quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

PENSAR ITABAIANA (4)


 Pensar Itabaiana (4)
(Por Antonio Samarone)

Itabaiana inciou a década de 1960 em grande ebulição política. Os Coroneis com o “olho grosso” no comércio, se mataram. O ódio político contaminou a cidade: perseguições, espancamentos, violência aberta e explicita.

A fama de cidade violenta vem desse tempo. Hoje, Itabaiana voltou a ser um cidade pacata.

Em 1963, Euclídes Paes Mendonça e o Filho (UDN) são assasinados em Praça Pública. Em 1967, Manoel Teles (PSD) é assasinado na porta de casa. Um clima sombrio pairava sobre a cidade.

Itabaiana estava dividida.

Nesse clima, apareceu um saída: fortalecer o futebol. Dr. Pedro, Mozart, Zé Queiroz, Fautino, Pedro Gois, entre outros, uniram-se em torno da Associação Olímpica de Itabaiana. O primeiro campeonato veio em 1969.

Entenderam? O Itabaiana não é apenas um time de futebol, é a cidade de chuteiras. No Hino, Alberto de Carvalho captou perfeitamente: “somos Itabaiana, cidade celeiro.” Os ceboleiros de todos credos e paixãos, uniram-se pelo futebol. Até hoje!

Na década de 1960, os filhos do Ginásio Murilo Braga começam a mostrar as unhas. Chegaram o Jornal “O Serrano”, um pasquim provinciano cheio de venenos; Tapioca fundou o Buraco, um boite com luz negra; Vlademir Carvalho lançou “As Santas Almas de Itabaiana; Abrahão abriu uma loja de discos; surgiu “Os Nomades”, um conjunto musical que imitava os Beatles.

Uma amigo me perguntou que foi o famoso Murilo Braga? Um burocrata do Ministério da Eduacação, que nunca ouviu falar em Itabaiana.

Na década de 1960, ocorreu o renascimento cultural em Itabaiana.

A Igreja católica não estava mais sozinha. Além do Natal, Paixão de Cristo e as novenas de Santo Antonio, surgiram manisfestações culturais laicas. Nessa época, apareceram os cabeludos, a calça boca de sino e a mini saia. Uma herança hippie.

Itabaiana se modernizava.

Na década de 1960, a política se separou da economia. O comércio e os caminhões cresciam, e os líderes políticos reforçavam a velha disputa odienta com outros nomes (ARENA I X ARENA II), Abelhas X Mangangás).

A política pela política, centrada no clientelismo. A economia de Itabaiana cresceu por conta propria, não contou com chefes políticos desse período.

A ditadura de 1964 não encontrou resistências em Itabaiana, os inimigos políticos foram todos para a ARENA. Contra mesmo, só meia dúzia de comunistas, assombrados, com medo da prisão, um ou outro democrata e alguns estudantes universitários.

A primeira disputa para a Prefeitura de Itabaiana, pós 1964, o Prefeito foi Vicente de Belo, da ex UDN, e o Vice, Derivaldo Correia, do ex PSD. Um grande acordão.

Foi nessa administração que pavimentaram os quatros primeiros trechos do Beco Novo, do fundo da Igreja até a esquina da bodega de Dona Rosita.

Tenho saudades da minha rua de areia, espaço de brincadeiras, futebol de rua, com bola de pano, e outas traquinices. Brinquei no Beco Novo de pé em barra, prender e soltar, cipó queimado, bola de maraite, furão, mãos ao alto, castanha, manja e cantigas de roda. Fui pobre, pobre de "marré deci".

Durante o milagre econômico, Itabaiana se tornou o maior produtor de mandioca do Brasil, uma herança do período agrícola. A saborosa farinha de Itabaiana abasteceu até Salvador. A farinha pó do Rio das Pedras, fez a papada de muitas crianças.

Na década de 1960, a água encanada chegou a Itabaiana. Eu era um descrente, no dia, fiquei a manhã inteira em frente a torneira, aguardando a água pingar.

Chegou a FSESP (Serviço Especial de Saúde Pública), do Governo Federal.

Segundo Almeida Bispo, em 1969, Itabaiana possuia 550 veiculos automotores, dos quais, 391 caminhões (71%). A força dos caminhoneiros estava estabelecida.

No proximo texto, falarei sobre a década de 1970.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

PENSAR ITABAIANA (3).


 Pensar Itabaiana (3).
(por Antonio Samarone)

Itabaiana iniciou a passagem de província agrícola (cidade celeiro), para entreposto comercial (capital brasileira dos caminhões) na década de 1950. A chegada do Ginásio Murilo Braga e da BR – 235, foram as espoletas.

Essa imagem de cidade celeiro é uma herança dos tempos agrícolas. O carinhoso apelido de ceboleiros também, mesmo sem nunca termos produzido cebolas tradicionais. O que se produz em Itabaiana é a cebolinha, aquela irmã do coentro, que se deixar amadurecer vira cebola rocha (ciganinha), que se vende entrançadas.

E por que somos ceboleiros? Se dizia antigamente que os feirantes de Itabaiana na feira de Laranjeiras, na hora do almoço, comiam o feijão fazendo bolo com as mãos e molhando num molho de vinagre, cebola rocha e pimenta. Aliás, eu adoro esse molho.

O povo laranjeirense entranhava aqueles modos, alguém comendo cebola na hora do almoço, e nos apelidaram de ceboleiros. Sei disso por ouvir dizer.

Em 1950, a população de Itabaiana era de 35.802 habitantes, sendo 30.056 (83%) rural, e apenas 5.746 (17%) urbana. No Censo de 1960, a população urbana duplicou, passando para 11.050.

A virada urbana/rural só ocorreu em 1990, quando a população urbana passou para 41.045 habitantes e a rural de 23.793. No censo de 1980, a relação urbana/rural ficou meio a meio.

No censo de 2023, Itabaiana chega um pouco mais de 103 mil habitantes, quase toda vivendo na cidade. Mesmo os povoados, a vida é muito próxima, a diferença é pouca. Somos todos tabaréus.
A cidade alargou as suas ruas, abriu-se avenidas, preparou-se para ser um polo comercial.

Na década de 1950 chegaram: o Banco do Brasil, a energia elétrica de Paulo Afonso, a estação agropecuária da Fazenda Grande, o açude da Macela, os motorista organizam a procissão de São Cristóvão (atual festa dos caminhoneiros), ocorre a micarene (atual micarana), o Itabaiana é campeão da Zona Centro e o ensino primário chega aos povoados.

Na década de 1950, a disputa local da política, PSD X UDN, na verdade, era uma disputa pelo controle do comércio. Os dois líderes, Euclides Paes Mendonça e Manoel Teles, eram donos de armazéns de secos e molhados, que procuravam expandir os seus negócios.

Na vitória de Leandro Maciel - UDN (1955) ao governo do Estado, Euclídes Paes Mendoça bradou em alto tom: “agora, quem passa contrabando sou eu.”

A disputa política local tinha como pano de fundo uma guerra comercial.

Os dois líderes acabaram se matando, na década de 1960. Aí já é história para outro texto.

Na década de 1950, Itabaiana montou a base da mudança, que permitiu tornar-se no polo comercial mais dinâmico do Estado e na maior cidade do interior de Sergipe.

A vitória de Valmir de Francisquino nas eleiçoes de 2022 (como se sabe, tomada no tapetão), foi um sinal desse força de Itabaiana.

No proximo texto, falarei sobre a década de 1960.

Antonio Samarone. (Secretário de Cultura)

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

PARECE QUE FOI ONTEM


 

Parece que foi ontem. (por Antonio Samarone)

“Eu só peço a Deus, que a injustiça não me seja indiferente, que a morte não me encontre um dia, solitário e sem ter feito o que eu queria.” Mercedes Soza.

Raspamo a cabeça há meio século. Passamos no vestibular de medicina da UFS. Não existia a cota oficial, mas fizemos a nossa cotinha. A turma tinha a ala dos pobres e remediados. Rompemos a barreira da injustiça social e estamos aqui, comemorando 44 anos de formados.

Cada um seguiu o seu caminho. Sobrevivemos a Peste da Covid, vencemos e perdemos, criamos a familia, a maioria está cheia de netos.

Lembramos dos professores, dos bons e dos ruíns, dos colegas que não foram, dos causos, das gafes e dos bons momentos.

Estamos aqui na Praia do Forte, cheios de esperança: ainda teremos outras comemorações. Cada um espera ser o último da fila inexorável.

Gente, o turismo na Bahia está seiscentos anos na frente de Sergipe. A Praia do Forte está um brinco, pronta para receber gregos e troianos. A Praia fica no Município Mata de São João. Sabe quem é o Prefeito? O filho de João Padre, um Itabaianense que venceu na vida.

A minha diabete descontrolou, parei no SUS. O grande SUS estava de portas abertas pela madruguda. Eu estava lá, na fila, misturado com os que sofrem e ainda encontram consolo. A emergência do SUS funciona bem, na Praia do Forte.

Só sabe o que é o SUS quem precisa. A classe média paga uma fortuna nos Planos de Saúde, para receber um atendimento meia boca e as vezes desumano.

Claro, o SUS é pequeno para tanta gente, tem fila, mas faz de tudo para acolher. Meninos, eu vi! Um coisa é falar do SUS em tese, teoricamente, outra coisa é ir para a fila.

Percebi que a fila é uma forma pacata de resistência. Não pode ser agora, mas eu espero. Cada sofredor espera receber o atentimento de imediato, mas outros também esperam. Na medicina de mercado também se espera, as vezes mais.

Fui muito bem atendido, eu e todos os que estavam na fila. Palmas para os trabalhadores da saúde, que me acolherem com um sorriso na face. A mim e a todos da fila.

Sobre os colegas de turma, após meio século, os encontrei melhores, mais humanos, mais amigueiros. A velhice ensina a bondade, tira a empáfia, a arrogância, nos traz humildade. Ninguém estava pior do que na época de estudantes. Melhoramos!

Um velho canalha é um monstro.

Colegas, obrigado pela companhia breve e profunda.

Antonio Samarone. Médico sanitarista.

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

PENSAR ITABAIANA (2)


 Pensar Itabaiana (2) .
Por Antonio Samarone.

A historiadora Thetis Nunes, defendia que a virada de Itabaiana de província agrícola para um próspero entreposto comercial, ocorreu no inicio da década de 1950, com a criação do Ginásio Murilo Braga e a chegada da BR – 235.

Antes, de relevante no campo educacional, Itabaiana só possuia o Grupo Escolar Guilermino Bezerra (1936/37).

Em 1953, saiu a primeira safra de formados no Ginásio Murilo Braga.

Em 1950, Itabaiana possuia uma população de 35.987 habitantes, sendo que 80% vivia na zona rural. Na cidade mesmo, moravam um pouco mais de 5 mil habitantes.

Antes de continuar a leitura, observe o mapa acima, encontrado nas publicações de José de Almeida Bispo.

O açude da Macela é de 1953.

O mapa diz quase tudo, da realidade urbana de Itabaiana. Rua estreitas, mal cuidadas, um casario pobre, dominado pelas “casas de rancho”, usadas pelos proprietários apenas nos dias de feiras e nas festas religiosas.

Somente em 1948, foi criada a Associação Atlética, o primeiro clube social da cidade. Lembro-me do conflito, quando a Atlética implantou os bailes com luz negra. Credo em cruz!

Em 1949, criou-se um Gremio Literário e Esportivo (GLEI), em Itabaiana.

A Paróquia de Santo Antonio estava sob o comando, desde 1939, do Padre udenista, Eraldo Barbosa. Ele ficou em Itabaiana até 1954 e iniciou a construção da Maternidade São José e do Cine Teatro Santo Antonio. ( o cinema do Padre).

Em 1955, assumiu a Paróquia de Itabaiana o Padre Arthur Moura Pererira, um cura de viés iluminista. Que no final, deixou a batina para se casar.

O envolvimento apaixonado do Padre Eraldo na política local, aliado de primeira hora de Euclídes Paes Mendona, apressou a sua transfêrencia de Itabaiana.

O historiador Carlos Mendonça, cita um panfleto distribuído pelo padre Eraldo, dias antes das eleições de 1954, nas missas da igreja de Itabaiana: (o fake news vem de longe).

“É pecado mortal votar com Jason Correia, Manoel Teles e Edélzio, porque estão com os comunistas e os divorcistas, Partidos condenados pela Igreja.” (os cadidatos citados no panfleto são do PSD, adversários de Euclides em Itabaiana).

Euclídes Paes Mendonça deve muito, políticamente, a militância do Padre Eraldo.

No inicio da década de 1950, predominava em Itabaiana a cultura das Sacristias. Fora, só a música, com a centenária Filarmônica e a fotografia de Miguel Teixeira, Joãozinho retratista e Percilio Andrade.

Em 1950, Itabaiana inaugurou um matadouro e um quartel de polícia. A Urbe começava a se enfeitar.

Entretanto, o fato maior foi político: Euclídes Paes Mendonça assumiu a Prefeitura e iniciou uma grande reforma urbana. Alargou ruas, abriu novas, pissarou as estradas vicinais, aterrou tanques e lagoas, distribuiu lotes para quem quisesse vir morar na cidade.

Euclídes trouxe postos de gasolina, agências de automoveis e construiu até um campo de aviação.

Nesse inicio de 1950, os primeiros caminhões começam a chegar em Itabaiana. A CIBRAZEM é de 1959. Em janeiro de 1957, chegou a luz elétrica de Paulo Afonso. Só sabe a importância, quem viveu no escuro, à luz do candeeiro.

Nesse períodos os tabaréus de Itabaiana dominaram as redes de supermercados (recém inventados) da Bahia, Paes Mendonça, de Pernambuco, o Bom Preço, e de Sergipe, com o G. Barbosa.

Albino Silva da Fonseca, tabaréu do Pé do Veado, montou as primeiras granjas, fogão á gás, água mineral, fábrica de biscoitos e a rádio Liberdade.

Não esqueci de Oviedo Teixeira, é que o espaço é curto.

Euclides preparou Itabaiana para a nova realidade econômica: a chegada do capital mercantil. Os artesões (sapateiros, alfaiates, marceneiros) quebraram, com a chegavam dos produtos industrilizados, em oferta na rede de lojas que brotavam.

A zona urbana, a cidade, dobrou a sua população entre os censos de 1950 e o de 1960. A cidade cresceu para 11 mil habitantes. Uma explosão demográfica.

No incio da década de 1950, o capitalismo, em sua forma mercantil (comércio e transportes), chegaram à Itabaiana.

Na década de 1950, se deu essa arrancada para a transformação de Itabaiana em polo comercial.

Euclides troxue até o macareme (1958), um canaval fora de época, sob influencia do frevo pernambucano, que depois virou a micarana, festa da música baiana.

No final de 1950, chegou o futebol de salão, na Praça da Feira.

Fefi, do Aranarinho Tem Tem, trouxe o Papai Noel para Itabaiana.

Papai Noel era um desconhecido dos meninos do Beco Novo. Eu vi Papai Noel pela primeira vez aos 14 anos, não achei graça.

O Bar Brasília de Zé de Herminio abriu as suas sete portas, com duas mesas de sinuca. Oferecia vitamina de banana e tody, com sanduíche de queijo do reino, para os remediados.

O radio sharp a pilha, envolvido em capa de couro, chegou à Itabaiana. Chegaram as calça lee e as de tergal, as camisas balloon e as volta ao mundo. Ainda não tinha os cabeludos.

O mundo LGBTqmais, limitava-se a João de Felipinho, Cidália e Uago. Depois explodiu.

Essa Itabaiana, do final da década de 1950, começava a sua modernização mercantil. Os tabaréus foram extintos. A divisão social entre praciantes e tabaréus perdeu o sentido. O capitalismo chega para todos.

Eu fui tabaréu de tamanco e ceroula. Nasci numa casa de rancho, no Beco do Ouvidor, vizinho tenda de Nivinha.

A escola pública me deu régua e compasso.

Antonio Samarone – médico sanitarista.

PENSAR ITABAIANA (1)


 Pensar Itabaiana 

29 de novembro de 1949, há 74 anos, nasceu o Ginásio Murilo Braga. Nascia uma nova Itabaiana. Essa, que se transformou no maior polo de desenvolvimento de Sergipe. 

O Ginásio Murilo Braga e a BR - 235 (1953), foram as forças motrizes que iniciaram um novo ciclo econômico, onde saímos de uma fase agrícola, para a comercial, puxada pelos caminhões! 

Hoje, Itabaiana pensa novas alternativas!

sábado, 25 de novembro de 2023

CUBA LIBRE


 Cuba libre...
(por Antonio Samarone)

Aos 15 anos, a vida era simples. Eu desconhecia os livros. No Beco Novo, somente Beijo de Seu Bebé dos Passarinhos, poderia se considerar um leitor. As leituras de Benjamim pareciam pedantismo, para a nossa barbarie.

Quem me apresentou aos papiros, foram os amigos da Praça da Igreja. Meninos de classe média, que estudavam em Aracaju, ouviam a Radio Central de Moscou e a BBC de Londres.

Foi com eles que ouvi falar do comunismo e conheci uma delicia dos alimentos industrializados: o biscoito cream-cracker.

O pai de Tuca, comprava as latas de cream-cracker Aymoré, que eu conheci aos 15 anos, na casa dele. Escondi uns dois no bolso, para não passar por mentiroso no Beco Novo. Gente! Além dos bolachões de Zé Gordinho, existiam os brioches, cheguei me gabando.

Foi com os amigos ricos da Praça, que eu também conheci os livros. Como eu não queria ficar por baixo, passeie a frequentar a Biblioteca da Paróquia, que emprestava livros.

O meu primeiro choque, foi a leitura de Sidarta, de Hermann Hesse. Pura filosofia oriental. O personagem Sidarta, era amigo de Buda, o Sidarta Gautama. Sidarta era amigo de Jung, e fazia reveleçãoes desconcertantes. A felicidade estava na vida simples, em contato com a natureza.

Era preciso ouvir os rios. Nunca entendi, mas achava inteligente. Hoje entendo, que essas enchentes dos rios, invadindo cidades, desalojando gente, são os rios aborrecidos, por não serem escutados.

Antes de conhecer Marx, conheci Buda e a filosofia oriental.
Agora eu poderia entrar nas conversas com os amigos da Praça.

Dizia de boca cheia: eu estou lendo Sidarta. Como se sabe, Hermann Hesse teve grande influencia no movimento Hippie.

Eu nunca soube de Hippies em Itabaiana, mas tinha muitos simpatizantes cabeludos. Eu achava que quem usava calça Lee, as verdadeiras, compradas em São Paulo, eram hippies chick.

Duas coisas que os meninos da praça faziam, que nunca chegou para o meu bico: dançar e beber Cuba-libre.

Eu nasci com o complexo de desengonçado, nunca aprendi a dançar. E Cuba libre, uma mistura de Rum Montilla e Coca-Cola, estava fora do meu alcance.

Das coisas da Praça, ficaram os livros. Foram eles que me abriram às portas das Universidades.

Lembro-me vagamente que ainda li “O Lobo da Estepe”, uma denúncia da sociedade burguesa, mas não lembro-me de quase nada.

Li Hemann Hesse, escritor alemão, que recebeu o Nobel de Literatura em 1946, ainda na adolescência. Hoje, parece gabolice.

Antonio Samarone – Médico sanitarista.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

A VOLTA DA ALQUIMIA


 A volta da alquimia.
(por Antonio Samarone)

Fui a uma pequerna farmácia na Gameleira, em Aracaju, procurar por Elixir Paregórico. Nada, o rapaz nem sabia do que se tratava.

Depois decobri que se vende pela Internet.

Dor de barriga não dá uma vez só. Mamãe abusava do elixir peregórico. Esse milgroso remédio, não faltava em casa. A nossa dispensa era abastecida pelo Dr. Flodualdo, um prático em farmácia, que foi o meu pediatra. Não existia SUS.

Antes dos rémedios industrializados, os remédios vinham em forma de elixir, xaropes e laúdamos. Os remédios possuiam funções simbólicas e mágicas. Eram eficazes placebos.

Elixir Paregórico era uma tíntura de ópio camphorado, um fitoterápico, indicado para cólicas intestinais infantis, a famosa dor de barriga. A bula indicava 0,05 ml de tintura de Papaver somniferum L., equivalente a 0,05% ou 0,5mg de morfina [marcador]. Excipientes: ácido benzoico, canfora, essência de anis, álcool etílico e água purificada.

No grande Beco Novo, se cultivava a Papaver somniferum nos quintais, era chamada de dormideira. No quintal de dona Maezinha, a dormideira formava uma matagal.

Não se assustem, paregórico é sinônimo de calmante, no português arcaico. O ópio em pequenas doses é calmante.

O elixir paregórico é antigo, encontrado na farmacopeia de Londres, de 1721.

Hoje, a medicina anunciou a descoberta da verdadeira panacéia, um elixir da longa vida, que não deixa de ser paregórico. Os derivados da maconha é uma antiga novidade, milenar, promete felicidade e bem estar para todos.

A medicina de mercado, onde a principal evidência é o lucro, rompe as barreiras dos preconceitos. O bem estar não tem preço.

Maconha nas farmacias é muita cara, só para os do andar de cima.


O meu corpo apresentou sinais de desobidiência, insiste em retornar velozmente ao pó. Busco uma saída!

Perdi a confiança em meu corpo. Ele é quem decide quando deve cair e onde. Muitas vezes força a barra, cai por que qualquer escorregão.

Ele começou a doer só de pirraça.

Eu não subo em escadas, nem por ordem judicial.

O corpo não é mais a abominável veste da alma, como aprendi em minhas aulas de catecismo. Para a ciência o corpo é tudo, corpo e alma. Como eu não aceito esse derrocada, o meu corpo começou a sabotar-me.

Isso mesmo, o meu catecismo foi o de Trento (1563). A igreja católica em Itabaiana, seguia os ritos da Contra-Reforma, até o Vaticano II. Por isso, ainda insisto que possuo uma alma, quem sabe, até um velho anjo da guarda aposentado.

Deixando claro: eu não sei se a minha alma é imortal. Espero que seja. Ainda é uma alma analógica.

Antonio Samarone – Médico sanitarista.