academia de Medicina de Paris. Como não se abrem no estomago toleram-se sempre bem e não causam eructação. Empregadas sós ou com a injeção de Raquin curam em muito pouco tempo as gonorreias mais intensas.

Vamos ao segundo modelo: em meados do século XX, com o surgimento de novos medicamentos químicos, tendo os antibióticos como carro chefe, a forma de produção artesanal e descentralizada sucumbiu. Grandes laboratórios começaram a distribuir na rede varejista os novos medicamentos químicos, chamados de medicamentos éticos, cuja a venda começava a ser controlada centralmente. Para o seu consumo, se começava a exigir a receita médica. Aos poucos, os médicos foram substituindo os farmacêuticos no controle da venda dos medicamentos. Com a industrialização desses medicamentos químicos, as doses e combinações farmacológicas foram padronizadas, medida necessária a essa forma de produção. Os remédios assumem a forma de mercadoria, estabelecendo-se uma relação de parceria com os médicos, visando a aceitação dos consumidores desses produtos.

Como esclareceu Robert Whitaker, em seu conhecido trabalho, a Anatomia de uma Epidemia: “os médicos passaram então a desfrutar de um lugar muito privilegiado na sociedade norte-americana. (Também no Brasil). Controlavam o acesso do público aos antibióticos e a outros novos medicamentos. Em síntese, tinham se tornado os vendedores varejistas desses produtos, com os farmacêuticos simplesmente cumprindo as suas ordens, e, na qualidade de vendedores, passaram então a ter uma razão financeira para alardear as maravilhas dos novos produtos. Quanto maior fosse a percepção dos remédios, mais o público se inclinaria a procurar os consultórios para obter receitas. Ao que parece, a posição do próprio médico no mercado é fortemente influenciada por sua reputação de uso de drogas mais recentes.”

Nesse momento, com a substituição da produção artesanal de medicamentos, de marca registrada, pela produção industrializada dos medicamentos éticos, os farmacêuticos que controlavam o varejo perderam o espaço para os médicos; e os charlatães que disputavam com os médicos a clientela da assistência são finalmente derrotados, pois deixaram de ter acesso a prescrição e ao conhecimento sobre os novos remédios. Um novo saber sobre os medicamentos se constituiu sob a tutela dos médicos, e com a chancela do discurso científico; tornando os medicamentos artesanais obsoletos. Os interesses financeiros dos médicos alinharam-se perfeitamente com os da indústria farmacêutica. No Brasil, esses novos medicamentos só passaram pelo controle sanitário a partir de 1946. O Decreto nº 20.397/1946 se referia a medicamentos como especialidade farmacêutica e exigia que toda a especialidade fosse licenciada antes de ser exposta ao consumo. Era necessário somente comprovar a segurança do produto. A comprovação da eficácia do produto como exigência para o registro só a partir de 1976, com a lei 3.360/76. Mesmo assim, os produtos já licenciados estavam isentos.

No momento, quando a assistência médica já abandonou a forma de cuidados, assumindo a de produção de procedimentos, permitindo que a própria assistência incorporasse a forma de mercadoria; os médicos continuam zelosos na garantia da exclusividade da prescrição. Muitas prerrogativas foram suprimidas do texto da lei sobre o ato médico, mas o direito exclusivo de prescrição é inegociável. A disputa do mercado não é mais com os charlatães, mas com dezenas de profissionais de saúde não médicos. O poder exclusivo da intermediação do consumo dos produtos da indústria farmacêutica, e o combate a automedicação, continua sendo uma garantia de clientela.

Antônio Samarone.