sábado, 12 de setembro de 2020

O TABULEIRO DO CABOCLO


O Tabuleiro do Caboclo.
(por Antonio Samarone)

Em minha infância, Itabaiana era declaradamente racista. Dizia-se, em Itabaiana não existem Negros. Os poucos, não são daqui. Os fatos desmentiam, mas dane-se os fatos, prevalecia o preconceito.

Os Negros em Itabaiana eram invisíveis.

A maioria dos meus amigos eram negros. Eu cresci jogando bola no Tabuleiro do Caboclo, um quilombo antigo, onde nasceu o futebol na cidade. Um quilombo de paneleiros. Ali se produzia a melhor cerâmica da Região.

Eu convivi com as tradicionais famílias de Negros do Tabuleiro do Caboclo. Os Filhos de Maria Barraca (Manuel, José, Euclides e João) e uma centena de filhos, netos e bisnetos; a família de Mané Padeiro, cheia de craques, (Lima, goleiro do Confiança, Faete, Nado e Manelito), a família de Zeferino, o Divo Preto (um herói da Segunda Guerra).

Seu Mané Barraca, além de afamado rezador, tomava conta do futebol no Quilombo. Ele era o dono da bola e do campo. Era jogador, treinador juiz e cartola. Jogava e apitava ao mesmo tempo. Certa ocasião, ele cometeu uma falta violenta, ele mesmo marcou a falta e se expulsou. Deu cartão vermelho a ele próprio. “Eu estou expulso, a partir de agora fico apenas como juiz.”

Aos domingos, após o “derby”, Seu Manuel oferecia um banquete: uma pirão de galinha de capoeira, só para os apadrinhados. Ninguém contestava a autoridade dele, homem de muito respeito, rezador disputado (não cobrava). Seu Mané Barraca nunca se casou, morava com a mãe. Não merecia ser esquecido, e já foi.

No Beco Novo, onde nasci e me criei, tinha poucos brancos.

Todos Negros: as famílias de Dona Olga, Mercedes, Otuza e Rosalvo do Cabo Quirino, (com os seus pasteis), Dona Tota (a professora de datilografia), Seu Agenor Sapateiro (todas as filhas professoras), os descendentes do maestro Antonio Silva (Toinho, Nilo, Bebé e o professor Airton), Seu Justino e Dona Mãezinha, com uma ninhada de filhos, Euclides alfaiate, a família de Bonito (gente ligada a cultura), Dequinha e Detinha, Seu Pierrô, o Cabo João Mole. Não lembrei da metade.

Na Rua do Fato, para onde me mudei, quase todos Negros. As famílias de Candinho e de Seu Emiliano se destacavam.

Na cidade dos brancos, nas três Praças, nas Ruas do Sol, das Flores, da macambira, Nova, da Pedreira, da Vitória, no Cacete Armado, tinham outras famílias Negras. Antonio de Dóci já escreveu sobre o tema. Devem existir pesquisas desses novos historiadores de Itabaiana, sobre a herança africana na cidade.

Nas Flechas, povoado de minha mãe, destacava-se a família de Bento Costa Carvalho, o Bento das Flechas. Negros que sabiam ler e escrever, professores. Um dos primeiros itabainenses a concluir o curso superior foi o farmacêutico Moisés da Costa Carvalho, filho de Bento das Flechas.

Foi de Itabaiana que saiu Quintino de Lacerda, para se tornar herói do Quilombo Jabaquara e da abolição, em Santos, SP.

O primeiro doido que tive notícias, daqueles antigos, que ainda atiravam pedras, foi Elizeu, filho de Bento das Flechas. Foi o único “doido de pedras” que eu conheci. Depois inventaram os remédios.

A memória dos Negros de Itabaiana foi ocultada. O Quilombo Tabuleiro do Caboclo foi renomeado, na segunda metade do século XX, botaram o apelido de “Cruzeiro”, “Avenida”, e mais recentemente, a Câmara de Vereadores batizou como Bairro São Cristóvão.

Em minha memória continua o Tabuleiro do Caboclo e, em minha Itabaiana, tinha muitos Negros.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

OS DESATINOS DO ARACAJU



Os Desatinos do Aracaju.
(por Antonio Samarone)

O planejamento urbano é uma ideia antiga. Aracaju gaba-se de ter sido planejada pelo engenheiro Pirro. O primeiro Código de Postura de Aracaju, Lei nº 458, de 03 de setembro de 1856, criou regras urbanas cidadãs:

“O proprietário de casas era obrigado a calçar a frente com lageado regular (calçadas), sendo que nas ruas de sessenta palmos de largura, os lageados seriam de oito palmos, e nas ruas de cem palmos, os lageados de dez palmos.”

Trazendo para a linguagem atual, em 1856, Aracaju teria ruas de 12 metros de largura, com caçadas com 1,5 metros, e Avenidas com 20 metros de largura, com calçadas de 2 metros. São assim, as ruas do quadriculado central da cidade.

Não precisa falar muito, basta comparar com a atual Aracaju, que está sendo construída sob a tutela da especulação imobiliária, do chamado Mercado.

A última grande intervenção do Poder Público na cidade do Aracaju, foi o desmanche do Morro do Bomfim e a urbanização do Curral e da Ilha das Cobras, na década de 1950. A partir de Godofredo Diniz, a cidade foi entregue à indústria da construção civil.

Dizem que o Aracaju atual tem 13 donos. Mais da metade dos terrenos pertencem a esses 13 latifundiários urbanos. São imensas glebas entregues à especulação.

Na fundação do Aracaju (1855) não era diferente. O senhor Luiz Francisco das Chagas, o Seu Luizinho do Sítio Aurora, era proprietário da metade da nova Capital. A outra metade era de João Cabeça Mole e pequenos posseiros.

O sítio de Seu Luizinho ia da Catedral até o Tramandaí e do litoral, até a Lagoa da Pomba (penitenciária velha). Ele era o dono do lado direito da Capital.

Aracaju sepultou o planejamento urbano. Hoje, caminha sem direção, sem planos e sem rumos. Uma cidade entregue a pequenos interesses.

Vejam a nova Orla (foto) que está sendo construída ao lado do Tecarmo. Nenhum planejamento! Uma orla estreita, sem estacionamentos, espaços verdes e áreas de lazer e convivência. E o mais grave, esqueceram de deixar espaços para uma futura e necessária duplicação da Rodovia Sarney. Sinceramente, dinheiro público desperdiçado.

Quem constrói a cidade é o povo, sonhava o urbanista Rubens Chaves. Aracaju, para onde você vai? A pergunta continua sem resposta.

Hoje, 10/09, as 18 horas, faremos uma LIVE no Instagram, antoniosamaronede, com o arquiteto e urbanista Ricardo Nunes, sobre o futuro sustentável do Aracaju, no Pós Pandemia.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


quarta-feira, 9 de setembro de 2020

A PESTE BRANCA EM SERGIPE


A Peste Branca em Sergipe
(por Antonio Samarone)
A tuberculose é antiga. A medicina romana descrevia “frio na traqueia, tosse, pleurisia, tísica e cuspir sangue”, como doenças que se curam com dificuldade.
Entretanto, a doença só se transformou em problema de Saúde Pública após a revolução industrial. Foram os aglomerados urbanos que favoreceram o crescimento da Peste Branca.
Em 1868, Antoine Villemin, médico do exército francês, demonstrou que a tuberculose era causada por germes microscópicos, que se multiplicavam no organismo.
Em 1882, o médico rural alemão, Robert Koch, descobriu o bacilo causador da tuberculose, que passou a levar o seu nome.
A tuberculose chegou ao Brasil com os brancos em 1500. Era a febre hética, lenta, consuntiva. O povo chamava a doença de fraqueza do peito, chaga dos bofes, sangue pela boca e tísica. Aos fracos do peito, os médicos recomendavam leite de burra ou de cabra, logo cedo, em jejum.
A tuberculose matou gente importante no Brasil: Os poetas Castro Alves e Noel Rosa, sem falar do Imperador. Dom Pedro, o primeiro do Brasil e quarto de Portugal, faleceu na Real Quinta de Queluz, nas cercanias de Lisboa, aos 36 anos, tuberculoso.
Em 1884, fundou-se em Cascadura, subúrbio do Rio de janeiro, por razões climáticas, o primeiro hospital para tísicos no Brasil.
Era o início do isolamento.
Em 1927, teve início a vacinação com o Bacilo de Calmette e Guérin (BCG), em recém-nascidos.
Em 1936, o médico brasileiro Manoel Dias de Abreu, desenvolveu um novo método diagnóstico que combinava a radiografia de tórax e a fotografia, o qual ficou oficialmente conhecido como “abreugrafia”.
No início do século XX, a tuberculose despontou como um problema de Saúde Pública em Sergipe. Talvez o fim da escravidão, tenha transformado a tuberculose num problema social.
Antes, o escravo morria isolado na senzala, com o trabalho livre, os tuberculosos passaram a transitar entre os bem nascidos. Tornaram-se um risco sanitário.
Em 1902, Dr. José Moreira de Magalhães, diretor clínico do Hospital Santa Izabel, em Aracaju, alertou sobre os riscos dos tuberculosos:
“À princípio, recusei a admissão dos atacados desta terrível moléstia no hospital. Depois, tocado de desgosto em negar amparo a quem mais carece, utilizei pequenos compartimentos isolados, com duas camas, que viviam sempre lotados.”
O Dr. Francisco Fonseca, o Dr. Fonsequinha, um dos maiores clínicos de Sergipe no século XX, defendeu como tese inaugural para a conclusão do curso de medicina, em 1907, “Estudos Clínicos da Hemoptise Tuberculosa”.
Josino Menezes, farmacêutico e Governador de Sergipe (1902 – 1905), assim se manifestou sobre a tuberculose:
“É de aterrar a estatística de mortes pelo bacilo de Koch. Onde ele se manifesta o luto é certo, prejudicando gerações inteiras, nada poupa, avançando em sua faina de destruição, ora como inimigo sorrateiro, covarde, que ataca de emboscada, ora de chofre, com a valentia dos incombatíveis.”
Em 02 de julho de 1917, em grande solenidade, com missa concelebrada pelo Bispo Dom José Thomaz, foi inaugurado um Pavilhão para Tuberculosos, no Hospital Santa Izabel, com 13 leitos. Os Serviços foram entregues à responsabilidade do Dr. José da Silva Melo.
Em 1936, no Governo Eronides de Carvalho, foi inaugurado o Palácio Serigy, onde começou a funcionar um Dispensário de Tuberculose, entregue o comando ao cientista sergipano Lourival Bomfim.
Em 1 º de abril de 1949, foi criada a Liga Contra a Tuberculose de Aracaju, sob a Presidência do senhor Elífio Pedrosa da Rocha, pai do pneumologista que dirigia o Sanatório.
O Hospital Sanatório de Aracaju (para tuberculosos) somente foi inaugurado em 27/03/1954, com 60 leitos. Os Drs. Wilson Franco Rocha e Paulo Faro, pneumologistas, dirigiram o hospital por vários anos.
Em 1982, o Sanatório foi incorporado a UFS e transformado em Hospital Universitário (HU).
Antonio Samarone (médico sanitarista)

terça-feira, 8 de setembro de 2020

A REVOLTA DA VACINA



A Revolta da Vacina.
(por Antonio Samarone)
O século XX começou em Sergipe, com uma procissão de bexiguentos. A varíola era a principal causa de morte. As epidemias se sucediam, quase anuais. O único remédio era a vacinação em massa.
Aqui reside o problema: a vacinação não era bem aceita.
A resistência a vacinação era generalizada. A grande Revolta da Vacina de 1904, no Rio de Janeiro, não foi um evento isolado. Oswaldo Cruz conseguiu que o Presidente Rodrigues Alves tornasse a vacinação contra a varíola obrigatória e povo partiu para o enfrentamento.
Não imaginem que a resistência à vacinação era exclusiva do povo. O sábio Rui Barbosa, discursava contra a vacinação no Congresso: “Mostrai-me o título, divino ou humano, que vos conferiu o direito de intervir na substância do meu sangue... A natureza reservou as minhas veias ao seu domínio privativo. A lanceta oficial não as penetrará...”
A Academia Nacional de Medicina era contra a vacinação obrigatória, proposta por Oswaldo Cruz. Aliás, os médicos discordavam da teoria microbiana das doenças, descoberta por Pasteur. Os médicos professavam o velho higienismo.
As superstições não são apanágios do povo.
Setores do Exército foram contra a vacinação. Foi uma luta do Apostolado Positivista, de inspiração liberal. A resistência a vacinação é atávica. O povo pegou o embalo.
A racionalidade científica sempre enfrentou resistências no enfrentamento das Pestes. O negacionismo da Covid-19 mantém a regra.
Os positivistas chamavam a vacinação obrigatória de sifilização obrigatória.
Existe um texto de Augusto Comte condenando a vacina: “A medicina apresenta um vício lógico capital, pois está sempre reduzida a recorrer a processos gerais em casos específicos.” A vacinação seria um processo geral.
A vacinação obrigatória era vista, no início do século XX, como um atentado a integridade física e moral do indivíduo e a sua liberdade de consciência. O corpo humano é uma propriedade sagrada e inviolável de cada um.
Em 1911, em Laranjeiras - Sergipe, a população reagiu violentamente quando o Dr. Militão de Bragança, diante de uma grande epidemia de varíola, tomou a iniciativa de vacinar a população. O doutor teve a sua vida ameaçada.
O Dr. Bragança vacinou as filhas em Praça Pública, para demostrar que a vacina era segura. Não houve jeito. Neste ano, só em Laranjeiras, morreram 340 pessoas por varíola.
Eu conheço teses, pretensamente marxistas, que afirmam que a vacinação obrigatória era uma tentativa de dominação capitalista, através da higiene. Uma confusão com os projetos eugênicos, de inspiração racista, apoiado pela Sociedade Brasileira de Higiene. Essa é outra discussão.
A vacinação da época de Bragança não era mais a antiga variolização, braço a braço. Já se vacinava modernamente com a linfa vacínica. A pele era lavada com um antisséptico (licor de Wansoiten), a lanceta era flambada e fazia-se uma escarificação na pele do braço. Soprava-se na extremidade do tubo para que uma gota da linfa penetrasse através da pele escarificada. Esse era o método de vacinação.
O difícil era manter a linfa vacínica em bom estado de uso.
Atualmente, existe um movimento mundial anti-vacina. Muitos pais decidem não vacinar os seus filhos. A OMS aponta o “medo da vacina”, como um grave problema de Saúde Pública. Essa controvérsia secular continua em pauta.
A resistência a vacinação tem defensores de peso: Em 1998, o médico britânico Andrew Wakefield, publicou um estudo em uma respeitada revista científica, a Lancet, relacionando a vacina tríplice viral, que previne contra a caxumba, o sarampo e a rubéola, ao autismo.
Não sei o porquê da surpresa, quando o Presidente Bolsonaro defendeu recentemente que a futura vacinação contra o Covid-19 deve ser facultativa. Vacina-se quem quiser, disse o Mito. A justificativa é a mesma, uma defesa dos direitos individuais.
Do jeito que a coisa anda, a futura vacinação contra a Covid-19 pode não ser pacífica. A sociedade brasileira se dividiu sobre a existência ou não da Pandemia, por que a vacinação seria consenso?
Não se surpreendam com uma nova Revolta da Vacina.
Antonio Samarone (médico sanitarista)

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

SETE DE SETEMBRO


Sete de Setembro.
(Por Antonio Samarone)
No Grito do Ipiranga, o Imperador apresentou duas opções: Independência ou Morte! Nesses tempos pandêmicos, fica claro que o Brasil optou pela morte.
Os negacionismos, em suas diversa matizes, é uma comprovação.
Somos uma Nação onde a vida vale pouco. Aliás, sempre foi assim. A violência era encoberta com o manto da hipocrisia. Hoje, a intolerância foi assumida e é até exaltada. O ódio passou a ser pregado em praça pública.
Antes, existia uma esperança de saída, um sopro de solidariedade. O Natal sem Fome do Betinho, foi um bom exemplo. Hoje, até a defesa dos direitos humanos é condenada.
Vivemos tempos sombrios!
Vou continuar pregando no deserto. A Peste não acabou, longe disso. O que está arrefecendo é a sua forma aguda, a sua etapa epidêmica. Entretanto, a sociedade brasileira cansou do assunto, e não quer mais saber.
Me desculpem, não comungo com a visão otimistas de que estamos saindo da crise, que o pior já passou. Não! Precisamos de união, ideias e muita luta, para enfrentarmos as carraspanas que estão no horizonte.
Não estou falando apenas do campo da Saúde Pública, onde o prognóstico não é bom. Falo do conjunto da vida, dos lampejos de civilização que nos restas. Falo do desemprego e do aumento das desigualdades sociais. Falo do destino da escola pública.
Na Saúde Pública, os efeitos da passagem da Peste estão sendo devastadores. Já ouvi colegas experientes em diversas áreas. Todos assustados, prevendo dificuldades.
Já ouvi, em LIVES no Instagram, Almir Santana sobre as Ações Coletivas, Antonio Lima sobre os Transtornos Mentais e Antonio Claudio sobre a Saúde dos Idosos.
Ouvi outros pensadores: Jorge Carvalho sobre educação, Neu Fontes sobre a Cultura, Alexandre Porto sobre a economia, Rogério Proença sobre a psico-política e Ricardo Mascarello sobre o urbanismo.
Todos enxergando dificuldades.
Existe uma unanimidade: os nossos governantes não estão à altura da crise. A sociedade precisa reagir!
Amanhã (08/09) será vez do Oncologista William Soares, falar sobre as Neoplasias. Quais as mudanças na epidemiologia do Câncer, com a passagem da Peste?
Na Saúde tem um agravante. O IBGE acaba de publicar uma pesquisa demostrando a importância do SUS, no enfrentamento da Peste, mesmo um SUS maltratado. Vamos precisar muito do SUS daqui para frente.
Qual é o maior entrave?
A Emenda Constitucional 95 congelou os recursos federais para a Saúde por 20 anos, até 2036. É essa discussão que ouvimos na TV, sobre o teto do orçamento. Não faço populismo, não é uma questão de fácil solução.
Durante a fase aguda da Peste, criou-se um necessário “Orçamento de Guerra”, em outras palavras, abriu-se os cofres, gastou-se sem ter, tomando-se emprestado.
Governadores e Prefeitos nadam em dinheiro para a Pandemia, nem sempre bem utilizados. Teve até quem metesse a mão.
Quem vai pagar essa conta é a sociedade! E aí está o impasse: aumentar impostos ou reduzir os serviços prestados a população? Outra alternativa seria reduzir os ganhos do mercado financeiro, contrariar os interesses do deus mercado.
Não existem saídas indolores.
Independência ou Morte!
Antonio Samarone (médico sanitarista)

domingo, 6 de setembro de 2020

O TRIBUNAL DO JÚRI EM ITABAIANA


O Tribunal do Júri em Itabaiana.
(por Antonio Samarone)
Pedro de Rita foi atacado numa estrada deserta, no meio da noite, em plena escuridão. No desespero, sacou de uma faca e golpeou o agressor. O golpe foi fatal, atingiu o coração do desconhecido.
Preso, levado a julgamento popular, Pedro foi interrogado pelo Juiz de Direito, Dr. João da Silva Melo, e usou como principal argumento a tese de legítima defesa. “Doutor, fui pego de surpresa, tomei um susto, senti que forasteiro queria me matar. Instintivamente, me defendi. Para não morrer, saquei de uma faca e apliquei um contra golpe.”
O Doutor Juiz ponderou: “E precisava matar? Por que o senhor não deu a facada em outro lugar, escolheu logo o coração.”
Pedro de Rita tomou a pergunta como descabida e retrucou: “O Senhor acha mesmo eu que deveria ter riscado um fósforo para alumiar e escolhido outro lugar para enfiar a faca?”
O Juiz se calou pensativo.
Esse argumento de Pedro de Rita em sua defesa, foi o mesmo usado pelo Rei Édipo, acusado de parricídio, de ter matado o Rei Laio, seu pai: “Por acaso, se fosses agredido por um desconhecido numa estrada deserta, iria, antes de se defender, indagar se aquele homem era o seu pai?”
Os dois fatos são reais, o de Pedro de Rita, contado por Tonho de Dóci, em seu livro, "História de uma Paixão", e o do Rei Édipo, contado por Sófocles, em "Édipo em Colono". Apenas modifiquei os personagens centrais da narrativa itabaianense.
Antonio Samarone. (médico sanitarista)

sábado, 5 de setembro de 2020

A CHEGADA DA VACINA A SERGIPE


A Chegada da Vacina a Sergipe.
(por Antonio Samarone)
A vacina é um recurso antigo da medicina. Em 1798, Edward Jenner, um médico rural inglês, anunciava ao mundo a descoberta da vacina contra a varíola.
A vacinação se propagou rapidamente, mesmo com a uma certa resistência das pessoas.
A primeira vacinação no Brasil, o pus transmitido braço a braço (variolização), foi realizada em 1798, por Francisco Mendes Ribeiro, cirurgião-mor do Primeiro Regimento de Milícias do Rio de Janeiro. A linfa vacínica veio da Inglaterra, no mesmo ano da descoberta.
Na ocasião, foram vacinadas 477 pessoas, de ambos os sexos, com idade entre 20 e 50 anos. Mesmo sem incidentes, o povo mostrou-se temeroso e refratário a novidade.
A experiencia seria repetida somente em 1804, na Bahia. Os mercadores financiaram a ida de sete escravos jovens a Portugal, incumbidos de trazerem o pus vacínico. No espaço de seis meses, foram inoculados 1.339 crianças na Bahia, por inciativa do médico José Avelino Barbosa e do cirurgião Francisco Rodrigues Nunes.
Existem notícias de vacinação em Estância, Sergipe, por volta de 1826. Entretanto, eram iniciativas isoladas e de baixa
cobertura.
Em 1835, o Juiz de Paz da Villa de Propriá, Manuel José de Medeiros Chaves, solicitou ao Presidente da Província o pus vacínico para propagar por aquela Villa.
Em 22 de fevereiro de 1836, foi aprovada em Sergipe uma Lei Provincial tornando a vacinação obrigatória, prevendo multa e prisão para os infratores. A lei autorizou o Governo a gastar até um conto de réis para a difusão da vacina. Não precisa dizer que a lei não foi cumprida.
Na atualidade, tem um deputado sergipano querendo requentar essa lei da vacinação obrigatória, que se encontra em vigor em Sergipe desde 1836, pois nunca foi revogada.
Em 1843, o Presidente de Sergipe, Dr. Anselmo Francisco Peretti, solicitou ao Presidente da Bahia a remessa de lâminas da vacina e, não sendo possível, que aceitasse algumas crianças sergipanas, que seriam enviadas para a vacinação na Bahia e posteriormente, utilizadas para a extração do pus em Sergipe.
Em 1843, a Assembleia Provincial de Sergipe aprovou a criação do Cargo de Vacinador Geral, que foi ocupado pelo médico Francisco Sabino Coelho Sampaio.
O Cargo durou pouco, pois em 1846, o Governo Imperial criou o Cargo de Comissário Vacinador Provincial, ocupado em Sergipe pelo médico Joaquim José de Oliveira, que acumulava o Cargo de Provedor de Saúde Pública.
A resolução nº 260, autorizou o Governo a pagar a gratificação de 400 mil reis aos vacinadores municipais, caso eles fossem médicos. Em Sergipe, geralmente esses vacinadores eram leigos, que nada recebiam. Santo Amaro das Brotas contratou um professor para esse serviço, pagando a gratificação de cem mil réis.
No ano de 1853, foram vacinadas na Capital, São Cristóvão, apenas 163 pessoas.
Pelo livro de registro da Provedoria de Saúde Pública, em 1860, atuavam em Sergipe 11 médicos, 4 cirurgiões e 7 farmacêuticos. Em caso de dúvidas, eu possuo o documento com a relação nominal.
No final do Império, tinham consultórios em Aracaju: 12 médicos, a maioria na Rua Aurora.
A Peste das Bexigas (varíola) continuou grassando com grande intensidade em Sergipe. A varíola foi o principal problema de Saúde Pública em Sergipe, na segunda metade do século XIX.
Um fato relevante (e esquecido) da história da Saúde Pública em Sergipe.
As vacinas contra a febre tifoide e paratifoide foram produzidas pela primeira vez no Brasil, em Sergipe, no Instituto Parreiras Horta.
Os germes foram aqui isolados, cultivados em garrafas com ágar inclinado. Depois de 24 horas, as culturas eram emulsionadas, fazia-se a contagem dos germes previamente mortos com iodo. A solução era diluída a 2%, e distribuída em ampolas.
Sergipe produziu uma vacina oral, na década de 1920. A vacina era empregada com 20 gotas diluídas em água, tomada em jejum, por três dias consecutivos.
Hoje se sabe que a vacina tinha uma eficácia quase nula, mas à época, houve uma queda significativa da febre tifoide no estado, atribuída a vacinação em massa realizada.
As Vacinas em Sergipe tiveram outras histórias interessantes, mas o espaço aqui é pequeno e já acabou. Vou tentar continuar amanhã, se houver interesse manifesto.
Antonio Samarone. (médico sanitarista)