sábado, 27 de junho de 2015

A SAÚDE PÚBLICA EM SERGIPE (INÍCIO DA REPÚBLICA)

A Saúde Pública em Sergipe (Inicio da República).

Antonio Samarone de Santana
Academia Sergipana de Medicina

No alvorecer do regime republicano em Sergipe, ainda no Governo provisório do médico e historiador Felisbello Firmo de Oliveira Freire, as medidas sanitárias previstas no Decreto Federal nº 68, de 18 de dezembro de 1889, tornaram-se aplicáveis no Estado, por determinação do poder local. Eram medidas de combate as epidemias; notificação compulsória de algumas doenças (febre amarela, cholera morbus, peste, difteria, varíola, escarlatina e sarampo); obrigatoriedade do isolamento e da desinfecção, conforme a exigência do caso. Chamava a atenção o fato da tuberculose não se encontrar entre as doenças de notificação compulsória. Logo a seguir, em 07 de março de 1890, foi aprovado um novo código de postura do Município de Aracaju, seguindo a legislação federal.
Como forma de regulamentar a Constituição Estadual (aprovada em 18 de maio de 1892), houve também um processo de estruturação jurídica do novo aparelho público, agora independente do Poder Federal. Na área da saúde, durante o governo José Calazans, foi criado o cargo de “Inspetor de Higiene” (lei nº 15, de 29/07/1892), a quem caberia também a responsabilidade de ser o médico da enfermaria de polícia e da casa de prisão. Cargo equivalente aos atuais Secretários de Saúde.
Logo a seguir, em 30/11/1892, através do decreto nº 38, foi aprovado o primeiro “Regulamento Sanitário do Estado”, que organizou o serviço sanitário do Estado de Sergipe, criando a Inspetoria de Higiene (formada pelo Inspetor de Higiene e pelos Delegados de Higiene, um para cada município), e dando outras providências.
O regulamento acima desligou o serviço sanitário de Sergipe da administração federal, em consequência da nova visão federativa imposta pela Constituição Republicana de 1891. Era um Regulamento com 71 artigos, que entre outros pontos, tratava da vigilância sanitária, da fiscalização da medicina, farmácia, obstetrícia e arte dentária; da fiscalização das fábricas, no que elas pudessem atingir às populações vizinhas. No setor da vigilância epidemiológica, definiu a febre amarela, cólera, peste, sarampo, escarlatina, varíola e difteria como doenças de notificação compulsória. A tuberculose continuava de fora. O Inspetor de Higiene para o Estado e os Delegados de Higiene para os municípios, eram as autoridades máximas da Saúde Pública, de livre nomeação do Presidente do Estado.
O primeiro Inspetor de Higiene nomeado no período Republicano, ainda em 1892, foi o Dr. Felino Martins Fontes Carvalho, que nasceu em 29 de maio de 1859, em Riachão dos Dantas/SE, filho de Theofilo Martins Fontes e Anna Joaquina de Almeida Fontes. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia em 23 de dezembro de 1885, defendendo a tese “Considerações acerca do abortamento”, formando-se ainda em farmácia em 1904. Clinicou em Lagarto, onde fez carreira política, chegando a ocupar o cargo de Intendente (Prefeito) por dois mandatos e deputado estadual por duas legislaturas. Faleceu em 13 de junho de 1918, em Lagarto/SE, com 59 anos.
A Inspetoria de Higiene em Sergipe, como vimos acima, foi criada logo no início do período Republicano (1892). Contudo, durante muito tempo, o seu funcionamento não correspondia às necessidades sanitárias do Estado. A estrutura básica da citada repartição era composta, em seu início, exclusivamente do Inspetor, que ainda acumulava as atribuições de médico da casa de prisão e da enfermaria militar.
Somente em 1895, com lei nº 71, a estrutura da Inspetoria se ampliou com a criação do cargo de “encarregado do lazareto e desinfectador”, para onde foi nomeado o enfermeiro Canuto Severino de Araújo, grande baluarte no combate à varíola no Estado. Em 1896, através do decreto 214, a estrutura da Inspetoria ganhou um amanuense. O primeiro cidadão nomeado para ocupar esse cargo foi o senhor Alfredo Alves de Oliveira. O relatório do Inspetor de Higiene, Dr. Felino Martins Fontes de Carvalho, em 18 de agosto de 1898, assim resumiu a situação da Inspetoria:

“Em tão breve lapso de tempo não me era absolutamente possível fazer um estudo sério e detido deste tão importante e vasto, quanto variado ramo do serviço público, como é a higiene. Entretanto, fiquei logo convencido de que não era ele somente imperfeito e mal organizado entre nós; pode-se afirmar que tal instituição está em período embrionário e quase que não existe ainda em Sergipe, tão pouco é que o temos na espécie. ”
Foto: Felisbello Freire.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

E AS NOVIDADES?

E as novidades?
Antonio Samarone
Academia Itabaianense de Letras.

Quando os amigos se encontram e estão sem assunto, uma saída é perguntar de forma desinteressada: - E as novidades? E ouvir como resposta: - “as mesmas”. Mesmo com o mundo recheado de novidades. Correu a notícia que a Finlândia, modelo na Educação, vai acabar com à escrita manual nas escolas e os alunos usarão o computador, portátil ou tablet para a produção de textos. Será o fim das aulas de caligrafia, penoso exercício de desenhar as letras. Pensei, minha formação em datilografia, na escola de Dona Tota, no Beco Novo, tinha o seu valor.
Toda mãe zelosa, mesmo sem poder, reservava um dinheirinho para matricular os filhos numa Escola de Reminghton. Em Itabaiana, a escola mais organizada era a de Dona Tota. Antonia Lima de Andrade, Dona Tota, uma negra elegante, sempre pronta, disciplinadora, educada, voz baixa e suave; mas todos morríamos de medo de deixar os exercícios pela metade. Saber datilografia era uma porta aberta para um bom emprego.
O concurso para o Banco do Brasil, emprego muito desejado, cobrava conhecimentos de português, contabilidade e datilografia. Isso mesmo, só passava quem conseguisse copiar um texto, sem erros, em 15 minutos. Ou a pessoa olhava para o texto ou para o teclado, o tempo era curto; claro, a única saída era bater olhando só para o texto. Teclados duros, altos, zoadentos, mãos trêmulas, bater uma centena de toques por minuto, era a parte mais difícil do concurso. Hoje os meninos já nascem sabendo, pegam esses teclados de telefone, em escala manométrica, batem sem olhar, na velocidade da luz.

Mas o fim da escrita cursiva, a chamada escrita à mão, passando os textos a serem digitados, ainda não é o ponto de chegada. Os novos telefones já dispõem de um dispositivo nos teclados, que transformam a fala em texto, sem muito esforço, e sem exigir que a pessoa conheça a língua. E mais, se a pessoa quiser, que a sua fala seja escrita em outro idioma; do qual o abençoado nunca ouviu falar nem conhece nenhuma palavra, o teclado também escreve. Não dá mais para responder automaticamente que não existem novidades. Concordam?

terça-feira, 9 de junho de 2015

VAGAS LEMBRANÇAS


Vagas lembranças.
Antonio Samarone
Academia Itabaianense de Letras

Nasci numa Itabaiana (1954) dominada pelo ultramontanismo, fazendo justiça a sua condição geográfica. Os triunfos do iluminismo e da secularização ainda não tinham chegado. A vida cultural era dominada pela Santa Madre Igreja. Festas, comemorações, costumes, crenças, comportamentos, nada escapava ao comando e vigilância da Igreja Romana. As mulheres eram Filhas de Maria e os homens Irmãos das Almas. Psicologicamente, estávamos sob a proteção do anjo da guarda.
As festas coletivas coincidiam com as datas religiosas. Natal, padroeiro, procissões, sábado de aleluia, Santas Missões, São João, todos os santos, vias sacras, novenas, trezenas, missas; e as festas privadas, batizados, casamentos, crismas; até o cinema era do padre. As bandas de músicas, presépios, quermesses, cânticos e manifestações folclóricas eram redirecionadas pela igreja. Nem as raras festas pagãs escapavam da vigilância religiosa.
Em decorrência da elevada mortalidade infantil e com medo do Limbo, me batizaram logo novinho. Por promessa de mamãe, fiz a primeira comunhão no dia em que completei sete anos, numa segunda-feira. Frequentei o catecismo, antes da escola, e guardava os domingos e dias santos. Passei a ser temente a Deus.
A Igreja seguia e impunha aos fieis as deliberações do Concílio de Trento (1545 – 1563), o décimo nono da cristandade, pois o vigésimo, o Concílio Vaticano I, convocado pelo Papa Pio IX, em 1869, para enfrentar o racionalismo, só reforçou a infalibilidade papa. Foi um concílio encerrado pela invasão de Roma pelas tropas italianas, lideradas por Giuseppe Garibaldi, e pela eclosão da guerra Franco-prussiana.
Meados do século XX, e a Igreja seguia divulgando a sua doutrina, suas crenças e ideologias, e dominando as consciências. Acreditávamos no purgatório, nas indulgências, no pecado (original, mortal, capital e venial), no anjo da guarda, no sacramento do casamento, na excomunhão dos hereges, nas graças de Deus (perdidas com o pecado mortal), no fogo eterno, no Limbo, na confissão e na penitência.  Venerávamos as imagens dos santos e os padres andavam de batina de 33 botões, a quem pedíamos a benção.
A missa, rezada em latim, era um sacrifício incruento de Cristo, onde deveríamos participar com o coração sincero e a fé verdadeira, com temor e reverência, contritos e penitentes, para alcançarmos a misericórdia, a graça e o auxilio oportuno. O sacrifício da missa era propiciatório pelos vivos e defuntos.
Em outubro de 1962, o Papa João XXIII abriu o 21º concílio ecumênico da Igreja Católica, o segundo a se realizar no Vaticano. O Concílio Vaticano II, com as suas mudanças. Em 13 de setembro de 1964, aconteceu a primeira missa solene cantada em português no Brasil, na Igreja Nossa Senhora do Brasil, na Urca, Rio de Janeiro. O fim de uma Era. A Igreja abandonava o Deus que concedia graça aos bons, clemência aos aflitos e condenava os maus ao fogo eterno. Deus passou a ser o “amor”, adotou a tolerância e o ecletismo, e chegamos onde estamos.
Em junho de 1963, morreu de câncer o Papa João XXIII. Foi a última manifestação da antiga fé tridentina que alcancei em Itabaiana. Aos noves anos, acompanhei com atenção a agonia final do “Papa Bom”. Os sinos da Matriz de Santo Antonio e Almas tocaram sem parar o dia todo.

Com a retirada da Igreja, abriu-se uma janela para as novidades do mundo pagão. Timidamente, passamos a amar os Beatles e os Rolling Stones; crescer os cabelos, lutar pela liberdade e pelo amor livre, como se dizia, com certo exagero (sexo, drogas e rock ‘n roll). Mas aí já é outra estória.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

"ACADEMIAS DE LETRAS"?

“Academias de Letras”?
Antonio Samarone
Academia Itabaianese de Letras

A expansão da economia capitalista, a revolução dos meios de comunicação e dos transportes, transformaram o mundo numa Aldeia Global. Por outro lado, as tentativas de universalização da cultura, de um único modo de vida, não tiveram sucesso. Ao contrário, houve um fortalecimento e até mesmo uma valorização das culturas locais, de um saber local emergente. Em Sergipe, que primeiro enxergou a pujança desse movimento foi Luiz Antonio Barreto.
Em várias localidades de Sergipe surgiam iniciativas isoladas de produção cultural, de pessoas reinterpretando o seu dia-a-dia, através da fotografia, livros, dança, teatro, folclore, etc. A questão era o que fazer para dinamizar essa energia, potencializá-la, criar canais de divulgação, e por fim, conectar essas manifestações com o chamado mundo globalizado. Como fazer? O mais prático, foi utilizar os espaços das agonizantes Academias de Letras, improdutivas, empoeiradas, mas com reconhecimento social e uma burocracia constituída. Então, vamos juntar esses novos pensadores, criadores de cultura, de novas interpretações do mundo, em Academias de Letras.
Contudo, esse foi somente um primeiro passo. As Academias se proliferaram por vários municípios. Mas o que é uma Academia de Letras, para que serve, quais os seus objetivos, qual o seu papel na sociedade? Essa parte não está resolvida. No momento, existem vários projetos de Academia em disputa, várias visões, cada uma com os seus argumentos e suas justificativas. Consigo enxergar alguns desses projetos. Vamos lá.
1.       Academia como espaço de reconhecimento dos talentos individuais de cada localidade; um culto aos que se expressam na linguagem escrita; espaço onde devotos de uma cultura erudita trocam loas e autoelogios, tomam chá e declamam poesias. Normalmente, esses imortais vivem para os seus próprios umbigos, e o compromisso é com uma estética universal, com o belo.  
2.       Academia como um prolongamento do saber oficial professado nas universidades, quase um programa de extensão. Espaço de reunião dos que vivem para a ciência, currículos premiados, doutores e pós doutores; mandarins do saber. Sem compromissos especiais com as realidades locais, estudam e pesquisam o que fortalece suas carreiras profissionais. Combate aos charlatões (os demais).
3.       Academia como espaço aberto ao popularesco, ao relativismo cultural. Reunião de todos os que falam ou escrevem em nome da cultura popular, a única verdadeira. Independentemente do valor (que valor?). O espaço deve abrigar todos os que cantam, dançam, rimam e trovejam, quase sempre injustiçados. Nesta visão, todos somos talentosos e possuímos dons artísticos, perde-se qualquer referência.
4.       Academia como espaço de construção de novas interpretações da realidade local, da ligação do específico com o global, do popular com o erudito. Espaço de criação de uma realidade simbólica, de fortalecimento das manifestações espontâneas dos talentos locais, de abertura para novos saberes, novas expressões culturais; mas, também espaço de recuperação da memória social, da recuperação do já produzido; da retirada do limbo do esquecimento, os que vieram antes, e começaram a construir essa civilização.

Claro, devem existir dezenas de outras visões, outros modelos de Academia, mas essa minha reflexão não é nem exaustiva nem conclusiva. Pretendo apenas provocar um debate com os interessados. Hoje, 05/06/2015, a Academia Itabaianense de Letras completa o seu quadro estatuário, com a chegada de novos membros. Sejam todos bem-vindos.

sábado, 30 de maio de 2015

Hospital do Câncer de Sergipe: uma voz destoante.


Hospital do Câncer de Sergipe, uma voz destoante.

Antonio Samarone de Santana
Academia Sergipana de Medicina

Após longa disputa política pela paternidade, troca de insultos e acusações, o Hospital do Câncer de Sergipe ganhará vida. Ressalte-se que há consenso em torno da ideia: políticos e eleitores, doentes e médicos; imprensa falada e escrita; autoridades civis, militares e eclesiásticas, todos defendem a benfeitoria. Será se Nelson Rodrigues tinha razão?
Diante de tantos apelos, tão sinceros e tão sentidos, o Governo de Sergipe decidiu construir um hospital de cinco andares, especializado no tratamento do câncer: 24 leitos de quimioterapia infantil, enfermaria de emergência, 43 leitos de quimioterapia adulto, avançado centro de imagem, radioterapia com dois aceleradores lineares, gama câmara, ressonância magnética, dois aparelhos de tomografia, centro cirúrgico com seis salas, 10 leitos de UTI infantil, 10 leitos de UTI adulto, 30 leitos de internamento infantil, 120 leitos para internamento de adultos. https://www.youtube.com/watch?v=TSmypwa_Yik
Até o momento foram gastos 12 milhões com a terraplanagem; as obras estão orçadas em 80 milhões, com mais outros 80, por baixo, para compra dos equipamentos, insumos e imobiliários. As vantagens apontadas é que os pacientes com câncer não precisarão mais enfrentar filas, recebendo um tratamento humanizado, e ainda poderemos atender com qualidade a demanda dos Estados vizinhos. Será uma ilha de qualidade e tecnologia, boa gestão e recursos suficientes, num mar de precariedades do nosso querido SUS. Quanto custará o custeio mensal para o funcionamento e em qual orçamento será incluído? Qual o custo médio de um leito oncológico? E com as novas tecnologias, o tratamento do câncer deve mesmo ser feito em hospitais especializados? Claro, isso não é pergunta que se faça...
O tratamento feito em regime ambulatorial mostrou-se mais fácil e mais bem tolerado pelos pacientes. Hoje existem drogas potentes para reduzir as náuseas e vômitos, evitar a queda na resistência, evitar infecções, estimular a produção de leucócitos permitindo que os pacientes sejam tratados em casa.  Pacientes com câncer, desidratados, com febre e septicemia são cada vez mais raros com os novos tratamentos, e quando aparecem, é mais eficaz interna-los em hospitais gerais, onde existem múltiplos recursos terapêuticos.
Nenhuma das três formas de tratamentos do câncer conhecidas, quimioterapia, radioterapia e cirurgia, necessitam de um hospital especializados; muito menos a moderna terapia alvo; os internamentos quando necessários decorrem das complicações e das intercorrências de outras patologias; melhor tratadas nos hospitais gerais. Na verdade, o racional seria construir-se uma ala de oncologia num hospital geral, que já dispõe de outros recursos, de um corpo clínico diversificado, do que o investimento num hospital especializado.
No caso de Sergipe, essa Ala já existe. O setor de oncologia do Hospital João Alves (HUSE), quando construído, era o mais bem equipado do Nordeste, com todas as condições de prestar bons serviços à população. O Centro de Oncologia Dr. Oswaldo Leite (COOL) do HUSE dispõe de 49 leitos (21 infantis e 28 de adultos) para internamento e realiza atendimentos clínicos e ambulatoriais, assim como tratamentos oncológicos à base de quimioterapia e radioterapia. Por mês, o COOL aproximadamente 2,5 mil consultas médicas com oncologistas, administra em torno de 70 quimioterapias e faz 115 sessões de radioterapia por dia. http://www.fhs.se.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=78:huse&catid=9&Itemid=473
As mazelas do início tardio dos tratamentos, falta constante de medicamentos, sucateamento, entre outros, decorrem da gestão inadequada e do financiamento insuficiente; problemas que não serão resolvidos somente com a construção de um hospital especializado. Por que os recursos que serão aplicados na aquisição de novas tecnologias, benvindas e necessárias, não são instaladas no setor de oncologia do HUSE, fortalecendo o tratamento ambulatorial?
Sabem por quê? Porque construir e equipar Unidades de Saúde é fácil e os recursos sempre aparecem, o problema é o custeio para mantê-las em funcionamento. Realizar a obra, botar uma placa, inaugurar com festa, divulgar o feito, tudo isso agrada politicamente, mas é tudo inconsistente. Qual foi a melhoria para a saúde da população da construção, nas beiras das estradas, das noventas “clínicas de saúde da família”, no governo passado? Por que a construção de hospitais pelo interior, todos funcionando bem abaixo da capacidade instalada, por dificuldades no custeio, não aliviou a sobrecarga do HUSE?
Se o tratamento do câncer em hospitais especializados é mais humano e mais eficaz, por que o setor privado, que atende aos ricos, segue outro caminho? A rede de Oncoclínicas do Brasil, com 26 unidades privadas de tratamento oncológico, que figuram entre as maiores clínicas do setor no país, presentes nos Estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Sergipe e Pernambuco, não possuem leitos para internamentos.

Tudo bem, e o Hospital do Câncer I, do INCA, na Praça da Cruz Vermelha no Rio de Janeiro, como se justifica? A diferença é que ele também exerce um papel importante no desenvolvimento da pesquisa oncológica do Instituto e dos programas de residência médica e de enfermagem, dos cursos de especialização e atualização, entre outros. Não será o caso do Hospital do Câncer de Sergipe.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

A Reforma Sanitária Americana

A Reforma Sanitária Americana

Antonio Samarone de Santana
Academia Sergipana de Medicina.

"Da força da grana que ergue e destrói coisas belas" - Caetano Veloso.

Os Estados Unidos, que em 2009 gastaram 2,5 trilhões de dólares com a Saúde, mais do que o PIB da França, estão realizando uma profunda mudança em seu Sistema de Saúde, a chamada Ação de Assistência Acessível (do inglês ACA - Affordable Care Act). Para garantir o acesso universal aos serviços de saúde, todo cidadão americano terá um Planos de Saúde. Outra mudança, até 2020, será implantado o prontuário eletrônico, gerando economia e agilizando a troca de informações sobre os pacientes. A melhoria na qualidade do atendimento passa pelo registro eletrônico dos dados dos pacientes e o seu acompanhamento. O governo americano está investindo 27 bilhões de dólares nos próximos 10 anos em tecnologia da informação, visando reduzir custos e melhorar o atendimento.
Na visão de futuro, os EUA caminham para a desospitalização e no reforço ao atendimento domiciliar, reduzindo a ida dos pacientes aos serviços de urgência e ambulatórios. A meta é reduzir dois terços dos internamentos por doenças crônicas. O atendimento em domicilio permite uma cobertura 24 horas, todos os dias; enquanto no modelo atual o atendimento é limitado ao horário comercial, com um detalhe, o sistema domiciliar reduz significativamente os custos. Os médicos serão remunerados por ações de promoção e prevenção. Na contramão de outros setores da economia, na saúde, a tecnologia e a inovação trazem aumento dos custos. A saúde enquanto mercadoria vira um objeto de luxo.
Como já vimos, a saúde no mercado apresenta-se como procedimento, e o consumo depende da decisão dos produtores, portanto, uma equação de custos ilimitados. Um caso atípico de mercado, mais lesivo que os monopólios, o consumo decorre da oferta e é decidido pelos vendedores dos procedimentos. O conflito entre as necessidades dos consumidores (pacientes) e o lucro do negócio é escancarado, muitas vezes, lesivo aos pacientes. Este fato gera uma contradição entre os setores do segmento saúde que pagam (poder público, planos de saúde, seguros, pessoa física), e os sistemas assistenciais de venda de procedimentos, que recebem.
Na reforma de Obama, esta forma de compra de serviços por procedimentos executados, será substituída por uma alternativa mais racional e menos custosa. O prazo para o retorno nas consultas foi ampliado para 30 dias. As despesas geradas com as internações de eventos agudos, considerados os cuidados três dias antes e trinta dias depois da internação será remunerado como uma única despesa, obrigando os serviços a melhorarem sua produtividade, a evitarem erros médicos e reduzirem os índices de infecção hospitalar, caso contrário seus lucros seria. No Brasil, os procedimentos são realizados por decisão dos vendedores, e a conta paga pelos consumidores, diretamente, ou através dos planos e seguros de saúde, ou pelo erário público.
Nos Estados Unidos, 64% do consumo dos procedimentos de saúde é realizado por dez por cento dos mais idosos na população; se ampliar a faixa para 20%, o consumo passa para 80% de todos os serviços ofertados. Portanto, o controle dos custos deve ser centrado nessa população mais idosa, portadora de doenças crônicas. A grande mudança está na forma de atender esses pacientes, que necessita ser individualizada, acompanhada diariamente, gerenciada, tentando controlar os problemas para se evitar as intercorrências agudas. Um retorno ao modelo do cuidado médico. Não será uma mudança fácil, pois bate de frente com os interesses mercantis do segmento da saúde.
Por outro lado, os 50% mais jovens da população, representam apenas 3% de todos os custos de cuidados com a saúde, nos EUA. Talvez no Brasil, devido aos elevados índices de violência, (homicídio e acidente de trânsito), e que ocorrem sobretudo nos jovens, esses gastos sejam proporcionalmente mais elevados. Desconheço estudos sobre os custos do consumo médico por faixa etária no Brasil.  As doenças que mais caras nos Estados Unidos são a insuficiência cardíaca congestiva, diabetes, hipertensão, doença pulmonar obstrutiva crônica, asma e doença arterial coronariana. Bem provável que no Brasil seja muito próximo.
Outra medida da reforma do sistema de saúde americano foi a criação de uma instituição de pesquisa, sem fins lucrativos, para avaliar a eficiência dos tratamentos médicos, criar um banco de dados; e o resultado disso tudo será considerado um bem público. Se essa transformação for efetivada terá ampla repercussão nos sistemas de saúde no mundo. Atualmente, essas pesquisas estão sob o comando e orientação hegemônica do Capital. Já foram investidos 1,1 bilhão de dólares na criação deste centro de pesquisa.

Claro, a implantação de qualquer reforma encontrará resistência, e não existe garantias prévias que os objetivos serão atingidos. Entretanto, surge uma esperança de uma medicina mais humana, menos comercial, incorporando a tecnologia em benefício dos pacientes. Ao contrário do divulgado, a esperança não está na medicina cubana, humana mais atrasada, uma medicina simplificada, incompatível com o atual perfil epidemiológico e com os progressos da ciência. O modelo cubano não tem resposta para as doenças crônicas. A esperança também não está na medicina comercial, centrada no lucro, que atualmente domina o mundo capitalista. Dialeticamente, o remédio está surgindo onde a doença é mais grave, onde a medicina é cem por cento capitalista, e a saúde mercadoria. A esperança está na reforma sanitária americana, em curso no governo Obama. 

domingo, 1 de março de 2015

Nise da Silveira e Mário Magalhães da Silveira, em Sergipe (1937/38)




Antonio Samarone de Santana.
Academia Sergipana de Medicina.

A história de Sergipe registra a proteção dada ao cangaço, pelo coronel Antônio Ferreira de Carvalho, o lendário “Antônio Caixeiro”, pai do Governador Eronides de Carvalho, no município de Canhoba. O governo de Eronides de Carvalho (1935 – 1941) foi altamente repressivo com os movimentos e organizações dos trabalhadores. Sua posse coincide com a Intentona Comunista de 1935. Censurou a imprensa, reprimiu a oposição, castigou os trabalhadores. Ao mesmo tempo, protegia o Cangaço e os coronéis, entre os quais o seu próprio pai.
Entre as contradições da história, o mesmo Eronides Carvalho, durante o Estado Novo, protegeu e acobertou em Sergipe dois notórios comunistas. Vamos aos fatos. Um casal de médicos alagoanos, Mário Magalhães da Silveira e Nise da Silveira, formados na Bahia na turma de 1926, e que depois se tornariam grandes nomes da Saúde Pública nacional, ele como Sanitarista; e ela como psiquiatra; se esconderam em Sergipe num período de clandestinidade (1937/38). Nossa hipótese, é que eles tiveram a proteção do médico, militar e interventor do Estado, Eronides de Carvalho, um anticomunista declarado.
Após a Intentona Comunista, em 1936, Nise da Silveira foi presa na Frei Caneca por 18 meses, por possuir  livros marxistas. No presídio da “Frei Caneca”, no Rio de Janeiro. Nise estabeleceu amizade com Graciliano Ramos na Prisão, tornando-se personagem do livro “Memórias do Cárcere”. "... lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-se culta e boa. Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se a tomar espaço. O marido também era médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, num vivo constrangimento."
Por outro lado, Mário Magalhães da Silveira, simpatizante do comunismo, entrou para a clandestinidade. Identificamos a presença do Sanitarista em Sergipe a partir de 1937, com o pseudônimo de Claudio Magalhães da Silveira, organizando a implantação do Centro de Saúde Serigy e dos ambulatórios públicos do estado. Neste período, pelos mesmos motivos, Jorge Amado também viveu sua clandestinidade na Estância, em Sergipe, muito bem retratada por Rui Nascimento.
A escolha do pseudônimo “Claudio” para substituir Mário, durante a clandestinidade em Sergipe, não ocorreu de forma aleatória. Sua esposa, Nise da Silveira, recebeu esse nome, em homenagem a Nise, personagem de Cláudio Manuel da Costa, estreitamente relacionada ao ideal libertário, do qual o seu pai Faustino era admirador. O salão de Faustino era frequentado pelo que havia de mais destacado e elegante em Maceió. Nossa hipótese é que o “Claudio Magalhães”, Diretor de Saúde Pública em Sergipe é na verdade o famoso Mário Magalhães. Em conversa pessoal com o psiquiatra José Hamilton Maciel, Nise da Silveira revelou sua passagem por Sergipe.
Ao sair da prisão, Nise vem juntar-se ao marido em Sergipe. Mário Magalhães da Silveira ocupou o cargo de Diretor Geral de Saúde Pública (O Secretário da Saúde), substituindo o Dr. Lauro Dantas Hora. É impossível que o Interventor Eronides de Carvalho não soubesse as razões da presença daquele casal de médicos comunistas, já famosos, em Sergipe. Levanto duas hipóteses, amizades familiares, Coronel Antonio Caixeiro era alagoano; ou relação corporativa, em sua juventude, Mário Magalhães da Silveira, fez parte do Exército Brasileiro, em Fortaleza. Não sei dizer por quanto tempo eles se esconderam em Sergipe.
Além de nomear um comunista como Diretor de Saúde pública do Estado, (Secretário da Saúde), Eronides Carvalho criou o Leprosário Lourenço Magalhães; instalou o Centro de Saúde Serigy, o primeiro do Estado, construiu o Hospital Infantil, anexo ao Hospital de Cirurgia; criou o Serviço de Assistência a Psicopatas e Crianças Abandonados, o que possibilitou a transferência dos loucos das cadeias públicas para uma moderna unidade de saúde, dirigida pelo eminente psiquiatra Luiz da Rocha Cerqueira, um dos pioneiros da reforma psiquiátrica no Brasil. Essa história está apenas começando...
O governador Eronides Ferreira de Carvalho nasceu na Borda da Mata, Sergipe, em 25 de abril de 1897. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Bahia, em 20 de Dezembro de 1917. Eronides faleceu aos 73 anos, em 18 de Março de 1969 no Rio de Janeiro, onde está sepultado.