sábado, 15 de junho de 2024

ORA ET LABORA

Ora et labora.
(Por Antonio Samarone)

Coisas que na vida, nunca se trocam: santo de devoção, padroeiro e time de preferência.

Em Itabaiana, os caminhoneiros trocaram de Santo Protetor. Uma raridade! No ocidente cristão, o padroeiro dos motoristas é São Cristóvão, lá, mudaram para Santo Antonio. Parece que Santo Antonio arrumou uma nova obrigação, e vem dando conta.

O Vaticano calou! O dia de São Cristóvão se comemora em 25 de julho.

O que levou a essa deselegância com São Cristóvão?

Eu tenho uma hipótese: São Cristóvão é um santo lendário, não se sabe se ele existiu em carne e osso. Outra coisa, São Cristóvão nunca fez um milagre. E Itabaiana é a cidade dos milagres.

A hagiografia romana conta que São Cristóvão chamava-se Réprobo (banido). Um guerreiro pagão, nascido na Cananeia. Forte e arrogante.

Réprobo resolveu servir ao Rei de Canaã, até descobrir que o Rei se afastava quando ouvia o nome do demônio. Ele conheceu um ser mais poderoso que o Rei, e passou a acompanhar o demônio, pelo deserto.

O demônio, por sua vez, se afastava da Cruz. Ou seja, a cruz simbolizando o poder divino. Existia alguém mais forte que o demônio. Réprobo passou a seguir Cristo. O guerreiro Réprobo, para servir a Cristo, assumiu a missão de ajudar os peregrinos a atravessarem um rio perigoso.

Certa feita, Réprobo colocou um menino no ombro para atravessá-lo e o achou muito pesado. Na travessia, ficou sabendo que o menino era o próprio Jesus. Réprobo Passou a chamar-se Cristóvão, o carregador de Cristo.

Simples assim, virou o Santo Protetor dos viajantes. Quando surgiram os motoristas, São Cristóvão estendeu os dominios.

Como se percebe nesse resumo biográfico, São Cristóvão não realiza milagres, nem peçam, ele nunca foi um demiurgo. Os motoristas de Itabaiana precisavam de um Santo milagreiro.

Aos poucos, pragmaticamente, foram mudando de protetor.

Primeiro, os motoristas assumiram o patrocínio da última trezena de Santo Antonio, a do dia 12 de junho. Depois começaram a realizar pequenas carreatas com o novo Santo.

Por oportuna coincidência, a antiga imagem de São Cristóvão desapareceu da Capela. A Festa foi crescendo e hoje é uma semana de festas. Virou a festa dos caminhoneiros.

A maior festa de padroeiros, em Sergipe. A coisa anda sem conflitos aparentes, com as partes pagãs e religiosas juntas e separadas. Na hora da farra é farra, na hora da reza é reza.

A mais comentada é a festa dos caminhoneiros. Uma celebração dionisíaca.

Creio que entre Santo Antonio e São Cristóvão não existam disputas, vaidades ou encrencas. A coisa está resolvida. Os dois, são Santos com muitos devotos.

Esse ano, a carreata voltou a sair do Bairro São Cristóvão, como dantes.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

quinta-feira, 13 de junho de 2024

A FÉ EM ANTONIO


 A fé em Antonio.
(por Antonio Samarone)

“O homem é naturalmente religioso”. Carl Jung.

Em Itabaiana existem três unanimidades: Santo Antonio, os caminhoneiros e a Associação Olímpica. O arquétipo do milagre está no inconsciente coletivo.

O Santo padroeiro é um demiurgo! “Vocatus atque non vocatus, Deus aderit.” Invocado ou não, Deus estará presente. Inscrição na porta da casa de Jung, em Kusnacht.

Os caminhoneiros trouxeram o capitalismo mercantil. Tiraram Itabaiana dos cem anos de solidão. Eles tomaram Santo Antonio por padroeiro, e passaram a festejar juntos. Uma parte da festa, pagã: músicas, danças e negócios. Outra religiosa: trezenas, rezas e procissões. No fundo, tudo junto e misturado.

Hoje é a procissão (13 de junho), a maior de Sergipe. Vai os devotos e os não devotos. Os penitentes e os renitentes. Até os hereges. Oviedo Teixeira nunca perdeu. Nem eu!

As trezenas são outras. O pároco deixou de ordenar: “fogo Capitulino”! E os meninos danavam-se a se proteger, com medo das flechadas. Também acabaram as bandas de pífano, os oratórios, as promessas para casar. Em Itabaiana, Santo Antonio é maior que São João, sempre foi.

Mamãe, uma devota, fez uma promessa: se o primeiro filho for homem, será Antonio. Eu sou fruto dessa promessa. Aliás, eu e Fernando Pessoa. Isso mesmo, o Poeta.

Nas festas de Santo Antonio, existia o pão dos pobres. Hoje é a bolsa família. As promessas eram pagas na procissão: acompanhar descalço, vestir-se de franciscano, carregar uma pedra na cabeça. Essa crença continua, o que significa que os milagres continuam ocorrendo.

Quem quiser que não acredite. Como canta Caetano: “Quem é ateu e viu milagres como eu/ Sabe que os deuses sem Deus/ Não cessam de brotar.”

Hoje, em Itabaiana, os milagres ganharam uma nova demiurga, uma devota de Santo Antonio: Santa Dulce dos Pobres.

O andor de Santo Antonio está em preparação desde maio. São dezenas de artistas, coordenados por um gênio da decoração, Val de Euclides Barraca. Há mais de 40 anos. O povo fica à espera, desde o meio-dia. Todas às vezes, quando o Santo aparece, seguido pelos dobrados da Filarmônica, o povo se espanta pela beleza. O andor, é um carro alegórico sagrado.

As procissões em Itabaiana são puxadas pela Irmandade das Santas Almas do Purgatório, desde 1665. A Irmandade Vive! São os Irmãos das Almas, com os seus sobretudos verdes, presididos por Zé Bigodinho.

O segredo é conseguir uma flor do andor. Todos querem. E os coroinhas a vigiar: deixem para o final, deixem para o final.

Com ou sem chuva, daqui a pouco eu parto para louvar o Glorioso Antonio, e entoar o mesmo canto, desde menino. “Glorioso Antonio, nosso padroeiro, enchei de alegria o Brasil inteiro.”

O Brasil precisa!

Antonio Samarone. Secretário de Cultura, de Itabaiana.

terça-feira, 11 de junho de 2024

A ARTE DE CURAR

A arte de curar.
(por Antonio Samarone)

O velho médico tisiologista, Alfredo Barreto, músico e poeta, amante das artes e da filosofia, está querendo saber sobre a Inteligência artificial. “Que diabo é isso”?

O doutor Alfredo é filho do iluminismo e um crente apaixonado pela ciência. Sempre acreditou nas promessas do modernismo. Em sua longa e bem sucedida carreira de médico, viu a ciência substituir os cirurgiões por robôs, o genoma ser decifrado, os bebês de proveta, crianças clonadas, os laboratórios passarem a produzir mosquitos, vírus, vacinas de RNA, e outras presepadas.

Alfredo viu a ciência descobrir a cura da tuberculose, e extinguir a sua especialidade. Dois anos perdidos, estudando a peste branca, em Manguinhos.

O Dr. Alfredo Barreto (quase 90 anos), está em dúvidas sobre a tendência da inteligência artificial substituir a clínica. Não entra na cabeça dele.

O doutor Alfredo fundamentou:

“O pensamento é analógica e afetivo (a comoção é anterior aos conceitos). O pensamento escuta as contradições, compara, erra e conserta, tem dúvidas.”

“A inteligência artificial calcula. Ela é surda, apática e sem paixão. Impossível! Como a inteligência vai acolher os pacientes ou aliviar os sofrimentos.”

“O Big Data estabelece correlações. Tudo se torna calculável. Uma forma primitiva de saber. O pensamento humano vai além de resolver problemas, ele clareia e ilumina o mundo.”

“O risco não é da inteligência artificial suplantar o pensamento humano, são coisas distintas. O risco é inverso, a inteligência humana ser rebaixada ao nível da IA.”

Resolvi polemizar.

Professor, a inteligência artificial avança ruidosamente sobre o trabalho médico. A relação dos médicos deixou de ser com os doentes (médico/paciente). A relação atual é com as doenças.

A chamada desumanização é essa mudança: da relação médico/
paciente, para a relação médico/doenças.

Não tenha dúvidas, Dr. Alfredo, na medicina de mercado, a inteligência artificial saberá calcular a melhor conduta, e indicará com rapidez e precisão, o procedimento de menor custo.

Os doutores da medicina mercantil precisam de “evidências”, e a inteligência artificial não tem dúvidas. A IA é inteligente demais para perder tempo.

O mestre Alfredo Barreto, retrucou com a voz firme: “As doenças são cheias de malícias e caprichos. Não tome como pretensão, mas lembrei-me de Hipócrates. “A vida é breve, a arte é longa e a ocasião fugidia.”

Que se dane a inteligência artificial!

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

domingo, 9 de junho de 2024

GENTE SERGIPANA - DR. JOÃO, DE CAMPO DO BRITO.


 Gente Sergipana – Dr. João, do Campo do Brito.
(por Antônio Samarone).

A principal função da memória é esquecer.

Resolvi falar dos dentistas de Itabaiana e comecei por Zequinha Babão. Só lembrei dos dois Zequinhas: o branco e o preto. Logo, me ligaram: e o dentista Josias Bittencourt? Um feioso, magro, narigudo, mas cheio de iniciativas e encrencas. Foi quem montou a primeira rádio em Itabaiana. Baldochi me confirmou, porém, eu ainda não lembrei.

Um doutor de anel e canudo me questionou: você encheu a bola de um charlatão. Primeiro, Zequinha não era Charlatão, ele nunca disse que era formado. Charlatão é quem passa pelo que não é...

Ia esquecendo, o pai da cirurgia é um cirurgião barbeiro: o francês Ambroise Paré!

A falha maior foi não ter lembrado do Dr. João, dentista do Campo do Brito, que as quartas e sábados, mantinha um consultório odontológico em Itabaiana. João era um prático diferenciado, melhorou a qualidade do atendimento em Itabaiana. Esse, eu lembro-me bem!

O consultório do Dr. João era organizado, moderno, vistoso, ficava no segundo trecho da Praça de Santa Cruz. Logo, formou uma clientela de gente rica e remediada.

João Batista Neto, nasceu em Campo do Brito, em 23 de junho de 1931. Filho de Seu Arnóbio e Dona Josefa. Aprendeu a odontologia com a vida.

Dr. João escolheu uma Itabaianense com esposa: Dona Maria Bernadete é filha de Chico Volta, que chegou a Prefeito de Itabaiana em 1935, por 4 meses. A família dos “Voltas”, é parte da nobreza itabaianense. O casal levou ao mundo sete filhos: George, Geodete, Washington Luiz, Kleber, Jussara, Francisco Neto e Arnóbio.

O Dr. João do Brito, como era conhecido, ficou famoso em Itabaiana, pela qualidade profissional. Foi um excelente dentista.

Sem nunca ter morado em Itabaiana, João fui muito bem aceito. Eu sei, o fato de ter casado com uma “Volta” ajudou, mas foi sobretudo a sua competência profissional.

Dentistas formados em Itabaiana, os primeiros foram os doutores Eduardo Porto, Wellington, José Valde de Vadiice e Tarcísio de Maria Branquinha. Esqueci de quem?

João Batista exerceu a profissão até os 48 anos, quando ocorreu uma mudança definitiva. A proibição do exercício da odontologia, pelos práticos. Os odontólogos recém formados na faculdade de odontologia da UFS, iniciou uma pressão legitima, para impedir a atuação dos Práticos.

A lei 5.081, que proibiu o exercício dos dentistas práticos, é de 1966. É a mesma que criou o Conselho de Odontologia. A lei demorou a ser fiscalizada. Em Sergipe, o fato foi consumado durante a passagem de um dentista, Dr. João Garcez, pelo Governo do Estado.

O dentista João Batista, precisou mudar de vida. Comprou um terreno na Desembargador Maynard e construiu o conhecido Posto Aperipê, em Aracaju. Foi dono de caminhão e fazendeiro. João Batista levou uma vida lotada de realizações.

João Batista Neto, faleceu em 1996, aos 65 anos.

Antonio Samarone – médico sanitarista.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

GENTE SERGIPANA - ZEQUINHA BABÃO.

 

Gente Sergipana – Doutor José Lima (Zequinha Babão).
Por Antonio Samarone)

José Lima nasceu em 18/01/1914, filho do alfaiate Messias Francisco Fagundes, do Beco Novo, e dona Josefa Francisca Nunes. Órfão muito cedo, os pais morreram em 1918, com a suspeita da Gripe espanhola.

A alfaiataria de Seu Messias era vizinha a loja de Manezinho Priscina.

Zequinha foi criado desde os 8 anos, pelo fidalgo Esperidião Noronha.

Que eu saiba, em Itabaiana tinha tres dentistas práticos: Josias, Zequinha Preto (ou Babão) e Zequinha Branco. Tinha um dentista formado, Dr. Pedrinho, mas que não exercia a profissão, era professor no ginásio. Os outros chegaram depois.

Se arrancava o mal pela raiz, nem se falava em restaurações. A norma era arrancar os dentes, ficar logo livre, para se usar as dentaduras postiças, conhecidas como “chapas”.

Quem já sofreu, sabe o que é a dor de dente, só perde para dor de ouvido e pedra no rim. Quando o dente doía, se botava guaiacol. Queimava-se o boca, e esperava-se uma oportunidade para arrancá-lo. Não adiantava insistir. Era arrancar para botar chapa.

As chapas eram vendidas na feira, já prontas, numa urupema. De vários tamanhos e formatos. O freguês ia experimentando. Olhava-se num espelho, até se agradar de uma. Se fosse folgada, usava-se corega em pó, para fixar; se ficasse apertada, com o tempo ia folgando, como sapato.

Zequinha Preto era o dentista mais acessível, o mais barato.

As dentaduras eram lindíssimas, pareciam um teclado de piano. Quando as dentaduras não eram completas, só com alguns dentes, chamavam-se de pererecas. Quando escapavam da boca, saia aos saltos.

Itabaiana teve um gênio em dentaduras: o doutor Olavo. Ele chegou a sofisticação de produzir dentaduras tamanho único, adaptava-se em qualquer boca.

Não me perguntem que eu não conheço a tecnologia. Nem eu, nem ninguém. Olavo morreu sem ensinar o seu mistério. Eu cheguei a conhecer as dentaduras tamanho único, serviam para qualquer boca.

O doutor Zequinha Babão foi soldado de polícia, passando para reserva como sargento. Aprendeu a arte de arrancar dentes com o doutor Alfredo Ventinha, também prático.

Seu Zequinha Preto tinha o talento dos cirurgiões barbeiros da idade média. Resolvia quase tudo a ferro e a fogo. Partejava, encanava braços, sangrava e arrancava dentes.

Prestou um grande serviço ao povo pobre do agreste, durante muitos anos. Não existia SUS. Doutor Zequinha Preto morreu em 10/10/2001, aos 87 anos, deixando cinco filhos.

Conta-se que certa feita, um rico, daqueles, mão de figa, levou um filho para arrancar dois dentes. Cada dente custava 200 reis, ele deu uma nota de 500 e esperou o troco de 100 reis. Como Seu Zequinha não tinha o troco, se combinou, e ele arrancou outro dente pelo cem, aproveitando a força da anestesia. O terceiro dente foi arrancado, pelo troco.

Vamos reconhecer: a odontologia avançou muito, nos últimos 70 anos.

Esses profissionais, humildes, com pouca instrução, merecem o reconhecimento. Resolveram muita dor de dente.

Antonio Samarone. Médico sanitarista.

350 ANOS DE HISTÓRIAS E LENDAS.


 350 anos de histórias e lendas.
(por Antonio Samarone)

Quando há divergências entre histórias e lendas, eu tomo partido das lendas.

A colonização de Itabaiana ocorreu sob tensão entre franciscanos e Beneditinos. Os devotos franciscanos trouxeram Santo Antonio, um santo português; os beneditinos trouxeram São Miguel, o protetor das santas almas do fogo do purgatório, santo de devoção do venturoso.

A Aldeia foi denominada de Santo Antonio (atendendo aos franciscanos) e almas (atendendo aos beneditinos) e Itabaiana é a Serra. Simples assim. Essa descoberta foi do historiador Wanderley Menezes.

Almas do purgatório é uma referência a São Miguel, o protetor dessas santas almas, o arcanjo que afasta os demônios.

Quando os primeiros colonos resolveram fundar um distrito, fora esplendoroso Vale do Jacarecica, criaram uma confraria, sob inspiração dos Beneditinos: a “Irmandade das Santas Almas do Fogo do Purgatório”, em 1665.

Essa Irmandade comprou um sítio na Caatinga de Ayres da Rocha Peixoto, de propriedade do Padre Sebastião Pedroso de Góes, e construíram uma nova comunidade. Em 1675 já estavam estabelecidos. A arquidiocese da Bahia, criou Freguesia de Santo Antonio e Almas, nesse ano. Até aí é história, está nos documentos.

Esse Ayres da Rocha é o mesmo que fundou Santo Amaro.

A lenda do Santo Antonio Fujão ofereceu uma justificativa aceitável para se trocar um sítio saudável, com muita água e ao pé da Serra; por um seco, sem água, numa caatinga. Só os caprichos do Santo. Ele não gostava da Igreja Velha, e fugia para as sombras de um pé de quixaba.

No próximo dia 09, domingo, estamos revivendo os passos de Santo Antonio Fujão. A lenda já foi destrinchada por muita gente. Não vou repetir. Deixem de preguiça e procurem o livro de Vladimir Carvalho, que está lá bem explicadinho.

A trilha desse ano é uma preparação para a trilha dos trezentos e cinquenta anos, em 2025.

Entenderam? No próximo ano (2025), Itabaiana e a sua Paróquia de Santo Antonio e Almas completam trezentos e cinquenta anos (350). São de 1675! Por que esqueceram? Não sei!

Em 1698, Itabaiana foi elevada à condição de Villa. Em 1745, Itabaiana já possuía uma orquestra, fundada pelo padre Francisco da Silva Lobo. Aliás, a Filarmônica Nossa Senhora da Conceição completa 280 anos, em 2025.

Quando o Padre Lobo construiu a atual matriz, botou Santo Antonio de uma lado do altar, e São Miguel do outro. Eu não entendia a importância de São Miguel. Não sei se continua.

Em 28 de agosto de 1888, Itabaiana foi elevada à condição de cidade. Alguém desavisado estabeleceu essa data como aniversário de Itabaiana, e assim vem sendo comemorado.

Em 28 de agosto, passamos de vila a cidade, uma mudança administrativa. Itabaiana já era bem grandinha. O aniversário mesmo, é 30 de outubro de 1675, quando foi criada oficialmente a Freguesia de Santo Antonio e Almas. Itabaiana nasceu, oficialmente, com a instalação da Freguesia.

Primeiros colonos chegaram no Vale do Jacarecica por volta de 1600, e já encontraram Simão Dias, um mameluco de pai francês e mãe Tupinambá. Aí é outra história.

A próxima trilha de Santo Antonio Fujão, será domingo, dia 09, saindo da Igreja Velha, as sete horas da manhã, após a missa na capela local. Dessa feita será a preparação para a festa dos 350 anos de Itabaiana, em 2025.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura.

terça-feira, 4 de junho de 2024

O PANDELÓ DE DONA GRAÇA


 O Pandeló de Dona Graça.
(Por Antonio Samarone)

Não havia dúvidas: o pão-de-ló de Dona Graça era o melhor de Itabaiana.

O pandeló é um bolo feito com farinha-do-reino, açúcar e ovos batidos, assado no forno, numa lata. Usado em sobremesas e em dietas de convalescente e valetudinários. Um bolo tradicional de doentes e famílias enlutadas.

Um bolo inocente, fofo e corado, que não faz mal a ninguém. O pandeló era o bolo dos enforcados. O bolo, coberto com um lenço de seda preta, já foi presente de pêsames. Muito consumido em velórios.

Pão de ló é um bolo que não rende, não é comida de pobre. Ló significa um tecido muito fino, fofo e brando.

Conta a lenda, que Seu Rosendo, marido de Dona Graça, já idoso, padecia de uma doença incurável. Mais dia, menos dia, passaria dessa para uma melhor. Bateria as botas.

Numa véspera de São João, logo cedo, Seu Rosendo acordou piorado e dona Graça começou a assar uma porção de pandeló. O cheiro invadiu a casa e a vizinhança. Era um cheiro conhecido de Rosendo. A água na boca jorrava.

Rosendo, num esforço de moribundo, apelou: ”Graça, quando tiver pronto, me traga uma fatia desse pandeló.”

Graça que não tinha papa na língua, respondeu: era bom, Rosendo, e o que eu dou ao povo, a noite, na hora velório. Seu Rosendo se conformou, não queria que em seu velório, não se tivesse nada a oferecer.

Em Itabaiana, hoje, o pão-de-ló é o bolachão de João Patola.

Antonio Samarone – médico sanitarista.