sábado, 25 de dezembro de 2021

MISSA DO GALO


A Missa do Galo.
(por Antonio Samarone)

Natal sem graça! Não tem missa do galo à meia noite, nem festa na pracinha, com ondas, barcas e trivoli. Não tem Roleta, jogo do preá, nem galinha de capoeira com arroz amigo.

O Natal iluminado da Prefeitura e dos comerciantes não me interessa.

A Missa do Galo da Matriz de Santo Antonio e Almas era sagrada. Esperava-se o ano inteiro para chegar o dia. Ricos, pobres e remediados vestiam roupas novas. A roupa das festas.

Eu ouvia o “Tantum ergo sacramentum/ Veneremur cernui”, com o coração cheio de piedade, sem entender uma palavra. Não precisava.

A Missa do Galo do Natal de 1965 foi especial, foi a última no rito tridentino, rezada em latim. O Concilio Vaticano Segundo tinha terminado há 15 dias. A missa passaria a ser rezada no vernáculo.

Lá em casa não tinha Ceia, ia-se à festa profana na praça, depois à missa à meia noite e cama. Depois da missa, a pracinha não era apropriada aos meninos.

Os adultos adoravam ganhar goiabadas na roleta, por isso voltavam para festa. Jânio Quadro tinha proibido os jogos de azar. Para não fechar de vez, os prêmios da roleta passaram a ser goiabadas. A lei não previa esse detalhe.

As mulheres voltavam para a casa, com os filhos.

Nessa missa do Galo de 1965, Tia Gorete passou por um bendito vexame.

Tia Gorete era mascadeira, um hábito herdado dos Tupinambás. Não tirava uma capa de fumo da boca. O vicio tinha inconvenientes: de vez em quando, se precisa cuspir o excesso de saliva amarronzada. Eram cusparadas de meio litro.

Antigamente se cuspia muito. Para evitar maledicências, Tia Gorete mascava a erva-santa, o petim, o tabaco. Imagine o inconveniente das cusparadas durante a missa.

Tia Gorete também fumava aquele cachimbo de fornilho de barro, com a haste de canudo vegetal. Acho que ainda se vende na feira de Itabaiana.

Tia Gorete dormia com a capa de fumo na boca. Eu não suportava o cheiro, talvez por isso, nunca fumei. Ela começou a mascar aos 12 anos, para evitar comer terra. A geofagia era frequente, por conta do amarelão.

Após a Missa do Galo de 1965, a igreja abandonou o latim e Tia Gorete o fumo.

Feliz Natal.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

O CONTO DO POETA


O Conto do Poeta.
(por Antonio Samarone)

O primeiro critério das Academias de Letras para avaliar um livro é que ele fique em pé, se sustente em pé, sem encosto. O opúsculo “Sinfonia da Desesperança”, de Carlos Cauê, seria reprovado.

Após uma epidemia de livros banais em Sergipe, nasceu um bom livro. “Sinfonia da Desesperança”. É sucinto e profundo.

A quarentena abriu o coração e soltou a língua do poeta. A Sinfonia da Desesperança não é um conto de vigário. “O Anjo Gabriel soltou a língua de Zacarias”. (Para quem não é biblado, Zacarias é o pai de João Batista.

Carlos Cauê trata dos sepultamentos em valas comuns”. A fila de carros fúnebres na Itália. mostrada na TV, foi uma lembrança atávica das carroças recolhendo as vítimas da Peste Negra, no fim da Idade Média. A morte como espetáculo.

O Poeta Cauê trata da verdade da dor, numa sociedade paliativa que não enxerga utilidade na dor. A dor foi confinada ao discurso médico, o Poeta recupera a dor redentora. Sonha que a Pandemia pode queimar a semente do mal, e parir um mundo novo. Desconsidera que a gripe espanhola pariu o nazi fascismo.

A Sinfonia da Desesperança trata do tédio e da solidão humana, trata do amor em tempos do cólera. O poeta conta a sua vivência com a quarentena, criando personagens, com faz os artistas. É esse detalhe que transforma o causo, a crônica em conto. Eterniza a narrativa.

O inconsciente do poeta aflora na descrição da Covid-19. Atavicamente, recupera a imagem da tuberculose, a peste branca, dos boêmios e poetas.

Carlos Cauê, estabelecendo os limites, imita a narrativa de Boccaccio, em Decameron (1353), relatando a Peste Negra em Florença.

Tudo faz sentido. O Cemitério é São Lázaro, o mesmo santo dos lazaretos e dos lazarentos. Cauê lembra da lepra e dos leprosos. Sabiamente, o coveiro não chama a Peste pelo nome, é a doença.
O livro de Cauê retoma uma velha e surrada teologia humanista. Coloca-se com um anjo rebelde repetindo a tese: se Deus é bom e Justo, por castiga os humanos com essa Peste. Seria ciúmes da grandeza humana?

Santo Agostinho já resolveu esse enigma, mas o poeta é um humanista de raiz, um filho do iluminismo. O poeta continua inconformado com a expulsão do Paraíso.

Acho que todo o castigo para o homem é pouco, não por sua grandeza, mas pela vilania, pela destruição que ele está fazendo do Planeta.

Já se escreveu sobre a Pandemia de várias janelas. Os efeitos econômicos, sanitários, políticos, culturais, médicos, históricos. O poeta muda os rumos da conversa, o livro "Sinfonia da Desesperança" trata dos estragos da Peste na alma humana.

Li, esperando a morte da esperança. Nietzsche matou Deus. Pelo título do livro, pensei que Cauê mataria a esperança.

“Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate”, segundo Dante, é a inscrição no portão de entrada do Inferno.

A minha surpresa:

O livro de Carlos Cauê é um hino de louvor a esperança.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

UM SACO SEM FUNDO



Um Saco sem fundo.
(por Antonio Samarone)

Depois de muito tempo, fui hoje dar uma voltinha na Praia do Saco.

A Praia mais bonita de Sergipe está abandonada. Uma desolação absoluta. No pico do verão, semana de Natal, e nenhum banhista. Bares vazios, ruas desertas e casas fechadas.

Cadê os turistas?

A rodovia apinhada de carros de fora, turistas sedentos por novidades, mas ninguém entra no Saco, passam direto rumo a Bahia. A Praia do Saco está condenada.

A Praia do Saco foi evacuada, como se tivesse ocorrido um vazamento nuclear. É a nossa Chernobyl.

A centenária casa de Pedro Marcelo está distiorada. Era uma referência da tradicional família estanciana.

Até a lanchonete de Raimunda, que nunca fechou, estava fechada. Não encontrei Velo, nem Seu Zequinha, nem Pampão, nem Dido. Cadê o Povo do Saco?

O Saco acabou! A linda Praia da Ponta do Saco do Rio Real foi riscada do mapa.

O final de ano na Praia do Saco era uma festa. Tenho saudades das caminhadas até a ponta do Saco, para ver o por sol e mergulhar no rio quente.

A bela praia do Saco continua com as areias brancas e águas esverdeadas. A Croa cresceu. A brisa permanece tangendo as dunas. Por que desprezaram o Saco?

No outro lado do Rio Real é o Mangue Seco, na Bahia. O Governo de lá fez uma Orla, urbanizou, estimulou as pousadas. O turismo explodindo. Os hotéis em Aracaju mandam os seus hospedes para o Mangue Seco.

Um amigo chegou da Praia de Pipa, no Rio Grande do Norte, e me contou maravilhas. O negócio do turismo fervilhando, gerando empregos, movimentando a economia. As reservas de pousadas e hotéis só com muita antecedência. Tudo lotado.

Em Sergipe, enterraram uma caveira de burro, as coisas não andam.
Antonio Samarone. (médico sanitarista).


 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

AMÉRICO VESPUCIO EM SERGIPE


Américo Vespúcio em Sergipe.
(Por Antonio Samarone)

A frota de Cabral chegou a Porto Seguro em 22 de abril de 1.500 e partiu em 01 de maio. Passaram 8 dias, mandaram rezar uma missa e foram embora. Saíram sem saber o que tinham descoberto.

Somente em 1501, Dom Manuel, o Venturoso, organizou uma Armada, com três caravelas, para fazer o reconhecimento das terras descobertas por Cabral.

A 14 de maio de 1501, zarpou de Lisboa a Esquadra de reconhecimento de Vera Cruz. A bordo, como cosmógrafo e cronista, embarcou o celebre Américo Vespúcio.

Chegaram ao Novo Mundo em 07 de agosto, na Praia do Marco, no Rio Grande do Norte.

Em 04 de outubro de 1501, A esquadra chegou à foz do Rio Parapitinga, batizado de São Francisco, em homenagem ao Santo do dia. Sergipe estava descoberto, por Américo Vespúcio.
A Expedição encalhou no litoral norte de Sergipe, entre o São Francisco e o Rio Japaratuba. Os marinheiros esvaziaram as Caravelas, jogando barris ao mar, para reduzir o peso das embarcações. A marujada denominou a área de Enseada do Vaza Barril.

Riacho do Navio, um clássico de Luiz Gonzaga, diz num verso “que o Rio São Francisco vai bater no meio do mar”. Esse fato foi registrado por Américo Vespúcio. Talvez hoje, o Rio não vá tão longe.

Vespúcio chegou à foz dos Rios Cerigi (atual Sergipe) e Rio Cotinguiba, que eles batizaram de Rio do Pereira. Homenagem ao comandante de uma caravela, que adentrou o curso d’água, até as proximidades de Santo Amaro.

Américo Vespúcio, avistou a bela Serra de Itabaiana, que ele descreveu e denominou de Serra Santa Maria da Graça.

Na semana seguinte adentraram ao Rio Irapiranga, batizado de Rio Cassia. Fizeram um carregamento das vargens da canafístulas, uma fava considerada medicinal na Europa. A primeiro produto levado pelos portugueses não foi o pau Brasil.

Gabriel Soares de Souza em sua "Notícia do Brasil", de 1587, fez uma confusão, denominando o Rio Irapiranga de Vaza Barril, pensando que ele desaguava na enseada do mesmo nome. O nome continua até hoje.

Américo Vespúcio chegou à Foz do Rio Itanhy, em 26 de outubro. Impressionado pela amplitude, denominou-o de Rio Real, era aniversário do El Rey Dom Manuel.

Américo Vespúcio descobriu Sergipe e passou 21 dias por aqui. Gente, o homem é importante. O nome América é uma homenagem a esse florentino.

Por que a historiografia de Sergipe não valoriza esses acontecimentos?

Eu não sei. Talvez a nossa secular baixa estima!

Está tudo registrado nas cartas que Américo Vespúcio escreveu, dando conhecimento ao Velho Mundo da descoberta de um Novo.

Espero que pelo menos, o “trade” turístico faça uso.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

PS:
1- A imagem que ilustra o texto é de Américo Vespúcio. A única existente.
2- A Baia de Todos os Santos só foi descoberta em 01 de novembro de 1501, por isso a nome.