quinta-feira, 14 de agosto de 2025
O SONHO AMERICANO
O Sonho Americano.
(por Antonio Samarone)
O historiador francês Alexis de Tocqueville vislumbrou, ainda no século XIX, um futuro democrático para a América (USA). O destino manifesto e o sonho americano eram crenças generalizadas.
O sonho americano é a crença de que qualquer pessoa pode alcançar sucesso e prosperidade por meio do trabalho árduo e determinação, independentemente de sua origem. Hoje, na Era Trump, esse é um sonho quase impossível.
Guardando as devidas proporções, a minha geração em Itabaiana, viveu esse sonho de ascensão social pelo trabalho, com a ajuda do talento. Sem caminhos tortos. A escola pública facilitou, mas não foi a única via. O neoliberalismo se aproveitou e inventou a ideologia do empreendedorismo. São fases distintas do capitalismo.
Um bom exemplo.
José Alves dos Santos (Pombo), nasceu 05/08/1949, no povoado Pedra Preta, vizinho a Matapoã, onde existe o Cemitério dos Negros. Filho de Augustinho Alves dos Santos e Maria da Graça de Oliveira. Pombo ficou órfão de pai, aos noves anos.
A mãe, para sobreviver, arrastando dois filhos menores (Pombo e Quinha, irmão mais novo) mudou-se para um sítio de uma tarefa, ao lado da Rua Miguel Teixeira e da casa do Tenente Baltasar, na periferia da cidade. Pombo, de imediato, foi bater barro na Olaria de Zé Massa Crua.
Pombo só estudou o primário, com a professora Dona Valdice, na Matapoã.
O que esperava da vida, esse menino, fora da escola, tralhando de aprendiz de oleiro, aos 10 anos? A vida é para os fortes.
Pombo, ainda adolescente, foi ajudante de sapateiro nas tendas de Seu Faustino, Firmino de Cândida e Nivinha. Virou mestre, em solar sapato. Aos poucos, virou dono de uma sapataria, produzindo alpargatas. Os artesões do sapato em Itabaiana, já estavam em decadência. Perderam a competição para o sapato industrializado, vindo de fora.
Como quase todo menino pobre daquele tempo, em 1970, aos 21 anos, Pombo, foi tentar a sorte em São Paulo. Passou 2 anos e voltou. São Paulo já não era uma alternativa. O que fazer? As tendas de sapatos não enfrentava as fábricas do Sul.
Pombo se meteu em uma atividade econômica arriscada, foi ser muambeiro. Eu explico. Os aparelhos eletrônicos surgiram com força no mercado de consumo. Gravador, TV, fogão elétrico e a grande novidade: os vídeos cassetes. Foi uma febre. Os vídeos cassetes tinhas tantas cabeças, cada vez mais sofisticado. Todos queriam ter o seu.
Comprar nas lojas, com nota fiscal, só para os ricos. Foi aí que se criou o mercado de muambas do Paraguai. Depois da Zona Franca de Manaus. Em Itabaiana, muita gente ganhou dinheiro com os vídeos cassetes do Paraguai. Que eu me lembro: Tonho de Xanxo, Promotor, Jua de Abiddon, Paulo de Zé de Melinha, Juracy da Serra. Quem mais?
Em Itabaiana, existiu até consorcio para se adquirir as bugigangas do Paraguai.
Passada a febre das muambas, Pombo estava capitalizado. Foi dono de caminhão, caçamba. Um pequeno comerciante do que aparecesse. Vendia e comprova de tudo.
Pombo se casou Dona Zélia, filha de Tonho de Pipiu. Da família brotaram três filhos: Hudson, Karina e Viviana, e quatro netos.
Na juventude, Pombo, flamenguista, ensaiou jogar futebol. Foi um lateral direito esforçado. A sua maior façanha futebolística, foi ter machucado em um treino, o craque do Itabaiana, Horácio, que ficou de fora do jogo contra o Maruinense, onde o Itabaiana foi derrotado.
A cidade só falava nisso, botando a culpa em Pombo.
Hoje, Pombo está com 76 anos, vive de rendas, sem preocupações financeiras. Uma vida pacífica e honrada. Os juros em Itabaiana não seguem a taxa “Selic” do Banco Central, são bem menores. Em Itabaiana, quem pratica agiotagem são os bancos.
Tivemos um sonho passageiro, em Itabaiana, durante a segunda metade do século XX. Criaram-se muitos Pombos, o pombal é grande e vivemos em revoadas. Conheço vários Pombos e Pombas, que saíram de baixo e, por esforço próprio, ganharam a cidadania e o respeito da sociedade.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
terça-feira, 12 de agosto de 2025
O BOLACHÃO DE CANELA NA ROTA DA SEDA.
O bolachão de canela na Rota de Seda.
(por Antonio Samarone)
O tarifaço de Trump deixou de fora 700 produtos brasileiros, entre estes, o bolachão de canela de Itabaiana. Vou esclarecer: o bolachão de canela é uma herança árabe, exportado para o Texas.
Um biscoito aparentemente rude, mas com várias virtudes: não mofa, demora a endurecer e não perde o sabor. Uma delícia sertaneja.
Além do imbatível cuscuz, do quibe, da coalhada e da esfirra, os árabes deixaram o bolachão de canela, a espeça e o pé de moleque de massa puba.
Trump que não se meta a besta. O medo é que a China descubra esse mina de ouro, e passe a produzi-lo. Fui comprar uma imagem do Padre Cícero em Juazeiro, quando olhei o rótulo: “made in China”.
A massa do bolachão leva especiarias, em especial cravo de canela e banha de porco. Imita os pães árabes e sírios. Eu sei, a classe média tem preconceito. Acostumada com brioches, acha o bolachão de canela exótico. O bolachão de João Patola ficou famoso.
A economia de Itabaiana imita a China, produz em escala, reduz o preço e elimina os concorrentes. Visitei a fábrica Santo Antonio que produz diariamente 70 mil bolachões. Isso mesmo, além de exportar, abastece Sergipe e o Sertão da Bahia. Observei também a produção daquelas bolachas, bossa nova, ou sete capa, em escala menor.
Uma produção automatizada, maquinas modernas, fornos elétricos, IA e mão de obra treinada. Gente, são 70 mil bolachões/dia, 2,1 milhões/mês.
A Fábrica Santo Antonio é uma empresa familiar, administrada por Seu Netônio e pelo seu filho, Leandro. A fábrica é um exemplo de produtividade, higiene e sustentabilidade.
Esse pessoal vem de longe. Netônio é filho de Antonio de João Queimado, antigo dono de padaria em Itabaiana. A família Queimado, filhos de Dona Zabelinha e Seu João, são de prósperos comerciantes.
Destaque para Manoel de João Queimado, casado com Dona Helena, donos da famosa Loja Eliana, no Centro de Aracaju e Sílvio Queimado, comerciante de sapatos em Itabaiana.
Fiquei impressionado com a competência empresarial de Seu Netônio. Observei os detalhes da fábrica, pus os olhos de auditor aposentado do Ministério do Trabalho. Tudo prefeito.
Em Itabaiana funcionam outras fábricas menores de bolachão de canela, inclusive a de João Patola (5 mil/dia). A produção total se aproxima dos 100 mil bolachões/dia.
De fato, o espírito empreendedor do Itabaianense é destacado.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
sábado, 9 de agosto de 2025
GENTE SERGIPANA - JOÃO CLARO.
Gente Sergipana – João Claro.
(por Antônio Samarone)
João Claro dos Santos nasceu em 12 de agosto de 1909. Filho de Juvino José dos Santos e Hermidia Francisca Santos. Ferroviário, nascido e criado no Aribé, Aracaju. Não encontrei a data do óbito.
João Claro foi um dos fundadores do importante Centro Espírita “Irmão Fêgo”. Para os mais novos, o Irmão Fêgo, era Elfego Nazário Gomes, famoso espírita de Aracaju, acreditado curandeiro, residente na Rua de Goiás nº 18, conhecido na primeira metade do século XX, como o Santo do Aracaju. A sua casa vivia lotada de doentes em busca de um alívio. Ele não cobrava.
João Claro foi vereador de Aracaju em 1934. Foi injustamente acusado e punido pelo acidente ferroviário ocorrido em 18 de março de 1946, entre Laranjeiras e Riachuelo, com mais de 60 mortos, onde ele era o maquinista.
João Claro recebeu a condenação do preconceito. Líder operário, comunista, negro, virou o "bode expiatório" do desastre. Foi considerado o único culpado, quando, na verdade, foi o que menos teve culpa. Trem superlotado, velho, linha férrea com manutenção precária, nada foi levado em conta.
Depois a sociedade reconheceu o erro, e batizou com o nome dele uma importante via pública do Bairro Siqueira Campos (Aribé), a Rua Vereador João Claro.
João Claro, negro, operário, uma vida dedicada a libertação do seu povo.
Antonio Samarone.
(por Antônio Samarone)
João Claro dos Santos nasceu em 12 de agosto de 1909. Filho de Juvino José dos Santos e Hermidia Francisca Santos. Ferroviário, nascido e criado no Aribé, Aracaju. Não encontrei a data do óbito.
João Claro foi um dos fundadores do importante Centro Espírita “Irmão Fêgo”. Para os mais novos, o Irmão Fêgo, era Elfego Nazário Gomes, famoso espírita de Aracaju, acreditado curandeiro, residente na Rua de Goiás nº 18, conhecido na primeira metade do século XX, como o Santo do Aracaju. A sua casa vivia lotada de doentes em busca de um alívio. Ele não cobrava.
João Claro foi vereador de Aracaju em 1934. Foi injustamente acusado e punido pelo acidente ferroviário ocorrido em 18 de março de 1946, entre Laranjeiras e Riachuelo, com mais de 60 mortos, onde ele era o maquinista.
João Claro recebeu a condenação do preconceito. Líder operário, comunista, negro, virou o "bode expiatório" do desastre. Foi considerado o único culpado, quando, na verdade, foi o que menos teve culpa. Trem superlotado, velho, linha férrea com manutenção precária, nada foi levado em conta.
Depois a sociedade reconheceu o erro, e batizou com o nome dele uma importante via pública do Bairro Siqueira Campos (Aribé), a Rua Vereador João Claro.
João Claro, negro, operário, uma vida dedicada a libertação do seu povo.
Antonio Samarone.
quinta-feira, 7 de agosto de 2025
AS RUAS DOS SÉCULOS
As Ruas dos Séculos.
(por Antonio Samarone)
Na Bíblia, Deus concedeu ao homem o poder de nomear os seres viventes; “As¬sim o homem deu nomes a todos os rebanhos domésticos, às aves do céu e a todos os animais selvagens.” Gênesis 2;20.
O homem queria mais. Passou a denominar tudo, o que via e o que não via. Essa nomeação reflete o seu modo e filosofia de vida. Os portugueses, no início da colonização, botavam o nome do Santo do dia, no que ia encontrando pela frente. O que escapou, ficou com os nomes indígenas.
Em Itabaiana, os nomes dos logradouros públicos, ruas, praças e avenidas, refletem épocas distintas do seu desenvolvimento, com os seus valores culturais.
A Villa de Itabaiana, até o século XIX, rural, bucólica, com o coração ligado a terra, denominava poeticamente as suas ruas. No fundo da igreja despontava a rua do Sol. Paralelas à ibérica praça da igreja, as ruas das Flores e da Vitória; ao fundo, a rua do Cisco. A Praça de Santa Cruz. A rua do Futuro, o Canto Escuro, o Beco Novo, as Ruas do Fato, Nova, Pedreira, Macambira, Becos do Cemitério e do Ouvidor.
O ancestral Tabuleiro dos Caboclos.
As ruas do baixo meretrício, no domínio da economia agrária, denominam-se: ruas do Pinto, do Ovo, e a insuspeita rua do Cacete Armado.
Com o desenvolvimento da Cidade (século XX), em sua fase mercantil, as ruas centrais de Itabaiana passaram a receber nomes de militares, políticos locais e figurões nacionais. Rua Coronel Sebrão, Barão do Rio Branco, Praça João Pessoa, General Valadão, Marechal Floriano, Marechal Deodoro, General Siqueira, Batista Itajay, Antonio Dutra, Capitão José Ferreira, General Calazans, Capitão Mendes.
Até um Grumete (soldado raso da Marinha), Alcides Cavalcante, deu nome a uma rua importante, em Itabaiana. O auge dessa fase militar, foi denominar o campo de futebol, de Estádio General Garrastazu Médici.
Entre os nomes consagrados de ruas, do século XX, a que eu não vejo o menor cabimento é a Praça João Pessoa. Que os paraibanos me perdoem, ser o nome da capital da Paraíba já era suficiente. Eu só chamo de Praça de Santa Cruz. Me lembro das festas de natal; do Guilhermino Bezerra, recém-deformado; da bomba de gasolina de João Marcelo e do obelisco da Apolo 11, construído pelo Prefeito Vicente de Belo.
No século XXI, com o crescimento populacional, desenvolvimento econômico, modernização urbana, riqueza, luzes e cultura, os nomes das ruas em Itabaiana mudaram:
Praças Villa Lobos, Oscar Niemeyer, Avenida João Paulo II, Rua Jorge Americano, Maestro Antonio Melo, professora Maria da Conceição, Sebrão Sobrinho, Quintino de Lacerda, José Mesquita da Silveira (Zeca Mesquita), Rua Augusto Cesar Leite, Avenida Luiz Gonzaga, Rua Percílio Andrade.
O naipe é outro!
Conjunto Santa Mônica (a mãe de Santo Agostinho). Denominar Loteamentos como Zilda Arns e Leonardo da Vinci dizem muita coisa. O Estádio de Futebol voltou a ser Etelvino Mendonça. Desconheço em Itabaiana uma rua José Sarney (em Aracaju exageraram, denominaram uma Praia).
Claro, isso não é regra, é tendencia de momentos históricos, valores culturais e ideológicos. Entretanto, encontrar um loteamento “le Corbusier”, em Itabaiana, não pode passar desapercebido.
Existe uma lei municipal em Itabaiana, do ex vereador Olivério, obrigando a recuperação da memória dos nomes bucólicos, da Era agrária. Obrigando a fixação dos nomes antigos, ao lado dos atuais. Não custa nada...
Sinceramente, as Ruas do Sol e das Flores, pelo menos, deveriam guardar essa doce memória. Do Beco Novo, a gente cuida. Betinho de Seu Bebé, é o nosso embaixador nos “States”, até Trump mandar ele de volta.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
(por Antonio Samarone)
Na Bíblia, Deus concedeu ao homem o poder de nomear os seres viventes; “As¬sim o homem deu nomes a todos os rebanhos domésticos, às aves do céu e a todos os animais selvagens.” Gênesis 2;20.
O homem queria mais. Passou a denominar tudo, o que via e o que não via. Essa nomeação reflete o seu modo e filosofia de vida. Os portugueses, no início da colonização, botavam o nome do Santo do dia, no que ia encontrando pela frente. O que escapou, ficou com os nomes indígenas.
Em Itabaiana, os nomes dos logradouros públicos, ruas, praças e avenidas, refletem épocas distintas do seu desenvolvimento, com os seus valores culturais.
A Villa de Itabaiana, até o século XIX, rural, bucólica, com o coração ligado a terra, denominava poeticamente as suas ruas. No fundo da igreja despontava a rua do Sol. Paralelas à ibérica praça da igreja, as ruas das Flores e da Vitória; ao fundo, a rua do Cisco. A Praça de Santa Cruz. A rua do Futuro, o Canto Escuro, o Beco Novo, as Ruas do Fato, Nova, Pedreira, Macambira, Becos do Cemitério e do Ouvidor.
O ancestral Tabuleiro dos Caboclos.
As ruas do baixo meretrício, no domínio da economia agrária, denominam-se: ruas do Pinto, do Ovo, e a insuspeita rua do Cacete Armado.
Com o desenvolvimento da Cidade (século XX), em sua fase mercantil, as ruas centrais de Itabaiana passaram a receber nomes de militares, políticos locais e figurões nacionais. Rua Coronel Sebrão, Barão do Rio Branco, Praça João Pessoa, General Valadão, Marechal Floriano, Marechal Deodoro, General Siqueira, Batista Itajay, Antonio Dutra, Capitão José Ferreira, General Calazans, Capitão Mendes.
Até um Grumete (soldado raso da Marinha), Alcides Cavalcante, deu nome a uma rua importante, em Itabaiana. O auge dessa fase militar, foi denominar o campo de futebol, de Estádio General Garrastazu Médici.
Entre os nomes consagrados de ruas, do século XX, a que eu não vejo o menor cabimento é a Praça João Pessoa. Que os paraibanos me perdoem, ser o nome da capital da Paraíba já era suficiente. Eu só chamo de Praça de Santa Cruz. Me lembro das festas de natal; do Guilhermino Bezerra, recém-deformado; da bomba de gasolina de João Marcelo e do obelisco da Apolo 11, construído pelo Prefeito Vicente de Belo.
No século XXI, com o crescimento populacional, desenvolvimento econômico, modernização urbana, riqueza, luzes e cultura, os nomes das ruas em Itabaiana mudaram:
Praças Villa Lobos, Oscar Niemeyer, Avenida João Paulo II, Rua Jorge Americano, Maestro Antonio Melo, professora Maria da Conceição, Sebrão Sobrinho, Quintino de Lacerda, José Mesquita da Silveira (Zeca Mesquita), Rua Augusto Cesar Leite, Avenida Luiz Gonzaga, Rua Percílio Andrade.
O naipe é outro!
Conjunto Santa Mônica (a mãe de Santo Agostinho). Denominar Loteamentos como Zilda Arns e Leonardo da Vinci dizem muita coisa. O Estádio de Futebol voltou a ser Etelvino Mendonça. Desconheço em Itabaiana uma rua José Sarney (em Aracaju exageraram, denominaram uma Praia).
Claro, isso não é regra, é tendencia de momentos históricos, valores culturais e ideológicos. Entretanto, encontrar um loteamento “le Corbusier”, em Itabaiana, não pode passar desapercebido.
Existe uma lei municipal em Itabaiana, do ex vereador Olivério, obrigando a recuperação da memória dos nomes bucólicos, da Era agrária. Obrigando a fixação dos nomes antigos, ao lado dos atuais. Não custa nada...
Sinceramente, as Ruas do Sol e das Flores, pelo menos, deveriam guardar essa doce memória. Do Beco Novo, a gente cuida. Betinho de Seu Bebé, é o nosso embaixador nos “States”, até Trump mandar ele de volta.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
terça-feira, 5 de agosto de 2025
DUBLÊ DE VAQUEIRO.
Dublê de Vaqueiro.
(por Antonio Samarone)
Na inauguração festiva do Atakarejo, em Itabaiana, uma cena grotesca: numa sala lotada de autoridades, até o Governador, um político local, ex Prefeito de uma importante cidade, rico fazendeiro na Bahia, apresentou-se fantasiado de vaqueiro, a moda antiga: chapéu de couro surrado, gibão, botas e esporas. Faltou o laço.
Levei um susto. Primeiro, pensei ser uma promessa, uma representação teatral, um surto. Não, nada disso. Fui informado ser uma estratégia de marketing eleitoral.
Os antigos vaqueiros foram romantizados, incorporados pela cultura, criou-se uma estética do vaqueiro: os aboios viraram cânticos de artistas, as pegas de boi esporte (vaquejadas), as vestes de couro moda e as cavalgadas lazer.
Acha o político esperto, que aparecer fantasiado de vaqueiro lhe trará a simpatia geral. Tenho dúvidas, geralmente as expropriações culturais são percebidas pelo público, como demagogia.
A profissão de vaqueiro é a mais antiga do Brasil. Historicamente explorada, quase uma relação feudal. Hoje, o vaqueiro é um técnico qualificado para lidar com vacinas, reprodução, genética, GPS e inteligência artificial. O boi é uma commodity valiosa.
Não é mais preciso “botar o boi no mato”, hoje ele é confinado em bons pastos.
Me disseram que ele quer imitar João Alves, que tinha um programa chamado de Chapéu de Couro. Nada a ver! João foi o maior político de Sergipe, na segunda metade do Século XX, um estadista voltado para o desenvolvimento. Longe de papagaiadas.
Sempre tive esse vaqueiro de eleição em boa conta. Não se perca, meu amigo! Não force a barra! Apresente boas propostas, ideias novas, que a sociedade saberá discernir. O Congresso Nacional precisa de parlamentares de cara limpa, sem maquiagens.
O senhor não tem nem a alma, nem os modos de vida dos vaqueiros! É uma impostura!
A criação de gado foi a primeira atividade econômica em Itabaiana (século XVII). Depois da lenda da prata. Esse gado abastecia o Recôncavo Baiano e Olinda. Com tempo, os curraleiros se desentenderam com os agricultores, houve conflitos. Uma lei obrigou cercar as propriedades de gado. Não foi fácil. Não existia arrame farpado. As cercas eram de pedras.
No século XIX, os curraleiros (fazendeiros) migraram para o Sertão e os plantadores de cana para o Vale do Cotinguiba.
O território de Itabaiana, depois da Era do algodão (Sec. XIX), foi tomado por pequenos sitiantes, donos de malhadas. Itabaiana entrou o século XX, como grande produtor de víveres e comestíveis, tornando-se o celeiro de Sergipe.
Nesse tempo, Itabaiana criou a melhor farinha de mandioca do Brasil. Virou marca. A farinha pó dos Rios das Pedras, antecipou a Maizena. Hoje, somos um polo econômico de transporte e comércio.
A relação atávica com o gado, continua, nos hábitos alimentares. Até o hoje, o prato típico de Itabaiana é a carne frita, aos sábados, fresca, com um molho grosso, para encharcar o prato de feijão esfarinhado.
Itabaiana adora carne, em todas as refeições. Não troco a carne frita por nenhum filé. O sucesso do Espetinho do Patola, é uma vitória definitiva da carne.
Os vaqueiros e os agricultores construíram a Itabaiana rural e os caminhoneiros a urbana.
Sem fraudes históricas!
Antonio Samarone – médico sanitarista.
domingo, 3 de agosto de 2025
A VOLTA DOS HISSOPES
A Volta dos Hissopes.
Por Antonio Samarone.
Hoje, 03 de agosto, o Agreste de Itabaiana peregrinou até o pé da Serra, onde o arquétipo da fé se manifestou com intensidade. A fé em Santa Dulce dos Pobres moveu multidões de devotos e ateus, crentes e descrentes. Uma procissão de alegres penitentes.
Os devotos aguardam fervorosamente o Santuário de Santa Dulce, em Itabaiana.
Esse ano, o glorioso Antonio foi com a peregrinação. É ano jubilar. A sua Capela completa 350 anos, em outubro, na Villa de Santo e Almas.
Uma vasta massa humana buscou a esperança, ou até um milagre. Não custa acreditar... Não basta ir ao culto aos domingos, bem-vestido e cantar hinos. É preciso se comunicar com Deus, cada um ao se modo.
Como descrente no iluminismo, desenganado da modernidade e adversário do neoliberalismo, certo que Trump não vai se aquietar a tempo. Sinto o cheiro da terceira guerra (dessa vez nuclear). Não terá vencedores, nem a China.
Aposto na ressacralização da vida, como antídoto ao Armagedom.
A nova arca de Noé será acanhada e construída só para os eleitos. Desconheço, “abrigos subterrâneos” antinucleares por aqui. Mesmo que existam, não chega para o meu bico. Já procurei saber se a cisterna de Dona Graça e Seu Rosendo ainda existe, era a mais funda em Itabaiana.
Enquanto divago, os devotos acompanham a Santa dos Pobres, mesmo com frio e chuva.
Sobre o título: hissopes eram aspersórios com água benta, postados nas entradas dos templos católicos. Eram de uso obrigatório. Mamãe, por excesso de devoção, ainda levava um frasquinho para trazer água benta para casa. Nunca se sabe, o demônio anda solto.
Antonio Samarone.
Os: as fotos são da lavra de Almeida Bispo.
sábado, 2 de agosto de 2025
A CAPITAL DA MÚSICA
A Capital da Música.
Por Antonio Samarone.
Quando fui convidado para assumir a Pasta da Cultura, em Itabaiana, consultei alguns amigos. O médico, poeta e filosofo Rômulo de Oliveira Silva, o filho de Lessa, foi sucinto: aceite, mas não faça demagogia com os modismos culturais. Itabaiana é o berço da música clássica em Sergipe, nunca esqueça.
Dr. Rômulo, ontem, primeiro de agosto, início da noite, lembrei-me da sua exigência. Zenóbio Alfano, saturado de talento e erudição musical, nos presenteou com o recital “Um Piano no Coração do Agreste”.
A vida levou Zenóbio para o Pé da Grande Serra. A sua esposa, Gilza, é ceboleira de quatro costados. Zenóbio está morando no Rio das Pedras. A água corre para o mar.
Ontem, em Itabaiana, foi uma noite dedicada ao espírito. O mundo a beira do Apocalipse, aguardando o Armagedon, e Itabaiana afinando as suas harpas. Economicamente, Itabaiana avança, mas não basta. Toda civilização precisa cuidar da inteligência.
Uma comunidade vive porque pensa. A força e a riqueza não bastam. “O pensamento, e a sua criação suprema, a ciência, a filosofia, a literatura e as artes, dão grandeza aos povos, atraem para eles referencia e carinho.” - Eça de Queiroz.
Itabaiana, através da sua Academia de Letras, prepara a 7ª Bienal, para o final de outubro.
Ontem, a natureza ajudou. Em Itabaiana, pé de serra, agosto é um mês onde o vento frio (graviana) assola. Bate nos ossos. Ontem, a graviana foi acompanhada por uma chuva fina, uma névoa cortante e acinzentada, batendo no cangote. O cenário dos Alpes estava montado para a música erudita.
Não, não foi uma afronta ao brega, forró ou arrocha, cada alma alimenta-se do que precisa. Foi um sopro de transcendência musical, quase inaudível.
Quando o Padre Francisco da Silva Lobo trouxe a música para Itabaiana (século XVIII), criou os alicerces para Luiz Americano, Dolores Duran, Mestrinho, Amorosa e Natanzinho Lima, entre outros. A música é universal. Itabaiana possui 2 Filarmônicas ativas, centenas de grupos musicais, cantores e cantoras, músicos e maestros.
Somos a capital da música!
A música está me tocando tardiamente, na velhice.
Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.
Por Antonio Samarone.
Quando fui convidado para assumir a Pasta da Cultura, em Itabaiana, consultei alguns amigos. O médico, poeta e filosofo Rômulo de Oliveira Silva, o filho de Lessa, foi sucinto: aceite, mas não faça demagogia com os modismos culturais. Itabaiana é o berço da música clássica em Sergipe, nunca esqueça.
Dr. Rômulo, ontem, primeiro de agosto, início da noite, lembrei-me da sua exigência. Zenóbio Alfano, saturado de talento e erudição musical, nos presenteou com o recital “Um Piano no Coração do Agreste”.
A vida levou Zenóbio para o Pé da Grande Serra. A sua esposa, Gilza, é ceboleira de quatro costados. Zenóbio está morando no Rio das Pedras. A água corre para o mar.
Ontem, em Itabaiana, foi uma noite dedicada ao espírito. O mundo a beira do Apocalipse, aguardando o Armagedon, e Itabaiana afinando as suas harpas. Economicamente, Itabaiana avança, mas não basta. Toda civilização precisa cuidar da inteligência.
Uma comunidade vive porque pensa. A força e a riqueza não bastam. “O pensamento, e a sua criação suprema, a ciência, a filosofia, a literatura e as artes, dão grandeza aos povos, atraem para eles referencia e carinho.” - Eça de Queiroz.
Itabaiana, através da sua Academia de Letras, prepara a 7ª Bienal, para o final de outubro.
Ontem, a natureza ajudou. Em Itabaiana, pé de serra, agosto é um mês onde o vento frio (graviana) assola. Bate nos ossos. Ontem, a graviana foi acompanhada por uma chuva fina, uma névoa cortante e acinzentada, batendo no cangote. O cenário dos Alpes estava montado para a música erudita.
Não, não foi uma afronta ao brega, forró ou arrocha, cada alma alimenta-se do que precisa. Foi um sopro de transcendência musical, quase inaudível.
Quando o Padre Francisco da Silva Lobo trouxe a música para Itabaiana (século XVIII), criou os alicerces para Luiz Americano, Dolores Duran, Mestrinho, Amorosa e Natanzinho Lima, entre outros. A música é universal. Itabaiana possui 2 Filarmônicas ativas, centenas de grupos musicais, cantores e cantoras, músicos e maestros.
Somos a capital da música!
A música está me tocando tardiamente, na velhice.
Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.
Assinar:
Postagens (Atom)








