sábado, 15 de julho de 2023

PÉ DE SERRA

 Pé de Serra...
(por Antonio Samarone)

Acabei de ler uma tese sobre o forró, do doutor Thiago Paulino. A academia debruçada sobre a arte popular. A arte dos excluídos. O pesquisador divide forró em eletrônico, universitário e pé de serra.

O meu interesse restringe-se ao último.

Acho que o “eletrônico” e o “universitário” aproveitam-se do título forró, como marketing. Forró é o pé de serra. Pronto! Eu sei, é um achismo questionável. Fiquem à vontade.

O forró pé de serra é exemplo raro de resistência bem-sucedida a indústria cultural. Enfrentando boicotes sistemáticos. O exemplo recente de Flávio José, sendo discriminado em Campina Grande, é ilustrativo. Estou falando de um ícone do forró.

Aprendi com a tese de Paulino, que virou livro, que a composição do trio do forró pé de serra (sanfona, zabumba e triangulo) não foi criação de Gonzaga. Já existia em Portugal antigo, um grupo chamado “chula” (rebeca, bombo e ferrinho). Os estudos acadêmicos trazem essas novidades.

O doutor Paulino inspira-se em Nobert Elias, um médico alemão, para explicar o Barracão de Clemilda. Tirando essas bobagens, o livro é bom.

Não é culpa dele, a Academia exige uma referencia teórica, mesmo que se force a barra.

Outro exagero, foi considerar o Arraial do Povo, esse da Orla da Atalaia, um evento diferente do Forró Caju, o do mercado central do Aracaju. Considerando o primeiro de raiz e o segundo de massas.

Acho tudo farinha do mesmo saco. Os dois eventos transformam o povo em plateia. Antes brincava-se o São João, hoje se assiste.

O São João atual é uma festa de largo, onde o Estado, o Poder Político se transforma no organizador, financiador e protagonista. Um uso da cultura como instrumento de legitimação política dos governantes. A visão romana do espetáculo.

Uma dúvida: essa lógica atual de financiamento do Ministério da Cultura (Lei Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2) aponta em outra direção? Seria um caminho de descentralização democrática? Estou apenas perguntando.

O livro de Paulino é bem fundamentado. Ajuda no entendimento sobre o forró, sobretudo em Aracaju. Sobre o interior, limita-se a família de Aurelino e a Cobra Verde, em São Domingos.

Que o Doutor Paulino se prepare para estudar os desdobramentos para o forró pé de serra, com a criação de uma escola de sanfona, zabumba, triangulo e teoria musical, que está quase pronta, na capital sergipana de cultura.

Doutor Paulino, gostei do seu livro. Escreva mais.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

A SENHORA DAS ÚLTIMAS COISAS

 A Senhora das Últimas Coisas...
Por Antonio Samarone

A Morte levou mais um da minha Aldeia. Dessa vez, levou um campeão de 1959: Samuel de Sizinio. A Morte não respeita ninguém, nem os campeões.

Acho que a Morte está exagerando. Perdeu o senso! “E para ti, Ó Morte, vá a nossa alma e a nossa crença, a nossa esperança e a nossa saudação.” Fernando Pessoa

José Samuel de Almeida nasceu em 12 de abril de 1939 (84 anos), na Villa de Santo Antonio e Almas. Foi o primogênito de Sizino de Boanerges e dona Maria Souza de Almeida (irmã de Zé Crispim), gente do Zanguê.

Samuel era cem por cento ceboleiro. Um homem que trabalhava por compulsão. Deixou a advocacia, porque os processos tramitavam lentamente, e ele tinha pressa.

Samuel é de uma família de gente honrada. O seu pai, Sizinio de Boanerges, foi dono de armazém de secos e molhados e fogueteiro. Um empresário bem estabelecido. Foi Prefeito de Itabaiana e saiu pobre. Foi viver de uma bodega aqui em Aracaju, na esquina das ruas Itabaiana e Maruim.

Samuel de Sizinio, irmão de Nandinho e Suzana, e mais uma legião de gente. As famílias eram grandes. Samuel foi casado com Dona Marly Mendonça.

Uma lembrança: Suzana e Marly foram minhas professoras, e das boas. Eu sou do tempo que as lembranças das professoras ficavam. O que eu sei de geografia, aprendi com Dona Marly.

Samuel deixou 4 filhos (Eduardo, Ana Paula, Ana Karla e Ricardo) e 6 netos (Raíssa, Igor, André, Ana Luíza, Beatriz e Pedro).

Em menos de oito dias, enterrei Mãe Gorda, Djalma Lobo e Evandro Sena, e agora Samuel de Sizinio. Fora Jaci de Joãozinho Retratista, que só soube depois.

Gente, alguém tem que tomar providências! A Morte está abusando, só ela é absoluta.

Eu queria ter a fé do Padre Peixoto e acreditar na ressurreição.

Mesmo a ideia de Deus sendo improvável, é mais difícil acreditar na tese da biologia, onde o homem é fruto do acaso evolutivo.

Na verdade, não alcanço o mistério da vida consciente.

Missão cumprida, Samuel de Sizinio!

O sepultamento será as 16 horas, na Colina da Saudade.

Antonio Samarone. (médico Sanitarista)

O GATO GRIS

 O Gato Gris.
(por Antonio Samarone)

Os bichos se humanizaram, dormem na cama e possuem sobrenomes, sobretudo os cães e os gatos. Acho, que se a evolução darwinista estiver certa, em muito breve, eles começarão a falar.

Em meu condomínio, essa humanização dos bichos é seletiva. Ama-se cães e gatos e odeia-se os pombos.

Temos um gato vadio, sem dono: o gato cinza!

O belo gato cinza está morrendo. O gato cinza, na verdade não é cinza, não é preto, nem azul. A sua cor não existe nas caixas de lápis de cores. A sua cor metia medo e o seu miado era assustador. Ele possui uma cabeça imponente e um olhar feroz, cheio de brilho.

O gato cinza não tem dono (perdão, tutor).

Depois que Marieta se mudou, o gato cinza ficou órfão, sem ter onde comer. Marieta era a tutora de gatos persas, daqueles peludos lindos. O que sobrava dos banquetes dos seus felinos, ia para o gato cinza.

Acho que a desnutrição e a velhice, mudaram a índole do gato cinza. Ele está com claros sinais de maus tratos e uma forte alopecia.

Em minha insônia produtiva, hoje pela madrugada, ouvi o miado do gato cinza. Acho que ele sabe da minha amizade com Marieta. Um miado humilde, choroso, pedindo um lugar para morrer. Os gatos, como as pessoas, morrem só.

Abri a porta e me aproximei. Botei ração fresca e tratei-o como gente. Não sei o seu nome, se é que tem nome. Chamei-o de xaninho, um apelido genérico. Tentei convencê-lo a não desistir da vida.

O gato cinza fez uma cara de tristeza e expressou: Chega, o sofrimento não faz sentido. Chegou a minha hora. Acho que a morte também não é o fim para os gatos. Se houver reencarnação, só não quero voltar pombo.

Eu, cá comigo, nem eu.

Os gatos aqui de casa são comuns, não reclamam, acham a vida boa, só com casa, comida, atenção e carinho. Eles foram solidários com o gato cinza.

O gato cinza não tem onde morrer. Talvez, ainda esteja vivo só por isso.

Me senti impotente. Se ele quisesse viver eu sabia como ajudá-lo. Mas, morrer, eu não sei. Não lido bem com a morte.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

A DANÇA

 A Dança...
(Por Antonio Samarone)

O que é essa febre, que se apossa da criatura levando-a ao frenesi? A dança é uma manifestação do instinto da vida, da mais pura energia vital.

“O Grupo Luar do São João, do Piauí, venceu o concurso regional de quadrilhas, da Rede Globo, com um enredo sobre a Santa Dulce. A fé na Santa está em alta. A quadrilha representante de Sergipe, a Século XX, não foi premiada.”

Postei a informação acima no Tweet, visando chamar a atenção para a popularização da fé em Santa Dulce. Mas as reações foram outras. Criticaram as atuais quadrilhas juninas.

As pessoas reagiram criticando as mudanças no estilo das quadrilhas juninas: "acabou-se a tradição", "as quadrilhas não são mais as mesma, viraram escola de samba", "já possuem até enredo". Choveram críticas, algumas enfurecidas.

Não existem mais quadrilhas como antigamente, dizem os saudosistas.

Fiquei inconformado. Sim, mas como eram as quadrilhas antigamente? Uma dança de salão bem-comportada, marcada em francês (anavantú, anarriê), e que tentava ridicularizar os tabaréus, com as suas vestes remendadas e o passo troncho.

A dança é uma celebração. O que celebravam as quadrilhas afrancesadas?

A dança é uma linguagem além da palavra. O Rei Davi dançou diante da Arca.

A dança é provação, prece, teatro, rituais e terapêutica. Os Xamãs ascendem ao mundo do espírito pela dança.

Na tradição chinesa, a dança permite organizar o mundo, pacifica os animais selvagens e estabelece uma harmonia entre o céu e a terra.

A quadrilha afrancesada não era nada disso. Nada expressava! Era uma imitação simplificada das danças da Coorte francesa. Essa tradição não nos pertence!

Na concepção de Câmara Cascudo, a quadrilha era a grande dança palaciana do século XIX, que abria os bailes das Cortes europeias. Na época do Império, foi sucesso no Rio de Janeiro. No último baile solene do Paço (1852), dançaram vinte quadrilhas.

A quadrilha foi trazida para o Brasil pelos mestres das orquestras de dança francesa, como Milliet e Cavalier, que tocavam as músicas de Musard, o pai das quadrilhas.

A quadrilha se popularizou depois no Brasil, como uma dança caipira.

A quadrilha junina atual, essa que passa na Globo, se modificou. Se transformou num bailado popular. Incorporou a música nordestina. As roupas ganharam brilho e beleza. A dança virou uma coreografia centrada no xaxado e no arrasta pé. E agora, tem até enredo. Celebram a vida, a liberdade e a força da cultura popular.

Por que vocês estão criticando e pedindo o retorno da quadrilha afrancesada? Gente, o que se chamava antes de “quadrilha” era uma imitação, uma veleidade aristocrática.

As quadrilhas juninas, ainda bem, só herdaram da dança francesa, o nome e os pares. Uma herança que pouco acrescenta.

As quadrilhas juninas de hoje, são formas dramáticas de expressão cultural, onde o corpo rompe os limites em busca de liberdade e da harmonia. Um baile perfumado.

Viva os bailados nordestinos (quadrilhas), herdeiras da nossa melhor tradição. Em especial, viva a “Balança mais não cai”, tradição do Beco Novo.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

ALMA BRASILEIRA

 A alma brasileira...
(por Antonio Samarone)

“Mas de repente, me acordei com uma surpresa/ Uma esquadra portuguesa veio na praia atracar/ Da grande Nau, um branco de barba escura, vestindo uma armadura me apontou para me pegar/ assustado, dei um pulo lá da rede, pressenti a fome e a sede, eu pensei vão me acabar/ me levantei, de borduna já na mão/ eu pensei no coração, o Brasil vai começar.” – Nóbrega.

Na medicina hipocrática, o corpo humano é formado de 4 elementos: terra, água, fogo e ar.

No brasileiro predominam o ar. Somos filhos do ar. Isso vem da descoberta. Chegamos de caravelas, trazidas pelo ar.

Na cosmogonia bíblica, fomos criados com um sopro divino nas narinas de um boneco de barro. O ar é o símbolo da vida, da espiritualização. O ar é a fonte do vento, do bafo e do sopro, é a via de comunicação entre a terra e o céu.

Dos 4 elementos, o ar domina o brasileiro. Quando provocados, pegamos ar, ficamos zangados.

Se diz de duas pessoas parecidas: fulano dar uns ares com beltrano. O olhado é um ar diabólico, o ar da inveja. O seca pimenteira.

A antiga morte de repente, causada pelo acidente vascular cerebral (AVC), o “popular derrame”, se diz que passou o vento.

A malária é o mau ar. O vento pelas costas é um perigo para a saúde. Na Peste da Covid, se entubava pela falta de ar. A Peste matou por afogamento.

Deixamos de acreditar, mas vento mau existe, e continua soprando.

Existe o ar do morto, o ar do vivo, o ar quente, o ar frio, o ar da inchação, ar de ventosidade e o ar de dormência. E muitos outros.
Só o diabo, tem mais força que o ar.

Carregar velas acesas em procissões (foto) é um desafio ao vento. Uma luta entre o fogo e o ar. O homem dominou o fogo. O ar ligeiro é indomável, o vento vira furação.

Dona Gemelice, no Beco Novo, passava o ramo e ordenava: “Eu retiro todos os males, o ar do ribeiro, ar dos salgueiros, ar dos corisqueiros, ar de morto, ar de vivo, ar de vizinho mau e ar de vizinho bom.” Havia evidencias da eficácia da reza.

Dos 4 elementos fundamentais, o ar é único que continua público. Ainda é gratuito.

A alma nem sempre está à venda. “Tudo vale a pena, quando a alma não pequena.” – Pessoa.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

QUE O ALIMENTO SEJA O SEU VENENO

 Que o alimento seja o seu veneno.
(por Antonio Samarone)

São João é festejado como um deus amável e dionísico, com farta alimentação, músicas, danças e bebidas. Dizem que no dia da festa o Santo dorme, para evitar a tentação do clarão das fogueiras e descer do céu.

João era primo de Jesus, nasceu em 24 de junho e morreu degolado no Castelo de Macheros, na Palestina. A sua cabeça foi entregue numa bandeja. Um pedido de Salomé.

A festa que veio de Portugal, foi logo incorporada pelos índios. Fernão Cardim cita as fogueiras nas Aldeias, comemorando São João, já em 1583. Os índios praticavam a coivara. A festa logo caiu no gosto.

As festas juninas acirram um conflito no idoso, entre os limites dos desejos. O banquete é divino, entretanto o corpo não suporta a explosão dos açucares no sangue. O corpo pede, suplica, implora pelos venenos da culinária.

A diabetes canta e dança com a fartura com a farra junina!

A medicina prescreve uma dieta penitencial, proíbe tudo o que se gosta, com a ilusória promessa de redução dos danos. As canjicas, manauês, mingaus e guloseimas afins, são classificadas como venenos, e proibidos.

O mingau de puba com canela é um herança ancestral profunda. Está inscrita no DNA.

Por outro lado, entre os pecados capitais, só nos resta a gula. Condenar a gula em quem passou fome é uma crueldade. Os anos de vacas magras são longos.

Um dilema sem solução: submeter-se as regras da medicina e tornar a vida insossa, ou ceder alegremente a gulodice e submeter-se as consequências.

Sei não! Findo cedendo a lógica que é só um pedacinho e é só hoje. Nunca é um pedacinho.

As pessoas próximas não ajudam. Uns incentivam, por maldade: besteira, pouco não faz mal. Outros, também por maldade, fazem medo: não coma, a sua glicemia já está alta e as sequelas são fatais.

Você é quem sabe, se eximiu por maldade um velho compadre de fogueira.

O pior, até a minha consciência é por maldade dividida. O hemisfério cerebral esquerdo manda comer e o direito aconselha o jejum.

O glutão é ao mesmo tempo morte, vida, alegria e sofrimento.

Para rebater o peso na consciência pela comilança do São João, logo cedo, mandei fazer um cuscuz de milho ralado, com manteiga do sertão e meia dúzia de ovos caipiras, malpassados.

“Se João soubesse/ Quando era o seu dia/ Descia do céu a terra/ Com prazer e alegria.!”

Que venha o São Pedro!

Antonio Samarone (médico sanitarista)

A CONTEMPLAÇÃO É FEITA EM SILENCIO

 A contemplação é feita em silencio.
(Por Antonio Samarone)

A vida quer um pouco mais de calma.

“Para o homem a planta vale pouco, porque quase não tem inteligência; mas para planta é possível que a inteligência seja uma aptidão à desgraça, qualidade inferior e tal que aos olhos dela desmoralize o homem.” – João Ribeiro (sergipano de Laranjeiras)

Resolvemos esse impasse criando a inteligência artificial, mais rápida e precisa, sem dúvidas, vacilos, equívocos e duplicidades. Para a inteligência artificial, pau é pau, pedra é pedra. Não existem meias verdades.

A razão centrada na inteligência humana, que, segundo Kant, produziria uma Paz Perpetua, foi derrotada. Tornou-se inútil!

O big-data é soberano. Um novo anjo da guarda! É a iluminação digital da alma.

A inteligência artificial vive de dados. Se mede tudo. Instalei um sensor que acompanha a minha glicemia on-line, em tempo real. Uma bomba de insulina libera o hormônio automaticamente. Pago pelo consumo, descontado em minha conta corrente.

Eu sei, haverá um crescimento da produtividade, do consumo e dos lucros. O mundo vai rodar mais rápido. Ocorre, que essa pressa não me interessa. Como diz o poeta: “Quando o tempo acelera e pede pressa, eu me reuso, faço hora e vou na valsa”.

Essa conversa de auto empreendedor, produz indivíduos esgotados, deprimidos, isolados. O burnout é a doença do desempenho. Tempo pode ser até dinheiro, mas o dinheiro não é tempo.

“O neoliberalismo moldou o trabalhador oprimido em um empreendedor livre, um empreendedor de si mesmo. Cada um é hoje auto explorado do seu próprio empreendimento. Cada um é senhor e escravo na mesma pessoa.” Chul Han.

O dinheiro surgiu como meio para se comprar animais para o sacrifício, para se exercer o direito de matar. O dinheiro acumulado fornece ao seu proprietário o status de predador, confere-lhe a ilusão da imortalidade.

Os milionários que embarcaram para visitar o Titanic nas profundezas oceânicas, se achavam imortais. O pacto com o capitalismo é uma forma de pacto com o diabo.

“Por falta de sossego, a nossa civilização desemboca em uma nova barbárie” – Nietzsche.

Antonio Samarone (médico sanitarista)