terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

AS REDES SOCIAIS


 A força das Redes Sociais.

De forma despretensiosa, puxei o assunto das espreguiçadeiras. Choveu contatos. Uma amiga de Itabaiana tem uma igual as de minha infância. Me mandou a foto.

Sílvio Santos da Capela, tem uma colorida. Clara Angélica deu uma aula, sobre as preguiçosas.

O mestre e jornalista Raimundo Luiz (93 anos), me mandou uma mensagem: "tenho uma de madeira de lei, das antigas, venha buscar que eu lhe dou esse presente."

Não pestanejei: fui buscar o presente e já botei para envernizar.

A espreguiçadeira histórica do meu amigo Raimundo Luiz, será reinaugurada festivamente.

Avisarei aos curiosos.

Antonio Samarone.

EREMITAS E ANACORETAS

 Eremitas e Anacoretas.
(por Antonio Samarone)

A solidão é um luxo da civilização!

Na vida selvagem, o Homo sapiens sempre foi uma espécie rara e ameaçada. O indivíduo não sobrevivia separado da horda, do grupo, do clã e da tribo. A solidão lhe era estranha.

Mesmos os deuses viviam coletivamente no Olimpo. Entretanto, os seus oráculos eram sempre obscuros e indecifráveis. O indivíduo é efêmero, só o coletivo possui permanência.

Deus soltou Adão sozinho no Paraíso, mas logo se arrependeu: “Não é bom que o homem esteja só.” E criou a mulher. A solidão nunca foi bem-vista.

Aristóteles acreditava que o homem era um animal social, logo, não existia lugar para a solidão.

Narciso, filho da ninfa Liríope, herda da mãe uma beleza estonteante. O oráculo Tirésias predisse que Narciso só sobreviveria até conhecer a sua imagem.

Narciso, quando a vê refletida, apaixona-se por si próprio. Vai viver solitariamente. Narciso logo percebe que não pode se apaixonar por sua imagem, ela se transforma com o movimento da água. Narciso comete o suicídio e se transforma numa flor amarela e branca.

A solidão não acaba com a morte. Todo o defunto é por natureza solitário. Chegará sozinho para enfrentar o juízo final. Não existe solidariedade no mundo dos defuntos.

O livro dos mortos dos egípcios, traz um belo poema:

“Só, eu percorro as solidões cósmicas/ um raio de luz emana/ de todo o meu ser./ Sou um ser rodeado de muralhas/ no meio de um universo rodeado de muralhas./ Sou um Solitário no meio/ de minha solidão”.

Morre-se só!

A morte é a eterna solidão. O homem se transforma em sombras a vagar sozinho pelo Cosmo.

A morte cívica condena à solidão temporária. A contemplação necessária aos velhos, independe da solidão.

Vivemos uma solidão involuntária, imposta pelos tempos. “Não existe escolha: ou a solidão ou a vulgaridade.” – Schopenhauer.

Antonio Samarone (médico sanitarista).

JARDINS


 É preciso cultivar o próprio Jardim.
(por Antonio Samarone)

Hoje cedo fiz essa foto, que ilustra o texto. Lembrei-me de Voltaire - (François-Marie Arouet).

“Cândido”, o seu romance mais famoso, foi escrito em três dias, em 1759. O livro busca destruir a esperança da sua época.

O personagem central, doutor Pangloss, percorreu o mundo em busca de novidades. Em sua passagem pela Turquia, dois vizir e um mufti foram estrangulados, numa revolta camponesa.

No dia seguinte, o doutor Pangloss foi visitar uma pequena fazenda no entorno de Istambul. Curioso, Pangloss perguntou ao proprietário: como se chamava o mufti estrangulado. O velho turco foi sucinto: “não sei!”

Continuou o velho turco: “nunca me preocupo com o que acontece em Constantinopla. Vou lá vender os meus produtos. Em geral, as pessoas que se metem na política encontram um fim miserável.”

Acrescentou o turco: “Eu e meus filhos cultivamos essa pequena fazenda, e o nosso trabalho nos livra de três grandes males: cansaço, vício e necessidade.”

Por fim, sentenciou o velho turco: “Il faut cultiver notre jardin”. O que Voltaire quis dizer com o seu conselho de jardinagem?

Na Itabaiana antiga, o mestre alfaiate Orpilio Silva, repetiu Voltaire ao seu modo: “Nada depois do povoado Rio das Pedras me interessa. Só o povo de Itabaiana, me encomenda ternos.” Era o seu jardim.

Estou seguindo o conselho de Voltaire e cultivando o meu jardim, com a família, nos subúrbios do Aracaju.

Antonio Samarone. (médico sanitarista).

SEALBA - UM SHOW DO AGRONEGÓCIO


 SEALBA – Um show do agronegócio.
(por Antonio Samarone)

Fui ao maior evento do Agronegócio do Nordeste, no Parque Cunha Menezes, em Itabaiana. Achei que estava em Goiás, Mato Grosso... O que se pensar em grandeza, multiplique por dez. Se movimentou cerca de cem milhões.

Eu não sabia nem da existência desse Parque.

Itabaiana entra nisso pelos negócios. A nossa “agro” é centrada em coentro e cebolinha. A verdade é que Itabaiana entra em uma nova etapa econômica, ganha importância regional.

O intelectual patrício Alberto Carvalho, dizia que Itabaiana exportava cebolas e ironias. Hoje exporta mais. E agora, que passamos Lagarto em população, o otimismo sopra ruidosamente.

Sem entender nem do agro, nem dos negócios, circulei espantado pelos corredores da feira. Uma gente estranha, diferente, todos ricos ou com pose de ricos.

Os políticos distribuindo apertos de mãos e tapinhas nas costas, como sempre.

Pela indumentária e cenário, parecia um evento em Barretos - SP. Não tinha ninguém nem mais ou menos, eram todos ricos. Senti o bafo da riqueza na nuca.

Parei num stands comercial que vendia até bicicletas. Perguntei o preço a uma vendedora, que me olhou de forma desinteressada. Achou que as bicicletas do agro não estavam ao meu alcance, não eram para o meu bico. Se não fossem muito caras, tinha comprado uma, só por birra.

Visitei o stands do famoso arquiteto Itabaianense Edson Passos (foto), o empresário que construiu sozinho um bairro chique em Itabaiana. Para minha surpresa, o homem agora é banqueiro.

Gente, o certo é que Itabaiana vive uma nova expansão econômica.

Não sei os motivos, mas as gestões municipais do grupo de Valmir de Francisquinho, a alma empreendedora dos ceboleiros e o seu espírito competitivo, precisam ser levadas em conta.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

A ALEGRIA MELANCÓLICA DA SOLIDÃO

 A alegria melancólica da solidão.
(por Antonio Samarone)

Dizer que não estávamos preparados para a velhice é uma desculpa mentirosa. Sempre soubemos, apenas fazíamos de conta que era tudo com os outros. O diabo é mais feio do que o pintado? Acho que não...

As grandezas humanas, todas viram cinzas. São aromas da vaidade. A velhice tem os seus próprio métodos, para se gozar a felicidade eterna.

Tornei-me um “suburbanum”. Afastei-me numa “Quinta” longínqua (Solar São José), nas fronteiras da velha Capital, numa zona litigiosa com Aracaju. Entreguei-me ao ócio contemplativo.

Segundo o filosofo patrício, Araponga, filho do sábio Filomeno, “a sabedoria humana passa de uma alma a outra, diretamente, sem leituras. Para que serve ler livros e bibliotecas inteiras? Servem apenas para confundir o espírito, encher de contradições a alma ingênua dos homens.”

Mesmo sendo eu membro da seita “arapongista”, quero discordar do guru. Os livros têm sido grandes parceiros.

Estou a ler o velho sábio sergipano, morto em 1934. João Ribeiro, o velho. (1860 – 1934), intelectualmente, foi o maior sergipano de todos os tempos. Uma companhia disponível a qualquer hora, sem cansaço, mau humor, indisposições ou falta de tempo.

Um imortal de Academias, me perguntou surpreso: “e João Ubaldo Ribeiro não é baiano? É! E quem falou em João Ubaldo? Estou lendo só João Ribeiro, não tem o Ubaldo. Humm! Suspirou a sumidade, assumindo um ar de displicência.

Os livros estão sendo digitalizados pelo Google, todos ou quase todos. Tenho a Biblioteca da Alexandria ao meu dispor. Mesmo os livros queimados pela inquisição e os roídos pelas traças foram recuperados. As letras ficaram nas cinzas e foram recuperadas.
Livros extintos reaparecem!

Dizem que a inteligência artificial não tem limites, resolve todos os enigmas, novos e antigos. Não me sinto seguro em discordar. E se a minha descrença for apenas dificuldades cognitivas, impostas por sequelas da Peste da Covid ou pela idade?

Já solicitei a Dona Florípedes, herdeira da farmacopeia do falecido doutor Mané Barraca, o Elixir de Marapuama, único tônico indicado em meu caso.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

O TESTAMENTO DE OSWALDO CRUZ

 O Testamento de Oswaldo Cruz.
(por Antonio Samarone)

Cercado pela família e por amigos, o grande sanitarista morreu em casa, de insuficiência renal, às 21h10 do dia 11 de fevereiro de 1917, aos 44 anos de idade.

Num texto escrito a lápis, pouco antes de sua morte, Oswaldo Cruz formulou as suas últimas vontades, onde se lê no documento aqui reproduzido:

“Desejo com sinceridade que não se cerque a minha morte dos atavios convencionais com que a sociedade revestiu o ato da nossa retirada do cenário da vida.

Pelo respeito que voto ao pensar alheio não quero capitular de ridículo esses atos: julgo-os para mim completamente dispensáveis e espero que a família que tanto quero, se conformem com esses inofensivos desejos que nasceram da maneira pela qual encaro a morte, fenômeno naturalismo ao qual nada escapa.

Tão geral, tão normal, tão banal é que julgo absolutamente dispensável de frisá-la com cerimônias especiais. Por isso desejaria que se poupasse aos meus a cena de vestimenta do corpo que bem pode ser envolvido num simples lençol.

Nada de convites ou comunicações para enterro, nem missa de sétimo dia. Nem luto tão pouco. Este traz-se no coração e não nas roupas. Peço encarecidamente aos meus que não prolonguem o natural sentimento que trará a minha morte. Que se divirtam, que passeiem, que ajudem ao tempo na benfazeja obra de fazer esquecer.

Não há vantagem alguma de amargurar com lágrimas prolongadas os tão curtos dias de nossa existência. Portanto, que não se usem roupas negras que além de tudo são anti-higiênicas em nosso clima; que procurem diversões, teatros, festas, viagens, afim de que desfaçam essa pequena nuvem que veio empanar a normalidade do viver de todos os dias.

É preciso que nos conformemos com os ditames da natureza.

A meus filhos peço que se não afastem do caminho da honra, do trabalho e do dever, e que empunhem como fanal e o elevem bem alto o nome puro e honrado e imaculado que herdei como o melhor patrimônio da família, e que a eles lego como o maior bem que possuo.

À minha esposa querida, tão sensível, tão difícil de se conformar com as dores da nossa vida, peço que não encare a minha morte como desgraça irreparável; peço que se console com rapidez e não deixe anuviado pela dor esse espírito vivaz, inteligente, espirituoso, que constituía a alegria do nosso lar e o lenitivo pronto para os sofrimentos que por vezes deparávamos.

Aí ficam nossos filhos, outros tantos rebentos em que vamos reviver, garantias seguras da nossa imortalidade que se encarregarão de levar através do espaço e do tempo as porções de nosso corpo e de nosso espírito de que os fizemos depositário, quando ao mundo vieram.

Quanto aos bens de fortuna que deixo, espero que sejam divididos por minha esposa entre os filhos. Espero e rogo que nunca a questão de bens materiais venha trazer a menor discórdia entre os meus: seria para mim a mais dolorosa das contingências. Peço aos meus filhos que acatem sem discussão a divisão que deles fizer minha esposa. “

Oswaldo Cruz.

A ESPREGUIÇADEIRA

 A Espreguiçadeira!
(por Antonio Samarone)

Não almejo o ócio sagrado (o sacerdócio), contento-me com o ócio contemplativo, do espírito e do pensamento.

O trabalho é uma condenação bíblica, uma punição pela transgressão de Adão e Eva: “Comerás o teu pão, com o suor do teu rosto.”

Com o capitalismo o ócio virou preguiça. Não sei se por isso, a preguiça encontra-se entre os sete pecados capitais. Na infância e na velhice o ócio ainda é tolerado.

Na casa de Alaíde, mãe de Fobica funileiro, tinha uma espreguiçadeira. Éramos vizinhos, no Beco do Ouvidor.

Na infância, eu adorava visitá-los para apreciar a habilidade de Fobica furando ralos, num cepo de gameleira e descansar na cadeira preguiçosa da vizinha.

Bendita espreguiçadeira, onde a minha preguiça infantil se deleitava. Não sei se todos sabem o que é dar conforto à preguiça. Condições para a preguiça se manifestar livremente, sem cobranças, sem peso na consciência.

Deixar a preguiça ganhar asas.

Precisamos retomar a tese de Paul Lafargue, genro de Marx, sobre o “Direito à Preguiça”. No século XIX faltavam as condições materiais. Só o trabalho produzia riquezas.

Entretanto, com a inteligência artificial, a automação, a robótica e outras pós-modernidades. Podemos pleitear o direito de não fazer nada, viver ao léu, batendo pernas.

“Uma estranha loucura dominou as classes operárias das nações onde reina a civilização capitalista. Essa loucura traz como consequência misérias individuais e sociais que há séculos torturam a triste humanidade. Essa loucura é o amor ao trabalho, a paixão moribunda que absorve as forças vitais do indivíduo e de sua prole até o esgotamento.” – Lafargue.

Cristo, em seu sermão na montanha, pregou a preguiça: "Contemplai o crescimento dos lírios dos campos; eles não trabalham nem fiam, e não obstante, digo-vos, Salomão, em toda a sua glória, não se vestiu com maior brilho."

Sentir a preguiça tomando o corpo e a alma. A preguiça cantada por Vinicius de Moraes, na praia de Itapoã. Uma preguiça alimentada pelo calor sufocante, pelo tempo parado, pelo silencio que cria visagens, onde qualquer fresca pareça que veio do Céu ou do Mar.

A espreguiçadeira artesanal, com lona de boa qualidade e opções ergonômicas de conforto, só Alaíde possuía. Uma espreguiçadeira da lavra de seu João Mena, marceneiro especialista em tamboretes, que morava no mesmo Beco.

Na atual fase da velhice, do ócio contemplativo, senti que está faltando alguma coisa. Há um desconforto, um incômodo, uma carência. Depois de um longo período de meditação, decifrei o enigma: falte-me uma boa espreguiçadeira.

O Rei possui o trono, o professor a cátedra, o político o palanque, o padre o púlpito, cada um possui a sua cadeira, o seu lugar de fala.

A espreguiçadeira é a cadeira do preguiçoso.

Não se exerce o divino ócio em pé, nem sentado em qualquer cadeira ou banco. A espreguiçadeira é obrigatória.

Ando a procura de uma espreguiçadeira feita por João Mena. As indústrias fazem espreguiçadeiras de todos os tipos e qualidades. Nenhuma presta! Todas desconfortáveis. Nenhuma chega aos pés da espreguiçadeira de Alaíde.

Já pedi a um primo em Itabaiana, para procurar em todas as marcenarias da redondeza, são mais de duzentas, para encontrar um discípulo de João Mena, alguém que tenha aprendido com ele essa bela arte.

PS: João Mena era o pai de Theotônia e André, padecentes de doidice benigna.

Quem souber onde encontrar essa qualidade de espreguiçadeira, me avise.

Antonio Samarone (médico sanitarista)