Uma questão bizantina.
(por Antonio Samarone)
Felizmente, a história não tem donos!
Um mesmo personagem histórico, pode ser vilão ou herói, dependendo da visão de quem interpreta. Inclusive, com o tempo, se pode passar de vilão a herói e vice-versa.
Vou tentar responder à questão bizantina: quando devemos comemorar o nascimento de Itabaiana, qual a data do seu aniversário?
Oficialmente, o aniversário de Itabaiana é 28 de agosto, feriado municipal. Alguns historiadores entenderam que Itabaiana nasceu, quando foi elevada à categoria de cidade, em 28 de agosto de 1888, através da lei provincial n.º 1331.
Outros, preferem estabelecer o nascimento de Itabaiana em 1698, na data da criação da Villa de Santo Antonio e Almas, pela Coroa Portuguesa.
Quais os critérios dessas escolhas? Não sei!
A existência do Arraial de Santo Antonio e Almas é anterior a essas datas. Segundo o historiador Almeida Bispo, entre 1590 e 1623, foram doadas 18 sesmarias, no território denominado Itabaiana. Quando eles chegaram?
Em 1665, os colonos assentados em Itabaiana, criaram uma confraria: a Irmandade das Santas Almas do Purgatório, para adquirirem um terreno e instalarem a Villa. O terreno foi comprado, e o Dr. Vladimir Carvalho já publicou as escrituras.
A comunidade de Itabaiana já existia organizada, anterior as datas propostas. Porque só iriamos nascer quando reconhecida como Villa, pela Coroa Portuguesa. Dirão os positivistas: o que determina a existência de uma comunidade é um decreto real. Discordo!
Mas vamos seguir a regra.
Em 30 de outubro de 1675, o arcebispo de Salvador, Dom Gaspar Barata de Mendonça, criou uma Paróquia no Arraial de Santo Antonio e Almas de Itabaiana. Com documentos passados e encontrados nos arquivos da Bahia. Itabaiana foi a segunda Paróquia de Sergipe, sendo antecedida apenas pela Paróquia de Nossa Senhora da Vitória, em São Cristóvão.
No próximo 30 de outubro, a Paróquia de Santo Antonio e Almas de Itabaiana, com a Prefeitura Municipal, vão instalar o 7º Jubileu de Ouro da Paróquia e do município, a ser comemorado durante o ano de 2025.
Nessa data, teremos uma missa festiva, as 16 horas e um concerto com a centenária Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, as 17 horas. Não se pode ignorar um aniversário de 350 anos.
Eu sei, o Arraial de Santo Antonio e Almas já existia no Vale do Jacarecica, antes da criação da Paróquia. Arqueologicamente, a igreja velha está lá de prova. Entretanto, a primeira instituição a ser instalada, foi a Paróquia.
Tem mais:
Em 1675, com a compra do terreno pela Irmandade das Almas, a sede do Arraial saiu do Vale do Jacarecica e veio para o Tabuleiro de Aires da Rocha, onde se encontra hoje. Aliás, sabe-se que essa mudança teve o dedo de Santo Antonio, que fugia da igreja velha para o pé de quixabeira.
A bispado na Bahia, não criaria uma freguesia (paróquia), se não existisse uma comunidade assentada. A confusão é pensar que a realidade só existe, por força de éditos reais. Itabaiana fugiu a regra. A igreja antecedeu a câmara municipal.
Muitas cidades nascem em torno de uma fortaleza, porto, mercado, minas, colinas, quarteis, etc. Itabaiana nasceu em torno da Igreja de Santo Antonio e Almas.
Foi essa fé em Antonio quem nos guiou. A cidade dos milagres tem raízes profundas.
Se a escolha para o aniversário for entre a data da lei que transformou a Villa em Cidade (1888), a data do decreto real que criou a Villa (1698), ou a data da criação da Paróquia de Santo Antonio e Almas (1675), não tenho dúvidas, nascemos espiritual e culturalmente, com a igreja.
Se soubéssemos a data da chegada da primeira família portuguesa, para ocupar a sua sesmaria e plantar os primeiros pés de cebolas, essa seria a data do nascimento. Como não se sabe, vamos comemorar com a igreja, o 7º Jubileu de Ouro (350 anos).
Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.
quinta-feira, 17 de outubro de 2024
terça-feira, 15 de outubro de 2024
GENTE SERGIPANA - ANTONIO HIGINO
Antonio Higino – Gente Sergipana.
(Por Antonio Samarone)
Deus criou o homem com o barro da Terra.
Em Itabaiana, as atividades com o barro vem de longe. No início, foram as paneleiras, depois as olarias e as cerâmicas. Hoje, é uma forte atividade econômica. São dezenas de empresas queimando o barro. Não sei quantas, mas são muitas.
A cerâmica acompanhou o homem desde a pré-história. Quando e quem começou essa arte em Itabaiana? As paneleiras são de tempos imemoriais, chegaram com os quilombolas, no atual Bairro São Cristóvão.
As olarias foram trazidas para o Lagamar, por Antonio Higino (foto), na primeira metade do século XX. Nas olarias o trabalho é artesanal: o barro é amassado, modelado e queimado por mãos humanas.
Seu Antonio Higino era um camponês da Cova da Onça. Foi visitar uma irmã (Losa), no Povoado Roque Mendes, em Riachuelo. O seu cunhado, Jaime, além de proprietário de saveiros, possuía uma olaria. Antonio Higino se interessou, e montou a primeira olaria em Itabaiana.
Roque Mendes era um povoado importante. Uma parte da produção agrícola de Itabaiana era levada em lombos de burros (tropeiros) até Roque Mendes e, de lá, embarcava em saveiros, até o Mercado Central em Aracaju. A fama de cidade celeiro vem daí.
Antonio Higino dos Santos era casado com Dona Maria Irinea de Araújo. Tiveram simplesmente 18 filhos. Eles tocavam a olaria do pai. A escola foi amassar barro a partir dos sete anos. Os filhos de Higino: Augusto (85 anos), o mais novo, Pedrinho, Bobó, Gordinho, Juca, Nascimento e Toinho montaram a indústria da cerâmica em Itabaiana.
Depois veio a família de Manezinho Massa Crua. Não sei se o nome vem da fabricação do adobe, um tijolo maior e não queimado, mais baratos, usado pelos mais pobres. Já morei em casa de adobe.
A indústria da cerâmica só chegou a Itabaiana na década de 1960.
Para variar, Seu Antonio Higino já morou no Beco Novo, próximo a Miguel Fagundes.
A olaria de Higino veio para o Batula, mais próximo da cidade, visando facilitar o transporte das telhas e tijolos. O transporte era feito de jegue, com dois pequenos caixotes. Carregavam 50 tijolos por viagem.
No caminho do Açude Velho, final da atual Rua Miguel Teixeira, tinha o Aloque, um barreiro da olaria de Antonio Higino. Eu pensava ter sido o Aloque um curtume, pelo cheiro forte que exalava. Eu tinha medo daquele banho. A gente chamava de “Zaloque”.
Seu Augusto, montou, e possui até hoje, a Cerâmica Higino, que virou uma marca famosa. Os tijolos e as telhas Higino, dominavam até o sertão da Bahia. A tecnologia mudou muito. A indústria de cerâmica em Itabaiana se modernizou.
Nesse momento, um grupo de empresários itabaianenses, liderados por César, um neto de Antonio Higino, está em uma feira tecnológica, na China. Isso mesmo, na China! A obra iniciada por Seu Antonio Higino foi longe.
Seu Augusto, o filho mais novo de Antonio Higino, é um homem culto, sem nunca tem pisado os pés numa escola. Conhece o repertório do Rei do Baião, de fio a pavio. Frequentou o Vale do Cariri e Exu, sem ser devoto do Padre Cícero. A atração era Luiz Gonzaga.
Seu Augusto, dono da Cerâmica Higino, se casou com Dona Maria Ortência Santos (81 anos), do Beco Novo. Filha Zé de Donona Peito de Flande, o primeiro motorista de caminhão de Itabaiana. Dona Ortência (com O), é uma amante da natureza. A sua casa é ornada com belas flores.
Desse casamento brotaram 9 filhos: Acácia, César, Anchiara, Carlos Alberto, Angêla, Ana Arleide, Carlinhos e Ana Lúcia. Seu Augusto tem um defeito: torce pelo Flamengo.
Seu Augusto permanece ativo e toca a Cerâmica Higino, hoje dentro da cidade, no Bairro Marianga.
As cerâmicas, as fábricas de carroceria, a produção de folheados e o comércio do ouro são originalidades de Itabaiana e contribuem para a sua potência econômica.
A Serra não possui somente um carneiro de ouro, como diz a lenda, na serra temos um redil.
A história da cerâmica em Itabaiana é tarefa para os historiadores. Apenas, quis realçar o talento empresarial de Antonio Higino, o organizador da indústria do barro em Itabaiana.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
sábado, 12 de outubro de 2024
O VELÓRIO DE JOÃO XXIII.
O Velório de João XXIII.
(por Antonio Samarone)
Fiz a primeira comunhão aos sete anos, sob a égide do Concílio de Trento. A primeira comunhão era antecedida de aulas de catecismo. Duas passagens ficaram na memória: “Foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, ao terceiro dia, ressurgiu dos mortos” e a mais polêmica, donde há de vir julgar os vivos e os mortos.” O Juízo Final!
Acho que me assuntei como gente aos sete anos. Nunca soube os motivos, mamãe fez uma promessa de realizar a minha primeira comunhão aos sete anos. No dia exato, era uma promessa. Caiu numa segunda-feira, igreja esvaziada, dia chuvoso, mas a promessa foi cumprida.
As sete da manhã, o primogênito de Dona Lourdes e Seu Elpídio estava pronto, roupinha de anjo, uma vela comprida na mão, ansioso, na primeira fila de bancos, na matriz de Santo Antônio e Almas de Itabaiana. Foi a primeira vez que vesti uma calça comprida e calcei sapatos.
Fui empurrado para dentro da Igreja. Depois fui tirar esse retrato, nos estúdios de Joãozinho Retratista, nos fundos de uma relojoaria.
As cerimônias da igreja ainda eram em latim. O padre celebrava de costa para os fiéis e os santos faziam milagres. A cheirosa fumaça dos turíbulos é a minha melhor lembrança.
Itabaiana transpirava a contra-reforma. As resoluções do Concílio de Trento (1554 – 1563) eram fielmente apreendidas e observadas. O pecado era um peso que amedrontava. O anjo da guarda não dormia.
Tudo girava em torno da igreja católica: festas, procissões, batizados e casamentos. A missa do galo era o centro do Natal. No sábado de aleluia, rasgavam-se as coberturas roxas dos santos, um acontecimento esperado com ansiedade.
A missa do sábado de aleluia, transcorria com as luzes apagadas, no escuro. Se o padre não encontrasse uma certa passagem no missal, era o prenúncio do fim do mundo. Nunca entendi os motivos para se procurar essa passagem no escuro, nem por que, sendo tão importante, não procuravam antes e já deixavam marcado.
As modernices do Concílio Vaticano II (dezembro de 1965) só apareceram quando eu já tinha onze anos. E não pensem que chegou em Itabaiana no outro dia. Essa estória de que Deus é amor e perdoa todo mundo, demorou a entrar na cabeça do povo.
As Santas Missões apontavam a eminência do fogo eterno, e os nossos frades pregavam a paz para os justos, a misericórdia para os aflitos e o fogo eterno para os ímpios. O castigo para os maus seria severo. Era esse medo que continha o rebanho.
Em Itabaiana, a igreja católica era soberana.
Os crentes limitavam-se aos membros da igreja de Dona Eulina Nunes, poucos, mas descentes e respeitados. As religiões africanas estavam a cargo de dois ou três macumbeiros amadores de final de semana.
Os terreiros de João de Filipinho, Cidália e Hosano, onde se batia o tambor. Eu achava tudo meio misterioso. Lá em casa meu pai se pelava de medo de mãe Bilina, ialorixá do Terreiro Santa Bárbara Virgem, em Laranjeiras, onde ele vendia rede de dormir, na feira. Papai andava com os bolsos cheios de pregos, para evitar coisas feitas.
Fui guiado pelo Concílio de Trento, pelas aulas de catecismo de mamãe, filha de Maria. Aprendi a ler com os livros de cordéis de meu avô, Totonho de Bernardinho. Já cheguei na escola taludo, e não compreendi a sua serventia.
Da escola só prestava a merenda (um achocolatado quente com bolacha) e o recreio. Ler eu já sabia. Se naquele tempo já tivessem inventado o “bullying” eu tinha me lascado.
Fui aluno gratuito na escola do Padre. Fizeram essa concessão aos filhos dos sócios do “Círculo Operário”, uma organização da igreja para combater o comunismo.
A discriminação era total, até carregar água para molhar uma quadra de areia eu carreguei. Na época, eu ignorava essas discriminações, ou melhor, não percebia. Segundo um amigo psicanalista, por isso, me tornei cascudo. Feito a formão!
O Padre Everaldo (bode cheiroso), não perdia a oportunidade de passar em minha cara que eu não pagava. Pensam que tive um trauma psicológico? Porra nenhuma, passei para a ofensiva e quando tinha oportunidade mandava todos tomar no (...).
A vida não seria um passeio, fiquei sabendo muito cedo. Aprendi a entrar em bolas divididas. Eu só temia os castigos de Deus!
Rezei muito, nos últimos dias do longo padecimento do Papa João XXIII, morto em junho de 1963, com um câncer de estômago. Eu tinha nove anos, mas acompanhei como adulto.
Os sinos da Matriz de Santo Antônio e Almas tocavam sem parar, uma sinfonia fúnebre. Dia e noite. Eu morava no Beco Novo, no fundo da igreja. Achava que os sinos estavam dentro da minha casa e da minha cabeça.
Foi o meu primeiro velório, aos 9 anos, um velório Papal!
Antonio Samarone – médico sanitarista.
(por Antonio Samarone)
Fiz a primeira comunhão aos sete anos, sob a égide do Concílio de Trento. A primeira comunhão era antecedida de aulas de catecismo. Duas passagens ficaram na memória: “Foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, ao terceiro dia, ressurgiu dos mortos” e a mais polêmica, donde há de vir julgar os vivos e os mortos.” O Juízo Final!
Acho que me assuntei como gente aos sete anos. Nunca soube os motivos, mamãe fez uma promessa de realizar a minha primeira comunhão aos sete anos. No dia exato, era uma promessa. Caiu numa segunda-feira, igreja esvaziada, dia chuvoso, mas a promessa foi cumprida.
As sete da manhã, o primogênito de Dona Lourdes e Seu Elpídio estava pronto, roupinha de anjo, uma vela comprida na mão, ansioso, na primeira fila de bancos, na matriz de Santo Antônio e Almas de Itabaiana. Foi a primeira vez que vesti uma calça comprida e calcei sapatos.
Fui empurrado para dentro da Igreja. Depois fui tirar esse retrato, nos estúdios de Joãozinho Retratista, nos fundos de uma relojoaria.
As cerimônias da igreja ainda eram em latim. O padre celebrava de costa para os fiéis e os santos faziam milagres. A cheirosa fumaça dos turíbulos é a minha melhor lembrança.
Itabaiana transpirava a contra-reforma. As resoluções do Concílio de Trento (1554 – 1563) eram fielmente apreendidas e observadas. O pecado era um peso que amedrontava. O anjo da guarda não dormia.
Tudo girava em torno da igreja católica: festas, procissões, batizados e casamentos. A missa do galo era o centro do Natal. No sábado de aleluia, rasgavam-se as coberturas roxas dos santos, um acontecimento esperado com ansiedade.
A missa do sábado de aleluia, transcorria com as luzes apagadas, no escuro. Se o padre não encontrasse uma certa passagem no missal, era o prenúncio do fim do mundo. Nunca entendi os motivos para se procurar essa passagem no escuro, nem por que, sendo tão importante, não procuravam antes e já deixavam marcado.
As modernices do Concílio Vaticano II (dezembro de 1965) só apareceram quando eu já tinha onze anos. E não pensem que chegou em Itabaiana no outro dia. Essa estória de que Deus é amor e perdoa todo mundo, demorou a entrar na cabeça do povo.
As Santas Missões apontavam a eminência do fogo eterno, e os nossos frades pregavam a paz para os justos, a misericórdia para os aflitos e o fogo eterno para os ímpios. O castigo para os maus seria severo. Era esse medo que continha o rebanho.
Em Itabaiana, a igreja católica era soberana.
Os crentes limitavam-se aos membros da igreja de Dona Eulina Nunes, poucos, mas descentes e respeitados. As religiões africanas estavam a cargo de dois ou três macumbeiros amadores de final de semana.
Os terreiros de João de Filipinho, Cidália e Hosano, onde se batia o tambor. Eu achava tudo meio misterioso. Lá em casa meu pai se pelava de medo de mãe Bilina, ialorixá do Terreiro Santa Bárbara Virgem, em Laranjeiras, onde ele vendia rede de dormir, na feira. Papai andava com os bolsos cheios de pregos, para evitar coisas feitas.
Fui guiado pelo Concílio de Trento, pelas aulas de catecismo de mamãe, filha de Maria. Aprendi a ler com os livros de cordéis de meu avô, Totonho de Bernardinho. Já cheguei na escola taludo, e não compreendi a sua serventia.
Da escola só prestava a merenda (um achocolatado quente com bolacha) e o recreio. Ler eu já sabia. Se naquele tempo já tivessem inventado o “bullying” eu tinha me lascado.
Fui aluno gratuito na escola do Padre. Fizeram essa concessão aos filhos dos sócios do “Círculo Operário”, uma organização da igreja para combater o comunismo.
A discriminação era total, até carregar água para molhar uma quadra de areia eu carreguei. Na época, eu ignorava essas discriminações, ou melhor, não percebia. Segundo um amigo psicanalista, por isso, me tornei cascudo. Feito a formão!
O Padre Everaldo (bode cheiroso), não perdia a oportunidade de passar em minha cara que eu não pagava. Pensam que tive um trauma psicológico? Porra nenhuma, passei para a ofensiva e quando tinha oportunidade mandava todos tomar no (...).
A vida não seria um passeio, fiquei sabendo muito cedo. Aprendi a entrar em bolas divididas. Eu só temia os castigos de Deus!
Rezei muito, nos últimos dias do longo padecimento do Papa João XXIII, morto em junho de 1963, com um câncer de estômago. Eu tinha nove anos, mas acompanhei como adulto.
Os sinos da Matriz de Santo Antônio e Almas tocavam sem parar, uma sinfonia fúnebre. Dia e noite. Eu morava no Beco Novo, no fundo da igreja. Achava que os sinos estavam dentro da minha casa e da minha cabeça.
Foi o meu primeiro velório, aos 9 anos, um velório Papal!
Antonio Samarone – médico sanitarista.
sexta-feira, 11 de outubro de 2024
NOSSOS BRINQUEDOS
Nossos Brinquedos.
(Por Antonio Samarone).
O futebol era uma brincadeira. Nada de “escolinhas”, preparando um futuro profissional. O nosso desejo supremo era bater bola, brincar de bola, jogar pelada, e para isso qualquer lugar servia.
A começar pelo leito da rua. Duas pedras como trave, três de cada lado e uma bola. Cada jogo era uma final de Copa do Mundo. No final, com vitória ou derrota, sobravam os dedos desmentidos, estropiados, os joelhos ralados, a constante peleja pelo gol e a vibração incontida.
À época não existia o VAR. Cada gol era uma confusão, gritos, para saber se foi gol ou foi por cima.
A grande dificuldade da brincadeira era a bola. Ninguém que eu conhecia tinha uma bola. Nossas peladas eram com bola de meia. Explico: se pegava uma meia velha, enchia-se de pano, dava-se uma arredondada e a pelota estava pronta.
Depois apareceu a bola de borracha, um inferno, pulava muito. Finalmente, veio a bola Pelé. Para nossa sorte, Rosa de Rosalvo do Cabo Quirino, criou coragem, foi ao armazém e roubou uma bola Pelé. Até hoje não sei como ele saiu sem ser visto. Foi uma festa no Beco Novo, tínhamos uma bola.
Muito tempo depois, Beijo de Seu Bebé, ganhou do irmão que morava em São Paulo, uma couraça número cinco, quase profissional. Foi a primeira e a única bola de couro em minha rua.
Tudo era difícil.
A bola oficial daquele tempo era uma verdadeira bucha, de couro mal curtido (sola), costurada à mão pelo velho Mestre Dé, que se batesse de jeito, era nocaute inevitável. Chamava-se “bola de boca”. Comprava-se a câmara de ar, que possuía uma válvula comprida conhecida como pito. Ao se encher a bola precisava-se acomodar o pito para dentro, e só depois é que se fechava o último nó. Exatamente na “boca” da bola.
É claro que já existiam as bolas industrializadas, mais parecidas com as atuais, conhecidas como bolas argentinas. Raras e de preço incompatível com o poder aquisitivo daquela época.
Mas voltemos as “bolas de boca”. E quando chovia? Aí, meu amigo, o couro encharcava e a quase redondinha ficava oval e pesava mais de quilo. Era costume antes das partidas passar-se sebo nas bolas, para reduzir os inconvenientes do couro ressecado, e ajudar na conservação de tão raro objeto.
Somente quem conheceu as antigas bolas de boca, as chuteiras de Joãozinho Baú e os antigos “gramados” - na verdade, malicia, barro e piçarra - será capaz de entender o antigo ditado: “futebol é prá homem”. Era mesmo!
As primeiras incorporações tecnológicas do futebol itabaianense foram o suporte, a atadura e o linimento. O primeiro era uma proteção de borracha que se usava sob o calção, com o suposto objetivo de proteger as “partes fracas” do atleta; o segundo era utilizado para enfaixarem-se os pés dos atletas; e o terceiro era uma espécie de óleo canforado que se aplicava nas pernas dos jogadores, de preferência durante um massageamento, que tornavam os membros inferiores brilhosos e escorregadios. Suponho que além de facilitar a massagem, permitia colocar em evidência a musculatura dos atletas.
O atual Bairro São Cristóvão, chamava-se na época “Cruzeiro”, “Avenida”, “Sete Casa”, era o grande celeiro do futebol itabaianense. Do time de Seu Mané Barraca saíram poucos craques.
Seu Manuel, como gostava de ser chamado, era um velho rezador, doutor em mandingas, que quebrava pedras para sobreviver e gostava de futebol.
Seu Manuel tinha um time de meninos, os “11 perigos”. Em frente à sua casa existia um bom campo de pelada, que a molecada do Beco Novo usava com frequência. Era difícil derrotar o time de seu Manuel em seus domínios, principalmente com ele apitando. O clássico das manhãs de domingo, era o time de Carlos Alberto Pinheiro (“Bem”), (onde eu jogava), contra o time de seu Manuel. Uma disputa à altura de um fla-flu, com Maracanã lotado.
Seu Manuel era de família tradicional em Itabaiana, “os Barracas”, seu Euclides, guarda-noturno e fiscal do cinema de Zeca Mesquita; seu João, sapateiro, simpatizante do comunismo, pai dos craques Cosme e Damião, que não foram mais longe no futebol porque eram muito franzinos, os dois juntos não pesavam mais de 30 quilos. O Cosme, mais magrinho, era um virtuoso com a bola nos pés. Gente respeitada.
Eu já nasci querendo ser um centro avante (center forward), e em parte conseguir. Fui titular do São Paulo de Roberto de Orece, do Bahia de Melcíades, do Santos de Avací e do Cantagalo de Chico.
Na década de 1960, o Dr. Pedro Garcia Moreno aceitou tomar conta do Itabaiana. Foi uma revolução, resolveu criar um juvenil, e entregou o comando a um disciplinador, Miguel de Rola. Com ele aprendi a chegar na hora nos compromissos.
Os meninos foram chamados para fazer um teste, sábado pela tarde, no velho Etelvino Mendonça. Era a minha chance. Como já trabalhava fichado, aos 14 anos, os treinos aos sábados seria um problema, mas dava-se um jeito.
A primeira dificuldade foi escolher a chuteira. Dr. Pedro encomendou 30 pares a Joãozinho Baú, como éramos meninos, a maior era 42. Ninguém poderia adivinhar que aos 14 anos eu já calçasse 44. E agora, a minha primeira chuteira era bem menor que o meu pé.
Acostumado a jogar descalço, a chuteira fazendo calo, os pés queimando, e sem poder perder a chance. Minha carreira futebolística não poderia ter ido longe.
Em 19 de novembro de 1969, aos 15 anos, eu estava ao pé do rádio, emocionado com Pelé, que dedicou o seu milésimo gol as crianças pobres do Brasil.
Mamãe, sentada na máquina de costura, cansada da vida, das dificuldades da pobreza, me chamou a realidade: - “vá estudar, a escola é o único caminho. Através do futebol, não é possível sair do buraco. Pelé só tem um. O funil é muito estreito.”
A escola pública, era um caminho generoso de ascensão social. Deu certo. Virei cidadão! Quando recebi o diploma de médico, mamãe sentenciou: - “você me deve muito!”
Devo!
Antonio Samarone. Médico sanitarista.
(Por Antonio Samarone).
O futebol era uma brincadeira. Nada de “escolinhas”, preparando um futuro profissional. O nosso desejo supremo era bater bola, brincar de bola, jogar pelada, e para isso qualquer lugar servia.
A começar pelo leito da rua. Duas pedras como trave, três de cada lado e uma bola. Cada jogo era uma final de Copa do Mundo. No final, com vitória ou derrota, sobravam os dedos desmentidos, estropiados, os joelhos ralados, a constante peleja pelo gol e a vibração incontida.
À época não existia o VAR. Cada gol era uma confusão, gritos, para saber se foi gol ou foi por cima.
A grande dificuldade da brincadeira era a bola. Ninguém que eu conhecia tinha uma bola. Nossas peladas eram com bola de meia. Explico: se pegava uma meia velha, enchia-se de pano, dava-se uma arredondada e a pelota estava pronta.
Depois apareceu a bola de borracha, um inferno, pulava muito. Finalmente, veio a bola Pelé. Para nossa sorte, Rosa de Rosalvo do Cabo Quirino, criou coragem, foi ao armazém e roubou uma bola Pelé. Até hoje não sei como ele saiu sem ser visto. Foi uma festa no Beco Novo, tínhamos uma bola.
Muito tempo depois, Beijo de Seu Bebé, ganhou do irmão que morava em São Paulo, uma couraça número cinco, quase profissional. Foi a primeira e a única bola de couro em minha rua.
Tudo era difícil.
A bola oficial daquele tempo era uma verdadeira bucha, de couro mal curtido (sola), costurada à mão pelo velho Mestre Dé, que se batesse de jeito, era nocaute inevitável. Chamava-se “bola de boca”. Comprava-se a câmara de ar, que possuía uma válvula comprida conhecida como pito. Ao se encher a bola precisava-se acomodar o pito para dentro, e só depois é que se fechava o último nó. Exatamente na “boca” da bola.
É claro que já existiam as bolas industrializadas, mais parecidas com as atuais, conhecidas como bolas argentinas. Raras e de preço incompatível com o poder aquisitivo daquela época.
Mas voltemos as “bolas de boca”. E quando chovia? Aí, meu amigo, o couro encharcava e a quase redondinha ficava oval e pesava mais de quilo. Era costume antes das partidas passar-se sebo nas bolas, para reduzir os inconvenientes do couro ressecado, e ajudar na conservação de tão raro objeto.
Somente quem conheceu as antigas bolas de boca, as chuteiras de Joãozinho Baú e os antigos “gramados” - na verdade, malicia, barro e piçarra - será capaz de entender o antigo ditado: “futebol é prá homem”. Era mesmo!
As primeiras incorporações tecnológicas do futebol itabaianense foram o suporte, a atadura e o linimento. O primeiro era uma proteção de borracha que se usava sob o calção, com o suposto objetivo de proteger as “partes fracas” do atleta; o segundo era utilizado para enfaixarem-se os pés dos atletas; e o terceiro era uma espécie de óleo canforado que se aplicava nas pernas dos jogadores, de preferência durante um massageamento, que tornavam os membros inferiores brilhosos e escorregadios. Suponho que além de facilitar a massagem, permitia colocar em evidência a musculatura dos atletas.
O atual Bairro São Cristóvão, chamava-se na época “Cruzeiro”, “Avenida”, “Sete Casa”, era o grande celeiro do futebol itabaianense. Do time de Seu Mané Barraca saíram poucos craques.
Seu Manuel, como gostava de ser chamado, era um velho rezador, doutor em mandingas, que quebrava pedras para sobreviver e gostava de futebol.
Seu Manuel tinha um time de meninos, os “11 perigos”. Em frente à sua casa existia um bom campo de pelada, que a molecada do Beco Novo usava com frequência. Era difícil derrotar o time de seu Manuel em seus domínios, principalmente com ele apitando. O clássico das manhãs de domingo, era o time de Carlos Alberto Pinheiro (“Bem”), (onde eu jogava), contra o time de seu Manuel. Uma disputa à altura de um fla-flu, com Maracanã lotado.
Seu Manuel era de família tradicional em Itabaiana, “os Barracas”, seu Euclides, guarda-noturno e fiscal do cinema de Zeca Mesquita; seu João, sapateiro, simpatizante do comunismo, pai dos craques Cosme e Damião, que não foram mais longe no futebol porque eram muito franzinos, os dois juntos não pesavam mais de 30 quilos. O Cosme, mais magrinho, era um virtuoso com a bola nos pés. Gente respeitada.
Eu já nasci querendo ser um centro avante (center forward), e em parte conseguir. Fui titular do São Paulo de Roberto de Orece, do Bahia de Melcíades, do Santos de Avací e do Cantagalo de Chico.
Na década de 1960, o Dr. Pedro Garcia Moreno aceitou tomar conta do Itabaiana. Foi uma revolução, resolveu criar um juvenil, e entregou o comando a um disciplinador, Miguel de Rola. Com ele aprendi a chegar na hora nos compromissos.
Os meninos foram chamados para fazer um teste, sábado pela tarde, no velho Etelvino Mendonça. Era a minha chance. Como já trabalhava fichado, aos 14 anos, os treinos aos sábados seria um problema, mas dava-se um jeito.
A primeira dificuldade foi escolher a chuteira. Dr. Pedro encomendou 30 pares a Joãozinho Baú, como éramos meninos, a maior era 42. Ninguém poderia adivinhar que aos 14 anos eu já calçasse 44. E agora, a minha primeira chuteira era bem menor que o meu pé.
Acostumado a jogar descalço, a chuteira fazendo calo, os pés queimando, e sem poder perder a chance. Minha carreira futebolística não poderia ter ido longe.
Em 19 de novembro de 1969, aos 15 anos, eu estava ao pé do rádio, emocionado com Pelé, que dedicou o seu milésimo gol as crianças pobres do Brasil.
Mamãe, sentada na máquina de costura, cansada da vida, das dificuldades da pobreza, me chamou a realidade: - “vá estudar, a escola é o único caminho. Através do futebol, não é possível sair do buraco. Pelé só tem um. O funil é muito estreito.”
A escola pública, era um caminho generoso de ascensão social. Deu certo. Virei cidadão! Quando recebi o diploma de médico, mamãe sentenciou: - “você me deve muito!”
Devo!
Antonio Samarone. Médico sanitarista.
quinta-feira, 10 de outubro de 2024
O MACONHISMO EM ITABAIANA.
O maconhismo em Itabaiana.
(Por Antônio Samarone).
Como legalizar a maconha virou moda no mundo civilizado, e até a Marlboro já está pensando em produzir o cigarro do demônio, eu resolvi contar o que sei, por ouvi dizer, sobre a Cannabis sativa em Itabaiana.
Os benefícios medicinais da maconha são incontestáveis. A medicina não me deixa mentir: os canabinoides estão liberados para os ricos.
Hoje, o Dr. Pedro da Costa Melo Neto, neto de Pedro Brilhante, filho de Marlene, a irmã de Arturzinho, é uma autoridade médica no Brasil, no uso da Cannabis sativa medicinal. Aliás, ela sempre foi medicinal. Observem os autores desse livro de medicina, na foto.
Tendo como motivação, que os dois primeiros trabalhos sobre a maconha no Brasil, foram escritos por médicos sergipanos: “Os fumadores de maconha: efeitos e males do vício”, trabalho de Rodrigues Dória, apresentado em 27/12/1915, no II Congresso Científico Pan-americano, em Washington; e o “Aspectos do maconhismo em Sergipe”, escrito por Garcia Moreno, em 1949.
As sumidades floridas do fumo d’Angola são usadas em Itabaiana desde os tempos imemoriais. A Cannabis sativa – maconha, cânhamo, pito do pango, liamba, diamba, riamba, marijuana, rafi, fininho, baseado, mourão, erva maldita, cheio, fumo brabo, gongo, malva, fêmea, maricas e ópio de pobre, já foi de largo uso em Sergipe.
Apressadamente, se contava que a maconha em Itabaiana foi trazida por dois jogadores de futebol, vindo do Rio de Janeiro; outros, mais antigos, achavam que foram os filhos de um de mandachuva do Beco Novo, quem trouxe a novidade. Eu procurei saber, e a prática vem de muito longe.
Eu conheci em Itabaiana Hosono, um mameluco, pele bronzeada e cabelos lisos, que morava às margens leste do Açude Velho. Um senhor paneleiro, pai de santo, dono de um terreiro de “candomblé de caboclo”, onde os rituais da jurema eram realizados. Foi lá que eu soube da maconha.
Na Itabaiana daquele tempo, Hosono era considerado um macumbeiro. Na verdade, era mais um pajé!
Nas festas de São Cosme e Damião, a molecada do Beco Novo descia pela estrada do Batula, passava-se por um cemitério de anjos, para se chegar ao terreiro de Hosono; andando-se mais um pouco, em direção ao lagamar, chegava-se ao terreiro de João de Filipinho. No pé da serra, ficava o terreiro de Cidália. Era o nosso vale do amanhecer.
A reduzida “classe média”, os brancos bem-nascidos da Rua do Sol, iam escondidos. A casa de João de Filipinho só andava cheia. Se existiam outros terreiros em Itabaiana na década de 1960, eu não lembro.
Hosono era uma figura espiritualmente forte, enigmática, misteriosa, que causava medo e assombração a meninada. Eu me pelava. Não tinha coragem de ir sozinho aos terreiros. Só ia em grupo, dias de festas, e eu ficava de fora, longe... A minha turma do Beco Novo era destemida: liderada por Val de Euclides Barraca.
Hosono, era irmão de Perrecheu, e casado com Dona Rosa (Mãe de Santo). Tiveram três filhos: Milicoia, Celsa e Pedro Cego.
Ouvi dizer que nos terreiros usava-se o pito de pango, ritualisticamente, em dias especiais e raros. Uma tradição deixada pelos escravos. Basicamente as inflorescências femininas.
A colheita se fazia na maturidade da planta. As inflorescências femininas, com algumas folhas e a palha eram dessecadas à sombra, expostas a correntes de ar. Depois de algumas noites, de preferência com lua cheia, a liamba ficava ao relento para receber o sereno da madruga, para ficarem curtidas ou sofrerem fermentação. Ao final, estavam prontas para o uso.
A maconha era bebida ou fumada, coletivamente, num grande cachimbo de fornilho de barro enegrecido, com a fumaça da jurema verde. Fumava-se e cantavam-se loas.
O cabo ou haste do cachimbo era um canudo de pita, caule fistuloso de uma planta chamada canudeiro (Carpotroche brasiliensis Endl); enfeitado com anéis e riscos feitos com a pirogravura. Os mais avexados, faziam o baseado com palha seca de milho.
Se dizia no Beco Novo que Hosono possuía um “marica de cabaça”, todo enfeitado, mas eu nunca vi.
Na feira de Itabaiana, na banca de Dona Anita, onde se vendia de tudo, de anil a mucunã; podia-se encontrar esses canudos de cachimbo, de todos os tamanhos e acabamentos. Era tido como um comércio de gente muito pobre.
João Francisco, meu tio, repetia um aforismo: “Eu prefiro vender canudo de cachimbo na feira, que ser empregado de alguém”. Esse era o espírito empreendedor dos itabaianenses, muito antes do neoliberalismo.
Antonio Samarone - médico sanitarista
(Por Antônio Samarone).
Como legalizar a maconha virou moda no mundo civilizado, e até a Marlboro já está pensando em produzir o cigarro do demônio, eu resolvi contar o que sei, por ouvi dizer, sobre a Cannabis sativa em Itabaiana.
Os benefícios medicinais da maconha são incontestáveis. A medicina não me deixa mentir: os canabinoides estão liberados para os ricos.
Hoje, o Dr. Pedro da Costa Melo Neto, neto de Pedro Brilhante, filho de Marlene, a irmã de Arturzinho, é uma autoridade médica no Brasil, no uso da Cannabis sativa medicinal. Aliás, ela sempre foi medicinal. Observem os autores desse livro de medicina, na foto.
Tendo como motivação, que os dois primeiros trabalhos sobre a maconha no Brasil, foram escritos por médicos sergipanos: “Os fumadores de maconha: efeitos e males do vício”, trabalho de Rodrigues Dória, apresentado em 27/12/1915, no II Congresso Científico Pan-americano, em Washington; e o “Aspectos do maconhismo em Sergipe”, escrito por Garcia Moreno, em 1949.
As sumidades floridas do fumo d’Angola são usadas em Itabaiana desde os tempos imemoriais. A Cannabis sativa – maconha, cânhamo, pito do pango, liamba, diamba, riamba, marijuana, rafi, fininho, baseado, mourão, erva maldita, cheio, fumo brabo, gongo, malva, fêmea, maricas e ópio de pobre, já foi de largo uso em Sergipe.
Apressadamente, se contava que a maconha em Itabaiana foi trazida por dois jogadores de futebol, vindo do Rio de Janeiro; outros, mais antigos, achavam que foram os filhos de um de mandachuva do Beco Novo, quem trouxe a novidade. Eu procurei saber, e a prática vem de muito longe.
Eu conheci em Itabaiana Hosono, um mameluco, pele bronzeada e cabelos lisos, que morava às margens leste do Açude Velho. Um senhor paneleiro, pai de santo, dono de um terreiro de “candomblé de caboclo”, onde os rituais da jurema eram realizados. Foi lá que eu soube da maconha.
Na Itabaiana daquele tempo, Hosono era considerado um macumbeiro. Na verdade, era mais um pajé!
Nas festas de São Cosme e Damião, a molecada do Beco Novo descia pela estrada do Batula, passava-se por um cemitério de anjos, para se chegar ao terreiro de Hosono; andando-se mais um pouco, em direção ao lagamar, chegava-se ao terreiro de João de Filipinho. No pé da serra, ficava o terreiro de Cidália. Era o nosso vale do amanhecer.
A reduzida “classe média”, os brancos bem-nascidos da Rua do Sol, iam escondidos. A casa de João de Filipinho só andava cheia. Se existiam outros terreiros em Itabaiana na década de 1960, eu não lembro.
Hosono era uma figura espiritualmente forte, enigmática, misteriosa, que causava medo e assombração a meninada. Eu me pelava. Não tinha coragem de ir sozinho aos terreiros. Só ia em grupo, dias de festas, e eu ficava de fora, longe... A minha turma do Beco Novo era destemida: liderada por Val de Euclides Barraca.
Hosono, era irmão de Perrecheu, e casado com Dona Rosa (Mãe de Santo). Tiveram três filhos: Milicoia, Celsa e Pedro Cego.
Ouvi dizer que nos terreiros usava-se o pito de pango, ritualisticamente, em dias especiais e raros. Uma tradição deixada pelos escravos. Basicamente as inflorescências femininas.
A colheita se fazia na maturidade da planta. As inflorescências femininas, com algumas folhas e a palha eram dessecadas à sombra, expostas a correntes de ar. Depois de algumas noites, de preferência com lua cheia, a liamba ficava ao relento para receber o sereno da madruga, para ficarem curtidas ou sofrerem fermentação. Ao final, estavam prontas para o uso.
A maconha era bebida ou fumada, coletivamente, num grande cachimbo de fornilho de barro enegrecido, com a fumaça da jurema verde. Fumava-se e cantavam-se loas.
O cabo ou haste do cachimbo era um canudo de pita, caule fistuloso de uma planta chamada canudeiro (Carpotroche brasiliensis Endl); enfeitado com anéis e riscos feitos com a pirogravura. Os mais avexados, faziam o baseado com palha seca de milho.
Se dizia no Beco Novo que Hosono possuía um “marica de cabaça”, todo enfeitado, mas eu nunca vi.
Na feira de Itabaiana, na banca de Dona Anita, onde se vendia de tudo, de anil a mucunã; podia-se encontrar esses canudos de cachimbo, de todos os tamanhos e acabamentos. Era tido como um comércio de gente muito pobre.
João Francisco, meu tio, repetia um aforismo: “Eu prefiro vender canudo de cachimbo na feira, que ser empregado de alguém”. Esse era o espírito empreendedor dos itabaianenses, muito antes do neoliberalismo.
Antonio Samarone - médico sanitarista
sábado, 5 de outubro de 2024
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E AS ELEIÇÕES.
A Inteligência Artificial e as Eleições.
(por Antonio Samarone)
No final da década de 1950, Euclides Paes Mendonça, o Sultão itabaianense, espalhou que tinha comprado uma máquina inteligente, que identificava os votos de cada um. A oposição amedrontada, tremeu nas bases.
Hoje, as máquinas não sabem apenas em quem votamos, sabem o que pensamos. Somos ameaçados pelo domínio da inteligência artificial.
Quando eu conheci um computador, achei que era apenas uma máquina de escrever sofisticada. Primeiro, a IBM fabricava computadores grandes, só para as empresas. Não sei quem, mas começaram a produzir computadores individuais. Depois veio a Internet. Os computadores passaram a trocar informações, entre si.
Não me lembro do meu primeiro computador. Os mais sabidos, compravam os componentes e montavam em casa. Hoje, vivo ligado, pelo iPhone (O smartphone é um confessionário). Se eu decidir pescar no final de semana, os aplicativos passam a me oferecer anzóis e iscas. Não sei como peste eles ficam sabendo.
No Início da década de 1990, um jovem professor da UFS, Engenheiro Evandro Curvelo Hora, convidou os interessados para uma palestra na UFS, na sala dos conselhos, onde uma nova bruxaria seria apresentada: a Internet. Fui, e fiquei encantado com a novidade.
Os autoproclamados Overlords (Suserano), decidiram controlar a máquina orgânica. Desde a introdução da Internet (1990), estabeleceu-se um sistema massivo de controle do cérebro humano. A remoção o pensamento crítico.
Em seguida, as redes sociais, o Big Data, os algoritmos, as máquinas inteligentes e os robôs. Mais recente, a inteligência artificial, encarregada de homogeneizar e simplificar o pensamento humano.
O neuro cientista Nicolelis acha que nem é inteligência, nem é artificial. Não se trará de construir uma máquina que substitua o cérebro. Isso é impossível. O cérebro é analógico, resultado da evolução de milhões de ano.
Eles querem se apoderar do cérebro humano, transformá-lo em uma maquineta digital, controlar cada pensamento, movimento, sonho, emoção, memória. É preciso um algoritmo para extraí-lo do cérebro humano.
A natureza, a vida, o cérebro e a consciência humana são analógicas. A digitalização da vida é um sistema binário, um retrocesso do processo evolutivo. Os cérebros futuros serão simplificados!
O capital financeiro precisa afastar o trabalho, do processo de geração de riquezas. A automação é o caminho. A substituição de tarefas humanas pela inteligência artificial, completa a exclusão.
Não há dúvidas que os computadores impactaram positivamente muitos aspectos da vida, aumentaram a precisão e a velocidade do processamento dos dados, tornaram certas tarefas mais seguras e autônomas, prescindindo do trabalho humano. As taxas de desemprego disparam.
Vende-se a ideologia que os cérebros humanos estão se tornando obsoletos.
No filme Matrix, os computadores controlariam os cérebros humanos. A alegoria da caverna, de Platão, volta com força. Só poderemos ver uma realidade digital, construída com informações do passado.
O Coronel Euclides Paes Mendonça, com a sua máquina de identificar votos, antecipou o Big Data, que torna legível os nossos desejos. O próximo passo é a “Brainet” - uma rede neural global, conectando as mentes humanas, diretamente entre si e com computadores.
Voltarei às Cavernas!
Antonio Samarone (médico sanitarista)
(por Antonio Samarone)
No final da década de 1950, Euclides Paes Mendonça, o Sultão itabaianense, espalhou que tinha comprado uma máquina inteligente, que identificava os votos de cada um. A oposição amedrontada, tremeu nas bases.
Hoje, as máquinas não sabem apenas em quem votamos, sabem o que pensamos. Somos ameaçados pelo domínio da inteligência artificial.
Quando eu conheci um computador, achei que era apenas uma máquina de escrever sofisticada. Primeiro, a IBM fabricava computadores grandes, só para as empresas. Não sei quem, mas começaram a produzir computadores individuais. Depois veio a Internet. Os computadores passaram a trocar informações, entre si.
Não me lembro do meu primeiro computador. Os mais sabidos, compravam os componentes e montavam em casa. Hoje, vivo ligado, pelo iPhone (O smartphone é um confessionário). Se eu decidir pescar no final de semana, os aplicativos passam a me oferecer anzóis e iscas. Não sei como peste eles ficam sabendo.
No Início da década de 1990, um jovem professor da UFS, Engenheiro Evandro Curvelo Hora, convidou os interessados para uma palestra na UFS, na sala dos conselhos, onde uma nova bruxaria seria apresentada: a Internet. Fui, e fiquei encantado com a novidade.
Os autoproclamados Overlords (Suserano), decidiram controlar a máquina orgânica. Desde a introdução da Internet (1990), estabeleceu-se um sistema massivo de controle do cérebro humano. A remoção o pensamento crítico.
Em seguida, as redes sociais, o Big Data, os algoritmos, as máquinas inteligentes e os robôs. Mais recente, a inteligência artificial, encarregada de homogeneizar e simplificar o pensamento humano.
O neuro cientista Nicolelis acha que nem é inteligência, nem é artificial. Não se trará de construir uma máquina que substitua o cérebro. Isso é impossível. O cérebro é analógico, resultado da evolução de milhões de ano.
Eles querem se apoderar do cérebro humano, transformá-lo em uma maquineta digital, controlar cada pensamento, movimento, sonho, emoção, memória. É preciso um algoritmo para extraí-lo do cérebro humano.
A natureza, a vida, o cérebro e a consciência humana são analógicas. A digitalização da vida é um sistema binário, um retrocesso do processo evolutivo. Os cérebros futuros serão simplificados!
O capital financeiro precisa afastar o trabalho, do processo de geração de riquezas. A automação é o caminho. A substituição de tarefas humanas pela inteligência artificial, completa a exclusão.
Não há dúvidas que os computadores impactaram positivamente muitos aspectos da vida, aumentaram a precisão e a velocidade do processamento dos dados, tornaram certas tarefas mais seguras e autônomas, prescindindo do trabalho humano. As taxas de desemprego disparam.
Vende-se a ideologia que os cérebros humanos estão se tornando obsoletos.
No filme Matrix, os computadores controlariam os cérebros humanos. A alegoria da caverna, de Platão, volta com força. Só poderemos ver uma realidade digital, construída com informações do passado.
O Coronel Euclides Paes Mendonça, com a sua máquina de identificar votos, antecipou o Big Data, que torna legível os nossos desejos. O próximo passo é a “Brainet” - uma rede neural global, conectando as mentes humanas, diretamente entre si e com computadores.
Voltarei às Cavernas!
Antonio Samarone (médico sanitarista)
quinta-feira, 3 de outubro de 2024
ITABAIANA - 350 ANOS. ANTONIO LEITE SAMPAIO.
Itabaiana – 350 anos. Antonio Leite Sampaio.
(por Antonio Samarone)
Todo final de tarde, um senhor elegantemente vestido, terno de linho branco, chapéu panamá, gravata de seda, andar elegante e cabeça erguida, cruzava o Beco Novo. Um Príncipe, um Leite Sampaio, um aristocrata, descendente direto de José Matheus da Graça Leite Sampaio, Comendador da Ordem de Cristo e herói da Independência de Sergipe. Faleceu em 29 de janeiro de 1829.
Esse Príncipe nunca trabalhou. Foi croupier de uma cafua de baralho, na Rua da Pedreira. Sempre elegante, boêmio, inveterado, seresteiro e dependente do álcool. Como ele se denominava: um “cachaceiro do povo”, herói das bodegas e cantor dos velórios.
O Príncipe tinha uma moléstia na bexiga: quando bebia, mijava nas calças. Como o terno era branco, o mijo que corria entre as pernas ficava muito evidente. Os mais antigos, em Itabaiana, conheceram esse personagem: Osvaldo Leite Sampaio (Santinho de Nia).
Santinho de Nia era filho de Manuel Francisco Leite Sampaio (Manesinho de Babinha), Intendente de Itabaiana (1906 – 1907), e Maria Saturnina de Jesus (Dona Nia). Santinho, faleceu em 1973.
Santinho de Nia casou com Dona Adélia de Oliveira Sampaio. Tiveram doze filhos, três sobreviveram: Zequinha, que herdou o comando do jogo; Caçulinha, casada com Pedro Nila e o protagonista desse texto, Antonio Leite Sampaio (Tonho Leite).
Antonio Leite Sampaio nasceu em 16 de março de 1937, na Rua do Futuro, em Itabaiana, filho de Santinho de Nia e Dona Adélia. Fez as primeiras letras com Dona Maria, a mãe do Desembargador Vladimir Carvalho. Tonho Leite concluiu o primário, no Grupo Escolar Guilhermino Bezerra.
Fez exame de admissão para a primeira turma do Ginásio Estadual de Itabaiana (o famoso Murilo Braga), em 1949. Uma turma de quarenta alunos. Somente vinte, concluíram, em 1953. Sete homens (veja a foto) e treze mulheres.
Zé Queiroz, Paulinho de Doci e Tonho Leite, da primeira turma do Murilo Braga, foram altos funcionários do Banco do Brasil. Antes, Petronio, Osvaldo e Alberto, filhos de Seu Vivi e Dona Iaiazinha, também fizeram carreira no BB.
Tonho Leite é da primeira geração que teve acesso ao Ginásio, em Itabaiana. Essa vantagem facilitou o futuro da juventude local.
O primeiro emprego de Tonho Leite, foi no DNOCS, através do prestígio de Vieira Lima. Foi trabalhar na construção de Açudes.
Vieira Lima, injustamente esquecido, foi uma personalidade importante em Itabaiana. Criou uma família numerosa e influente: Dulce, Neusa, Sonia, Ivone, Fernando, Milton e Terêncio. Não me lembro de todos. Vieira Lima era o Barão do Beco Novo.
Tonho Leite foi balconista do Armazém de Euclides Paes Mendonça, onde trabalhavam Serapião, Anísio Goiouiou, Zé Meu Mano, Chico do Cantagalo. Certa feita, Santinho de Nia, embriagado, desacatou o Coronel: - “Euclides, você é um merda.” Foi o suficiente, foi recolhido à cadeia pública.
No dia seguinte, Tonho Leite foi conversar com o patrão: - “Euclides, o senhor prendeu o meu pai?” Prendi! Vá lá e diga a Solon (o delegado), que solte. Santinho foi solto e Tonho Leite não regressou ao serviço, pela desconsideração. Abandonou o emprego.
As contradições: como havia dito, Santinho de Nia nunca trabalhou. De repente, ele se encontrava aposentado, como ferroviário. Tonho Leite quis saber: - “Pai, Itabaiana nunca teve trem e o senhor se aposentou como ferroviário.” O pai respondeu: - “um milagre de Euclides de Paes Mendonça.”
Tonho Leite foi o meia esquerda do Margem da Serra e do Canta Galo. Um jogador clássico. Me fez uma correção: - “você escreveu que José Augusto Melo era o único itabaianense que não possuia apelido. Errou! Na juventude, ele era conhecido como “Pampia”. Retiro o que escrevi.
Quando saiu do armazém de Euclides, Tonho Leite ficou desempregado. Passou a frequentar a mesa de Gamão, da loja de Filomeno. Uma roda de viciados (Etelvino Mendonça, Zé de Cabocla, Carlinho Siqueira e Vicentinho).
Como era regra, Tonho Leite foi tentar a sorte em São Paulo. Por lá, passou dois anos. Retornou a Itabaiana.
Casou-se em 1964, com Irla Monteiro, filha de Seu Maurício Andrade (bilheteiro do cinema de Zeca Mesquita) e Dona Preta (Maria Monteiro de Andrade), filha de Zezé do Fumo, irmão de Maria do Céu, a minha avó. Dona Preta foi professora de mamãe, nas Flechas. Eita mundo pequeno!
Da união Tonho Leite com Irla Monteiro, nasceram cinco filhos: Adriana, Alex, Breno, Doutel e Zaila. Doutel? Isso mesmo, uma homenagem ao líder trabalhista Doutel de Andrade. Tonho Leite era brizolista.
Tonho Leite ingressou e fez carreira no Banco Brasil.
Tonho de Adélia de Santinho de Nia, eram assim, que Antonio Leite Sampaio, um fidalgo itabaianense, era conhecido na infância. Um homem esclarecido, inteligente, cordial, que mantém fortes raízes com a cidade serrana. Tonho continua com a memória afiada, antenado, aos 87 anos.
Antonio Samarone – médico sanitarista.
(por Antonio Samarone)
Todo final de tarde, um senhor elegantemente vestido, terno de linho branco, chapéu panamá, gravata de seda, andar elegante e cabeça erguida, cruzava o Beco Novo. Um Príncipe, um Leite Sampaio, um aristocrata, descendente direto de José Matheus da Graça Leite Sampaio, Comendador da Ordem de Cristo e herói da Independência de Sergipe. Faleceu em 29 de janeiro de 1829.
Esse Príncipe nunca trabalhou. Foi croupier de uma cafua de baralho, na Rua da Pedreira. Sempre elegante, boêmio, inveterado, seresteiro e dependente do álcool. Como ele se denominava: um “cachaceiro do povo”, herói das bodegas e cantor dos velórios.
O Príncipe tinha uma moléstia na bexiga: quando bebia, mijava nas calças. Como o terno era branco, o mijo que corria entre as pernas ficava muito evidente. Os mais antigos, em Itabaiana, conheceram esse personagem: Osvaldo Leite Sampaio (Santinho de Nia).
Santinho de Nia era filho de Manuel Francisco Leite Sampaio (Manesinho de Babinha), Intendente de Itabaiana (1906 – 1907), e Maria Saturnina de Jesus (Dona Nia). Santinho, faleceu em 1973.
Santinho de Nia casou com Dona Adélia de Oliveira Sampaio. Tiveram doze filhos, três sobreviveram: Zequinha, que herdou o comando do jogo; Caçulinha, casada com Pedro Nila e o protagonista desse texto, Antonio Leite Sampaio (Tonho Leite).
Antonio Leite Sampaio nasceu em 16 de março de 1937, na Rua do Futuro, em Itabaiana, filho de Santinho de Nia e Dona Adélia. Fez as primeiras letras com Dona Maria, a mãe do Desembargador Vladimir Carvalho. Tonho Leite concluiu o primário, no Grupo Escolar Guilhermino Bezerra.
Fez exame de admissão para a primeira turma do Ginásio Estadual de Itabaiana (o famoso Murilo Braga), em 1949. Uma turma de quarenta alunos. Somente vinte, concluíram, em 1953. Sete homens (veja a foto) e treze mulheres.
Zé Queiroz, Paulinho de Doci e Tonho Leite, da primeira turma do Murilo Braga, foram altos funcionários do Banco do Brasil. Antes, Petronio, Osvaldo e Alberto, filhos de Seu Vivi e Dona Iaiazinha, também fizeram carreira no BB.
Tonho Leite é da primeira geração que teve acesso ao Ginásio, em Itabaiana. Essa vantagem facilitou o futuro da juventude local.
O primeiro emprego de Tonho Leite, foi no DNOCS, através do prestígio de Vieira Lima. Foi trabalhar na construção de Açudes.
Vieira Lima, injustamente esquecido, foi uma personalidade importante em Itabaiana. Criou uma família numerosa e influente: Dulce, Neusa, Sonia, Ivone, Fernando, Milton e Terêncio. Não me lembro de todos. Vieira Lima era o Barão do Beco Novo.
Tonho Leite foi balconista do Armazém de Euclides Paes Mendonça, onde trabalhavam Serapião, Anísio Goiouiou, Zé Meu Mano, Chico do Cantagalo. Certa feita, Santinho de Nia, embriagado, desacatou o Coronel: - “Euclides, você é um merda.” Foi o suficiente, foi recolhido à cadeia pública.
No dia seguinte, Tonho Leite foi conversar com o patrão: - “Euclides, o senhor prendeu o meu pai?” Prendi! Vá lá e diga a Solon (o delegado), que solte. Santinho foi solto e Tonho Leite não regressou ao serviço, pela desconsideração. Abandonou o emprego.
As contradições: como havia dito, Santinho de Nia nunca trabalhou. De repente, ele se encontrava aposentado, como ferroviário. Tonho Leite quis saber: - “Pai, Itabaiana nunca teve trem e o senhor se aposentou como ferroviário.” O pai respondeu: - “um milagre de Euclides de Paes Mendonça.”
Tonho Leite foi o meia esquerda do Margem da Serra e do Canta Galo. Um jogador clássico. Me fez uma correção: - “você escreveu que José Augusto Melo era o único itabaianense que não possuia apelido. Errou! Na juventude, ele era conhecido como “Pampia”. Retiro o que escrevi.
Quando saiu do armazém de Euclides, Tonho Leite ficou desempregado. Passou a frequentar a mesa de Gamão, da loja de Filomeno. Uma roda de viciados (Etelvino Mendonça, Zé de Cabocla, Carlinho Siqueira e Vicentinho).
Como era regra, Tonho Leite foi tentar a sorte em São Paulo. Por lá, passou dois anos. Retornou a Itabaiana.
Casou-se em 1964, com Irla Monteiro, filha de Seu Maurício Andrade (bilheteiro do cinema de Zeca Mesquita) e Dona Preta (Maria Monteiro de Andrade), filha de Zezé do Fumo, irmão de Maria do Céu, a minha avó. Dona Preta foi professora de mamãe, nas Flechas. Eita mundo pequeno!
Da união Tonho Leite com Irla Monteiro, nasceram cinco filhos: Adriana, Alex, Breno, Doutel e Zaila. Doutel? Isso mesmo, uma homenagem ao líder trabalhista Doutel de Andrade. Tonho Leite era brizolista.
Tonho Leite ingressou e fez carreira no Banco Brasil.
Tonho de Adélia de Santinho de Nia, eram assim, que Antonio Leite Sampaio, um fidalgo itabaianense, era conhecido na infância. Um homem esclarecido, inteligente, cordial, que mantém fortes raízes com a cidade serrana. Tonho continua com a memória afiada, antenado, aos 87 anos.
Antonio Samarone – médico sanitarista.
Assinar:
Postagens (Atom)






