quarta-feira, 30 de abril de 2025

CORRER É PRECISO...

 Correr é preciso...
(Por Antonio Samarone)

Correr é um desejo atávico, que foi necessário a sobrevivência da espécie. Descer das árvores e enfrentar as savanas, foi um risco. Viramos presas fácies de leões, hienas e crocodilos. Nossa defesa foi correr.

Com a posição bípede, liberamos as mãos e passamos a fabricar ferramentas. O domínio do fogo e o uso de ferramentas forjaram o sapiens. O Homo sapiens (cérebro de 1,5 kg) domina sozinho a menos de 60 mil anos. Entretanto, a posição bípede, o uso de ferramentas e o domínio do fogo já fazem 2 milhões de anos.

Correr é anterior e será posterior ao Homo sapiens. Independe da razão.

Para o cérebro, inconscientemente, ainda corremos para fugir do predador. Como as corridas são simulações, não existem riscos de sermos alcançados. Sempre escapamos das feras. Iludido, o cérebro reage, liberando doses generosas de neurotransmissores responsáveis pela sensação de felicidade, para comemorar a vitória.

Portanto, correr é um antigo comando do cérebro. Não se pode estranhar, que numa sociedade do desempenho (Chul-Han), as corridas se tornem alternativas de participação. Numa sociedade cindida, fragmentada, atomizada, as corridas tronaram-se um caminho em si. Navegar é preciso...

A febre por maratonas é contagiosa e não existem vacinas. Finalmente, um tema de união nacional: correr! Tanto faz para direita ou para a esquerda.

Nesse final de semana, um amigo, em quem sempre votei por achá-lo parecido com um Ministro do Império, jurista consagrado, anunciou solenemente a sua entrada para o Clube de Corridas. “A minha vida mudou!” Disse o causídico emocionado. Certamente, arrastará multidões.

Não sobrará ninguém para uma boa roda de conversas. Todos correndo. Os políticos não perdem tempo: estão criando um novo PCB – Partido Brasileiro dos Corredores.

Eu conheço uma madame em Aracaju, sexagenária, joelhos estropiados, que fez da corrida uma missão de vida. Uma devota das corridas! Viaja o mundo em busca do seu sonho. Ao final de uma dessas corridas domingueiras, ao ser entrevistada, ela derramou-se em prantos: “meu Deus, obrigado. Estou cumprindo mais uma missão na terra.” O esposo, abraçado, chorava junto.

Uma mocinha em Itabaiana, transformou, para tristeza dos pais, a sua festa de debutante numa corrida entre as amigas. Sem marmanjos. Uma maratona de moçoilas!

Se mamãe fosse viva, já tinha disparado o seu aforismo preferido: É o fim do Mundo!

A nossa espécie eliminou os demais “Homo” há apenas 60 mil anos. Reinamos sozinhos. Entretanto, parece que o “sapiens” vai durar pouco. Quem não acredita que o famoso botão será apertado, o apocalipse nuclear, não está assistindo pelas redes sociais, as profecias de Donald Trump.

Se não tem mais jeito, se os predadores já estão com o bafo quente em nosso pescoço, vamos correr. Pode ser que um ou outro escape.

Antonio Samarone – Médico Sanitarista.

sábado, 26 de abril de 2025

ITABAIANA, 350 ANOS. PROFESSORA LENITA CUNHA.

Itabaiana, 350 anos. Professora Lenita Cunha.
(por Antonio Samarone)

As mulheres de Itabaiana, sempre foram operosas, com afirma o Padre Marcos Antonio de Souza, em sua “Memória da Capitania de Sergipe – 1808”. Dona Lenita é natural do Zanguê, nascida a 28 de abril de 1954, filha Seu Carlito da Jabá, bodegueiro no Beco Novo, e Benvinda Valério dos Santos (Dona Netinha), professora no Malhador.

Uma família com 4 filhos: Lenita, Neide, Zuleide e Antonio Alberto, médico em Aracaju.

Lenita passou a infância no Zanguê. A família ligada a UDN, por conta do parentesco com Antonio de Ermírio, o líder local, cabo eleitoral de Euclides Paes Mendonça. Como era de práxis, com vitória Seixas Dória, PSD (1963), a mãe, professora, foi transferida para o Gandu. Depois foram transferidos para o Posto Agropecuário Fazenda Grande.

Lenita passou no exame de admissão do Murilo Braga, guardando lembranças da professora Floralice, de geografia, Ofenísia, de português e do grande Mestre Edgar, de biologia. Compartilho a lembrança de Edgar, um dentista do Aracaju, que nasceu com o talento pedagógico.

Lenita, cursou o na UFS Letras (português/inglês). Ainda estudante, foi aprovada no concurso de professora do Estado, e começou a ensinar em Itabaiana. Com a ida de Mercedes, professora de inglês, para os EUA, Lenita ocupou a vaga. Ensinou por 28 anos, até a aposentadoria.

Em 1969, Lenita casou-se com Edvaldo da Farmácia, e tiveram três filhos: Lizandes, Eline e Catarine. Na segunda metade do século XX, houve uma mudança de protagonismo em Itabaiana. O comércio, o empreendedorismo, passou a ser o caminho para a ascensão social. A escola, o curso superior, garantia um meio de vida modesto.

Lenita, uma alma intelectual, com vários livros publicados, entrou para o comércio. Comprou o bem-sucedido Armarinho de Zaíra. O marido, venerável mestre maçons, é uma liderança corporativa do comércio. Proporcionalmente, Itabaiana é onde existem mais maçons no Mundo. Isso vem de longe. Não me perguntem, eu não sei explicar.

Os livros de Lenita são diversificados. Sobre o meio ambiente, Rotary e Cosmologia. Lenita se identifica como uma agnóstica teísta, uma heresia, mas guarda os domingos e dias santos de guarda. Ela, Comendadora da Ordem de Sebrão, o sobrinho, se considera uma ambientalista.

Eu só conhecia a professora pela fama, de ser uma mulher inovadora e decidida. Recentemente, Lenita procurou a Secretária de Cultura para fazer uma queixa: pintaram um carneiro na Praça, como sendo o carneiro de ouro da lenda itabaianense, que ela não aceita. A carneiro de ouro da nossa lenda é outro, afirmara ela indignada!

Eu informei que não possuía jurisdição para vetar o carneiro da praça. Lendas, são narrativas orais, mistura de fatos com fantasias. As lendas possuem elementos fantásticos, míticos, sobrenaturais. Cada um, vê o carneiro de ouro de um jeito.

Lenita não se conformou. Foi ao Bom Jardim, reuniu os idosos, para ouvir a versão popular. Pintou o carneiro da lenda ao seu modo, e doou a tela a Biblioteca Municipal. Tá lá, exposta.

Em tempos de redes sociais, inteligência artificial, fake news, ter um professora aposentada, brigando pela pureza de uma lenda, me deixou com a esperança que a cultura está viva.

Gente, eu fui ao Bom Jardim, em noite de lua cheia, para comprovar se o carneiro ainda aparece. Eu vi. O motorista que foi comigo, um obreiro da Assembleia de Deus, não viu. A gente só vê o que acredita.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

domingo, 20 de abril de 2025

A GUERRILHA EM ITABAIANA.

A Guerrilha em Itabaiana.
(por Antonio Samarone)

Havia uma perplexidade sobre o “porquê” da homenagem prestada ao presidente Médici, nomeando com o seu nome o Estádio de Futebol em Itabaiana. Recentemente o estádio foi rebatizado como Etelvino Mendonça.

De onde surgiu a motivação para a homenagem ao Presidente Garrastazu?

Em novembro de 1971, o 28º Batalhão de Caçadores realizou um treinamento anti guerrilha em Itabaiana, combinado com uma ação de presença e ações cívicos sociais. Era o Exército buscando legitimação para o regime de exceção. A manchete do Jornal “O Serrano”, sobre o acontecimento: “Exercito Comunga com o Povo.”

O Rotary Clube de Itabaiana prestou uma homenagem especial ao Exército Nacional pelas ações de treinamento anti guerrilha em Itabaiana, na pessoa do comandante do 28º BC, João Neiva de Mello Távora.

O comandante do 28º BC, em discurso no Rotary, justificou a escolha de Itabaiana para o local dos exercícios militares: a presença da sub estação da CHESF na cidade. Contudo, o serviço de inteligência militar apontava a presença de subversivos na cidade. Exagero!

Itabaiana sempre foi um ninho de devotos, onde se beijavam as mãos dos padres (ainda de batina); guardavam-se domingos e dias santos, ia-se ao catecismo e rezava-se todas as noites para o anjo da guarda.

A operação anti guerrilha incluía uma ação cívico social. O exército realizou atendimento médico, odontológico e veterinário em vários povoados de Itabaiana. Observando o relatório do exército, vários serviços foram realizados, incluindo 700 cortes de cabelo. O corte preferido foi o “Príncipe Danilo”.

A ação anti guerrilha em Itabaiana, coincidiu com a visita do Presidente Médici a Sergipe. Na ocasião, foi anunciada pelo Ministro Eliseu Resende a pavimentação asfáltica da BR – 235, no trecho Aracaju / Carira. A pavimentação foi concluída em 1973.

No mesmo mês da ação, novembro de 1971, o Presidente Garrastazu Médici Visitou Sergipe. O jornal itabaianense “O Serrano” noticiou: “A viagem do terceiro presidente revolucionário as Terras sergipanas foi coroado de pleno êxito, já que Aracaju inteira se floriu com o calor da visita presidencial.”

Continuou o Serrano: “Itabaiana cumprimentou o General Garrastazu Médici através do Deputado Pedro Moreno, que lhe ofereceu uma flâmula do Tremendão da Serra. Quebrando a rigidez do protocolo, o Deputado foi a única pessoa a se dizer torcedor do Flamengo, como Médici.”

Por que uma da ação anti guerrilha em Itabaiana? Uma cidade religiosa, apesar de ser governada pelo MDB, do Prefeito Filadelfo Araújo?

Estampou o Serrano em suas páginas: “Encerrada a semana de congraçamento Exército & Povo.” A cidade ficou literalmente ocupada, com a exposição do arsenal militar.

A ação anti guerrilha foi real. Meia dúzia de soldados (os mais feios) fantasiados de guerrilheiros, se esconderam nos quintais e matagais do Beco Novo.

A tropa, bem armada (balas de festim), eliminou os dublês de subversivos em poucos dias. No Beco Novo, ninguém entendeu. Depois da guerra, a molecada saiu procurando as cascas das balas.

A boca miúda, se comentava que a escolha de Itabaiana para uma ação anti guerrilha, foi a ameaça de um grupo de idosos, viciados em dominó. Não é piada. Vamos aos fatos: um grupo de velhos, viciados em dominó, reunia-se diariamente na Farmácia Americana. A farmácia fechou.

Para continuarem com a jogatina, eles conseguiram as chaves do Diretório Municipal do MDB, dirigido em Itabaiana, pelo deputado Baltazar Francisco dos Santos, de Ribeirópolis. Os Velhos do Dominó criaram uma nova cafua.

Não se sabe quem levou, mas foi encontrado um panfleto com a foto de Fidel Castro entre os viciados no Dominó dos Velhos. Baltazar, para evitar complicações, retomou as chaves e acabou com o nicho de subversivos.

Esse fato, colocou o 28 BC em alerta máximo. A inteligência militar decidiu por uma ação anti guerrilha em Itabaiana. Comunista tem astúcia do Cão, inventaram até um dominó subversivo em Itabaiana.

Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.
 

sexta-feira, 18 de abril de 2025

A FÉ EM TABULEIRO DO CHICO





 A Fé em Tabuleiro do Chico.
(por Antonio Samarone)

Em Itabaiana, a fé acompanhou a colonização. Fomos a Villa de Santo Antonio e Almas de Itabaiana, ou seja, uma Vila de franciscanos e beneditinos, ao pé da Serra. Almas é uma referência a São Miguel, padroeiro dos beneditinos.

O topônimo Itabaiana é anterior a chegada dos portugueses. Itabaiana Grande é a serra, avistada por Américo Vespúcio, em 1501.

Itabaiana é uma civilização de devotos. Na Semana Santa, três povoados, comunidades agrícolas, encenam a Paixão de Cristo: Tabuleiro do Chico, Mangabeira e Malhada Velha.

No Tabuleiro do Chico a encenação da Paixão de Cristo é um culto, um ritual religioso. São devotos, movidos pela fé. Na Mangabeira a encenação é cultural, um teatro ao ar livre, com direção artística, cenário, som, luz e figurinos profissionais. A inspiração dos participantes continua religiosa.

A Mangabeira e o Tabuleiro do Chico realizam a encenação da Paixão de Cristo de forma distinta: na primeira é culto e na segunda é cultura. Eu sei, culto e cultura se entrelaçam, mas são manifestações distintas.

No Tabuleiro do Chico, a encenação da Paixão de Cristo é uma festa religiosa, realizada com recursos teatrais. Na Mangabeira é uma encenação teatral, com inspiração religiosa. A primeira é um culto e a segunda cultura. As duas são realizações de leigos, iniciativa da coletividade.

Na Semana Santa a Igreja já possui festas, dentro dos seus rituais: domingo de ramos, lava pés, procissões do encontro, vias-sacras, fogaréus, sábado de aleluia e domingo de páscoa. São festas religiosas, comandadas pelo igreja católica.

Em Nova Jerusalém (cem mil metros quadrados), Pernambuco, a encenação da Paixão de Cristo é puro teatro, espetáculo com fins lucrativos, destinada à recreação de turistas. Por exemplo, o ator que representa Cristo, pode ser até um ateu.

Nas três formas de encenação da Paixão de Cristo: culto, cultura ou espetáculo comercial, o espectador vai majoritariamente em busca de entretenimento, distração, jeito mais comum em se utilizar o tempo livre, o ócio. Poucos vão contemplar.

A Capela Sagrado Coração de Jesus, do Tabuleiro do Chico, pertence à Paróquia de Jesus Misericordioso, comandada pelo competente Padre Josivaldo. A encenação é acompanhada de perto pela Igreja.

Pode a cultura substituir a religião? Em minha infância passavam filmes sobre a Vida, Paixão e Morte de Jesus Cristo, cinema cheio em duas sessões. Parece que depois da “The Passion of the Christ”, de Mel Gibson, esse tipo de filme saiu de moda.

No teatro grego os heróis e os deuses eram satirizados pelos poetas, trovadores e teatrólogos.

A igreja católica foi a maior patrocinadora das artes. Os temas religiosos dominaram o renascimento. O teto da Capela Sistina é o maior exemplo. A música clássica surgiu dentro das sacristias das catedrais europeias.

A arte se dissociou da fé, a partir do iluminismo. A insistência na evangelização teatral, é vista com certa desconfiança pela igreja tradicional. O catecismo é cartesiano, direto, dogmático. A arte é movida a símbolos, tolerante, diversa, dialética e conflitante.

Geralmente, a arte é uma atividade crítica. As religiões reveladas são por natureza dogmática.

Em 1989, Joãozinho Trinta levou a alegoria de um Cristo Mendigo para a passarela, com o enredo: “Ratos e Urubus, larguem a Minha Fantasia, da Beija-Flor. Foi a maior polêmica. A Igreja católica entrou na justiça para proibir.

Deixando de lado essas divagações teóricas, a encenação da Paixão de Cristo no Tabuleiro do Chico é uma manifestação de devoção, autonomia e criatividade de pessoas simples. Uma forma de agradecimento a Deus pela vida.

Palmas, para a comunidade do Tabuleiro do Chico, que se esforça para apresentar aos visitantes uma manifestação criativa de fé e beleza.

Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.

quarta-feira, 16 de abril de 2025

MESA DE BAR


Mesa de Bar.
(por Antonio Samarone)

“Corina tem um filho comunista, coitada! E além disto, ele fuma maconha!” Amaral Cavalcante.

Antes das redes sociais, o barzinho era um espaço de encontros de artistas, boêmios, intelectuais, revolucionários e de uma meia dúzia de desocupados. A cada noite, se botava em dias as fofocas, as notícias e se aprovava planos para mudar o mundo.

O filosofo de mesa de bar desfilava imponente. Falava sobre tudo, sempre com a razão.

Lembro-me do Gosto Gostoso, que funcionava na rua Lourival Chagas, (se não me engano), perto do apartamento de Marcelo Déda. O bar era de Fernandinho (Fernando Montalvão Filho), um aristocrata de Lagarto, que largou o sólido emprego de bancário do Bradesco, para virar empresário. Walfredo, irmão de Waldefrei do Clube da ENERGIPE, era sócio.

O Gosto Gostoso foi um sucesso. Na época, o Partido dos Trabalhadores era uma marca de prestígio. Quem quisesse ser moderno, botava uma estrelinha no peito e saia desfilando. Eu não conhecia nenhum jovem de direita, caso existisse, era incubado.

O bar de Fernandinho e Walfredo era infestado de esquerdistas, intelectuais, jornalistas, agentes culturais, anarquistas e monarquistas de esquerda, boêmios, bicho grilo, artistas e filósofos. Uma Arca de Noé!

Antes, era o Gosto Gostoso refeições, vendia marmita e quentinha. Depois passou a abrir as quartas-feiras, servindo uma geladinha e tira gosto, abrilhantado por Chico Queiroga. Foi quando se tornou o Bar da moda e ganhou fama. Isso era efêmero, circulava.

Os candidatos de esquerda lançavam as suas campanhas políticas no Gosto Gostoso. A classe média universitária estava lá. Todos queríamos mudar o mundo. Uns mais, outros menos.

Fernandinho e Walfredo eram criativos, levava artistas alternativos. Por lá passaram famosos: Xangai, Vital Farias, Geraldo Azevedo, Elomar, e tantos outros que esqueci.

Dos talentosos artistas da terra, lembro-me de Pantera, Chico Queiroga, Doca Furtado, Sena e Sergival, Feliciano, Cataluzes, Amorosa, Ismar Barreto, Irmão e Tonho Baixinho. Devo ter esquecido de muita gente, a quem peço desculpas.

A cerveja gelada era complementada pela tradicional maniçoba, coração de frango e caldo verde. Se saia das intermináveis assembleias do PT, para o Gosto Gostoso, sem peso na consciência. Era um lazer quase revolucionário.

Lembro-me de um texto de Amaral Cavalcante, uma peça literária: “Vida, esperança de justiça e sofreguidão. Acho que éramos todos assim belos e revolucionários, naqueles tempos do Gosto Gostoso.”

Peço licença para continuar citando Amaral:

“Notável também eram as bolsas de coro cru a tiracolo. Cada um carregava nela o seu arsenal bélico: folhas soltas com desenhos malucos, doutrinas, diários guevarianos, manifestos, a última edição de Carlos Zéfiro e, no fundo, perfumando tudo, o providencial baseado – que ninguém é de ferro.”

O Gosto Gostoso começou a decair com a inauguração do Calipso e do Calabar, na Praia, com a iluminação nova da orla, implantada pelo governador João Alves.

Gente, por onde anda aquela turma, quantos continuam vivos, fazem o que, quantos estão entocados nas redes sociais. Apareçam! Os derrotados também são filhos de Deus. As nossas bandeiras estão encostadas temporariamente.

Como consolo, lembro-me de um verso de Cazuza: “Se você achar que eu tô derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados, porque o tempo não para.”

Antonio Samarone. Secretario de Cultura de Itabaiana.
 

MEMÓRIA ALDEÃ - HISTORIA DO BOM JARDIM.


 Memória Aldeã – A história do Bom Jardim.
(por Antonio Samarone)

O único historiador sergipano a narrar as histórias das pequenas comunidades, dos povoados, foi Sebrão Sobrinho. Como surgiram essas povoações? Alguns foram antigos quilombos, aldeias indígenas ou engenhos desativados.

Em Itabaiana, foram quilombos: Barro Preto, Carrilho, Tabocas e Dendezeiro. Foram aldeias (tabas): Maitapoam, Caraíbas e Flechas. Sebrão acreditava que todos os povoados nasceram como tabas indígenas. Desconhecia os quilombos, reforçando a crença que em Itabaiana não tinha negros.

No Brasil Colônia, as terras foram distribuídas aos fidalgos pelo sistema de sesmarias. Via de regra, os beneficiados não as exploravam pessoalmente. Arrendavam para a criação de gado ou plantação de cana. O trabalho dominante era escravo. As sesmarias mediam-se em léguas.

O sistema de sesmaria chegou ao fim em 1822. A lei da terra, que introduziu a lógica mercantil, é de 1850. Passaram-se 28 anos sem normas jurídicas para a propriedade da terra. Predominavam as posses.

Nesse período, as ocupações de sesmarias improdutivas, dos espaços entre as sesmarias e as terras devolutas se acentuaram. As ocupações criaram os minifúndios, a cultura de subsistência e pequenos aglomerados populacionais (os povoados).

Essa realidade histórica, explica a distribuição de terras em Itabaiana. A ausência de latifúndios em torno da Villa. Os minifúndios conduziram a agricultura de subsistência, a produção de alimentos, sobretudo da farinha de mandioca. Nesse tempo, Itabaiana torna-se o celeiro de Sergipe.

Essa ocupação populacional do Pé da Serra de Itabaiana foi reforçada pela Peste de Cólera de 1855. Diante da Peste, a solução sensata era fugir. Sabia-se que a medicina era impotente e um par de botas constituía o mais seguro dos remédios. Desde o século XIV a Sorbone aconselhara aos que podiam que fugissem logo, para longe e por longo tempo.

Em Itabaiana, durante a pandemia de Cólera de 1855, atuou o Dr. Manoel Simões de Mello, que pouco pôde fazer, uma vez que a população daquele município, tendo em vista o abandono das autoridades, fugiu para as matas e serras vizinhas, não se encontrando quase ninguém no centro da Villa.

Assim nasceu o Bom Jardim: ocupação da terra pelas brechas da lei, acelerada pela fuga da Peste. Recebi de Seu Onésimo José de Jesus, um bom-jardinense raiz, uma versão consistente da história do povoado, que usei como principal fonte desse texto.

Trabalhadores sem-terra, residente na Villa, liderados por Vitório José de Jesus, por volta de 1850, ocuparam terras abandonadas no pé da Serra de Itabaiana. A terra era boa, clima ameno e água cristalina. Na chegada, os ipês estavam floridos. O nome estava evidente: Bom Jardim.

Vitório José estabeleceu-se na nova terra com a família. A esposa, Vitória Maria do Espírito Santo, e dez filhos: Felipe, Teófilo, Manoel, João José, Antonio Alexandre, Cândido, José Bispo, Josefa, Maria e Lourença. O texto de Seu Onésimo traça uma genealogia detalhada dos descendentes do fundador.

A escola só chegou ao Bom Jardim no século XX. Em 1910, aparece a primeira professora, Dona Lolosa, que veio do Aracaju. Ficou pouco tempo. Em 1915, trouxeram uma professora de Itabaiana, Maria Teodora, que ensinou por quatro anos.

Uma comunidade de devotos, gente rezadeira, religiosa. As missas começaram a ser rezadas pelo padre Vicente Valetim da Cunha, na casa de seu Brasiliano Bispo, onde também aconteciam as aulas de catecismo.

Dessas missas surgiu a ideia em se colocar um Cruzeiro no alto da Serra. A solenidade de instalação do Cruzeiro foi uma festa, comandada pelo Frei João, com mais de trezentos participantes. Gente de todos os povoados serranos. O Cruzeiro permanece lá até hoje.

Uma comissão de moradores solicitou ao Governo do Estado, Manoel Dantas, por intermédio do Intendente de Itabaiana, Cazuza de Queiroz, uma professora estadual. Foi enviada a Professora Laura Maria dos Santos, vinda do Aracaju. O senhor Lucas Evangelista cedeu a sua casa para a professora morar e se mudou para um povoado vizinho.

Em 1931, os netos de Seu Vitório, o fundador do povoado, resolveram construir uma capela, com apoio total do Padre Antonio Freitas, o pároco da Villa. A capela foi consagrada ao Sagrado Coração de Maria e solenemente inaugurada em 05 de fevereiro de 1936. A capela é belíssima (foto). Sebrão cita a existência de uma afinada Banda de Pífano, a filarmônica local, que acompanhava as festas religiosas.

Precedida por uma Santa Missão, pregada pelo Frei André, a padroeira foi entroniza na primeira capela da Paróquia de Santo Antonio e Almas, em 05 de fevereiro de 1936, sob a benção do Cônego Jugurta Feitosa Franco. A capela (foto), reformada em 1986, pelo Arcebispo Luciano Duarte. Completou 89 anos. Hoje, a capela pertence à Paróquia Nossa Senhora do Carmo,

Na década de 1950, foi construída uma escola estadual (hoje escola municipal Luís Floresta). Várias professoras marcaram passagem pelo Bom Jardim: Ester dos Santos, Maria Senhora de Jesus, Dona Zuleide.

Nessa época, década de 1950, Euclides Paes Mendonça, em seu ímpeto desenvolvimentista, construiu uma estrada trafegável para Itabaiana. Hoje essa estrada é asfaltada. Foi um grande progresso.

Na década de 1970, com a ajuda do Monsenhor Carvalho, foi instalada a luz elétrica, com ligação domiciliar. A comunidade conta com Unidade de Saúde, Escola Municipal de qualidade, água encanada, salão comunitário, associação de moradores atuante, bares e restaurante, com a famosa comida caseira. Aos domingos, vale a pena ir tomar o café da manhã no Bom Jardim.

O belo povoado tem memória do seu passado, orgulho do que o construíram, lembranças dos seus líderes e benfeitores, vaidade pela qualidade de vida. É o velho segredo: No Bom Jardim não tem ricos nem miseráveis, tem cidadãos. Camponeses ciosos da sua condição.

Acredito que no novo destino turístico de Itabaiana, o Bom Jardim será um polo atrativo, uma Trancoso, de Porto Seguro. Por onde andam os empreendedores? Tirem a grana do mercado financeiro. O Ecoturismo é o futuro.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

A CULTURA VICEJA.

A Cultura Viceja.
(por Antonio Samarone).

Em viagem com Luiz Antonio Barreto a Itabaiana, visando debater a formação de um Núcleo Local de Cultura, ele formulou uma tese: “a política, a igreja, as forças armadas, a imprensa tem donos. Só a Cultura é de todos.”

Fiquei pensando, demorei a entender, mas entendi. Enfiei a cabeça na cultura, entrei de corpo e alma.

Essa energia cultural em Itabaiana vem crescendo. As manifestações se multiplicam. Várias correntes, múltiplos agentes culturais, diversas formas de manifestações.

Quando Valmir me convidou para ser Secretário da Cultura, não podia rejeitar, era uma oportunidade em dar a minha contribuição. Lembrei-me de Luiz Antonio.

Ontem, um domingo, em singela solenidade, o intelectual e desembargador Vladimir Carvalho, doou a sua discoteca (800 discos), à Filarmônica 28 de agosto. Isso, essa é outra instituição musical. Não é aquela que completou 280 anos. A de Nossa Senhora da Conceição.

Além do desembargador, estão na foto: Samarone, com a camisa tricolor; o historiador Almeida Bispo, o professor Anderson, doutor em história, o músico Popó, a professora municipal Aldenir Machado e o maestro Natan Carvalho. Uma curiosidade: o maestro é do Bairro São Cristóvão, o antigo Tabuleiro dos Caboclos.

A força da música em Itabaiana produziu dois Natan(s) famosos, um Lima, outro Carvalho; um da música brega, outro da música clássica. Adivinhem quem enriqueceu?

A tradição musical em Itabaiana é de duas Filarmônicas.

Uma solenidade comovente, o Desembargador Vladimir Carvalho, (75 anos), escritor consagrado, imortal por várias academias, o maior nome vivo da intelectualidade itabaianense, falando para a juventude, para os alunos da Filarmônica. A cultura cria laços, narrativas, arte e história.

Itabaiana agradece!

Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.