sexta-feira, 14 de março de 2025

A REBELDIA DE MONTALVÃO

A Rebeldia de Montalvão.
(por Antonio Samarone).

O jurista e publicitário barra-coqueirense José Carlos Góes Montalvão, me questionou inconformado: “se a principal razão para a transferência da capital foi colocá-la na Barra do Cotinguiba, por sua posição topográfica, por que não levaram a Capital para o povoado da Barra dos Coqueiros, à época mais desenvolvido?”

A capital em São Cristóvão, às margens do Rio Paramopama, não atendia as necessidades. (que João Bebe Água não nos escute).

Continuou Montalvão: “Se a Alfandega, a Mesa de Renda e o Consulado Geral da Província estavam no povoado da Barra dos Coqueiros, por que trouxeram a Capital para o outro lado, para as praias desertas do Aracaju?

Enfim, 170 depois, a Barra dos Coqueiros reage. Montalvão quer explicações.

Passei o dia procurando uma resposta. Perguntei a vários historiadores e ouvi explicações desencontradas. Fui ler as justificativas do projeto enviado à Assembleia Provincial, propondo a mudança da Capital.

Montalvão, o projeto defendia que fosse no lado do Aracaju, “porque tinha boas águas, é era muito salubre e ventilado, e tinha aos fundos, o fértil município de Socorro.” Eita, tudo falso: Aracaju era insalubre, um calor dos infernos e as águas eram salobras.

O projeto descartava o povoado da Barra dos Coqueiros por possuir um clima ardentíssimo, falta de água e ter aos fundos o município de Santo Amaro, estéril e decadente.

Espero que Montalvão se conforme e acabe com essa birra. Aliás, João Alves já fez uma ponte estaiada e Mitidieri já anunciou outra ponte, em pouco tempo.

Montalvão é simãodiense, mas foi adotado e se apaixonou pela Barra dos Coqueiros.

Calma irmão, os terrenos do Barão ficavam do lado de cá. A primeira rua, atual calçadão da João Pessoa, chamava-se Rua do Barão.

Viva os 170 anos do Aracaju. “Eu gosto do Aracaju e adoro Itabaiana”, parodiando Jorge de Altinho.

Antonio Samarone. Médico sanitarista.
 

ARACAJU, 170 ANOS. AS SOBRAS DOS MANGUEZAIS.

Aracaju, 170 anos. As sobras dos manguezais.
(por Antonio Samarone)

Aracaju foi construída sobre aterros embelezados de charcos, canais, riachos, brejos e manguezais. A Saúde Pública temia os miasmas: as sezões, as febres intermitentes, a bexiga e a cholera morbus. Entretanto, Aracaju sobreviveu e chega aos 170 anos.

O futuro do Aracaju depende de uma mudança de rumos, na direção de um desenvolvimento sustentável. Resta pouco território e não podemos errar. A chamada área expansão é ambientalmente frágil.

Vou limitar-me a bacia do Vasa Barris, mais especificamente ao pouco conhecido Rio Santa Maria (foto). O Rio Vaza Barris é o que banha a Canudos de Conselheiro. Tem história, o que daria consistência ao turismo.

O Rio Santa Maria nasce nas matas do Caípe Velho, é um afluente da margem esquerda Vaza Barris. Já foi o principal caminho para o transporte do coco entre o Condado do Mosqueiro e Aracaju.

Entre 1840-44, o rio Santa Maria recebeu uma obra de engenharia de grande porte. Foi aberto um canal até o rio Poxim, possibilitando a comunicação direta entre as embarcações que transitavam pelo Vaza-Barris e o Sergipe, sem ter o grande inconveniente de navegar pelas duas perigosas barras.

O coco chegava ao mercado central do Aracaju, através do Canal de Santa Maria.

O Canal de Santa Maria recebeu melhoramentos em 1932, tornando-se uma via navegável para as embarcações da época. As canoas eram empurradas por grandes varas, deixando uma marca no tórax dos canoeiros. Uma deformação ocupacional.

O atual e promissores complexos habitacionais Santa Maria e 17 de março, a antiga Terra Dura, foi a resultante de ocupações desordenadas e precárias, por pessoas carentes em busca de moradia e da iniciativa pública construindo conjuntos habitacionais. Lembro-me das ocupações mais importantes: as do arrozal, morro do avião, uma parte do loteamento Marivan, Prainha, gasoduto.

Contudo, a mais grave, do ponto de vista ambiental, foi a ocupação do trecho do canal Santa Maria (Terra Dura), que permitia a ligação fluvial entre os Rios Vaza Barris e Sergipe. Hoje, seria uma fabulosa rota turística.

O canal foi aterrado e ocupado por pessoas carentes e aproveitadores durante o Governo Valadares. Hoje resta um “córrego”. Durante esse mesmo governo, foi construído na Terra Dura, um conjunto habitacional que levou o seu nome.

Atualmente, a parte navegável do Rio Santa Maria chega até a chamada curva do Rio, no Bairro São José dos Náufragos, onde está se implantando um empreendimento imobiliário de mil lotes. Não sei até quando a natureza resiste.

Com as mudanças das denominações das localidades da Zona de Expansão para “bairros”, cresceu a expectativa de uma invasão da especulação imobiliária, pondo abaixo o que resta de restingas e manguezais. Deus nos proteja!

Não sou contra o desenvolvimento do Aracaju, pelo contrário, desde que seja um crescimento sustentável. É só impor regras civilizadas. Basta espirito público dos gestores.

Eu desconheço a política ambiental da Prefeita Emília. Há meio século, a gestão urbana do Aracaju esteve sob a tutela da indústria da construção civil. Espero, ingenuamente, que a Prefeitura do Aracaju cuide da questão ambiental e só permita uma ocupação sustentável, dessas áreas na Zona de Expansão.

É o futuro da qualidade de vida do Aracaju.

Antonio Samarone (médico sanitarista)
 

quarta-feira, 12 de março de 2025

ITABAIANA, 350 ANOS. ZEQUINHA DA CENOURA

Itabaiana – 350 anos. Zequinha da Cenoura
(por Antonio Samarone)

Na segunda metade do século XX, Itabaiana tornou-se uma economia comercial, polo de abastecimento de Sergipe. Os serviços de transporte (caminhão) e o comércio foram as locomotivas do desenvolvimento.

A mudança na economia refletiu na vida das pessoas. Zequinha é um bom exemplo. Viveu as duas fases. Na zona rural até os 13 anos, cuidando do gado da família; e depois, na cidade, de onde veio para ser um bem-sucedido comerciante.

Até a década de 1960, a Itabaiana rural vivia nos sítios. Os mais abastados, possuíam uma casa de rancho na cidade, para as festas religiosas, datas especiais e as feiras.

Hoje, se vive na cidade.

Volta-se a zona rural com as chácaras recém-construídas, para as celebrações e descansos. A chácara é uma demonstração de sucesso, a “casa de praia”, de quem vive nas montanhas. A troca da economia rural pelo comércio elevou a qualidade de vida dos itabaianenses.

A revolução urbana em Itabaiana, com os modernos condomínios, foi acompanhada de uma modificação da vida rural: com as chácaras dos ricos e remediados e a urbanização dos povoados, com luz, água encanada, saneamento, estradas, pavimentação, praças, escolas e unidades de saúde.


José Paes Santos (Zequinha da Cenoura), nasceu no Pé do Veado, em 12 de agosto de 1974. Filho de Zé de Branquinha da Farinha e Dona Terezinha, numa família de seis irmãos: Antonio, João, Gilson, Genilson, Carminha e Maria José.

Gente do Pé do Veado. O pai de Zequinha possuía um bom sítio e vendia farinha nas feiras de Itabaiana e Ribeirópolis. Era a Itabaiana rural, o celeiro de Sergipe, vivendo da agricultura. A mãe, Dona Terezinha, de tradicional família camponesa, é filha de Joãozinho de Venancio e irmã de Francisquinho dos Porcos.

Zequinha estudou as primeiras letras com a professora Zefinha de Pedro de Severo, no Pé do Veado. Eu sou do tempo do Professor Zé de Bila. Depois, já na cidade, Zequinha foi aluno de Dona Magnólia, no Grupo Escolar Airton Teles.

Aos 16 anos, Zequinha já estava envolvido no comércio, ajudando ao irmão. Montou a sua banca de verdura, nas feiras de Propriá e Areia Branca. Aquelas bancas cheias de verde que enfeitam as feiras de Sergipe, são todas de Itabaiana. No grande negócio dos hortifrutigranjeiros, o varejo começa na banca de verdura.

Zequinha fez de tudo. Hoje, lidera a venda de cenouras no estado. Vende e produz. O negócio das verduras em Sergipe, passa tudo por Itabaiana. Cresceu tanto, que houve uma especialização. É fulano disso, sicrano daquilo. Ninguém abarca tudo. As cenouras são produzidas na região de Irecê, na Bahia. Isso mesmo, Irecê que já foi um grande produtor de feijão.

Ele não se chama Zequinha da Cenoura à toa. Nesse campo, ele é o Rei. São cinco caminhões de cenoura e beterraba por semana. Itabaiana comanda o comércio de hortifrutigranjeiros. Produz as folhagens nos perímetros irrigados e distribui os demais, mesmo as cebolas. Hoje, até a farinha de Itabaiana é produzida nos municípios vizinhos.

Itabaiana domina a distribuição dos hortifrutigranjeiros em Sergipe, são 70 grandes comerciantes, organizados na ACHI. O Estado construiu (fevereiro de 2021) um CEASA inadequado. Um CEASA para pequenos verdureiros, para a venda no varejo, com boxes minúsculos. Itabaiana precisa de uma Central de Distribuição em grande escala.

Por questões políticas, o CEASA de Itabaiana nunca foi repassado para a administração municipal, nem para a autogestão dos comerciantes. Já foi até de local de festas, “um forrodromo”, mas nunca cumpriu a sua finalidade.

Não pensem que Zequinha só vive para trabalhar. Tem bom gosto, a sua casa de praia é em Pão de Açúcar, na beira do São Francisco. Onde, nas folgas, ele aproveita a vida com uma geladinha, regada a tira gosto de pitu. Era ele me contando e eu enchendo a boca d´´água. Zequinha é um “bon-vivant”.

Se derem o direito de escolher o que trazer para Itabaiana, o mar do Aracaju ou o Rio São Francisco, não teria dúvidas, o Velho Chico.

E a política? Zequinha é o vice Prefeito de Itabaiana, com grande chance de virar Prefeito. Perguntei como ele pensava. Se tinha ambição de passar para política. Ele foi direto: o chefe político é Valmir e eu sigo as suas orientações. Sem ambições, sem risco de ser mordido pela mosca azul.

Mais uma vez, Valmir fez a escolha certa.

Zequinha é uma pessoa realizada economicamente. Relaxado, de bom humor, sem traumas, ressentimentos, grato a Deus pela vida que leva. Não sonha em ser o dono do mundo, de possuir mais do que o que já possui.

Zequinha é pai de três filhos, em dois casamentos. O primeiro com Maria e o atual com Adenilza.

No final da conversa fiz uma pergunta inoportuna: se ele tinha medo da morte. A resposta foi ótima: “Samarone, eu tenho mais medo de quebrar do que de morrer”. Senti a expressão viva da alma itabaianense, onde “quebrar” é uma derrota imperdoável!

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

terça-feira, 11 de março de 2025

É TEMPO DE CELEBRAR

É Tempo de Celebrar.
(por Antonio Samarone)

Onze de março é para mim uma grande efeméride: o aniversário de Maria Betania, a mulher que eu amo.

Não é fácil falar do amor, sem recorrer às frases feitas ou a subjetividade poética. O amor que eu sinto é um sentimento alimentado pelo tempo, pela convivência, pela cumplicidade e pelo dia a dia. Plagiando o poeta, é um amor forte e seguro!

Com diz o sacramento católico: “um amor na alegria e na tristeza”!

Desconfio que fui premiado com a companhia de Betânia, por méritos passados, de outras gerações. Já reencarnei com os créditos. “São as águas de março fechando o verão/ É a promessa de vida no meu coração.”

Parabéns, Betânia, vamos juntos ao centenário.

Antonio Samarone.
 

quarta-feira, 5 de março de 2025

MEMENTO MORI

Memento mori
(por Antonio Samarone)

Amanheci na Igreja dos Capuchinhos, no Bairro América, para submeter-me a imposição das cinzas. Talvez o mais humano dos rituais cristãos. Um cego procurando a luz na imensidão do Cosmo.

Aceitar a imposição das cinzas é um reconhecimento da fragilidade da condição humana. Um ritual do cristianismo primitivo.

A única verdade absoluta: “Tu és pó e ao pó retornarás.” Crentes e ateus submetem-se a esse destino. É um sinal de penitência, arrependimento e conversão.

Na Roma antiga, quando um general vencia uma batalha, percorria a cidade em triunfo, saudado pelos cidadãos e acompanhado de um escravo que sussurrava em seu ouvido uma expressão em latim: “memento mori”, Lembra-te de que morrerás.

O ateu materialista, puro-sangue, deu lugar ao agnóstico, ao cético. Hoje, luta é pelo ré encantamento do mundo. A fronteira entre o crente e o descrente estreitou-se.

O Frade capuchinho, para minha surpresa, não falou da morte. Nem da condição humana. Disse que era a entrada da quaresma e mudou de toada. Pregou sobre a vida! Glorificou o lema da Campanha da Fraternidade: “Ecologia Integral – Deus viu que tudo era muito bom”. Igreja sai em defesa do planeta.

A teologia da libertação voltou, pela via ambiental. Enquanto o César americano, cheio de soberba, prega o avanço sobre a terra, a exploração sem limites dos combustíveis fósseis. Nega a crise climática! Rompe com o acordo de Paris. A Igreja do Papa Francisco clama em defesa da natureza.

“Estou corajoso para falar ao meu Senhor, eu que sou pó e cinza” (Gn 18, 27).

Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana)
 

domingo, 2 de março de 2025

O CARNAVAL DO DESCANSO

O Carnaval do Descanso.
(por Antonio Samarone).

O domingo de carnaval em Aracaju, amanheceu em silêncio. O reinado de Momo é tempo de descanso. Por aqui, quem gosta de folia já viajou. O carnaval é comer, beber e descansar.

Culturalmente, Aracaju é uma cidade neutra. Sem uma marca cultural. Sem manifestações originais. Procurei saber as opções para o carnaval e são oferecidos passeios (Orla Por do Sol, Croa do Goré, Museu da Gente Sergipana, Orla da Atalaia e a Passarela dos Caranguejos).

Não estou me queixando, nada pessoal. Estou falando do carnaval que vejo no Aracaju. Por mim, passaria o carnaval em trilhas ambientais, fazendo ecoturismo. Adoro esses passeios no Vaza Barris.

Em Aracaju nada de blocos, desfiles, carnaval de rua. Nem os antigos bailes de carnaval em clubes. Sim, eu sei, tem o rasgadinho. Existem manifestações isoladas de foliões insistentes. Aqui, ali e acolá.

As festas em Aracaju são plágios da Bahia. Não do tropicalismo, da boa música baiana; plagiamos a raiz mercadológica do axé. As festas são organizadas, via de regra, pelo Poder Público, em busca de legitimidade entre os jovens.

Aracaju, culturalmente, produz e consome o que vem de fora. A nossa principal TV aberta está transmitindo o circuito Barra/Ondina. A política cultural em Sergipe é ditada pelos empresários da cultura. Vai do folclorismo ao provincialismo.

A Prefeita Emília, Leoa de Judá, poderia aproveitar a tranquilidade carnavalesca de Aracaju, para promover o turismo de descanso, para quem não gosta do furdunço. Tenho certeza que seria um destino muito procurado.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

sábado, 1 de março de 2025

GENIOS ESQUECIDOS - ITABAIANA, 350 ANOS.

Gênios esquecidos – Itabaiana, 350 anos.
(por Antonio Samarone)

O sucesso musical não depende só do talento. Nas décadas de 1970/80, a centenária filarmônica de Itabaiana hibernava, sob o comando do maestro Antonio Melo: um exímio saxofonista, portador de impaciência crônica.

Vindo de Riachão dos Dantas, chegou em Itabaiana o Camarada João de Matos, operário, marceneiro, uma divindade da música.

Como o mundo não para. A diretora do Colégio Murilo Braga, Maria Pereira, recebeu um estoque de instrumentos musicais, com a tarefa de criar uma banda marcial.

Faltavam os músicos. Dona Maria Pereira contratou o maestro João de Matos para formá-los. O que ninguém sabia: o maestro, um carpinteiro comunista, vindo do Riachão dos Dantas, era um excepcional professor de música.

Com a missão de organizar a banda do Colégio, João de Matos formou uma geração de músicos, uma safra talentosa, que depois, sob o comando de Valtênio, retomaram a velha Filarmônica e outros saíram pelo Brasil fazendo sucesso.

Das aulas do comunista João de Matos, despontaram:

Wellington Mendes (professor de música na Bahia); Zé Aroldo (saxofonista e professor do Conservatório); Valtênio (trompete, maestro da filarmônica); Gustavo de Bobó; Jorge Pi, compositor de sucesso; Roberto Wagner, sobrinho de Dr. Millet (trombone com vara, maestro da sinfônica de Goiás); Hipólito na Tuba; Gene, um virtuose no Pistom e Alexandre Abraham, um gênio no trompete, que morreu cedo.

Uma enxurrada de músicos talentosos, todos alunos do Maestro João de Matos. Devo ter esquecido alguns. Itabaiana é uma terra de músicos, há 280 anos, desde a criação da Filarmônica, pelo Padre Francisco da Silva Lobo.

O clarinetista Luiz Americano foi um nome nacional, nasceu na Rua do Canto Escuro, em Itabaiana, mas como nunca declarou. Ao contrário de Mestrinho e Natanzinho.

Gente, além de Natanzinho (arrocha) e Mestrinho (forró), a produção musical em Itabaiana é profunda. Lembrei-me de Melciades (contrabaixo), Luiz de Mané de Jason (guitarra) e Raimundo (violão), ouvidos absolutos, que honram Itabaiana. Não esquecemos o talento da poetisa e cantora Antônia Amorosa.

Entre os gênios discípulos de João de Matos, destaco Alexandre Abraham, filho de Maria Agda Menezes e do judeus, José Abraham. Um bisneto de Alexandre Fava Pura.

Dedé Cachaça vaticinava: esse menino vai longe, filho de judeus, neto de Josué do Vinagre e sobrinho de Anchieta, será um gênio. E foi!

Para quem não é de Itabaiana: Anchieta foi a maior inteligência da minha geração. Descobria o segredo de qualquer cofre, no escuro. Educado, fala mansa, mas disposto a tudo. Anchieta metia medo e inspirava respeito.

Segundo a jornalista Clara Angélica Porto, Alexandre Abraham era um menino lindo. Pele bem branquinha, olhos verdes azeitona, loirinho.

Sobre o gênio musical de Alexandre, escreveu Clara: “Viveu em staccatos noturnos, dias em semibreves e fermatas; bebia a lua e adormecia o sol na melodia; gorjeava como um pássaro com as cornetas de onde arrancava sons voadores em golpes de língua com maestria.”

O doutor Rômulo, filho do goleiro Lessa, poeta, médico e filosofo, me fez um relato esclarecedor: “Alexandre tornou-se profissional da música, com grande capacidade de improvisação, jazzista e, com Aroldo e Melciades, fundaram a banda "Excalibur", que tocava nas noites aracajuanas.”

Alexandre morreu em casa, no Pereira Lobo, sozinho, com quarenta e poucos anos. Morreu como Chet Baker, o grande trompetista americano. Alexandre está sepultado no Cemitério de Santo Antonio e Almas, em Itabaiana.

Minhas homenagens a esses itabaianenses, virtuoses da música, que encantaram e encantam a vida.

Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).