quarta-feira, 4 de setembro de 2013

José Augusto Machado - Baldock








José Augusto Machado (Baldock) é da geração de itabaianenses de 1954, nascido e criado no último trecho da Rua de Vitória, dentro do miolo cultural do Beco Novo. Filho de Seu Zé de João de Sajoaninha e Dona Mariinha. Começou o primário na Escola de Dona Jozeíta, defronte ao Clube do Trabalhador, depois teve a sorte de ser transferido para o conceituado Educandário Zenaide Cardoso Schultz, onde concluiu o primário. Baldock tem dois irmãos, Tonho de Mariinha, comerciante em Aracaju conhecido por Demacon, e Roberto, pequeno empresário do mercado financeiro, residente em Itabaiana, e uma irmã, Maria José, dona de casa, esposa do finado Joel.
Conheço José Augusto desse tempo, Eu no Beco Novo e ele na Rua de Vitória. De primeira, fizemos logo amizade, Baldock não era de brigas, uma raridade naquelas bandas, inteligente, engraçado, sempre gostou de dar uma “cordinha”.  Desde pequeno, triste de quem se metesse a besta de enfrentá-lo numa polêmica, com o raciocínio rápido e desconcertante, ele deixava qualquer sem graça, encabulado.
Uma infância sem Papai Noel, aniversários, dia da criança, estatuto, Juiz de Menor, Conselho Tutelar, uma infância sem proteção, mas, curiosamente, uma infância feliz. Um tempo onde o temível bullings era liberado e as drogas desconhecidas. Baldock desde pequeno era bom de bola, ao contrário de Nilo Base, Baldock não chutava forte, não cabeceava, não era veloz e driblador, não era pancadeiro, mesmo sem nenhuma virtude específica, era uns dos primeiros escolhidos quando se iam dividir os times numa peladas.
Baldock se destacava nos campeonatos organizados por Luiz Américo, no famoso campinho de Baltasar, onde, com cinco na linha e um no gol, ocorriam batalhas homéricas. Em um dos certames, organizamos uma equipe com os meninos mais precisados. Grilo de Firmino, no Gol, Baldock, Vadinho de Nilo, Beijo de Bebé, Eu e Nego Gato de Bonito, fomos campeões. Baldock, sempre generoso, teve logo a ideia de levarmos uma parte da premiação para Beijo, que tinha quebrado um dedo e não participou da final, e para ver se agradava seu Bebé, o pai de Beijo, que não dava moleza na criação dos filhos, e ele abrandava, deixando Beijo ir mais para peladas.
Por volta de 1967, Dr. Pedro Garcia Moreno resolveu tomar conta do futebol em Itabaiana, foi uma revolução de esperança, a cidade interira passou a achar que agora o futebol local ia para frente. Entre as novidades, Dr. Pedro resolveu criar um juvenil, e designar Miguel de Rola para treinador. No dia da seleção dos atletas, um sábado à tarde no Etelvino Mendonça, Baldock, quando perguntado em quê posição ele gostaria de jogar, ninguém entendeu, mas ele escolheu ser quarto zagueiro, uma posição destinada aos mais brutos. Se esta posição não lhe rendeu um futuro no futebol, deixou pelo menos o nome Baldock,  grande zagueiro palmeirense, time pelo qual o nosso José Augusto torce desde que nasceu.
Miguel de Rola era um treinador rigoroso, um disciplinador, punia com suspensões severas pequenas falhas os atrasos. Ninguém piava. Antes dos coletivos, Miguel iniciava longas sessões de aprendizado dos fundamentos do futebol: o chute, o passe, o cabeceio, o domínio e o drible. Ensinava a cobrança do lateral, escanteio, faltas. Certo dia, num treinamento de faltas, Miguel resolveu escalar Baldock para ficar na barreira, depois de umas cobranças violentas, Baldock se rebelou, saiu da barreira e falou para Miguel: - “peraí meu amigo, me diga um único jogador que ficou famoso por sem bom de barreira”? Tudo mundo caiu na gargalhada e Miguel mudou de treinamento.
Ginásio e Científico Baldock fez no Murilo Braga, nossa fábrica de gente, de cidadãos, caminho único de ascensão social para os que habitavam nos andares de baixo. Com a adolescência, a realidade começa a cobrar seu preço, a exclusão, os privilégios, as diferenças sociais, mostram suas garras com mais nitidez. Baldock também precisou trabalhar logo cedo para ajudar em Casa.
Baldock passou no vestibular de Engenharia Química, e foi morar na lendária “República Cebolinha”, na Rua de Maruim 488, por onde passaram dezenas de itabaianenses em busca da cidadania. Dr. Luiz Carlos, Fontes, Guilhermino, Zé Valdo, Elio Lima, Zé Nivaldo, Eu, Adilson, João Patola, entre outros, numa experiência de vida singular. A comunidade da República era frequentada por diversos conterrâneos, Maceta, Mãe Gorda, Jorge de João Marcelo, etc. Em certo momento, fins da década de 1970, a República Cebolinha se transformou na embaixada informal de Itabaiana, servindo de sede para a torcida organizada do Itabaiana, presidida neste período por Maceta.
Baldock não se adaptou bem com a engenharia química, veio embora para Itabaiana, sem dar a menos satisfação a UFS. Isso lhe custou caro, pois foi selecionado em 2º lugar num concurso da Petrobrás, um sonho para muita gente, e na hora da convocação, a Empresa deve ter consultado a UFS, e com a informação do abandono, ele simplesmente foi cortado. Os tempos eram outros.
Voltou para Itabaiana, e foi dar aulas no Murilo Braga, e ficar aguardando outro sonho de menino pobre, passar no concurso do Banco do Brasil. Não demorou, Baldock foi aprovado, e tomou posse no prestigioso cargo de bancário do BB, em Remanso, no estado da Bahia. Isso mesmo, Remanso coberto pelo Lago de Sobradinho...
Tempos depois é transferido para Itabaiana, e passa levar a confortável vida de funcionário do Banco Brasil. Só que as coisas mudam, o Banco entra em crise, e aparece o terror do enxugamento, da redução de funcionários, da demissão voluntária. O clima no Banco torna-se insuportável, e mais uma vez Baldock surpreende a todos, pede demissão, e transforma-se num pequeno comerciante de embalagens, coisa que as pessoas de fora, pensa que todo itabaianense já nasce sabendo, é do sangue, todos são bons comerciantes.
Passa um tempo na Prefeitura, vai me ajudar na SMTT de Aracaju. Um dos grandes pepinos de minha passagem pela SMTT foi a relação com as Empresas de ônibus. Entre outras atribuições, a SMTT era responsável pela comercialização da meia passagem estudantil, da emissão da carteira de estudante, etc, enfim, uma área susceptível de malandragens. Eu precisava de alguém direito e competente, onde buscar? Não pensei duas vezes, vir a Itabaiana buscar meu compadre Baldock. Acertei em cheio.
Depois ele volta para a Prefeitura de Itabaiana, para assumir o honroso cargo de Tesoureiro Municipal. Atualmente, nosso empossado é proprietário do e Bar e Restaurante Mãe Gorda, na Praia do Robalo em Aracaju. Para mim um presente, pois moro a menos de 300 metros, quando quero matar a saudade das coisas de Itabaiana, sempre encontro o anfitrião, mais Demacon, Djalma Lobo, Betinho de Zé de Prima, Nivaldo de Joãozinho Vermelhinho, Sardão, Gilson de Chico Bateria, entres outros ceboleiros menos votados, todos cheios de estórias.
O Homem. Além da inteligência e bom humor, Baldock é uma homem solidário com os amigos. Na década de 1970, rondava os bares de Itabaiana uma figura enigmática conhecida como Polonês, dizia-se ser um fugitivo do exército da Polônia, quase engenheiro, chegou a Itabaiana contratado por Euclides Paes Mendonça, para construir a antiga Sede da Câmara de Vereadores, um prédio com dois pavimentos, ao lado do Tanque do Povo.
O Polonês caiu doente, sozinho, e foi Baldok quem tomou a frente, conseguindo uma vaga no Hospital de Cirurgia, em Aracaju, para que seu amigo não morresse à míngua. O Polonês não resistiu, faleceu, e Baldock é chamado pelo hospital, para saber se alguém ia assumir o sepultamento, ou eles passariam o corpo, como indigente, para fins de estudos na Faculdade de Medicina. Baldock, sem um centavo no Bolso, assumiu o sepultamento. Contratou uma funerária, botaram o homem numa Kombi e rumaram para Itabaiana. Primeira dificuldade, onde velar o corpo.  Foi procurar Clodomir, que ajudou na missiva cristã. No outro dia, Baldok, mais três ou quatro bêbados, iniciam um cortejo até o Cemitério de Santa Cruz, a época particular, e sepultaram com dignidade um homem decente, competente, que a vida empurrou para as sarjetas de Itabaiana.
Baldok é autor de dois bons livros de causos. Herdeiro do velho humor irônico de Itabaiana, legítimo sucessor de Alberto Carvalho, Filomeno, Maceta, Fred de Etelvino, Emerson de Viera Lima, etc. Os livros também revelam, aos mais atentos, uma parte de nossa formação econômica e social. Ex – a origem dos caminhoneiros, e a memória das profissões artesanais, tão presente, em certo período de nossa estória. Seja bem vindo a nossa Academia.

Antonio Samarone de Santana
Academia Itabaianense de Letras.

sábado, 24 de agosto de 2013

A Violência do Trânsito em Sergipe



Antonio Samarone



Analisando o Mapa de Violência, publicado o ano passado, constatei que em 2010, o Brasil ocupava o 6º lugar em violência no trânsito no Mundo, com uma taxa de óbitos de 21,5 óbitos/cem mil habitantes, em números absolutos, significou 40.981 óbitos. O País campeão em acidentes foi o Catar, com a taxa de 30,1 óbitos/cem mil habitantes.

No mesmo período, os dados de Sergipe sobre a violência no trânsito são assustadores: o Estado aparece com uma taxa de óbitos de 30,5 óbitos/cem mil habitantes, bem superior à média nacional e acima do Catar. Analisando Sergipe no ranking dos países, seríamos o campeão mundial em acidentes de trânsito. Em 2010, faleceram 631 pessoas em Sergipe, por acidente de trânsito, com dois óbitos por dia; uma epidemia inaceitável. Entre 2000 e 2010, numa década sangrenta, faleceram 4.839 pessoas em Sergipe, por acidente de trânsito. Para cada óbito, estima-se que pelo menos quatro pessoas fiquem com sequelas definitivas.

Sergipe passou de uma taxa de acidentes de 19,9 óbitos/cem mil hab. em 2000, para 30,5 óbitos/cem mil hab. em 2010. Numa década, atingimos patamares de violência no trânsito bem superiores a São Paulo (16,8 óbitos/cem mil hab.) e ao Rio de Janeiro (14,4 óbitos/cem mil hab.). Em 2010, Sergipe já ocupava o 5º lugar nacional em óbitos por motocicletas: foram 296 óbitos registrados pelo Ministério da Saúde. No computo geral, Sergipe é o 9º colocado nacional em óbitos por acidentes.

Como chegamos a esta tragédia silenciosa em Sergipe? Claro, o crescimento geométrico da frota de motocicletas, substituindo a inexistência e/ou precariedade do transporte público, contribuiu de forma decisiva para o crescimento das taxas de acidentes, mas não foi só isso. Essa frota também cresceu em outros estados do Nordeste, sem a mesma explosão de óbitos que tivemos em Sergipe.

O uso da motocicleta como transporte de massas, em substituição ao transporte coletivo, é amplamente incentivado pelo Governo brasileiro através da concessão de subsídios e isenções de tributos. As montadoras estão quase todas localizadas na Zona Franca de Manaus. Recentemente, o Governo de Sergipe dispensou o ICMS e taxas do DETRAN de todas as motocicletas até 125 cilindradas, isso abrange mais de 95% da frota. Ressalte-se que os ciclomotores, veículos até 50 CC, já são isentos.

A questão está à espera de estudos e avaliações para que se compreendam as causas e se apontem as medidas necessárias para a superação deste genocídio, que mata e mutila basicamente os jovens. Resolvemos a mortalidade infantil nos últimos 20 anos, com a melhoria do saneamento básico, higiene, alimentação e assistência médica; e passamos a carnificina para os adultos jovens, desperdiçando o nosso boom demográfico, tão favorável ao crescimento econômico.

Levanto também como suspeita para a epidemia de acidentes em Sergipe, o fato de o Estado não possuir uma política de mobilidade, de ter tratado o órgão estadual de trânsito, ao longo do tempo, como moeda de troca política. O abandono do transporte público tornou a opção pela moto quase obrigatória. A ausência de ações de controle da velocidade nas rodovias estaduais... As ações para o cumprimento da lei seca são iniciativas quase pessoais, de bons profissionais da Polícia Militar; o Governo apenas tolera.

A "Década de Ação pelo Trânsito Seguro" (2011-2020), adotada pela ONU, na qual governos de todo o mundo se comprometem a tomar medidas para prevenir os acidentes no trânsito, passou longe de Sergipe, não se fala nisso por aqui. Os acidentes de trânsito são a nona causa de mortes no mundo e ferem de 20 a 50 milhões de pessoas a cada ano. 

Não vejo sinais de mudanças em Sergipe nos próximos anos. 

domingo, 11 de agosto de 2013

Transporte Coletivo em Aracaju, qual o destino?

Antonio Samarone



Apontar o transporte coletivo como alternativa para a crescente redução da fluidez em Aracaju, identificado pelos proprietários de automóveis como o principal problema da mobilidade, tem se transformado num aparente consenso. Na última campanha para Prefeito todos diziam a mesma coisa sobre o tema, à diferença entre os principais candidatos era se o modelo deveria ser BRT ou VLT.

Se todos são a favor, por que as coisas não andam? Vamos pensar um pouco: o item mais reclamado na qualidade do transporte público é sua lentidão e impontualidade, em resumo, os ônibus não passam, não chegam no horário, à oferta do serviço é insuficiente e irregular. Uma dura realidade em Aracaju, os ônibus se deslocam em uma velocidade média de 14 Km/h, uma viagem que deveria durar 20 minutos leva uma hora. Claro, não estou subestimando os outros problemas, é só para facilitar o raciocínio.

A decisão política de priorizar o transporte coletivo precisa enfrentar o conflito do uso dos espaços públicos. Os ônibus não podem disputar as vias com os veículos particulares, o que fazer? Os custos do Metrô tradicional e a realidade de Aracaju afastam esta alternativa; o BRT do Prefeito, o chamado metrô de superfície é uma boa saída, entretanto, bate de frente com a falta de recursos, nesta modalidade as vias são exclusivas, estações de embarque e desembarque, são necessários investimentos expressivos, que não existe, Aracaju ficou de fora do PAC mobilidade. Resta o BST, o Sistema Rápido de Transporte que requer apenas faixas exclusivas para os ônibus. Se a velocidade média, por exemplo, passar dos atuais 14 km/h para 28 Km/h, terá o dobro de viagens da realidade atual, com a mesma frota. O sistema pode regularizar os horários de saída e chegada, e equacionar um grande problema.

Encontrar espaços para a construção das faixas exclusivas para os ônibus passa a ser o problema. O que fazer de imediato? Segregar faixas, das existentes, para os ônibus e reduzir as faixas disponíveis para os veículos particulares como consequência? Por exemplo, como operar essa mudança nos corredores da Avenida Barão de Maruim/Desembargador Maynard e no da Avenida Beira Mar? Qual seria a reação dos proprietários de veículos? Outra opção, utilizar as faixas usadas para estacionamentos e liberá-las para os ônibus, onde for o caso. 

A sociedade está disposta a ficar sem estacionamentos nas vias públicas? Experiências recentes não foram bem sucedidas. Restam: 

1 - a cobertura dos canais, como está ocorrendo nas Avenidas Canal 4 e Canal 5, no Augusto Franco, onde surgirão espaços novos nas vias, podendo adequá-los ao uso do transporte coletivo, a questão passa a ser de investimentos; 2 - a supressão dos canteiros centrais, mesmo criando novos espaços, enfrentará a resistência dos ambientalistas; 3 - a construção de novos corredores, solução em longo prazo e dependente de altos investimentos e de desapropriações, judicialmente complicadas nos espaços urbanos. Enfim, entre o discurso de priorização do transporte público e a sua execução, existe uma distância significativa.

Outra pendência decisiva em Aracaju é a licitação do transporte coletivo, como executá-la sem embaraços judiciais. As duas últimas administrações de Aracaju tentaram sem sucesso. O Prefeito João Alves Filho anunciou a formação de um consórcio intermunicipal, e realizar o processo de licitação por este caminho. As experiências nacionais em operar este tipo de consórcio são reduzidas. A lei 11.107/2005 e o decreto 6.017/2007 definem as condições de funcionamento desses consórcios. É necessário um protocolo de intenções, aprovados pelos parlamentos municipais; um contrato entre os municípios, um estatuto e a criação de uma nova instituição, com orçamento e pessoal próprios, uma nova Estatal, que será gerida de forma colegiada. Esta nova empresa é que irá realizar o certame licitatório.

Convenhamos, é um longo e tortuoso caminho que deverá ser percorrido na escuridão, pois ninguém dispõe de experiência neste modelo de gestão. Talvez por isso, a lei 12.587/2012 - que aprovou a Política Nacional de Mobilidade -, tenha previsto um caminho mais simples, cada município realiza sua licitação, e com autorização do Estado, estabelecem um convênio para a gestão do sistema de transporte, comum aos municípios. Observação, o consórcio requer também o consentimento do Estado. Em todo caso, desejo boa sorte a administração municipal nessa empreitada licitatória.

Claro, o debate sobre a mobilidade que queremos em Aracaju está apenas começando. Nossa qualidade de vida depende da solução de várias outras questões na mobilidade, entretanto, o transporte coletivo é um tópico estruturante, por isso sua importância. O adiamento desta solução reforçará a atual tendência, imposta pelo mercado. Em Aracaju, assistimos a consolidação do “modelo asiático”, com o predomínio do transporte clandestino e do uso das motocicletas e ciclomotores como transporte de massas, com a as conhecidas consequências para a sociedade, para a saúde pública e para a família das vítimas.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

“Pacto para a Saúde”: resposta às cobranças das ruas?


Antonio Samarone (médico sanitarista)


A presidenta Dilma, tentando criar uma agenda positiva, respondeu as cobranças das ruas por “Mais Saúde”, lançando um programa para aumentar o número de médicos. Tentarei, com certa isenção, analisar se as medidas propostas estão no caminho da superação da crise, são consistentes, e darão resultados desejados; ou, pelo contrário, são factoides, respostas eleitoreiras, que apenas criarão ilusões para as camadas da população mal assistidas.

Em linhas gerais, o Governo anunciou a ampliação das vagas nas escolas médicas, 11 mil nos próximos cinco anos; a criação de mais 12 mil vagas na residência médica (cursos de especialização), que também significa mais médicos para a rede pública, num primeiro momento. A mais polêmica foi à criação de vagas para médicos federais com o salário de 10 mil reais, pelo prazo de três anos, para serem lotados e residirem onde o Governo entender que a população está desassistida. Estas vagas serão oferecidas inicialmente por médicos brasileiros e, sobrando vagas, por médicos de qualquer nacionalidade. Essas vagas serão ocupadas com dedicação exclusiva.

Secundariamente, anunciou que os próximos estudantes de medicina, depois dos seis anos, devem passar mais dois anos na rede básica como condição para obter o diploma - uma forma de ressarcimento da gratuidade de sua formação, uma espécie de serviço civil obrigatório. Não está claro se essa exigência também se aplica para os formados em faculdades particulares.

Outra medida, esta, velha conhecida pela ineficácia, foi à liberação de recursos federais (7,2 bilhões) para a construção e reforma de Unidades de Saúde. A conhecida ampliação da rede, sem o devido cuidado com o funcionamento, muito menos com a qualidade, sem previsão de recursos para a manutenção e custeio e sem pessoal treinado para a gestão. A experiência de Sergipe com as Clínicas de Saúde da Família é elucidativa, o fracasso é previsível.

A atual crise dos sistemas de saúde não pode ser tributada ao papel dos médicos, o trabalho na saúde é coletivo, numa equipe multiprofissional, e o seu entendimento nos obriga a uma discussão longa e complexa. Entre outras variáveis, a crise atual sofre influências:

  1. Transição epidemiológica, onde as doenças crônicas substituem as doenças infecciosas como principais causas de mortalidade;
  2. Transição demográfica, com o crescente envelhecimento da população;
  3. Rede de saúde voltada para o atendimento das doenças e ocorrências aguda;
  4. Incorporação tecnológica dominada pela lógica do capital, elevando sobremaneira os custos com a assistência;
  5. Melhoria da renda dos usuários, elevando as exigências na qualidade do atendimento;
  6. Elevação dos custos da assistência médica;
  7. Crescente urbanização, aumentando a demanda por serviços de saúde, e a respostas imediatas;
  8. Gestões despreparadas, com ampla subordinação política;
  9. Elevadas taxas de corrupção e má aplicação dos recursos;
  10. Financiamento insuficiente;
  11. Elevada interferência da lógica privada.
Os atuais serviços de saúde (públicos e privados) estão voltados para as consequências dos agravos à saúde, portanto, com reduzido enfoque na prevenção, voltados também para a oferta de serviços e tecnologias subordinadas a lógica do capital. A demanda mais frequente é de enfermidades que exigem o acompanhamento permanente (hipertensão, diabetes, etc.), implicando em mudanças no modo de vida dos pacientes e os serviços atualmente ofertados estão reduzidos a procedimentos dispersos; com resolutividade próxima a zero.

As reformas necessárias passam pelo fortalecimento da rede básica, centrada na equipe de saúde, na medicina preventiva, no controle social, no envolvimento dos pacientes no gerenciamento e resolução dos seus problemas, portanto, nada a ver com saídas focais, de medicina simplificada para os pobres, que confundem propositalmente saúde com médicos. 

A atenção básica requer uma equipe capacitada de saúde, e não um médico transitório, requer a garantia da referência e contra referência, exige serviços organizados em rede no qual o acesso ao especialista, à atenção hospitalar e aos exames necessários estejam garantidos.

A Saúde pela qual dediquei parte importante de minha juventude, que ainda me disponho ir às ruas, funda-se num sistema equânime, que não separa as pessoas pela condição financeira, que ofereça uma atenção integral, que garanta a dignidade para todos. Não estou disposto a rasgar as resoluções da VIII Conferência. A consulta médica é parte importante desta integralidade, não tenho dúvidas, mas ela não pode ser transformada numa ação isolada, simbólica, sem recursos, sem medicamentos, apenas uma satisfação política. Não subestimem a consciência sanitária da população.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Vandalismos ou violência política?



Antonio Samarone


Boa parte da imprensa tem tratado alguns atos de violência (depredação de prédios públicos, apedrejamento de jornalistas, queima de veículos, etc.) como sendo atos de vandalismos de uma minoria, descolada das manifestações. Se por vandalismo entendem-se atos irresponsáveis de indivíduos isolados, agindo por motivação própria, por banditismo, desvinculados de grupos políticos, eu quero discordar.

A violência praticada por vândalos também ocorre, só que de forma bastante residual, minoritária, como também ocorrem ações praticadas por bandidos, que se aproveitam da confusão para praticarem crimes. É possível também que ocorram ações violentas de agentes infiltrados pelo poder, para desgastarem o movimento. Tudo isso é possível, entretanto, o centro das ações violentas é política e tem outra origem.

As ações violentas são deliberações de grupos políticos minoritários, que acreditam na “violência como parteira da história”, e entendem que a forma mais rápida para o socialismo é o combate sem trégua à burguesia e ao Estado burguês, visto como um comitê central da classe dominante. 


Os movimentos de massas são apenas oportunidades de acirramentos dessas contradições, uma vez que a democracia é rotulada como um engodo, apenas mais uma forma de dominação. Contra os inimigos de classe a violência é vista como legítima, mais uma forma de luta, talvez a principal. A história do homem é a guerra.

Esta faixa do espectro político existe em quase todos os movimentos pelo mundo, pelo menos desde a Revolução Francesa. A particularidade brasileira é a semi- clandestinidade. No restante do mundo esses Grupos assumem suas ações como forma legítima de atuação política, no Brasil a autoria é negada.

A história registra poucas ocasiões em que esses grupos chegaram ao poder, após revoltas ou revoluções, e quando chegaram permaneceram por pouco tempo. A regra geral é serem sucedidos por forças reacionárias, que implantam violentas ditaduras, por longos tempos.

Reconheço que em certas circunstâncias da história as formas violentas de lutas são quase as únicas possíveis, entretanto, no Brasil de hoje, estas forças estão prestando um desserviço à libertação do povo, suas ações limitam o crescente movimento de massas, e esterilizam a luta, ao não apresentarem propostas de reforma nem das instituições políticas, nem do Estado, por não acreditarem neste caminho.