sábado, 11 de dezembro de 2021


Ouvi o dobrar dos sinos...
(Por Antonio Samarone)

Hoje, as 19 horas, após missa e procissão:

A Comunidade do São José dos Náufragos e a Paróquia Santa Terezinha vão entronizar a doce imagem de São José, na entrada do Bairro.

Eu visitei a Capela de São José. Na chegada, as crianças estavam recebendo uma aula de catecismo. Bateu fundo!

Veio a lembrança de um fato, a minha primeira aula de catecismo, no salão paroquial em Itabaiana.

O padre tirou uma pergunta do bolso da batina: “Quem foi o primeiro Papa?” O salão lotado, em silencio. Ninguém respondeu. Eu sabia. Morto de vergonha, respondi com a voz tremula. O padre fez um suspense, e depois pediu uma salva de palmas.

Mamãe soube da façanha e tirou proveito. “Eu já lhe disse, você nasceu para ser padre.” Eu não estava convencido. Aos sete anos, eu não sabia para que tinha nascido.. Não éramos como os meninos de hoje.

Pouco tempo depois, apareceu em Itabaiana uns padres do Seminário de Carpina, Pernambuco, recrutando vocações. Foram lá em casa, vendo a situação e choradeira de mamãe, garantiram a gratuidade dos meus estudos. Mamãe decidiu: vai ser padre!

Toda família católica pobre queria ter um filho padre. Sobrou para mim.

Na saída, deixaram uma lista com o enxoval que eu deveria levar para o seminário: roupa, cuecas, calçados, fronhas, lençóis, escova de dente, sabonete, toalha de banho e meia dúzia de guardanapos de pano.

Mamãe, começou a providenciar o enxoval. A coisa empacou no último item: guardanapos de pano. Mamãe não sabia, nem ninguém lá em casa, o que seria os tais guardanapos.

E agora?

Mamãe saiu para consultar a vizinhança: “o que venha a ser guardanapos?” Nada. Na Rua do Fato, onde morávamos, ninguém sabia.

Papai deu um palpite: manda ele assim mesmo, sem os guardanapos. Mamãe reagiu: o quê, eu sou pobre, mas filho meu não passa vergonha.

A verdade, é que o dia do embarque chegou, eu deixei de ser padre, porque mamãe não sabia o que era guardanapo. Perdeu-se uma vocação.

Ia esquecendo, hoje na aula de catecismo da Capela, eu perguntei aos meninos quem tinha sido o primeiro Papa. Calados estavam, calados permaneceram. Aí em mostrei a minha sabedoria de catecismo.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

A PADREIRA DO MOSQUEIRO


A Padroeira do Condado do Mosqueiro.
(Por Antonio Samarone)

Nossa Senhora da Conceição é a padroeira do Mosqueiro.

Nossa Senhora da Conceição significa a imaculada concepção de Maria, sem o pecado original - é um dogma dos católicos. Não sei o porquê no Brasil, concepção virou Conceição. Em espanhol é belíssimo: “Nuestra Señora de la Concepción”.

Em 1497, a Universidade de Paris decretou que ninguém poderia ser admitido na instituição se não defendesse a Imaculada Concepção de Maria, exemplo que foi seguido por outras universidades como a de Coimbra e de Évora.

O Rei de Portugal, D. João IV, da Casa de Bragança, jurou e proclamou solenemente, por provisão régia de 25 de Março de 1646, que Nossa Senhora da Conceição seria a Rainha e Padroeira de Portugal e de todos os seus territórios ultramarinos,

Nossa Senhora da Conceição Aparecida é a padroeira do Brasil e Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa a padroeira de Portugal. (‘Com outro nome a fábula fala de ti” – Horácio).

O povo Mosqueiro (os naturais) continua culturalmente muito próximo de São Cristóvão. As festas, as danças, as moquecas e os doces. A profunda influência dos Tupinambás, nas casas e plantações. Mariscam e pescam do mesmo modo, as mesmas canoas, só trocaram as velas pelo motor de popa.

As comunidades de Areia Branca e Mosqueiro, em Aracaju, são irmãs do Caípe Velho, Pedreiras e Ilha Grande em São Cristóvão, e Ilha Mem de Sá, em Itaporanga.

Caípe é o mato de onde provém a caipora e o caipira. O grande Aurélio se esqueceu dele, em seu dicionário. Em São Cristóvão tem dois Caípes, o velho e novo.

O Povo do Mosqueiro escolheu uma Padroeira poderosa.

A herança cultural dominante no Mosqueiro é a dos índios.

No profundo sincretismo brasileiro, hoje também de se comemora Iemanjá, um orixá feminino (divindade africana) das religiões Candomblé e Umbanda. A festa é muito forte em Aracaju e discreta entre povo, no Mosqueiro.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

domingo, 5 de dezembro de 2021

A ETERNA VIGILÂNCIA



A Eterna Vigilância.
(por Antonio Samarone)

O primeiro iluminismo sacrificou o sagrado em nome da razão. O segundo, está substituindo a razão pelos dados.

O atual iluminismo é o tempo do “puro conhecimento”, das evidencias movidas pelos dados. A linguagem foi esvaziada e as coisas perderam o sentido. É um novo niilismo.

O big-data substituiu o anjo da guarda. Antes, a prestação de contas era no juízo final. Hoje, a vigilância é permanente e de nada esquece. Presta-se conta a si próprio. É a sociedade do desempenho.

A Era digital acredita na mensurabilidade e na quantificação da vida. Tudo no corpo pode ser medido e quantificado em tempo real. Entretanto, os números não respondem à questão central: quem sou eu?

“Os números não contam nada sobre o Eu. O Eu se deve a uma narrativa. Não é a contagem, mas a narrativa quem conduz ao encontro de si e ao autoconhecimento”. Chul Han

Por outro lado, o big-data acessa ao Id freudiano, tornando-o passível de controle direto, sem passar pelo Ego. O inconsciente das nossas ações passa a ser explorado.

O big-data informa sobre nós mesmos, coisas que não sabíamos, nem ao menos desconfiávamos. É o fim do inconsciente secreto e quase soberano.

O professor Santiago me contou uma história entranha:

“Há muito, deixei de sonhar com vacas magras e vacas gordas, como José do Egito. Os sonhos perderam a simbologia. Ao dormir, os sonhos prosseguem na mesma linha de pensamento da vigília, e ao acordar, o pensamento prossegue com os sonhos, sem uma interrupção significativa.”

“O sonho interpõe-se entre o sono fracionado com vigílias frequentes, naturalmente, de forma desapercebida. As informações do noticiário da TV ligada, continuam sendo acompanhadas indiferentemente, se dormindo ou acordado. A mente está sempre on-line.”

O professor Santiago é um homem culto.

O inconsciente também é histórico. Freud precisava renascer, para interpretar os atuais sonhos ou criar outras técnicas de acesso.

Eu pensei: será se inconsciente de Santiago ficou exposto, visível a olho nu? Os sonhos perderam o seu lado onírico!

Tentei explicar ao professor: a sua eterna vigilância deve-se ao medo da morte. Ele reagiu: “não, não acredito. Temo mais as demências e a perda de autonomia do que a própria morte.”

Eu sugeri ao professor Santiago que procurasse o Dr. Átalo Crispim. Só a homeopata, para entender essas doidices novas.

Eu quero continuar com a mente funcionando à moda antiga, de forma analógica, sonhando com irrealidades fantásticas, de preferência, que ninguém saiba interpretar.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

sábado, 4 de dezembro de 2021

CAJUS E CAJUÍS


Cajus e Cajuís...
(por Antonio Samarone)

Parei na entrada da Gameleira para comprar cajus, e encontrei uma festiva roda de gente, lorotando e tomando uma caninha com caju. Dizem ser um tira-gosto divino.

Depois de 500 anos, eles continuam repetindo um ritual Tupinambá.

Além das palmeiras onde cantavam os sabiás, os portugueses encontraram no Brasil, os cajueiros. Os Tupinambás desciam para o litoral, nos tempos dos cajus. Era uma festa: os frutos serviam de alimento, o sumo de vinho e a castanha de pão.

Os índios faziam vinho de caju.

Na verdade, o fruto é a castanha. “O caju é o pedúnculo carnudo e sumarento que dá o vinho e o vinagre.” – Câmara Cascudo.

“Do sumo desta fruta faz o Gentio vinho, com que se embebeda, que é de bom cheiro e saboroso.” – Gabriel Soares de Souza (1587).

Nos batizados lá em casa, papai servia aos convidados vinhos de caju, jenipapo e jurubeba. Eu só conheci vinho de uva, depois de grande. Não sei se ainda esses vinhos nativos são produzidos em Sergipe.

Havia uma brincadeira selvagem, se esquentava a castanha e com o óleo fervendo se fazia tatuagens primitivas. Na verdade, causava-se uma queimadura. Ainda bem que esqueceram essa maluquice.

O Carrilho continua fornecendo castanha assada para o Brasil.

Se contavam os anos pelas safras de cajus. “Acaiú” significa o ano, para o indígena da raça Tupi. Eu estou completando 67 cajus.

“Se diz no Nordeste: tenho quarenta cajus, valendo quarenta anos.” – Câmara Cascudo.

Os cajuís são silvestres, menores e travosos. Excelentes para doces.

“A natureza dos cajus é fria. São medicinais para os doentes de febres e para quem tem fastio. Fazem bem ao estomago, e muitas pessoas lhe tomam o sumo pela manhã, em jejum, para a conservação do estomago. Fazem um bom bafo a quem os come pela manhã, e por mais que se coma deles, não fazem mal a nenhuma hora do dia. São de tal digestão que em dois credos se esmoem.” – Gabriel Soares de Souza (1587)

O caju (Anacardium occidentale) é natural do Nordeste do Brasil.

A presença em outros continentes é posterior a chegada dos portugueses por aqui. Garcia da Orta, não cita a existência dos cajus em seu clássico “Colóquios dos Simples e Drogas da Índia e Goa”, escrito em 1563. Não existiam por lá.

A safra de caju continua sendo um acontecimento da cultura popular, pelo menos nos Condados do Mosqueiro, Areia Branca, Gameleira, São José e Robalo.

Val dos Cajus faz sucesso com os turistas, vendendo o caju ainda nos galhos do cajueiro que ele carrega na cacunda, com uma boa dose de cachaça. A Semana passada ele foi entrevistado por uma jornalista de São Paulo. Uma cachaça com caju custa cinco contos.

Antonio Samarone (médico sanitarista)


 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

UM ESCLARECIMENTO


Um Esclarecimento.
(por Antonio Samarone)

O cronista é o narrador da história. Há uma profunda diferença entre quem escreve a história e quem narra.

Não sou nem historiador nem jornalista. O que tento escrever são narrativas abreviadas, adaptadas as redes sociais. Me criei ouvindo estórias de Trancoso. Mamãe era eximia nesta arte.

A narrativa é uma pré literatura que foi extinta com o fim das raízes coletivas, das comunidades e das rodas de ouvintes. Com a impossibilidade das narrativas orais (acentuada com a quarentena), tento improvisá-las nas redes sociais.

Peço paciência, quando a minha memória não coincidir com a de quem está lendo. Sou fraquíssimo em telepatia. Muita coisa não falo por ciência própria, mas por ouvir dizer. O que escutei ao longo da vida.
A memória é uma faculdade épica, a musa da narrativa. A reminiscência era uma deusa, para os gregos.

“A narrativa não está interessada em transmitir “o puro em si” da coisa narrada, como se fosse uma informação ou um relatório. O narrador imprime a sua marca na narrativa, como a mão do oleiro na argila do vaso. A narrativa é um ofício manual.” Walter Benjamim

“A arte de narrar está definhando porque a sabedoria – o lado épico da verdade – está em extinção.” - WB

Antonio Samarone (médico sanitarista).