quarta-feira, 11 de setembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. SAPATEIROS

Itabaiana, 350 anos. Sapateiros.
(por Antonio Samarone)

Antonio José de Santana (83 anos) – Tororoco, nasceu na Cova da Onça, Itabaiana, em 03 de maio de 1941. Filho de Manuel Marinho de Santana e Dona Maria Alves Santana.

O pai, Seu Marinho, eletricista, funcionário da Empresa Elétrica de Itabaiana, de Zeca Mesquita, era o responsável pela troca das lâmpadas da cidade. Durante a ditadura de 1964, a distribuição de energia elétrica em Itabaiana era privada.

Seu Marinho foi figura marcante em minha infância, éramos quase vizinhos, no Beco do Ouvidor, perpendicular ao Beco Novo. Mamãe não hesitava em pedir lâmpadas de rua a Seu Marinho, eram mais econômicas. Lâmpadas de 220 volts. A casa ficava na penumbra.

Além de Tororoco, lembro-me da grande família de Seu Marinho: Zé de Marinho, o mais velho; Gerivaldo, Dedida, Gustinha, Zé Carlos e Marizete.

A Empresa de Elétrica de Zeca Mesquita, funcionava sob a lógica pré-capitalista. Seu Zeca nunca mandou cortar o fornecimento dos inadimplentes. Vez por outra, a Empresa mostrava sinais deficitários.

Os postes das ruas eram de madeira, creio que de eucalipto.

Tororoco, antes virar sapateiro, vendeu balas no cinema e foi aprendiz de funileiro. Trabalhou com Seu Neca.

Não sei os motivos, mas Itabaiana e Simão Dias eram polos calçadistas em Sergipe. Historicamente, esses municípios, com Lagarto, compunham o polígono do gado.

Em Itabaiana, existiam muitos curtumes, e um grande armazém de couro, que vendia no crediário de longo prazo. Os sapateiros diziam: a seu Vieira, o dono do tal armazém, basta pagar no Natal.

Em Itabaiana, funcionavam dezenas fabriquetas (Tendas), onde centenas de sapateiros trabalhavam informalmente. Sem vínculo trabalhista. As tendas não abriam às segundas-feiras, era dia de folga para os sapateiros.

Lembro-me de alguns proprietários de Tendas, até a década de 1960: Vicentinho, Zé Martins, Zeca Pimentel, Zé de Gonçalo, Tonho de Boanerges, Zé Procópio, Faustinho, Flavio, Justino, Antonio de Ezequiel, Zé Correia e Zé Malhador. Devo ter esquecido de alguns, depois completo.

A chegada do capitalismo, com os seus sapatos industrializados, (Nova Hamburgo e Franca – SP) mais bonitos e mais baratos, inviabilizou as fabriquetas locais. Os sapateiros de Itabaiana perderam o meio de vida.

Calcula-se que a categoria de sapateiros, mestres e aprendizes, na década de 1960, em Itabaiana, superasse a faixa de três centenas. Ao lado dos alfaiates, padeiros, ourives, pedreiros, carpinteiros, marceneiros e fogueteiros, formavam a "classe operária" tradicional. Destaca-se, nessa década, o crescimento dos comerciários, motoristas e mecânicos.

Esse grupo de trabalhadores urbanos, começava a superar os camponeses, ferreiros, pataqueiros e feirantes, que dominaram nas décadas anteriores.

Itabaiana era uma cidade de poucos ricos e muitos remediados, pequenos comerciantes e biscateiros.

Uma parte dos sapateiros, com a chegada do sapato feito, embarcou no primeiro Pau de Arara, para o Sul maravilha.

Quando eu estudei no Rio de Janeiro, encontrei os filhos de Justino, Dedé e Dandinho, trabalhando numa sapataria de luxo na Barata Ribeiro. Faziam sapatos por encomenda, para os ricos, onde o consumidor botava o pé na forma, para comprar um sapato personalizado.

Outros migraram para Aracaju, onde os "Dédas" de Simão Dias, mantinham a ESCAL – Indústria Sergipana de Calçados, no Siqueira Campos, tentando competir.

Muitos meninos pobres de Itabaiana, fizeram o científico em Aracaju, trabalhando na ESCAL, e nas Fábricas de Geoba e Tororoco. Lembro-me de Dedé de Olga e Gerivaldo. Pedro Langanha estava no combo.

Depois, Geoba, um sapateiro de Itabaiana, montou a sua fábrica em Aracaju, nas proximidades da Nestor Sampaio. Tororoco, montou uma fabriqueta, em uma Vila, na Rua de Capela.

Esses sapateiros itabaianenses, exilados em Aracaju, montaram um competitivo time de futebol de Salão: o Itabaiana Futebol de Salão. Lembro-me de alguns craques desse timaço: Zé Nivaldo, Zé Américo, Horacio de Quinho, Tonho de Maria de Branquinha, entre outros. De fora, só o atleta Paraná.

Antonio José de Santana, Tororoco, foi treinador do Cantagalo e do Ideal. Narra a lenda, que Chico do Cantagalo só entregava 11 cartões, e orientava: “Seu Santana, escale o time!” Como, se Chico, o Presidente, já tinha escalado, ao entregar só os cartões dos jogadores de sua preferência.

Na década de 1970, o futebol foi uma locomotiva cultural em Itabaiana.

Seu Santana (Tororoco), torcedor do Vasco da Gama, é parte da Itabaiana Grande e da sua memória. Nunca se meteu na atribulada política local. Um homem de paz.

Antonio Samarone (médico sanitarista)
 

terça-feira, 10 de setembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. DO ARTESANATO A AUTOMAÇÃO.

Itabaiana, 350 anos. Do artesanato a automação.
(Por Antonio Samarone)

As novas tecnologias, da Internet a inteligência artificial, desarticularam a vida coletiva e as suas raízes. O neurocientista Miguel Nicolelis acaba de publicar um livro esclarecedor: “Nada Será como Antes.”

O cérebro não é digital!

Fico impaciente com os discursos políticos na campanha eleitoral. Isso acabou! Só os fascistas perceberam. O fenômeno da eleição em São Paulo, não será exceção.

Por isso, como terapia, concentro-me na memória provinciana. No prosaico, na rede aldeã, no que me restou de vida analógica. Nos últimos cérebros sintonizados.

A próspera Itabaiana, já viveu economicamente da produção agrícola. A vida urbana, dominada por sapateiros e alfaiates. Não se tinha saídas. Os estudos terminavam no ginásio.

A criação do primeiro Arraial em Itabaiana, no Vale Fértil do Jacarecica, ao pé da grande Serra, data do início do século XVII. Em data incerta: hum mil seiscentos e pouco.

Registrou-se a organização de uma Confraria, a Irmandade das Santas Almas do Fogo do Purgatório, em 1665. O propósito era arrecadar fundos para comprar um terreno, visando instalar a Villa.

A cópia desse Estatuto é conhecida. Sebrão Sobrinho desencavou.

No século XVI, a estrada real que ligava Salvador a Olinda, passava por Sergipe, cortando o território da futura Villa de Santo Antonio e Almas de Itabaiana. O historiador Almeida Bispo, localizou essas veredas.

A cópia da escritura do terreno, no Tabuleiro de Ayres da Rocha Peixoto, onde está a cidade, comprado ao Padre Sebastião Pedroso de Goes, também é conhecida.

Em 30 de outubro de 1675, o Arcebispo de Salvador, Dom Gaspar Barata de Mendonça, criou a Freguesia (Paróquia) de Santo Antonio e Almas de Itabaiana. Um novo Arraial estava estabelecido.

Não existe Paróquia sem comunidade, sem o Arraial. A primeira instituição estabelecida pela Coorte Portuguesa em Itabaiana, foi uma Paróquia.

Tendo que escolher uma data razoável para nascer, comprovada documentalmente, restou a Itabaiana a data da criação da Freguesia de Santo Antonio e Almas (1675). Portanto, em 2025, comemoraremos um duplo aniversário: 350 anos da cidade e da Paróquia.

A busca da Prata, a revolta dos curraleiros e a ocupação holandesa, são anteriores a constituição dessa Paróquia (1675). Provavelmente, tinha outros Arraiais. A povoação que nasceu com a Paróquia, foi Arraial de Santo Antonio e Almas, no Tabuleiro de Ayres da Rocha. Esse Arraial depois virou Villa (1697) e Cidade (1888).

No período holandês, Calabar estabeleceu-se por um breve período em Itabaiana. Dizem, que deixou família.

Em Itabaiana, a Igreja é anterior a Villa, à Câmara de Vereadores. O Arraial só passou a Villa em 1697. De Villa a Cidade, esperou-se mais 191 anos, só em 28 de agosto de 1888.

Mudou-se apenas o nome, a realidade permaneceu a mesma. Itabaiana era uma Villa pobre e continuou uma pobre Cidade.

“Três dúzias de casebres remendados/ Seis becos, de mentrastos entupidos/ Quinze soldados, rotos e despidos/ Doze porcos na praça bem criados.”
“As damas com sapatos de baeta/ Palmilha de tamanca como frade/ Saia de chita, cinta de raqueta.” Gregório de Matos (Sergipe).

Já foi dito, que o progresso econômico só chegou a Itabaiana, a partir da segunda metade do século XX. São desse período que se assenta a minha memória.

Em pouco tempo, a minha memória será incompreensível para mim mesmo. Antes que não sobre mais nada da vida analógica, resta-me contá-la!

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. DOCE MEMORIA.


 Itabaiana – 350 anos. Doce memória.
(por Antonio Samarone)

Já falei, que as micaremes (carnaval fora de época), foram manifestações culturais que sinalizavam para a emergência da vida urbana em Itabaiana. A chegada da economia mercantil. Comentei sobre os blocos Margem da Serra e Lobos do Mar.

Esqueci do Bloco Gaviões da Lua, da Rua do Fato, comandado pelo barbeiro João Rocha, o Rei da Turquia, da Chegança de José Serafim de Menezes (Zé de Biné). Esse bloco, tinha a animação de Arnaldo da brilhantina, um discípulo de João Giba, do Beco Novo. Seu João foi o melhor perfumista do Agreste.

A brilhantina é uma mistura de parafina líquida, vaselina, essências e óleo mineral. Além de arrumar e perfumar os cabelos, facilitam a catação de lêndeas. É só passar o pente fino. A brilhantina de Arnaldo, era muito procurada.

A vida cultural de Itabaiana era intensa. Criaram um circo, para imitar o Circo do grande Zé Bezerra.

O Circo Rosita da Noite era casa cheia. Armado no Campo Grande, tinha o grande Djalma Lobo, como apresentador. Chico de Dionélia era o palhaço.

Boidá era o mágico, filho de seu Amintas do Sal e Dona Angelita, professor de ciências ocultas e magia negra. Um especialista em São Cipriano.

Zé Gorducho o cantor, com o sucesso de Altemar Dutra, Sentimental Demais, como carro chefe.

O circo tinha muitos donos, Mirobaldo foi um deles. Zé de Biné participava, eu esqueci o seu papel. Essa farra, de um circo com artistas locais, chamou a atenção dos desocupados.

O circo Rosita da Noite, era animado pela Orquestra de Pedro Funileiro e o seu clarinete. Aliás, funileiro em Itabaiana, só ele e Seu Neca, do Beco Novo. Depois apareceram Fóbica, Cosme e Manesinho do Roque.

A rumbeira era uma atração e um motivo de briga. Djalma Lobo empostava a voz para anunciar: e agora, a rainha da rumba, a baixinha Mariaaaaa Josééééé, a esposa de Zé Machucado. Pronto, a confusão estava feita. Machucado partia para cima de Djalma: - “eu já falei, ela não é minha esposa, é só namorada.”

Outra atração era Antonio Faustino, o Neguinho da Coalhada, que interpretava um gorila amestrado. Esse personagem ainda é uma incógnita. Ele vendia pelas portas, a coalhada de Dr. Pedro. Ninguém sabia onde Dr. Pedro criava vaca de leite, só se sabia que ele produzia coalhada. Antonio Faustino, o vendedor, era conhecido de todos.

Não se abusem, estou contando essas lembranças fugazes, para exercitar a memória e afastar o Alzheimer. `

A foto é a comemoração, em Itabaiana, da Copa do Mundo de 1958, ou a de 1962.

Antonio Samarone. Médico sanitarista.

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. MEMÓRIAS DO FUTEBOL.

Itabaiana – 350 anos. Memórias do futebol.
(por Antonio Samarone)

A primeira bola de futebol chegou a Itabaiana pelas mãos de Etelvino Mendonça. Na verdade, uma bexiga, encouraçado por Seu Deca Sapateiro. Os primeiros times foram o Brasil e o Santa Cruz.

As bolas e as chuteiras eram fabricadas por Joãozinho Baú, irmão do Craque Debinha; e por Mestre Dé, pai de Jailton, que jogou no Grêmio de Porto Alegre.

Etelvino Mendonça, quando Intendente, mandou murar o primeiro campo, no final do Beco Novo. De forma justa, recebeu o seu nome. Depois fizeram um novo estádio (o atual) e, para agradar aos militares, puseram o nome de Presidente Médici.

Antes, o Etelvino Mendonça do Beco Novo era cercado de pano, nos dias de jogos.

Na gestão de Jackson Barreto, rebatizaram o novo Estádio Médici, como Etelvino Mendonça.

Até a década de 1960, três times estavam organizados em Itabaiana: a Associação Olímpica de Itabaiana, o Cantagalo e o Margem da Serra.

O Margem da Serra era uma entidade futebolística e Bloco de Carnaval, sob influência dos comunistas.

Em Itabaiana, o PCB existia de forma organizada. Pequeno, sem força eleitoral, mas comandado por pessoas influentes na Sociedade local. Antonio de Dóci, Zé Martins, Renato Mazze Lucas e mais cinco dezenas de sapateiros e alfaiates.

O PCB foi culturalmente ativo em Itabaiana (até 1964): fundou a Sociedade Beneficentes dos Trabalhadores, um clube social no Beco Novo; o GLEI (Gremio Literário e Esportivo de Itabaiana), que possuia uma escola de alfabetização e um quadra de esporte, e tinha influência no Margem da Serra, dirigido por João Criano, um simpatizante dos vermelhos, vindo de Ribeirópolis.

Com a tragédia politica dos assassinatos dos líderes: (Euclides – 1963 e Manoel Teles – 1967), o vazio social em Itabaiana foi ocupado pelo futebol. Já falei nisso em outros textos.

Não foi somente o fortalecimento do time do Itabaiana, que virou um grande do futebol sergipano.

O futebol explodiu na cidade, devido ao vazio e a desagregação política da década de 1960. Claro, as Copas do Mundo de 1958 e 1962, tiveram peso.

O futebol teve um papel social específico em Itabaiana. Foi um cimento unificador da sociedade, esquartejada pela violência política.

Cada bairro passou a ter um time de futebol e, espontaneamente, organizaram um campeonato da cidade, sem envolvimento do poder público.

Foi criada a FIFA: Federação Itabaianense de Futebol, dirigida com firmeza e disciplina, por Miguel de Rola.

Lembro-me do Ideal, dirigido por Tororoco; São Cristóvão, do bairro onde o futebol nasceu; !3 de Maio, de Bolero; Cruzeiro, da Rua do Fato; Mangueira, da Rua Nova; Olaria, dos Higinos; Grêmio, do Campo Grande; Joinville, de Romualdo (Prefeito de Coronel João Sá); Escolinha, do Lagamar e o Bangu de Tonho das Cachorras.

Existiam times menores, que não participavam do campeonato oficial da cidade: os 11 perigos de Mané Barraca, o Bahia de Melcíades e o Santos de Avací. Devo ter esquecido de outros.

Luiz Américo, organizava campeonatos de futebol de pelada, no campinho do Tenente Baltasar. Mexia com a meninada.

Nas décadas de 1960, 70 e 80, o futebol assumiu uma função relevante na sociedade itabaianense. Foi um caminho de reunificação das pessoas, afastadas pelo ódio da política.

Isso eu conto por ciência própria, fui atleta do 13 de maio, para compor o elenco. Os craques nascidos em Itabaiana foram poucos. Uma meia dúzia. Para evitar esquecimentos, não vou citá-los. Talvez Nilson de Russo, Evandro e Gustinho, tenham sido os que mais me encantaram.

Para evitar as cobranças: Horácio, o maior ídolo do futebol itabaianense, é de Carira.

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

terça-feira, 3 de setembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. A FORÇA DOS ESPORTES.


 Itabaiana – 350 anos. A força dos esportes.
(por Antonio Samarone).

Hoje, Itabaiana possui três ginásios de esportes. Entretanto, somente no final 1964, inaugurou-se a primeira quadra encimentada, para a prática do futebol de salão.

A quadra Antonio Bispo de Souza, ao lado do Murilo Braga, foi inaugurada festivamente com um torneio de futebol de Salão, entre a seleção do Murilo Braga e três times do Aracaju.

Uma novidade: a obra foi custeada com dinheiro privado. Os estudantes José Antonio Macedo e Juarez Lima de Oliveira tiveram a iniciativa e foram a procura de um benfeitor.

Naturalmente, procuraram Antonio Bispo de Souza, um rico e dadivoso comerciante de açúcar, representante da Usina Pinheiro nos sertões de Sergipe e Bahia. Ocorreu o esperado: Seu Antonio Bispo de Souza doou 200 mil cruzeiros, uma pequena fortuna. A Ação Social Católica, na pessoa de Zé Queiroz da Costa, também contribuiu.

Esse Antonio Bispo de Souza só pode ser Durval do Açúcar. Palmas, acertaram. Durval do Açúcar era o mecenas oficial da cidade.

No mesmo período (1964), estava sendo inaugurada a primeira arquibancada do velho Etelvino Mendonça, no final do Beco Novo. A arquibancada media 50 metros, com 5 degraus, e capacidade para 750 pessoas. Foi uma grande obra.

Para a custear a construção, o Itabaiana realizou um bingo, com dois prêmios: 1 terno de Nycron para homens e 1 conjunto Slack-JK para senhoras. A cartela custava 200 cruzeiros. Não me lembro quem ganhou.

O presidente do Itabaiana era o senhor Jeconias Ferreira Lima.

O torcedor não seria mais obrigado assistir aos jogos em pé, com a cara no alambrado. Era o conforto chegando. Fizeram até duas cabines para as rádios, sanitários e vestiários para os atletas.

O Etelvino Mendonça, do Beco Novo, deixava de ser um campo de futebol e virava um estádio.

Antonio Samarone – medico sanitarista.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

ITABAIANA 350 ANOS - VELHOS CARNAVAIS.

Itabaiana, 350 anos – Velhos Carnavais.
(Por Antonio Samarone)

A passagem de uma economia rural para mercantil não é pacífica. É uma mudança do modo de vida e dos valores culturais.

A Itabaiana agrícola rezava, festejava, dormia e sonhava no seio da igreja católica. Natal, São João, santas missões, trezenas e procissões. As festas eram religiosas.

A economia era rural. Pequenos sitiantes produzindo alimentos e indo às feiras vendê-las. As mercadorias eram levadas nos burros até Roque Mendes, povoado de Riachuelo e, de lá, via os saveiros, até o mercado central do Aracaju. Itabaiana era a cidade celeiro.

Os povoados próximos aos Rio das Pedras, levavam os seus produtos nos burros, direto ao mercado do Aracaju, por uma estrada que passava defronte ao antigo leprosário. Hoje é o Conjunto Jardim, em Socorro.

Na fase agrícola (até a década de 1960), a cidade era uma extensão do campo. A festa de São João era em volta das fogueiras, nas portas de cada um. No Beco Novo, era um São João na roça.

O Natal era a missa do galo, a feirinha e a roupa nova. A ceia era o arroz com galinha, nas barracas de comidas da Praça de Santa Cruz.

Socialmente pobre, acanhada, casas de taipa, Itabaiana só recebeu a energia de Paulo Afonso em 1956, e a água encanada em 1963.

Nesse período surgiram dois cinemas. O de Zeca Mesquita, com os cowboys, séries, o Gordo e o Magro e Chaplin. Onde Zé Bezerra montava algumas peças de teatro. Tivemos um Cinema Paradiso.

A Igreja montou o cinema Santo Antonio. Domingo as 8 horas, missa das crianças, 9 horas o catecismo e, finalmente, o matinal gratuito no cinema do Padre, as 10 horas. Só para os meninos que foram a missa. Eu não perdia!

Na década de 1950, iniciam-se as mudanças culturais. A sociedade mercantil (caminhão e comércio) estava se consolidando. As festas saiam das Sacristias.

A primeira festa urbana de massas em Itabaiana, foi o carnaval fora de época (micareme). Patrocinado por Euclides Paes Mendonça, o chefe político.

Antes, Itabaiana tinha as bandas de música, com os seus dobrados, as festas folclóricas (reisados e mamulengos) e a fotografia. Graças ao talento de Miguel Teixeira, Percílio Andrade e Joãozinho Retratista. A fotografia fez história e deixou um legado precioso.

Lembro-me do mamulengo de Rafael dos Penicos, na Rua de Maraba.

Euclides Paes Mendonça, o chefe político, percebeu as mudanças e incentivou as micaremes.

Surgiram os blocos carnavalescos, divididos socialmente. Os principais: Lobos do Mar, comandado por Fefi, que atraiu a classe média; e o Margem da Serra, comandado por João Criano, que aglutinava os trabalhadores (sapateiros, alfaiates, padeiros, ourives e carpinteiros). A categoria dos comerciários ainda era pequena.

O Margem da Serra era sediado no Beco Novo.

A foto é de Naciete, a porta-bandeira do Margem da Serra. O mestre sala era Seu Pierrô, craque do Itabaiana. O Beco Novo era uma rua de Pretos. Naciete é filha de Maria de Teodoro e de Seu Teodoro Santana, negro, do Povoado Estreito.

Naciete de Santana é Irmã de Dulce, esposa de Bonito; de Marinete, esposa de Euclides, alfaiate; e do valente Titi, um motorista que levantava uma mesa de sinuca com a coxa.

Itabaiana tinha os seus valentes: Zé de Senhor, Milton de Viera Lima e Antonio Joaquim (Titi). Em meu conceito infantil, valente era quem enfrentava a polícia.

Valdemar Vieira Rosa (Seu Bonito), era de Maruim, marceneiro do Murilo Braga, tocava ganzá no Bloco Margem de Serra. Casou com dona Dulce, irmã de Naciete. Uma família bonita e numerosa. A filha mais velha, Josefa Valdemir Vieira Santos (Dona Nide), casou com o sambista Salomão, e fundaram a Quadrilha Balança Mais não Cai, há 42 anos.

Tenho saudades do alegre Negro Gato, filho de Seu Bonito. Inalcançável nas brincadeiras de pega-pega. Foi para São Paulo, como muitos, e por lá faleceu.

Naciete de Santana (83 anos), mora em São Paulo. Foi a primeira estrela, do jovem carnaval itabaianense. (a moça da foto)

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

domingo, 1 de setembro de 2024

OS TEMPLÁRIOS VOLTARAM

Os Templários voltaram.
(por Antonio Samarone)

Na última peregrinação de Santa Dulce em Itabaiana, a novidade foi a presença de Cavaleiros Templários, devidamente paramentados, como na Idade Média. A dúvida foi instalada: quem são? São verdadeiros ou imitação?

A Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão (Pauperes commilitones Christi Templique Salomonici), conhecida como Cavaleiros Templários, Ordem do Templo ou simplesmente Templários, continua viva e atuante?

Eu sei pouco sobre os Templários, e o pouco que sei, aprendi no cinema.

A Ordem dos Templários foi fundada em 1.118, após a Primeira Cruzada, pelo fidalgo francês Hugo de Payens. Uma santa milícia, que protegia os Cruzados em viagens a Terra Santa. O símbolo da Ordem é um cavalo montado por dois guerreiros.

A Ordem dos Templários foi extinta, quando o Concílio de Viena (1311 – 12) aprovou a bula Vox clamantis. Essa extinção é questionada. Muitos acreditam que os Templários apenas passaram para a clandestinidade.

“Os Templários sempre estão por trás de tudo – Umberto Eco.

O que eu lembrava dos Templários, foi uma cena do filme “Reis Malditos”, com Gerard Depardieu, representando o último Grão Mestre Templário, Jacques de Molay, levado a fogueira pela inquisição.

O cadafalso foi erguido no adro da Igreja de Notre-Dame, em 1.312.

Amarrado na estaca, com o fogo ardendo sob seus pés, Jacques de Molay gritou em direção ao rei Filipe IV, o Belo e ao Papa Clemente: “Malditos, malditos, todos vocês serão amaldiçoados até a 13ª geração”.

A maldição foi lançada por Jacques de Molay, o último mestre templário, enquanto o fogo consumia o seu corpo. A profecia foi cumprida! Todos os responsáveis pela morte desse inocente, sucumbiram em menos de 2 anos.

Uma cena forte, que continua viva em minha memória.
Quando o rei Luís XVI, um descendente de Filipe IV, foi guilhotinado, em 1793, quatro séculos depois, um sans-culotte se aproximou do cadafalso e, mergulhando a mão no sangue do monarca, sacudiu-a no ar e gritou: “Jacques de Molay, foste vingado!”.

Foi essa a minha sensação ao avistar os Templários ao pé da Serra de Itabaiana. Os Templários vivem? Jacques de Molay já foi vingado?

Se acredita que a maçonaria é filha dos Templários. A maçonaria foi fundada em 1717, quatro séculos depois. Outras entidades também pleiteiam essa filiação: Rosacruzes, Ordem de Cristo e Ordem do Templo Solar.

A verdadeira Ordem Templária, fundada em 1.118, pelo fidalgo francês Hugo de Payens, mostrou as caras em Itabaiana. Não duvidem, eu vi!

O grão-mestre brasileiro, em carne e osso, veio fazer a sagração do engenheiro itabaianense Ancelmo Rocha, ao pé da grande serra.

Ancelmo é um inquieto peregrino, andarilho conhecido nas principais trilhas do mundo. Em Santiago de Compostela, Ancelmo Rocha é veterano. Íntimo do Santo.

Finalmente, o que faltava em Itabaiana, já chegou. Um Templário de verdade. É mais um milagre de Santa Dulce. O título foi justo, Ancelmo fez por onde merecer.

Em Itabaiana, todos creem em milagres, até mesmo os ateus.

Vou solicitar a minha inscrição, nessa Ordem medieval.

Antonio Samarone (médico sanitarista).