sábado, 17 de maio de 2025

LIVRARIAS E FARMÁCIAS


 Livrarias e Farmácias.
(por Antonio Samarone)

Ontem a noite, aproveitei o lançamento do livro do Desembargador, na Escariz da Jorge Amado, e tentei convencer aos donos da Livraria, Paulo e Fátima, a instalarem uma filial em Itabaiana.

Itabaiana precisa de uma grande livraria. Um espaço de encontro, um ponto de cultura.

Para tentar convencê-los, comecei a falar sobre o progresso de Itabaiana: tem isso, tem aquilo, centenas restaurantes, cem farmácias, lojas de marcas famosas, seiscentos médicos, condomínios de luxo, que somos o segundo maior produtor de semijoias do Brasil. E eles ouvindo.

Paulo Escariz foi direto: “não amplio mais as minhas lojas. O mercado de livros no Brasil é inviável.” E começou a explicar em detalhes. Ele esboçou a inviabilidade. Não preciso entrar em detalhes. Ele não quer, e pronto.

Ainda apelei, Itabaiana é hoje a principal locomotiva do desenvolvimento de Sergipe. Ele me pediu provas, dessa afirmativa. Provas, provas diretas, indiscutíveis, eu não tenho. Mas apresentei um indicador: o número de veículos automotores por habitante.

Cruzei os dados populacionais do último Censo do IBGE (2022), com os veículos despachados no DETRAN – SE, até abril de 2025, e calculei o número de veículos por habitante. Creio que seja um bom indicador do desenvolvimento sócio econômico. Claro, todo indicador é uma avaliação indireta, sujeita a limites.

Nesse item, Itabaiana está disparado, 0,75 veículo por habitante (V/H). Ou seja, tirando as crianças e os idosos, é quase um veículo por habitante. O segundo colocado é Lagarto - 0,60 V/H; Aracaju - 0,58 V/H; Glória - 0,55 V/H; Propriá – 0,55 V/H; Estância - 0,50 V/H; Socorro – 0,34 e São Cristóvão – 0,33 V/H.

Explicando, Itabaiana, com uma população de 103 mil habitantes, possui 77.854 veículos despachados. Somente as cinquentinhas, motonetas e as motocicletas (as motos), são 46.718, circulando rua acima, rua abaixo, sob a proteção de Deus.

Eu sei, o desenvolvimento sustentável quer menos carros, ou, como diz o poeta, uma sociedade sem carros. A mobilidade a pé ou em transporte coletivo. O indicador de desenvolvimento deveria ser o índice de caminhabilidade. Mas, por enquanto, o carro é o ícone.

Não houve jeito. As evidências da força econômica de Itabaiana, não sensibilizaram os donos da Escariz. Sem problemas, vou continuar procurando quem queira botar uma grande livraria em Itabaiana.

Bibliotecas, museus, livrarias, galerias de arte e teatros (referências do iluminismo), sobreviverão à inteligência artificial, ao chat GPT e ao Tik-Toc?

Não sei!

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

ALOK EM ITABAIANA

O Show de Alok em Itabaiana.
(Por Antonio Samarone)

Alok Achkar Peres Petrillo espantou Itabaiana, com o seu show digital de luzes, sons e pouca melodia. Colocou a cidade no circuito mundial.

Foram duzentos drones, movidos pela inteligência artificial, entupindo a plateia com estímulos luminosos vibrantes, com cores fortes, fumaças virtuais e imagens aleatórias.

Ao mesmo tempo, o artista manipulou equipamentos quânticos, que fragmentaram músicas, produzindo sons ritmados, acima de 800 decibéis.

Os drones têm parte com o cão, desenham no firmamento escuro, lagartixas, tatus, antas e saruês. Quem opera o sistema é um descendente de japonês, o que causou uma grande impressão em Itabaiana. “Só podia ser coisa de japonês”, dizia a plateia encantada.

Lembro-me da chegada do rádio de pilha em Itabaiana: um sharp japonês, com uma bela capa de couro. No Beco Novo, Dedé de Olga foi o primeiro a possuir essa maravilha tecnológica.

A admiração pela tecnologia japonesa é antiga em Itabaiana.

Os estímulos luminosos e sonoros destina-se a um público que busca emoções sensitivas, longe da cognição e dos sentimentos. A plateia, armada com os seus celulares, ávida de interações, piscam freneticamente as lanternas dos seus iPhones.

Itabaiana é uma terra de músicos, de grandes maestros. A sua principal Filarmônica está completando 280 anos.

Entretanto, o show de Alok não é musical, disse-me o neto do maestro Antonio Silva. Não se dirige aos afetos, aos sentimentos, não busca o coração. São estímulos sonoros e luminosos destinados aos instintos.

O momento emocional foi quando dos drones projetaram no firmamento o escudo do Tricolor da Serra e a imagem de um caminhão, com a roda em movimento. O time do Itabaiana, como diz o hino, é a cidade. Trata-se de um pertencimento, bateu fundo na alma. E o caminhão em Itabaiana é um ícone.

O show não visa gerar emoções profundas, analógicas, sentimentos, não propõe atingir a alma. O show é digital, visa as emoções instintuais, imediatas, destina-se a flor da pele. As principais reações são pular, gritar, chorar e sacudir os braços.

Em certo momento, Itabaiana foi Itabaiana, e a plateia gritou coletivamente: fiudocanso!

Nenhuma novidade. Estudos recentes, publicados na revista Science, mostram que está havendo uma retração da Córtex cerebral, após a invenção da internet. A córtex, é a parte do cérebro que pensa. Como se sabe, a natureza é analógica, o cérebro é analógico. Estamos mentalmente retrocedendo, com a chegada da inteligência artificial.

Na década de 1970, antes da Era digital, ocorreu em Itabaiana, no cinema do Padre, um show de Teixeirinha e Mary Terezinha. Um show analógico, destinado aos sentimentos simples. O principal sucesso do cantor gaúcho era “Coração de Luto”.

A música contava uma história trágica e simplória. Uma criança, com nove anos, voltava da escola. De longe ele avistou a sua casa pegando fogo. Quando chegou, a mãe tinha morrido queimada. Eu passei dias impressionado com a morte da mãe Teixeirinha, que passou a ter um coração de luto. Eu sonhava com uma mãe pegando fogo. Um pesadelo!

Entre Teixeirinha e Alok a mudança foi grande. Começa por quem pagou a conta: para ouvir Teixeirinha eu paguei os olhos da cara; Alok foi pago pelo erário.

Eu sei que os musicalmente educados, que se emocionam com a nona sinfonia, com Bach, Mozart e Villa-Lobos, acharam essa comparação de Alok com Teixeirinha sem sentido, é comparar o sujo com o mal lavado. Contudo, entre o digital e o analógico, eu vou morrer analógico.

Ocorre, que não me lembrei de nenhum show de Beethowen em Itabaiana.

Li recentemente que a gente sente que envelheceu, quando descobre que o Papa é mais novo ou quando ainda se lembra do show de Teixeirinha.

Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.
 

domingo, 11 de maio de 2025

LÁ VAI PASSANDO A PROCISSÃO

Lá vai passando a Procissão.
(por Antonio Samarone).

“Entra na velhice com cuidado/ Pé ante pé, sem provocar rumores.” Bastos Tigre.

Assisti esperançoso o anúncio do novo Papa, Leão XIV. O mundo está desandando! A Terceira Guerra já começou, só falta o anúncio oficial. O Papa pode ser uma força a remar pela paz.

A fé entra pelo ouvido (fides ex auditu), escreveu São Paulo aos romanos... Não concordo, a fé entra mesmo é pelos rituais. Eu gostava do espetáculo das procissões, em minha infância.

Gostava de todas as procissões: das festivas ou jubilares, a mais importante era a de Santo Antônio; das rogativas, pedindo uma graça, geralmente chuva; das de desagravo, participei de uma, quando numa Santa Missão, ofereceram capim a um frade; e das gratulatórias ou de agradecimento.

A Procissão era um momento especial para se fazer e se pagar promessas. Eu gostava dos cânticos antigos, sobretudo o “Queremos Deus” (Queremos Deus, homens ingratos/ Ao pai supremo, ao redentor/ Zombam da fé os insensatos/ Erguem-se em vão contra o senhor...).

Os fiéis se arrumavam em filas indianas, a cada lado rua, sem atropelamentos, todos obedecendo a uma ordem, quase natural. Na frente, puxando a procissão, vão às Irmandades e Congregações.

Em Itabaiana quem puxava as procissões eram os Irmãos das Almas, liderados por Zé Bigodinho. Todos homens, com camisas verdes, carregando círios acesos.

Eram seguidos pelas Filhas de Maria, de branco, carregando uma fita de cetim azul-celeste sobre o peito. Depois vinham as demais irmandades, todas com os seus estandartes e galhardetes.

Minha mãe era Filha de Maria, depois virou Crente.

A Irmandade do Sagrado Coração de Jesus, com as suas fitas vermelhas, sempre fazia bonito. Depois os fiéis e as beatas menos graduadas.

Muita gente pagando promessa com os pés descalços, carregando pedra na cabeça; outros trajando luto fechado, hábitos franciscanos, cada um cumpria as obrigações assumidas. Promessa é dívida, pelo menos para os devotos.

No centro do cortejo ia o clero e os seus auxiliares: padres, sacristão, coroinhas e os devotos mais chegados. Iam à frente do andor do Santo. Carregando o andor, homens de prestígio.

Cuidado com o andor, que o Santo é de barro. Não me lembro de mulheres carregando o andor, parece que não era uma tarefa feminina.

Atrás do andor, a banda de música com os seus dobrados, os políticos, as autoridades e os graúdos da cidade. Não era lugar para a arraia-miúda, mesmo assim, sempre lotava com um magote de puxa-sacos.

Os meninos brancos e ricos saiam fantasiados de anjos. Aqui tive a minha primeira decepção com a Igreja: mesmo sendo um devotinho assíduo, frequentador do catecismo, nunca me convidaram para ser anjo de procissão.

Depois fiquei sabendo que quem escolhia os anjos de procissão e os meninos a quem lavavam os pés na quinta-feira santa, era uma senhora caridosa, que não me conhecia. Se dizia, que essa devota tinha mais de mil afilhados.

Nas ruas, por onde passava a procissão, o povo se arrumava nas calçadas, pendurava toalhas bordadas nas janelas e, quem tinha, botava um jarro de flor. Juntavam-se os vizinhos e ficavam comentando as novidades. Fofocas e futricas.

As esquinas ficavam lotadas de curiosos, vendo quem estava acompanhado de quem, as roupas, os sapatos e os cabelos de quem passasse.

Quando se fazia um comentário inconveniente sobre alguém, sempre era precedido de um “Deus me perdoe” ou “não é falando não” ou “eu não gosto de fofoca, mas”... E metia-se a bomba.

Terminada a procissão, todos estavam perdoados dos seus pecados veniais. Para os pecados mortais, exigia-se a confissão.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

sábado, 10 de maio de 2025

FIO DO GANSO.

Fio do Ganso!
(por Antonio Samarone)

Nasci numa terra de apelidos. O Dr. Vladimir já escreveu um tratado. Não tem jeito, mais cedo ou mais tarde, a pecha chega. Há uma certeza: reagir é besteira, só agrava. Sete Arroba, Sapato Molhado, Cochilo de Jegue, Penico Sem Tampa... Uma lista interminável!

Existem os palavrões, nomes feios, vergonhosos, eróticos, como mamãe chamava. Geralmente ligados ao sexo e as coisas obscenas. Pelo menos dois, se naturalizaram: porra e caralho.

E há também o costume de usar-se o nome alterado de doenças, as corruptelas, como forma de comunicação: Bexiguento, Cabrunquento, Lazarento, fio da Peste, da Febre do Rato, do Cancro Mariano, do Estupor Balaio e da Gota Serena. Ribeirópolis era a terra Gota, eu não sei por quê.

Com a redução das doenças infecciosas e o crescimento das doenças crônicas, houve uma atualização. A varíola foi extinta e as neoplasias cresceram.

O famoso “Fio do Canso” virou moda, sucedeu ao “fio do Cancro”, e se tornou um ditado quase nacional, disseminado pelos caminhoneiros. Chega a ser uma marca do itabaianense raiz. Não vejo nada de mais, acho uma graça inofensiva. Outra coisa, o uso não é obrigatório.

Fio do Canso pode ser xingamento, constatação, alegria, indignação, elogio e deboche. Pode ser qualquer coisa. Por exemplos: “Fio do Canso bom de bola.” “Fio do Canso de sorte."

Acho uma polêmica bizantina.

Outro costume era zombar dos doentes: infeliz da costela oca, perebento, coxo, zarolho, cheio de pulgas, remelento, amarelo, empapuçado, dorme-sujo, inchadinho, o deboche com os doentes não tinha limites. Hoje, parrou! Essas zombarias tornaram-se bullying, assédio moral! Sujeitas a prisão.

Entretanto, uso das doenças como corruptelas é mais uma rudeza do que um pecado. Um leve deboche. Que eu me lembre, nas aulas do Catecismo Romano, isso nunca foi proibido. Não sei quem inventou, nem quando começou. Nunca me pareceu desfeita.

Ser rude, cascudo, eram virtudes. Luiz Antonio Barreto achava o que uso das doenças como corruptelas, era um costume medieval, trazido pelos portugueses. Quem sou eu para discordar.

O que acabou também foi o insulto de chamar os outros de “complexados. Isso, sim, era uma pecha insuportável. Ser taxado de complexado era o fundo do poço.

Freud é um gênio pouco lido e muito citado. Entre os conceitos freudianos o complexo de Édipo é o mais lembrado, chegando a se tornar popular em Itabaiana. Eu explico. Pegaram o complexo e esqueceram o Édipo.

Em psicologia, complexos eram aspectos emocionais reprimidos, capazes de provocar distúrbios psicológicos permanentes ou mesmo sintomas de neuroses.

Em Itabaiana deram um uso universal aos complexos. Qualquer desajuste psicológico ou comportamental, qualquer desvio de conduta, qualquer estranheza, o sujeito era logo taxado de complexado. É um complexado! Bradavam nas esquinas.

Tinha complexo de pobre, feio, baixo, gordo, corno, burro, e por aí afora. Um dos piores xingamentos era ser chamado de complexado. Não conheci ninguém em minha infância que, uma vez ou outra, não tivesse recebido essa pecha. Fulano tem complexo de pobre, sicrano tem complexo de feio, cada um tinha o seu.

A riqueza cultural é profunda e complexa (sem ser complexada). Itabaiana, são 350 anos de civilização. A discussão, portanto, é outra.

Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
 

terça-feira, 6 de maio de 2025

OURO EM PÓ


 Ouro em pó!
(por Antonio Samarone)

Comprar ouro em Itabaiana é uma forma de investimento. O preço é competitivo. Os mais apressados chegam a pensar que é ouro de tolo, bijuteria. Nada disso, as joalharias fornecem certificado de pureza.

O ouro em Itabaiana é antigo. Vem de longe. Na segunda metade do Século XIX, já existiam joalharias na cidade. Ourives sempre foi uma profissão numerosa. Era tradição camponesa, repassarem como herança, as joias da família.

Belchior Dias Moréia estava certo: existe prata na Serra de Itabaiana. O neto de Caramuru que descobriu a prata, mas pediu alto para informar o mapa da mina. A corte espanhola chegou a mandar para Itabaiana, em 1619, uma grande comitiva chefiada por Dom Luís de Souza, Governador-Geral do Brasil, acompanhado dos capitães-mores do Espírito Santo, Gaspar Allures de Siqueira e de Sergipe, João Mendes.

A expedição contratou um mineiro castelhano, experiente, Fernão Gil, trazido do Peru. Como não houve acordo, Belchior Dias Moréia não indicou onde estava a prata. A comitiva voltou de mãos abanando. Prenderam Belchior, que morreu com mais de 80 anos, sem revelar o segredo das minas de prata da serra de Itabaiana.

Antigamente, o rio Orinoco era o ponto preciso e real onde estaria o Eldorado, na cabeça das gentes. A partir de Gabriel Soares de Sousa a perspectiva se transferirá para as cabeceiras do rio São Francisco. Mesmo Domingos Fernandes Calabar (1600-1635), que os portugueses tiveram como traidor, foi guia de uma expedição holandesa a Itabaiana em procura do ouro e da prata.

Em 1673, a Coroa (era regente o Príncipe D. Pedro I), futuro rei D. Pedro II de Portugal, nomeou D. Rodrigo Castelo Branco como administrador-geral das Minas de Itabaiana e editou o Regimento Geral das Minas do Brasil. Era consequência das incessantes buscas de ouro e prata em várias partes do território.

O Ciclo do Ouro no Brasil, começou em Itabaiana.

Em seu famoso livro “Cultura e Opulência no Brasil”, escrito em 1711, Antonil confirmou a existência da prata em Itabaiana:

“E na serra de Itabaiana, há tradição que achou prata o avô do capitão Belchior da Fonseca Dória.” Outras expedições foram feitas, e ninguém até agora encontrou a prata.

Só agora, século XXI, em minhas andanças com a Expedição Serigy, encontrei uma senhora, Dona Jurema, descendente próxima dos Tapuias (Boy mé), que me disse saber mais ou menos onde era a entrada da mina de prata.

Dona Jurema ainda me contou que acha, ela não tem certeza, que o carneiro de ouro que o povo tanto fala, está numa grota aterrada pelo tempo. Não custava nada, pedi para ela me mostrar. De fato, existe. O caminho é pedregoso e a entrada da mina fica num lugar meio encantado e de difícil acesso.

Desconfio que esse carneiro de ouro é o mesmo da lenda.

Procurei saber de um alquimista do Zanguê, se a prata ainda servia para alguma coisa, e ele me disse que não. Nem para fazer anel de cigano. Os talheres e baixelas dos ricos não são mais de prata, a tramontina ganhou a concorrência. Rodei o shopping e, de fato, não encontrei nada de prata para comprar, saiu de moda. Bijuteria vale mais do que prata.

O alquimista continuou o seu preconceito com a prata:

“Tenho um amigo que tem uns sacos cheios de prataria num depósito, herdado da família, e não acha a quem vender. Antigamente passava gente comprando alumínio velho, cobre e metal. Até garrafa usada e frasco de brilhantina tem comprador. Mas não conheço ninguém que compre prata. Ainda tem um complicador, a mina de prata fica num Parque Nacional, mesmo que valesse muito, seria tudo do governo.”

Uma visão equivocada, desse mal-assombrado: a prata continua um metal valioso. Principais aplicações incluem a indústria eletroeletrônica, onde é utilizada em componentes e circuitos, a indústria fotográfica e radiográfica, onde é utilizada em filmes e placas, e na indústria de energia solar, onde é usada em células fotovoltaicas. Além disso, a prata é utilizada em aplicações médicas, como curativos antimicrobianos, instrumentos cirúrgicos e em joalheria.

A `Prata é reserva de valor, no Sistema Financeiro Internacional.

Pensei bem e resolvi me aquietar. Não vou esmiuçar o segredo de Belchior Dias Moréia. Que continuem pensando que as minas de prata da serra de Itabaiana são lendas. O carneiro de ouro da Serra de Itabaiana continuará enterrado, à espera de dias melhores.

Quando o dólar deixar de ser a moeda de referência internacional, a gente desencava e ressuscita o carneiro de ouro adormecido.

"... achey hum hindio cariry (conta-o Barbosa Leal), hum hindio velho, de cem annos, por nome Taburú; e descobri com muyta endustria haver elle acompanhado a Melchior Dias naquelle seo descobrimento, o que esse hindio tinha muito calado e negado (me dice elle) por assim lho ordenar Melchior. E disse o hindio velho que cozeo no fogo, em hum testo ou tacho, uns seixos; e depois lavou muyto, e tirou uma pedrinha branca; e Melchior Caramurú fizera muita festa com espingardas; e lhes mandara não mostracem nunca a brancos aquelle logar..."

Por azar, o Cacique Taburú morreu sem contar o segredo das minas de prata.

Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.

segunda-feira, 5 de maio de 2025

O PRIMEIRO CAMINHÃO

O Primeiro Caminhão.
(Por Antonio Samarone.)

Pedro Bial, querendo fazer graça, perguntou a Natanzinho Lima por que Itabaiana era a Capital brasileira do Caminhão. Natanzinho, meio acanhado, mas respondeu.

O primeiro caminhão de Itabaiana pertenceu a Esperidião Noronha. É claro, a rodagem chegou antes. O caminhão da foto é o de Manoel de Jason.

A Estrada de Rodagem tardou a chegar em Itabaiana. Somente em abril de 1928, foi inaugurada a Estrada de Rodagem Laranjeiras – Itabaiana (a primeira). Foi durante o governo de Manoel Dantas (Mané Caroço) e o Secretário de Obras era Leandro Maciel, isso mesmo, o famoso líder político.

A Coluna de Zózimo Lima, deu detalhes sobre as festividades de inauguração da estrada. Vou citá-la integralmente:

“Rumo a Itabaiana. Foguetes, girândolas, arcos e bandeirolas.
Aproximamo-nos da terra do finado Zé Sebrão [José Sebrão, político itabaianense; tio do historiador Sebrão Sobrinho].

A população freme de entusiasmo. A charanga local entoa o antigo e sempre novo dobrado “Saudades de minha terra”. Zózimo teve a ousadia de chamar a Filarmônica de Charanga.

O coronel Dultra de Almeida espera-nos com uma macarronada suculenta.

O Dultra, disse-nos o Otoniel Dória [Dorinha, delegado de polícia, chefe político itabaianense], fez uma verdadeira devastação nos galinheiros da vizinhança.

Sua Excelência, o presidente Manoel Dantas recebe distintas homenagens.

Sua Excelência, com aquela simplicidade, que é seu traço característico, atende a todos os reclamos.

Ele vê, perquiri, ausculta todas as necessidades e promete fazer o que estiver nas suas forças.

A comitiva tem ampla liberdade de S. Ex.ª para divertir-se à farta.
O Humberto é o peão da patuscada.

À noite, ao jantar, ele levanta um brinde às Valquírias do país de Wagner representadas na pessoa do robusto vigário local (Padre Francisco Toussaint).

Há danças na casa do Dorinha e na Intendência.

O farmacêutico Florival nos martirizou com uma oração sesquipedálica [muito longa].

Tive a impressão de estar diante do frade Cisneiros [Francisco Gimenez de Cisneiro, espanhol] num tribunal do Santo Ofício.

Aquela morena de olhos de pervinca [azuis], no baile, deixou uma chaga incurável no coração de Guilhermino.

O Teófilo mostrou que ainda é autoridade nos torneiros coreográficos.

A alegria é tanta que Humberto, o Zózimo, o Xavier, o Mecenas, o Leandro, o João Cabral e o Barroso planejam fazer o encanamento direto dos depósitos da Antártica.

O Dr. Gervásio Prata, o magistrado culto e criterioso, recebe uma manifestação carinhosa dos ilustres itinerantes.

O presidente Dantas compareceu pessoalmente. Muito cedo, no dia seguinte, rumamos para São Paulo, via Saco do Ribeiro.

Ali a comitiva presidencial foi alvo de grandes homenagens.”
Itabaiana passava a se conectar com o mundo por meios motorizados.

Antes de 1928, só através dos tropeiros e do lento carro de boi.

Esse foi o primeiro passo para o desenvolvimento econômico de Itabaiana, consolidado, com a chegada da BR – 235, em 1953.

A história dos caminhoneiros em Itabaiana, começou em 1928, com a inauguração da primeira estrada de rodagem. No próximo 08 de maio, as 19 horas, no Shopping Peixoto, a Prefeitura de Itabaiana lançará solenemente a Feira do Caminhão 2025.

Antônio Samarone. (Secretário de Cultura de Itabaiana)
 

sábado, 3 de maio de 2025

O CÔNEGO ESQUECIDO


 O Cônego Esquecido.
(por Antonio Samarone)

Em 1852, chegou a Itabaiana, o Vigário Domingos de Mello Resende. Por lá ficou até 06 de janeiro de 1902. Meio século! Um fidalgo de sangue nobre. Nasceu no Engenho Carvão, Villa da Capela, em 04 de agosto de 1817, filho do Capitão Mor Manuel de Melo Resende e Dona Josefa Maria do Sacramento.

Domingos de Melo Resende, tornou-se depois Cônego da Sé e Vigário Geral. Foi Deputado Provincial por dois mandatos (1864/65 e 1866/67), sempre militando no Partido Liberal.

O Cônego encontrou a Villa de Santo Antonio e Almas dormindo o sono colonial. Um pequeno arruado de casebres, rodeando a igreja matriz. Uma comunidade muito pobre, isolada, castigada pela falta de água. Itabaiana era um vasto território de engenhos e fazendas, sem vida urbana.

A Igreja católica e a Câmara Municipal eram os únicos sinais de civilização. Itabaiana ainda vivia a influência política de Jose Matheus Leite da Graça Sampaio, último Capitão Mor de Itabaiana. Filho de João Machado de Novais e Dona Rosa Maria de Sampaio, filha do Capitão Ventura Rabelo Leite.

O Cônego Domingos era um velho Sultão, com a casa apinhada de esposas, escravas, concubinas, servas e vassalas. Chamava atenção a fundura de sua cisterna. Mesmo nos anos de seca demorada, a cisterna do padre não secava. Aos domingos, os fieis voltavam da missa com o pote de água cheio. Eu ainda alcancei essa lendária cisterna.

Nunca faltava um capão gordo, nos almoços dominicais da casa paroquial.

O Cônego Domingos de Mello Resende, morava na Praça da igreja, numa cassa avarandada, defronte a um pé de jenipapo, com várias amantes. Deixou uma prole numerosa. Ele assistiu à abolição da escravatura, a transformação de Villa em Cidade e o fim da Monarquia.

Sobre a passagem de Vila a Cidade, 28 de agosto de 1889, o Cônego Domingos desabafou: “Civilidade! Civilidade! Quanto perdeu, agora, Itabaiana ao deixar a sua vida simples de Villa! Civilidade sem civilização!”

O ano de 1889, foi ano de seca. Os Bezerras (Guilhermino, Antonio, João e José) dominavam a política em Itabaiana. Em 13 de maio de 1888, fim da escravidão; em 28 de agosto de 1889, passamos de Villa a Cidade e em 15 de novembro de 1889, foi proclamada a República. Grandes mudanças para uma pequena Villa.

Que se tem notícias, somente 2 itabaianenses, que moravam fora, envolveram-se na propaganda republicana: o médico homeopata Olintho Rodrigues Dantas; e o historiador Francisco Antonio de Carvalho Lima Junior.

Não se sabe quando a notícia da Proclamação da República chegou em Itabaiana. A Câmara Municipal só formalizou a adesão em 22 de novembro. O presidente da Câmara era o rico fazendeiro Casimiro da Silva Melo, que morava em sua fazenda, em Frei Paulo.

Nenhum conselheiro municipal (vereador) em Itabaiana, se manifestou a favor da República ou contra o Império. Nada! Nem o que Machado de Assis recomendou, no romance Quincas Borba: "Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas".

A pacata, agora cidade de Itabaiana, na chegada da República, possuía 3 mil habitantes, casas de taipa, estreitas, sem platibanda, quase todas de rancho e 21 sobrados, com sacadas de madeira. A Câmara Municipal funcionava no antigo sobrado do bar de Papinha. A feira ocorria na Praça da Matriz, junto ao Talho de Carne.

A Villa, na passagem para Cidade, possuia três Praças: a da Igreja, um destampado sem pavimentação; o Largo Santo Antonio e a Praça de Santa Cruz (Rua da Tenda). As ruas do Sol, Flores e Vitória, os Becos do Cisco e dos Lírios. As ruas do Cotovelo, Faísca, Futuro e Canto Escuro. O Beco Novo e a Rua Nova. A cidade findava na Rua do Vapor (Joãozinho Tavares). Itabaiana vivia nos sítios e fazendas.

O primeiro surto de urbanização da Villa de Santo Antonio e Almas, segunda metade do Século XIX, deveu-se a cultura do algodão. Em 1862, iniciou-se a realização regular da Feira, as primeiras lojas de fazenda, sapatos, armazéns e joalherias.

Domingos de Melo Resende foi sepultado na igreja, ao lado direito do altar principal. Entre 1967 e 1975, passou por Itabaiana o Monsenhor Soares, que, a título de reformar a igreja, detonou a antiga arquitetura, desrespeitou todas as tradições, e nessa saga, ignorou a sepultura do Cônego Domingos de Melo Resende.

Atenção, senhores Vereadores, não existe nenhum logradouro público em Itabaiana que receba o nome do nosso cura mais longevos. Meio século, ajudando na salvação das almas itabaianenses.

Domingos de Melo Resende, merece uma homenagem.

Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).