domingo, 25 de junho de 2017

CARTA DE LIMA JUNIOR A SILVÉRIO FONTES

Carta do historiador itabaianense Francisco Antônio de Carvalho Lima Junior (1896), ao ilustre médico sergipano Silvério Martins Fontes, autor do Manifesto Socialista ao Povo Brasileiro (1889); fundador do Centro Socialista de Santos (1895) e do jornal “A Questão Social (1895). Silvério Fontes é tido por Astrogildo Pereira como o primeiro socialista brasileiro de tendência marxista.


“Não podia aparecer em melhor oportunidade um jornal nas condições do – A Questão Social uma vez que não se proponha a transigir com os bandos de especuladores, que vive por toda a parte a pescar em águas turvas em épocas eleitorais. O nosso novo vale tão pouco como elemento propulsor dos mecanismos sociais. Tem se aviltado tanto, se tornado de tal modo ludibrio dos falsos profetas, vítima que beija os pés dos seus algozes, que faz desconfiar da sua constância na luta pelos interesses, e sobretudo na dedicação sincera aos melhores servidores. A meu ver, a importância que merece a propaganda em favor do proletariado em país como o nosso, não consiste tanto na aspiração européia de uma reforma radical de uma instituição governamental, como na reforma dos costumes, o que só se pode alcançar por meio de profunda transformação moral. Sem isto, nada se conseguirá de positivo, senão estragar um belíssimo ideal. Para conseguir encarnar o ideal no verdadeiro, há mister de virtudes muito heroicas e mui lenta evolução. Por enquanto, a propaganda dirigida sob o ponto de vista científico, terá feito muito, operado prodígios, se conseguir anular as influencia maléficas, que, mentindo a democracia, se opõem a proclamação da República do Brasil... A missão da A Questão Social, como de todos os órgãos de propaganda das mesmas ideias, deve, por enquanto limitar-se a sanear, livrando-os desses miasmas, que os históricos, tem sido os primeiros a espalhar em nosso ambiente social. Falo, como disse, como histórico, que se envergonha dos companheiros na tribuna popular, no jornalismo, no parlamento, em toda a parte onde acham pessoas sem escrúpulos a quem mandar. Não será, pois, transigindo com o meio atual, que achará guarida o ideal socialista... “ (publicada na A Questão Social, nº 44, Santos, 01/04/1896, p.2)