quinta-feira, 18 de setembro de 2025

A PESTE BUBÔNICA EM SERGIPE.

A Peste Bubônica em Sergipe.
(por Antonio Samarone)

No jornal “O Estado de Sergipe”, edição de 28 de agosto de 1903, o Inspetor da Higiene Pública, Dr. Theodoreto Arcanjo do Nascimento, alertava para o exagero das notícias que circulavam na cidade de que estava acontecendo uma elevada mortandade dos ratos e o aparecimento dos primeiros casos de Peste Bubônica em Aracaju. Diz o Diretor:

“Não é tão fácil concluir da simples observação clínica de dois ou três casos, o diagnóstico da Peste”. Sergipe não possuía recursos laboratoriais para realizar a prova biológica desse diagnóstico.

Mesmo desmentindo a existência de Peste na Capital, a Inspetoria avisou ter recebido vacina antipestosa do Instituto Soroterápico Federal, e que a vacinação estava ocorrendo diariamente de uma as duas da tarde.

Os casos continuaram aparecendo e Inspetor de Higiene do Estado, Dr. Theodoreto Nascimento, cedeu as evidências e convocou uma reunião, em sua residência, dos médicos atuantes em Aracaju.

Compareceram os Drs. Manoel de Marsilac, José Moreira de Magalhães, Cândido Costa Pinto, José de Souza Ponde (Inspetor de Saúde dos Portos), Manoel Nobre (auxiliar da Inspetoria) e José Francisco da Silva Melo; deixaram de comparecer, mesmo tendo sido convidados, os Drs. João Telles de Menezes (médico militar), Álvaro Telles de Menezes e Daniel Campos.

Nessa conferência, foi decidido por unanimidade que estavam diante da suspeita da ocorrência da Peste Bubônica. Esse é o primeiro registro de Peste Bubônica em Sergipe.

As medidas sanitárias tomadas para se evitar a propagação da doença foras as seguintes: isolamento dos pacientes (em número de doze) no lazareto existente; imediatos expurgos de suas casas, que também foram interditadas e guardadas por agentes da Força Pública; tentativa de vacinação; desinfecção – com o pulverizador Geneste - de todas as casas onde ocorreu mortandade de ratos; asseio pessoal, domiciliar e das ruas; desinfecção do Palácio, Alfândega, Quartel, Tesouro, Justiça Federal, Cadeia e demais edifícios públicos; imediata limpeza do cais e das embarcações pequenas.

Os Delegados de Higiene do Interior foram todos colocados de “sobreaviso”, isto é, alertados para uma possível epidemia.

“O cais, as ruas, o interior das casas, os quintais, tem sido continuadamente limpos, procedendo-se por toda à parte a remoção e incineração do lixo, de maneira que se pode afirmar, jamais se viu tão limpa a nossa modesta Capital”. (Theodoreto Nascimento, no Jornal “O Estado de Sergipe”, edição de 13/09/1903).

Diante de mais uma ameaça de epidemia, assim se manifestou o Presidente do Estado, o Farmacêutico Josino Menezes, em mensagem a Assembleia Legislativa, no dia 07 de setembro de 1903:

“O nosso Estado acha-se na desagradável contingência de não poder resistir à invasão de qualquer epidemia, tão fácil de ser importada, quanto de se desenvolver entre nós, como prenunciam infecções gravíssimas já observadas em nossa Capital”.

Já em setembro de 1903, O Inspetor de Higiene solicitou ao Presidente do Estado que determinasse ao doutor Chefe de Polícia para que proibisse as pessoas de deixarem Aracaju sem serem devidamente examinados e emitidos os “Passaportes Sanitários”.

Solicitou-se também um auxílio em dinheiro para as pessoas removidas para o Lazareto, por não poderem prover seu sustento com trabalhos externos e que se proibisse os sepultamentos em nossos cemitérios sem o respectivo atestado de óbito. O Lazareto era dirigido pelo enfermeiro Canuto Severino de Araújo.

A Saúde Pública determinou também que se desinfectassem com enxofre todas as mercadorias e objetos que saíssem da Capital, mesmo sabendo do risco de danificá-las. Para atender a essa determinação foi construída na Inspetoria de Higiene uma estufa para funcionar com gás sulfuroso ou formol, mais dois salões no centro comercial e mais outro no Jardim Baiano, onde se podem proceder ao expurgo das mercadorias.

O Mercado, velho edifício, carcomida e ameaçadora habitação de ratos, fora completamente evacuado; o Beco do Açúcar (atual dos cocos), também sofreu evacuação e os proprietários ali instalados intimados a reformarem seus estabelecimentos.

O Beco era considerado um verdadeiro cortiço incrustado no centro da cidade, feio e imundo, a atentar contra a saúde pública e aos foros de civilização necessários a uma Capital.

O Mercado, que era propriedade da “Associação Aracajuana de Beneficência”, que administrava o Hospital de Santa Isabel - presidida na época pelo Major Serafim Moreira - somente foi reaberto após passar por uma ampla reforma higiênica, com pintura, mudança do teto, inclusive com a construção de oito latrinas para a serventia pública, até então inexistentes.

Diante do pavor decorrente da ameaça da Peste decretou-se um verdadeiro “estado de sítio” sanitário. A polícia se desdobrou para cumprir as determinações da Saúde Pública. Em menos de 30 dias, cerca 500 pessoas já tinham conseguido o tal “Passaporte Sanitário”, sem o qual o direito de ir e vir estava banido.

Não ficam claro quais os critérios usados para a emissão do citado “Passaporte”, quais os aspectos de sanidade deveriam ser observados, etc. Uma pista está no fato de que até o amanuense da Repartição Sanitária, senhor José Alencar Cardoso, estava autorizado a emitir e assinar tal documento.

É evidente que medidas tão duras, “justificadas” pelo medo da Peste, tiveram forte resistência por parte da sociedade.

Como os conhecimentos ainda eram muito precários, era mais prudente errar-se pelo exagero do que pela omissão, discursava os defensores das medidas.

Entretanto, com essas medidas, mesmo consideradas exageradas, a Peste foi rapidamente controlada, não causando mais os estragos de épocas passadas. A medicina já dispunha de alguns instrumentos eficazes no combate a algumas moléstias.

A Peste Bubônica começava a ser domada.

No dia 12 de setembro, Dr. Theodoreto enviou um curioso ofício ao Chefe de Polícia: “solicito uma patrulha, mesmo de pouco homens, destinada a evitar a defecação feita publicamente, na zona compreendida da frente do Hotel Brasil e a Alfândega”.

A Saúde Pública registrou também o recebimento de amostras de um “sabão de creolina”, fabricado especificamente para ajudar nas medidas profiláticas do combate a Peste. A fedida invenção não somente foi aprovada como bastante elogiada, pois era resultado da criatividade de uma saboaria local, de propriedade da senhora Arlinda A. Espinheira.

Quanto ao tratamento empregado nos casos de Peste Bubônica usou-se a aplicação, via hipodérmica, do soro antipestoso em altas doses, com excelentes resultados. O soro também foi usado, preventivamente, em pessoas expostas ao risco, que tiveram algum tipo de contato com áreas suspeitas.

A Peste Bubônica, também chamada de Febre do Caroço, Febre do Rato, Íngua de Frio, Peste Negra, Peste Levantina começava com febre intensa, calafrio, dores de cabeça, mal-estar, apatia, prostração e no segundo dia aparecia o “bulbão”, que era a reação dos gânglios satélites. O povo acreditava que enquanto o bulbão não fosse sarjado o risco era iminente.

Com a descoberta das sulfas e depois dos antibióticos, basicamente a estreptomicina, a cura da Peste Bubônica deixou de ser problema.

Antonio Samarone – Confrade da Academia Sergipana de Medicina.
 

terça-feira, 16 de setembro de 2025

O CENTENÁRIO DO HOSPITAL DE CIRURGIA (1926 - 2026). parte 1.


 O Centenário do Hospital de Cirurgia (1926 – 2026) Parte I.
(Por Antonio Samarone).

A 25 de junho de 1923, em um banquete da classe médica em homenagem ao ilustre médico e cientista, Dr. Parreira Horta, realizado no palácio do Governo, o Dr. Augusto Leite reclamou ao Governador do Estado, Dr. Graccho Cardoso, da inexistência em Sergipe de um hospital onde se pudesse exercer com segurança a cirurgia.

“Considere, se vos apraz o exemplo, o hospital Santa Isabel, o único de Aracaju, o maior de Sergipe, aquele para o qual convergem os doentes de todo o Estado... Nele só os sexos são separados. Abriga doentes de toda a sorte em uma mesma sala, numa promiscuidade que atenta em cheio contra os mais elementares preceitos de higiene.” Dr. Augusto Leite.

O Dr. Graccho Cardoso, impressionado com o que ouviu, prometeu construir um moderno hospital, dizendo taxativamente: “Não sou homem de promessas, não prometo para faltar”. E não faltou. Para completar a sua Reforma Sanitária, investiu, decisivamente, na mudança de qualidade da assistência hospitalar em Sergipe.

Às 16 horas, do dia 01/11/1923, dia de todos os Santos, era batida a pedra fundamental para a construção do Hospital de Cirurgia. Na festa de lançamento, o Dr. Augusto Leite, pronunciou um discurso, onde deixou explicitada a precariedade da rede hospitalar do Estado naquele momento:

“Sergipe, doe-me confessá-lo, Sergipe vigorosamente não possui um hospital, mesmo modesto. Uns há que são verdadeiros albergues. Pessimamente instalados, sem direção técnica, sem médico, o tratamento dos doentes entregues a curandeiros, tem de hospital tão somente o nome estampado, em letras gordas, no alto da fachada.”

Não que Graccho Cardoso tivesse construído muitos hospitais, naquele momento não era essa uma prioridade do Poder Público, mas pelo fato de ter viabilizado a criação de um hospital novo, diferente de tudo que existiu até aquele momento.

Um hospital como instrumento de cura, organizado dentro das exigências de uma nova medicina.

Um Hospital que será, ao mesmo tempo, unidade de assistência, espaço para pesquisa e desenvolvimento dos conhecimentos médicos e lócus privilegiado de formação e atualização dos profissionais da saúde que atuavam no Estado.

É a partir do Hospital de Cirurgia que a instituição hospitalar em Sergipe deixou de ser um local de assistência social, sobretudo em sua dimensão religiosa, local de assistência à morte dos desvalidos para se transformar em um local de cura.

Sergipe possuía uma pequena rede de hospitais de caridade, dentro do antigo modelo asilar.

Eram instituições voltadas para a assistência social ou, mais especificamente, assistência religiosa. A assistência médica era iatrogênica.

O hospital era o espaço onde se ia morrer, ou como se dizia antigamente, o espaço para “quem não tinha onde cair morto”, que lá, vai à procura de um último consolo. O capelão era mais importante que o médico.

“O hospital, quando emergiu da época feudal, era essencialmente um instrumento da sociedade para minorar o sofrimento, diminuir a pobreza, erradicar a mendicância e ajudar a manter a ordem pública.”

Ocorre que as mudanças no conhecimento médico tinham transformado o hospital num local de cura. A assepsia, o laboratório, a observação clínica e a incorporação de enfermeiras treinadas tinham redirecionado as funções e os objetivos dessa instituição milenar.

Essas mudanças, que ocorreram no mundo desenvolvido a partir da década de 1880, chegaram a Sergipe com a decisão tomada por Graccho Cardoso em construir o Hospital de Cirurgia.

É claro o papel dos médicos, com a sua entidade de classe, liderados pelo Dr. Augusto Leite. Entretanto, sem a visão transformadora de Graccho, tudo não teria passado de um sonho.

A situação da rede de hospitais de caridade em Sergipe era precária e mal afamada. Mesmo o Santa Isabel, o maior entre eles, ainda não tinha feito por onde ganhar a confiança da população.

É significativa a descrição do Hospital Santa Isabel feita no romance “Rua do Siriri”, de Amando Fontes, mesmo com a flexibilidade de ser uma ficção, se aproxima bastante da visão dos médicos e jornalistas da época:

“Muito custou, porém, às companheiras convencê-la de que, para o seu próprio bem, devia recolher-se ao Santa Isabel...

— Não vou! Pro Hospital eu não vou! Nem amarrada. Prefiro morrer de podre nesta cama.

Mariana não se pôde conter, e censurou-a, no tom duro que às vezes tinha para sua melhor amiga:

— Ô xente, gente! O que é isso? É soberba de sua parte minha nega? Pois saiba que Hospital foi feito pra gente e não pra bicho...

Não vai, por quê? Você é melhor do que as outras?

As lágrimas saltaram dos olhos da doente, E em voz de queixa, lastimou-se:

— Muito obrigada, Mariana! Nunca pensei que você fosse capaz de me ofender, no estado em que me acho... Dizer que não quero ir para o Hospital só por soberba!... Quem está como eu, tem lá soberba? Se digo que não vou, é porque sempre ouvi contar que quem entra pra Hospital não sai com vida...

Depois, dizem que lá obrigam a gente comer do que não gosta... a dormir e acordar a hora certa, tudo é feito com um rigor danado... que não há... quem possa aturar...”

O Hospital de Cirurgia fundou a medicina científica em Sergipe, comandado por Dr. Augusto Leite, o maior nome da medicina sergipana no século XX.

Antonio Samarone – Confrade da Academia Sergipana de Medicina.

sábado, 13 de setembro de 2025

OS MISTÉRIOS DA CONSCIENCIA.

Os Mistérios da Consciência.
(por Antonio Samarone)

As neurociências simplificam: “a consciência é um produto das atividades cerebrais.” Emoções, talentos, pensamentos, memória, percepções, crenças, caráter, delírios, fé, resultam de fenômenos físico-químicos da matéria cerebral. Nessa concepção, a morte do corpo é o fim da consciência.

A insuficiência desse paradigma é exaustivamente demonstrado, embora, mantenha-se quase unanime entre os cientistas. O espaço aqui não me permite o aprofundamento das fragilidades dessa tese.

Já as religiões, apelam para as subjetividades metafísicas. Na cosmogonia cristã, a consciência foi um sopro divino, que criou a alma imortal, como imagem e semelhança de Deus. Não precisa de comprovação, sustenta-se pela fé.

Essa dualidade excludente possui lacunas, que tornam as duas principais doutrinas sobre a origem e o funcionamento da consciência misteriosas.

Hoje, aos setenta anos, após muitas leituras e reflexões, dúvidas e incertezas, cheguei pessoalmente a algumas evidências: a consciência é um fenômeno cósmico, de natureza quântica, e o nosso cérebro é um receptor. O que não é pouco.

A consciência não se extingue com a morte do corpo. O pó volta a ser pó. A consciência permanece. Continuo com a dúvida se ela se dilui ou não na energia cósmica.

Até onde entendi, não se trata de uma tentativa de “cientificizar” as visões das filosofias e das religiões orientais sobre a consciência, tão em moda em minha juventude. Sei que esse é o principal argumento dos que discordam e professam religiosamente a ciência.

Não, as pesquisas sobre a consciência quântica são buscas de outros paradigmas.

Entretanto, as fronteiras desse novo caminho, deixam brechas para a existência de um princípio organizador da vida. Aliás, a consolidada teoria Darwiniana está sendo revisada, para englobar em seu modelo de explicação, os fenômenos vitais de complexidades irredutíveis, sobretudo, ao nível molecular.

Eu desconfiava da natureza cósmica da consciência humana, por duas fontes: as leituras de um conto do argentino Jorge Luís Borges, sobre a imortalidade; e dos textos sobre o inconsciente coletivo, de Carl Gustav Jung.

Cheguei às teses da consciência quântica, pelas vias travessas das dúvidas.

Se você conseguiu chegar até aqui, vai entender agora as razões desses devaneios filosóficos.

Sinto que a sociedade no Brasil, forma um certo consenso contra os maus tratos animais. Nem sempre foi assim. A consciência se transforma coletivamente. Achar que essas mudanças decorrem da produção maior ou menor de “neurotransmissores”, ou da formação de novos circuitos neuronais, se aproxima do fanatismo científico. 

 Até onde vão às evidências da natureza cósmica da consciência?  
Essa semana, fui tomado por uma solidariedade estranha com o reino vegetal. Deparei-me com uma podagem predatória de um Nim indiano.

Um mal-assombrado resolveu depenar uma árvore, viçosa, carregada de brotos nascentes, para deixá-la na forma de uma casinha de péssimo-gosto. Parei, e tive a sensação que a planta estava me pedindo socorro:

“Peça a esse senhor que pare, eu estou me sentindo bem do meu jeito, com as minhas formas naturais. Não quero virar uma casa.”

Não queriam derrubar o Nim, não foi a popular causa contra o desmatamento, que me alertou.

A agressão era sútil, podendo ser até justificada como benéfica, ou até mesmo necessária. Nesse caso, o Nim pedia clemencia.

Logo o Nim, tão mal visto pelos ambientalistas de meia tigela, logo ele, que veio de longe, acusado de matar as abelhas, estava ali, imóvel, impotente, pedindo a minha solidariedade.

Eu passei direto, não fui solidário com o Nim. Confesso que fiquei com um peso na consciência. Estou passando cabisbaixo pelo Nim mutilado, um pouco envergonhado da omissão.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

ETERNAS LADIES

Eternas Ladies.
(por Antonio Samarone).

Numa manhã pueril, cruzando os corredores da feira de Itabaiana, entupida de gente, deparei-me com essas duas senhoras, esbanjando bom gosto, fidalguia e educação requintada. São referências históricas de distinção e nobreza.

Elas estavam prontas, arrumadas, como se vai para uma missa de domingo, um casamento, uma festa de Natal. Sempre nos trinques.
Quem é de Itabaiana as conhecem. Maria José (professora) e Inês, as filhas de Dona Adalula, irmãs de Ezequiel Noronha (Cochilo). Mas, para quem não as conhece, Eu vou contar.

O capitalismo acabou com as bancas de miudeza, nas feiras. Onde se vendiam todas as quinquilharias e bugigangas da terra: rouge, batom, pó de arroz, brilhantinas, água de colônia, bicos, entremeios, grip, fitas, arremates, colchete de linha, dedal, arranjos, cristais, brilhos, pedrarias, paetês, imagem de santo, arranjos de flores, louças finas, quadros...

A clientela das bancas de miudezas era o povão.

As grã-finas compravam nos armarinhos. Lembro-me dos dois primeiros, em Itabaiana, na praça da feira, vizinhos a Sapataria de Zeca Titia. Os armarinhos de Dona Adalula e Dona Maurília. Lojas recheadas de luxo e bom gosto.

Adalula é a mãe de Ezequiel, Maria José e Inês.

Dona Maurília é avó da escritora Maria do Carmo.

Depois o negócio dos armarinhos cresceu. Surgiram os armarinhos de Dona Deja, Zaíra e Seu Abdias. E, finalmente, o Armarinho Tem Tem, de Fefi e Dona Marlene. O Tem Tem, marcou época.

Em Aracaju, teve a famosa Huteba, um Armarinho grande, mais sortido, onde já se vendia de tudo.

Hoje, as lojas de departamento, vendem até alfinete. Na verdade, essas lojas vendem até pipoca. O capitalismo não suporta os pequenos comerciantes. Acabaram-se as bancas de miudezas.

O castigo é que essas lojas de departamento são sociedades anônimas, impessoais e desalmadas. Perderam-se os estilos, os modos e as originalidades dos pequenos comerciantes. As lojas de departamentos são do mercado financeiro.

A pôs modernidade não é o mundo das filhas de Dona Adalula. Nem o meu. Somos de outros tempos.

Em Itabaiana existe uma nobreza, gente de fino trato e modesta riqueza material. As filhas de Dona Adalula são bons exemplos.

Lembro-me de uma sentença, em minha infância: "mais arrumadas do que as filhas de Dona Adalula."

Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
 

terça-feira, 2 de setembro de 2025

O CATOLCISMO EM ITABAIANA


 O Catolicismo em Itabaiana.
(por Antonio Samarone).

O IBGE acaba de divulgar as opções religiosas dos brasileiros. Itabaiana possui o menor índice de crentes (evangélicos) do Brasil. Desconheço as razões.

A fé, só não remove montanhas.

Tenho procurado as raízes religiosas de Itabaiana. (“Naquela pedra mora alguém, há uma aldeia com gente.” Ita (pedra),Taba (aldeia), oane (alguém).

Em minhas leituras avulsas e despretensiosas, cheguei a um discurso, pronunciado por Maria da Conceição Melo Costa, em sessão solene do Instituto Histórico de Sergipe, em 1º de agosto de 1946.

As lembranças de Conceição:

“Itabaiana das ladainhas pungentes, das trezenas de Santo Antonio, das tradicionais Semanas Santas, acompanhadas pelas vozes firmes de Balbino, de Boanerges e de Antonio Rodrigues.”

“Itabaiana das lentas procissões dos fogaréus, dos místicos penitentes a se flagelarem, às caladas da noite, em época quaresmal.” Eu ainda alcancei...

Depois, Djalma Lobo introduziu o fogaréu em campanhas políticas, aproveitando-se do arquétipo religioso dos Itabaianenses.

“Itabaiana do Cruzeiro do Século. Das peregrinações a Cruz dos Montes, onde a multidão, com a fé dos romeiros de Lourdes, acampava em barracas erguidas à orla da mata umbrosa, iluminada ao perene himeneu dos vaga-lumes.”

“Itabaiana das campônias alegres, rosas nas faces e laços vermelhos nas bastas cabeleiras, cores de baunilha. Sandálias brancas e vestidos de cassa, para as missas do dia.”

Lembrei-me de mamãe, linda mestiça de cabelos pretos e escorridos, que encharcava as faces e as mãos com tapioca, quando ia lavrar a terra. A pele precisava de proteção.

Mamãe fumava cachimbo de canudo e mascava fumo, como as Tupinambás.

Depois mamãe virou crente. Eu só me lembro dela “Filha de Maria”, me empurrando para o catecismo e exigindo que eu não perdesse missas, todas em latim.

A memória é uma fonte de felicidades. As tristezas o cérebro apaga, ou minimiza.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

domingo, 31 de agosto de 2025

NEM TUDO É AUTOESTIMA.

Nem tudo é autoestima...
(por Antonio Samarone)

Uma famosa historiadora sergipana, me perguntou: “qual são as raízes da autoestima itabaianense?” Ela queria respostas sociológicas e/ou históricas. Sei lá... Nunca tinha pensado.

A autoestima é interior, reside na alma, não precisa de razões objetivas. Talvez seja objeto da psicologia.

Pensei, a autoestima em Itabaiana é inata. Uma obviedade. Já se nasce com autoestima. É um arquétipo. Ela não se intimidou: “e como se formou esse inconsciente coletivo?” Eu não sei! Peço ajuda...

Talvez o secular isolamento do litoral. O ambiente serrano.

Itabaiana, precisou primeiro ser auto suficiente, berço da autoestima. Perguntaram ao mestre Órpilio, renomado alfaiate itabaianense, o que ele achava da guerra do Vietnã. Ele foi lacônico: “eu só me interesso com o que acontece na jurisdição de quem me encomenda ternos.”

Vladimir Carvalho chamou o seu livro clássico, sobre a história de Itabaiana, de “A República Velha em Itabaiana”, sem a saudável autoestima, seria Itabaiana na República Velha. Percebem a sutileza?

Culturalmente, pensa-se grande em Itabaiana.

Parafraseando Fernando Pessoa: o Rio Jacarecica é mais belo que o São Francisco, pois o Velho Chico não é o rio que corre pela minha Aldeia.

É essa a alma sagrada da autoestima!

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

sábado, 30 de agosto de 2025

GENTE SERGIPANA - PROFESSOR BOSCO (74 ANOS).

Gente Sergipana – Professor Bosco – 74 anos.
(por Antonio Samarone)

A escola pública já foi o principal caminho de ascensão social. O professor João Bosco Bispo dos Santos, é um bom exemplo.

Os meninos que nasceram em meados do século XX, em decorrência do tri campeonato da Seleção Brasileira (1958/62/70), sonhavam em jogar futebol. Brincar de bola era um sonho infantil.

A primeira bola de couro no Beco Novo, foi de Benjamim, filho de Seu Bebé dos passarinhos. Os irmãos mandaram de São Paulo.

A bola era uma ilusão. A salvação estava na escola.

O meu herói de hoje é João Bosco Bispo dos Santos, professor de matemática. A sua família era de jogadores de futebol, bem sucedidos. Bosco optou pela sala de aula (comer pó de giz).

Na década de 1950, desembarcou em Itabaiana, o ourives Cícero Bispo dos Santos e a esposa, Dona Joventina de Barros Lima, vindos de Porto da Folha. Com uma família numerosa:

Manoel de Jason, goleiro, dono de um velho Pau de Arara, que transportava gente para as feiras da vizinhança. Ele pegou a fama de ser o motorista mais lento da região, sempre em baixa velocidade. O seu carro era conhecido, possuía a pintura de onça-pintada na porta.

Certa feita, um passageiro abusado reclamou: “Seu Manoel, o seu carro está batendo muito!” A resposta veio na ponta da língua: “Enquanto estiver batendo está bom, ruim é quando começar a apanhar.”

Seu Cícero era o pai do maior craque do futebol sergipano (que eu vi jogar), Debinha, e mais de Evangelista, Manoel de Jason, Oswaldo, Benedito e Joãozinho Baú.

Joãozinho Baú, o pai de Bosco, era um sapateiro especializado na fabricação de chuteiras. Ainda não existiam as fábricas nacionais. Calçar uma chuteira de Seu Joãozinho era um luxo, cuidada com zelo.

As chuteiras de Joãozinho Bau, vestia grandes clubes do Nordeste. Ele também fabricava bolas de couro, apesar do mais famoso em Itabaiana em bolas, ser o Metre Dé.

Quando Dr. Pedro organizou o juvenil do Itabaiana, a nossa maior alegria foram as chuteiras, todas da lavra de Joãozinho Baú. Até quem não sabia, jogava.

De onde vem o apelido, Joãozinho Baú? Ele era torcedor do Confiança. Houve um período em que o Sergipe estabeleceu um Tabu, três anos sem perder para o Confiança. Quando quebrou o Tabu, Seu Joãozinho saiu esbravejando: “quebramos o baú, quebramos o baú”! Não deixaram por menos.

O Professor João Bosco nasceu em Itabaiana, em 15 de maio de 1951. Filho de Joãozinho Baú e Dona Senhora. Irmão de Walter, Gustinho (o craque do Itabaiana) e Miro.

Bosco escolheu a escola. Foi aluno na Zenaide Schuster e na Escola de Maria de Branquinha. Foi da primeira turma do científico do Murilo Braga (colega de Tuíca, Wilson da Moita, Zé Américo de Zé de MR, Helenilde de Heleno da Padaria e Neusa de João Leite.) Bosco também foi aluno da primeira turma de matemática da UFS.

Em 1972, o lendário Gabriel, professor de matemática do Murilo Braga, se aposentou. Gabriel dava aula cantando, sempre no tom. Bosco foi o seu substituto natural.

Bosco prestou o seu qualificado serviço, em várias escolas de Sergipe e em pré-vestibulares. Um talentoso professor.

João Bosco se casou com Delormes Lisboa dos Santos, filha de Seu Lourenço do Cortiço e Dona Celuta. Bosco é pai de dois filhos, bem sucedidos nos estudos: Ronmel, médico angiologista e Diretor do IML e Rony, engenheiro civil. O pai soube educá-los.

Ronmel é casado com Viviane, pediatra, neta de Zequinha ourives, família tradicional em Itabaiana. Rony é casado com Larissa, advogada, filha do Dr. José Carlos Pinheiro. Todos socialmente bem situados.

Mesmo seguindo o caminho da escola, esquecendo o esporte, a genética ainda tem peso: o único neto de Bosco, Bernardo Lisboa Santana, 9 anos, é tri campeão sergipano de jiu-jítsu, bi campeão de judô e hipismo. Guardem esse nome, nas próximas olimpíadas.

Professor Bosco, você conquistou a cidadania pela Escola, como outros, em nossa geração.

O nosso reconhecimento e a nossa homenagem.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.