domingo, 12 de abril de 2020

ARACAJU - CURRAL DO BOMFIM E ILHA DAS COBRAS


Aracaju – Curral do Bomfim e Ilha das Cobras.
(por Antonio Samarone)

O cortiço Curral do Bomfim, em Aracaju, localizava-se na baixada da Avenida Pedro Calazans com a rua de Siriri. Era um antro de prostituição, pobreza e doenças.

Observem essa sucinta descrição do “Curral” feita por Murilo Melins, em seu livro “Aracaju Romântica que eu vi e vivi”: “cercado por arame farpado, dezenas de casebres e algumas bodegas, era habitado por prostitutas decadentes, tuberculosas, sifilíticas carcomidas pelas doenças venéreas e maus tratos...”

Na visão de Mário Cabral, em seu “Roteiro de Aracaju”, “o Curral do Bomfim era o último degrau, em escala descendente, no caminho do vício, da miséria e do sofrimento. Depois do Curral, o leito de indigente do Hospital Santa Isabel. Depois, a vala comum no Cemitério dos Cambuís.”

A Ilha das Cobras localizava-se entre as Avenidas Airton Teles e Coelho e Campos, numa zona de mangues e apicuns. No centro do alagado existiam umas áreas mais elevadas, que com a maré cheia formava a citada ilha. A sua ocupação resultou na primeira favela reconhecida de Aracaju.

O Curral e a Ilha das Cobras foram extintos em 1953, no governo Arnaldo Garcez, por iniciativa da Comissão de Recuperação Social. A ideia foi do doutor Walter Cardoso, Diretor do Departamento de Saúde.

Walter Cardoso foi um médico sanitarista inspirado numa visão abrangente da Saúde Pública, quase que antecipando as visões sanitárias moderna, onde a promoção da saúde é vista basicamente como resultante da qualidade de vida.

A alternativa para enfrentar a questão da qualidade de vida nas duas favelas de Aracaju foi à remoção do problema social para uma área afastada do centro urbano. Criou-se o conjunto habitacional Agamenon Magalhães, com a segregação do espaço, removendo os favelados, e criando condições de sobrevivência dessas pessoas nesse novo espaço higienizado.

A construção do Conjunto Agamenon Magalhães foi uma tentativa de organização de uma comunidade semi-independente do centro da cidade.

A remoção das favelas Ilha das Cobras e Curral do Bomfim foi de uma iniciativa do “Serviço de Recuperação Social” criado e dirigido pelo ilustre médico sanitarista doutor Walter Cardoso, durante o Governo de Arnaldo Garcez.

Participaram também dessa empreitada Clóvis Mozart Teixeira, Aloísio Campos e Geny Gujot.

O “Serviço de Recuperação Social”, segundo o seu criador, “tinha por finalidade corrigir as deficiências dos indivíduos ajustando ou reajustando pessoas dentro dos seus quadros sociais, promovendo meios para que cada criatura pudesse realizar o aperfeiçoamento de sua personalidade, orientando-se rumo a felicidade.”

Em 27 de março de 1953 foi inaugurada a primeira etapa do conjunto Agamenon Magalhães. Inicialmente foram construídos o Centro Social Don Fernando Gomes, o grupo escolar José Rollemberg Leite, o posto médico Walter Cardoso, lavanderias públicas, o campo de futebol Adolfo Rollemberg e noventa casas.

No ano seguinte a obra social foi completada com mais a construção de uma escola vocacional, o artesanato Coelho e Campos, um gabinete dentário, um campo de basquetebol e voleibol e mais cem casas.

O Conjunto Agamenon Magalhães, foi um modelo de obra sanitária. No inicio, abrigava duzentas e quarenta e sete famílias.

Antonio Samarone.

FREUD E AS PESTES


Freud e as Pestes. (por Antonio Samarone)

Freud enumerou três fontes de sofrimentos: o poder superior da natureza, a fragilidade dos nossos corpos e a inadequação das regras do relacionamento social. A Idade Moderna vendeu a ilusão de segurança e progresso. A ciência conseguiria controlar esse poder natureza.

Nos últimos cem mil anos, data provável do Homo sapiens, entre os riscos naturais à vida humana, destaca-se a ameaça de outras espécies. Essa forma de violência tem variado na história.

Adaptando a genealogia da inimizade de Baudrillard, podemos apontar quatro períodos.

1. A Era do Lobo – o homem enfrentou tête-à-tête as grandes feras e outras espécies de homos. O nosso período de vida nômade. O risco era ser comido pela onça. Um inimigo externo que atacava. Para defender-se usou o fogo e construiu fortificações;

2. A Era do Rato – O inimigo operava no subsolo, sorrateiro, para enfrentá-lo foi necessário a higiene e as técnicas de limpeza para afastá-lo. A principal ameaça desse período foi a Peste Negra.

3. A Era do Besouro – O inimigo principal passou a ser o mosquito. O enfrentamento foi outro, foi necessário o saneamento. A principal ameaça foi a Febre Amarela. No Brasil, a Era do Besouro continua exuberante. (dengue, zica e chikungunya).

4. A Era do Vírus – Esse inimigo está instalado no coração do sistema vital, de difícil combate. O Vírus é apenas uma mensagem genética que modifica o funcionamento do hospedeiro. A resposta é imunológica. A vacina foi eficaz nos casos da varíola e da gripe espanhola, mas ainda não funcionou para a AIDS.

Os vírus põem em questionamento a segurança dada pela ciência. O Covid -19 é um bom exemplo. A Peste viral deixou a humanidade indefesa. O único recurso é o isolamento. Fujam! Retorna o velho lema medieval: “a melhor arma contra a Peste é um bom par de botas.”

Na Peste de cólera de 1855, em Itabaiana, quem escapou foram os que fugiram para o pé da serra. “Pernas, pra que te quero?”

Concordo com Zygmunt Bauman:

A modernidade retirou as suas promessas, entre elas, a ideia iluminista de segurança e de controle da natureza. A certeza de que a tecnologia seria capaz de controlar as catástrofes naturais desabou. O aquecimento global nos ameaça.

A nossa casa está pegando fogo, como diz Greta Thunberg.

A visão fascinante de um mundo que emergia do fatalismo e do obscurantismo fracassou. A promessa de progresso e desenvolvimento era uma armadilha ideológica.

A modernidade nos prometeu segurança (domínio sobre a natureza) e a melhoria na qualidade de vida (um progresso contínuo). A modernidade criou a ilusão da felicidade como um consumo crescente (ter), relegando o (ser).

A ciência prometeu sufocar o obscurantismo.

Após batalhas seculares alguns direitos sociais foram conquistados. O direito a saúde, educação, renda mínima, trabalho, habitação, proteção na velhice. Todos, em avançada decomposição. O nosso sistema de proteção social está sendo desmontado, peça por peça.

A Peste do Covid – 19 é parte desse cenário.

Por enquanto, a ciência ainda é o maior recurso do homem para esse tipo de ameaça. Não adianta nem acender fogueiras nem buscar soluções mágicas.

Não requer muito estudo para suspeitarmos que após a tempestade, precisaremos refazer o nosso modo de vida.

A modernidade abandonou as suas promessas, mas elas continuam vivas. Isso não é o fim das utopias, apenas as utopias serão outras. Quais? As esquerdas no mundo ainda não possuem essa resposta.

Duas mudanças nas utopias são visíveis: elas não se concentram mais no conjunto da sociedade, mas em suas partes, concentram-se nos indivíduos, em categorias; e são menos radicais, seguem passos, uma coisa de cada vez.

A civilização é uma ordem construída e administrada pelo homem. A civilização é o controle coercitivo dos instintos, um enfrentamento entre segurança e liberdade.

O ódio e o medo da liberdade e da ordem não são inatos à espécie humana.

Como me alertou o velho Armelindo, do Beco Novo: “Vamos cuidar da vida, procurar outros caminhos. Esse vírus não é nada, quem quiser conhecer a bagaceira, espere o Covid – 20.”

Antonio Samarone.

A PESTE DA BEXIGA EM SERGIPE - 1911


A Peste da Bexiga em Sergipe - 1911
(por Antonio Samarone)

Início do século XX

Entre as enfermidades epidêmicas, a varíola foi a que certamente mais dizimou índios, negros e brancos pobres nos três primeiros séculos da colonização sergipana.

Lycurgo Santos Filho, em sua conceituada História Geral da Medicina Brasileira me dá razão quando afirma: “A peste das bexigas matou mais gente no Brasil, nos séculos passados, do que todas as demais doenças reunidas.

A alta letalidade, a facilidade de transmissão e inexistência de tratamento foram fatores decisivos para o terror espalhado por essa Peste. A sequela desse medo permanece até o presente entre as classes populares em nosso Estado. Somente para evidenciar essa afirmativa, a bexiga, como era antigamente chamada à varíola, é entre nós um palavrão e bexiguento, em Sergipe, ainda é um xingamento.

O elevado número de óbitos, as cicatrizes indeléveis e deformantes dos sobreviventes, os isolamentos obrigatórios dos doentes pobres em lazaretos improvisados, onde maus tratos e privações eram freqüentemente denunciados.

Os sepultamentos em valas comuns, dado a proibição de enterros nos cemitérios cristãos, a precariedade e rusticidade das vacinações, e outras mazelas, justificam plenamente o terror espalhado pela doença.

O controle desse mal através da vacinação é conhecido mundialmente, pelo menos, desde o final do século XVIII, quando em 1º de julho de 1796, o médico rural inglês, Edward Jenner, fez o teste final de inoculação no pequeno Phipps, e ele não contraiu mais a doença.

Não estou levando em consideração os relatos da prática de vacinação anti varíola na China e na Índia desde a antiguidade mais remota. A inalação do pó de escaras de varíola pelos chineses e a inoculação do pus ressecado entre os indianos são fatos descritos em qualquer boa história da medicina.

Em Sergipe, entretanto, a irregularidade da vacinação perdurou até a primeira metade do século XX.

Em 02 de julho de 1911, quando Sergipe era governado pelo famoso médico Dr. Rodrigues Dórea, eclodiu uma grave epidemia de varíola em Laranjeiras.

O Dr. Antonio Militão de Bragança, Delegado de higiene do município, tomou as providencias devidas, procurou o Intendente e notificou de imediato ao Inspetor de Higiene, o Dr. Baptista Itajahy.

A morte avançou célere no município. Em pouco mais de nove meses, a epidemia teve fim em marco de 1912, foram vitimados pela varíola mais de 500 pessoas devidamente identificadas.

Entre os 160 bexiguentos isolados no lazareto do povoado Cedro, 75 faleceram. Entre os 227 pacientes do lazareto do Porto do Oiteiro, 93 faleceram. No Lazareto Bemvindo, 331 casos e 140 óbitos e no lazareto Santa Cruz, 28 internamentos e 9 óbitos.

Os lazaretos, originalmente locais para o recolhimento de morféticos (lepra), eram construções improvisadas, casas abandonadas, galpões, onde durante as epidemias eram acomodados os miseráveis, os que não tinham onde cair morto, para não morrerem de fome, que quase sempre acompanhavam as epidemias.

Para agravar a situação, queimavam-se freqüentemente grandes quantidades de enxofre e alcatrão dentro dos lazaretos, gerando-se uma fumaça negra e um cheiro insuportável, pois se acreditava que essa medida evitaria a contaminação do meio-ambiente.

Além da criação dos lazaretos, o Governo do Estado mandou para Laranjeiras dois operosos facultativos para auxiliarem o Dr. Bragança. Os Drs. José Moreira de Magalhães e Josaphat Brandão participaram ativamente do combate a essa epidemia em Laranjeiras.

O tratamento, se é que podemos usar esse termo, era feito a base do ethero/opiada, da câmara vermelha (tratamento de Finsen), para apressar a erupção das pústulas e do cremor de tártaro, para suavizar o sofrimento.

Entre as recomendações sanitárias, foram executadas a vacinação e revacinação jenneriana, o asseio diário das ruas, casas, quintais e latrinas, a desinfecção das residências onde foram registrados casos de varíola, e o mais impressionante, a desinfecção das pessoas que entrassem em contato com doentes.

Foram construídas estufas, para efetuarem a desinfecção dessas pessoas. Quanto aos sepultamentos, a orientação era afastá-los dos cemitérios comuns, e leva-os para valas distantes que nunca mais deveriam ser abertas.

A vacinação foi efetuada pelo método da escarificação e da picada. Houve uma grande polemica quanto ao uso desse método durante essa epidemia, pois se alegava que a ocorrência da neutralização da linfa jeneriana era muito elevada, superior a 20%, devido a ação dos desinfetantes empregados e do próprio sangue do vacinado, resultante da picada.

Já era de uso corrente no resto do País a vacinação pelo termo/cautério, considerado totalmente asséptico, mas não tinha chegado a Laranjeiras.

É importante lembrar que a vacinação jenneriana começou em Sergipe pelo método do braço a braço, uma vez que não tínhamos recursos para conservar a linfa por muito tempo. Quase sempre um escravo era mandado para a Bahia, era vacinado, e retornava com a pústula do braço resultante da vacinação aberta.

O responsável pela vacinação naquela localidade, geralmente um vereador, pegava aquele cristão e começava a circular de fazenda em fazenda, de engenho em engenho, de vila em vila, a procura de um corajoso para que a vacinação fosse transmitida.

Essa epidemia, que não foi a última, teve fim em marco de 1912, onde o governador já era o General José Siqueira de Menezes, e o Inspetor de Higiene, o equivalente ao atual Secretário da Saúde, o Dr. Pimentel Franco.

Antonio Samarone.

A PESTE SILENCIOSA DE MENINGITE EM SERGIPE


A Peste silenciosa de Meningite em Sergipe - 1971/1975.
(por Antonio Samarone)

Durante o período da ditadura militar, o Brasil enfrentou a pior epidemia de meningite de sua história. O país já tivera antes dois surtos da doença - um em 1923 e outro em 1945 -, mas, nenhum deles tão grave ou letal.

O Brasil foi vítima do ataque de dois subtipos de meningite meningocócica: do tipo C, que teve início em abril de 1971, e do tipo A, em maio de 1974. Foi uma epidemia silenciosa, ocultada.

No início, a ditadura cuidou de esconder os fatos.

Sob o pretexto de não causar pânico na população, a censura proibiu toda e qualquer reportagem que julgasse "alarmista" ou "tendenciosa", sobre a moléstia.

A população mais carente se queixava dor de cabeça, febre alta e rigidez na nuca, sintomas clássicos da doença. Nos bairros mais pobres, muitos morreram sem diagnóstico ou tratamento. Quase ninguém sabia que estava ocorrendo uma epidemia no Brasil, morria-se sem saber.

A maior epidemia de meningite da história do Brasil teve início em 1971. Em setembro de 1974, a epidemia atingiu seu ápice e a verdade apareceu. A população entrou em pânico.

Quando a doença se alastrou em 1974, o governo tomou medidas drásticas: decretou a suspensão das aulas e suspendeu eventos esportivos. Os Jogos Pan-Americanos de 1975, que estavam marcados para acontecer em São Paulo, tiveram que ser transferidos para a Cidade do México.

Uma das primeiras medidas foi prescrever sulfa, para todos os sintomáticos. A população passou a tomar o antibiótico por conta própria. O estoque acabou rapidamente e a bactéria ficou resistente.

Em 1975, o Brasil deu início à Campanha Nacional de Vacinação Contra a Meningite Meningocócica. O Brasil importou 80 milhões de doses da vacina do Instituto Pasteur Mérieux.

Foi a partir dessa emergência que se criou, na Fiocruz, a fábrica de fármacos, a Farmanguinhos, e a de vacinas, a Bio-Manguinhos, que está nos servindo agora, no enfrentamento da Covid – 19.

Nessa campanha de vacinação a imunização foi realizada com uma "pistola" injetora de vacina. Abandonou-se agulha e seringa. Como esquecer essa novidade da tecnologia militar: na ditadura, até vacinação era feita com pistola (veja foto).

Sergipe não ficou de fora da Epidemia.

A meningite grassou livremente por aqui, na epidemia de 1974. O maior problema em Sergipe era para onde encaminhar os doentes de meningite, durante a epidemia?

O Ministro da Saúde, Paulo de Almeida Machado, veio à Sergipe cobrar providências sobre a assistência às vítimas da Epidemia.

O Hospital Lourival Batista (1970), foi construído para ser um hospital de referência de doenças infecciosa. Antes da inauguração, a Polícia Militar ocupou, como forma de pressão, para torná-lo da polícia.

Em 10/02/1972, o Governador Paulo Barreto cedeu o hospital de doenças infeciosas para a briosa Polícia Militar, nascendo o HPM (Hospital da Polícia Militar), sob a direção do Dr. Sálvio Paiva Mendonça.

Em 1974, quando explodiu a epidemia de meningite em Sergipe, não existia mais hospital de referência. Foi um corre-corre. Para onde encaminhar os pacientes com meningite?

O Senador Francisco Rollemberg defendeu publicamente a retomada do Hospital da Polícia, para torná-lo referência da Meningite. Afinal, foi construído para isso.

O Governador Paulo Barreto decidiu que a referência de meningite seria o centenário Hospital Sílvio César Leite, em Riachuelo. O Senador Rollemberg protestou: “o Hospital de Riachuelo é pequeno, fica numa rua estreita e a cidade não tem saneamento.” O esgoto do Hospital corria a céu aberto.

Como agravante, defronte ao Hospital de Riachuelo funcionava um orfanato com mais de cem crianças, o “Abrigo de Menores Antonio Franco”, sob os cuidados do piedoso Padre Padilha. Por proteção de Deus, nenhuma criança do orfanato contraiu meningite durante a epidemia.

Não houve jeito, o Hospital de Riachuelo se transformou na referência ao atendimento dos casos de meningite, na epidemia de 1974. Por coincidência, o primeiro paciente de meningite tratado em Riachuelo, foi um soldado da polícia militar.

O pequeno Hospital de Riachuelo (26 leitos), recebeu um encargo gigantesco. Por sorte, estava chegando à Sergipe, um pernambucano de Bodocó, o médico Hélio Luna Gomes, que encarou a missão espinhosa e foi morar no Hospital.

O Dr. Hélio Luna, montou uma pequena equipe com os colegas José Valdison de Sá, José Lealdo Feitosa Lima e Jorge Martins. Foram os responsáveis pelo enfrentamento da maior epidemia de meningite do Estado.

Sergipe deve muito ao desconhecido, discreto e competente Dr. Hélio Luna Gomes, que ainda trabalha no mesmo Hospital. Há muito que a referência de meningite deixou de ser o Hospital de Riachuelo.

Antonio Samarone.

A FOME E AS PESTES EM ARACAJU


A Fome e as Pestes em Aracaju (por Antonio Samarone)
Início do Século XX

Se a Pandemia do Covid -19 seguir o prognóstico dos especialistas, teremos risco de desabastecimento, por mais que se negue.

A fome sempre acompanhou as Pestes. Não foi diferente durante a Peste de disenteria em Aracaju, em 1908.

Sobre a Peste de disenteria, a primeira dificuldade era descobrir as causas. Quanto ao diagnóstico da Peste de “Câmara de Sangue” (disenteria), não houve possibilidade de se chegar a um consenso.

Suspeitaram de que o “morbus”, como era chamada a moléstia pelos médicos, provavelmente estava sendo transmitido pela água. Outros achavam que poderia ser a farinha que estávamos trazendo de fora, ou mesmo que o bacilo já estaria presente no intestino das pessoas, e que a situação de penúria e miséria, agravadas pela seca, tinham desencadeado a citada Peste.

Como se percebe, ignorava-se a etiologia, a causa, e patinavam quanto sua transmissão.

O Dr. Helvécio Andrade, sustentava:

“A promiscuidade em que vivem as classes menos favorecidas, as necessidades que as obrigam a percorrer as estradas, Vilas e Cidades, mendigando o pão, enfim todas as consequências da fome, da nudez e do frio, são causas poderosas da pertinência e da intensidade do mal, que é preciso combater em suas origens”.

Os meios de resistência e de combate a empregar são sociais, higiênicos e médicos. As medidas higiênicas, preventivas, são indispensáveis à defesa do organismo.
A Saúde Pública em Sergipe (1908):

“A nossa situação relativa à saúde pública é melindrosa, basta à disenteria de forma grave em grande número de casos, para comprová-la, mas ao lado da disenteria está aí a fazer vítimas, a febre de mau caráter, o sarampo, as doenças de olhos a atormentar a população infantil; será para Sergipe uma grande desgraça se a varíola conseguir implantar-se, para completar, no que diz respeito à saúde pública, o cortejo de nossos males”. Helvécio Andrade

Os migrantes pobres são vistos como um grande perigo (classes perigosas), justificando uma urgente e necessária intervenção sanitária. No caso da Peste do Covid – 19, “as classes perigosas são os turistas.

A descoberta do contágio e de que as enfermidades podiam transmitir-se de pessoa a pessoa, principalmente, dos pobres para os ricos, alertou o poder público para a necessidade de uma ação imediata.

Onde antes a ameaça eram os miasmas, agora eram os pobres os portadores da desgraça: “As levas de imigrantes começam a infestar as nossas cidades... Urge, portanto, medidas que previnam e desviem o espectro que nos ameaça, e que já iniciou a sua missão sacrificando vidas”.

Voltando à Peste de 1908, em Aracaju:

“Para facilitar a marcha e tornar-se permanente o fantasma disentérico entre nós, só faltava o que está a suceder-nos, as levas de imigrantes que nos chegam todos os dias dos sertões, trazendo em torno de si todos os sintomas da mais extrema miséria, e que vão se aglomerando em uma progressão assombrosa e fatídica, dentro das cidades transformadas em lúgubre necrópoles”.

“Mais do que a própria Peste, que mata as dezenas, é a fome que aí está, coveiro sinistro, a eliminar as centenas, e ameaça, inexorável e fatídica, devorar os milhares”.

A Fome em Sergipe, em 1908:

“Em Sergipe, é o grito que fazemos a partir dessa coluna, aos quatro pontos da Nação, como uma súplica desoladora e funesta dirigida ao coração da Pátria: morre-se de fome nos leitos das estradas, à margem dos rios, à sombra das árvores, na pocilga dos mercados, nas lajes das calçadas, à porta dos cemitérios, por todas as partes onde os sobejos da miséria só encontra por abrigo a cúpula do céu”. Helvécio Andrade.

A situação era muito grave. Como o Estado não possuía condições financeiras para enfrentar o problema da Peste e da fome, buscar auxílio da União.

A Fome grassava intensamente em Sergipe.

Alguma coisa precisava ser feita. Os médicos e educadores tinham consciência da complexidade do problema. Do número de questões envolvidas: aspectos econômicos, de justiça social, de saneamento, nutricionais etc.

Entretanto, era indiscutível que o baixo padrão de higiene corporal, de asseio pessoal, de modos, hábitos, comportamentos, vícios, também interferiam na contração e propagação das enfermidades.

Pelos menos nessa esfera da higiene pessoal, se podia fazer alguma coisa. E foi feita.

Os higienistas usaram como principal estratégia para difundir os seus princípios civilizatórios a Escola. Principalmente a partir da década de 1930, quando as escolas começaram a expandir-se com maior velocidade e alcançar o povo mais pobre, objeto central da intervenção sanitária.

A desigualdade social continua jogando o risco maior nos pobres.

Até para vacinar-se o pobre corre um risco maior. A vacinação no sistema drive-thru é uma beleza para quem tem carro. A pessoa sai para comprar um “McLanche Feliz”, aproveita, e na passagem, toma a vacina contra a gripe.

Quantos idosos possuem carro? A imensa maioria que não possui, submete-se a um risco maior de contrair a Peste do Covid – 19. Até nisso!

Antonio Samarone.

NINGUÉM SE SALVA SÓ



Ninguém se salva só. (por Antonio Samarone)

A grandeza do Papa Francisco (a frase acima é dele), andando sozinho na imensa Praça romana, me confortou. Humilde, Francisco buscava a misericórdia de Deus. No final, o Papa concedeu a indulgência plenária. Me senti mais leve.

Historicamente, a humanidade foi dizimada por grandes Pestes, enfrentou sofrimentos medonhos, e sobreviveu! A sombra da morte nos acompanha. As Pestes eram objeto das religiões, da filosofia e das artes, tornou-se da ciência, da economia e da politica. Acho que regredimos.

Estou aproveitando a quarentena para reler Decameron, obra prima de Giovanni Boccaccio. Como se sabe, o livro narra a Peste Negra na Itália, em 1348. Decameron possui cem novelas, escritas em dialeto toscano.

O sofrimento e o medo na Peste Negra eram vistos como castigos, dignos de compaixão.

Descreveu Boccaccio:

“Maior era o espetáculo da miséria da gente miúda e, talvez, em grande parte da mediana; pois essas pessoas, retidas em casa pela esperança ou pela pobreza, permanecendo na vizinhança, adoeciam aos milhares; e, não sendo servidas nem ajudadas por coisa alguma, morriam todas quase sem nenhuma redenção.”

“Em Boccaccio a peste e a iminência da morte não levam à contrição medieval, mas conduzem a uma concepção inteiramente laica da vida, em que o sagrado, embora existindo, não se preocupa com as vicissitudes humanas, tal como nas filosofias éticas antigas, como o epicurismo e o estoicismo. Isto é o Renascimento.” Berriel.

A Peste Negra subverteu a ordem moral e civil, anulou a autoridade da lei, quebrou todas as barreiras e defesas, invadindo e dissolvendo todos os ambientes sociais. Os sobreviventes foram vítimas do “pavor e imaginação” que arruinou todos os costumes e todos os hábitos. Explodiram todas as reservas ditadas comumente pelo pudor e pela conveniência.

Após a Peste de Gripe Espanhola (1917/18), o carnaval do Rio de Janeiro, antes uma festa inocente de Arlequim, Pierrot e Colombina; virou um bacanal dionisíaco. “Ninguém é de ninguém”. “O que é que eu vou dizer em casa, quando chegar quarta-feira de cinzas?” Hoje, o carnaval é um ballet popular.

Quais as mudanças que assistiremos no pós Peste do Covid – 19?

Não sei nem por onde começar...

Na visão e no desejo do Dr. Sidcley Venâncio, coxinha de primeira hora, que já sonhava com a volta do militares, desde as jornadas de junho de 2013, teremos uma ditadura, para salvar o Brasil do Comunismo que nos ronda, desde a Intentona de 1935.

O Dr. Sidcley Venâncio acredita que esse Covid - 19 é uma invenção chinesa, para enfraquecer o ocidente capitalista. Que essa balela de isolamento social foi criação da Rede Globo, mancomunada com os governadores do Rio e de São Paulo, visando parar o Brasil e derrubar Bolsonaro.

O medo maior do Dr. Sidcley Venâncio é que as forças da URSAL (União das Repúblicas Socialistas da América Latina) voltem ao poder.

Como o pessoal da esquerda imagina o futuro, no pós Covid – 19?

Não sei... Vou pesquisar.

Antonio Samarone.

O GERONTOCÍDIO



O Gerontocídio! (por Antonio Samarone)

O Século XX aumentou a vida média e os idosos começaram a se multiplicar. Hoje somos muitos. O que parecia uma conquista, o neoliberalismo transformou em peso.

O mercado faz contas, não cuida de sentimentos.

Deixou de trabalhar, quem vai pagar as despesas? Como o Estado mínimo vai custear o rombo da previdência social? Eles não sabem o que fazer com os idosos.

A Sociedade alimenta um preconceito com a velhice. Propaga-se que a velhice não existe, é uma questão de “cabeça”. Ninguém é velho! Somos todos jovens espiritualmente, no máximo idosos (na melhor idade).

A discriminação é camuflada. No Brasil, novo é sinônimo de bom, mesmo sendo uma porcaria. Qualquer ideia nova é bem vista, mesmo sendo superficial. E tudo o que é velho não presta.

A Peste do Covid – 19 escancarou o preconceito.

Estou cansado de escutar: ainda bem que a Peste só mata velho. Isolem essa turma e vamos começar a trabalhar. A economia não pode parar. Eles chamam essa estratégia de Isolamento Vertical!

Está em curso um gerontocídio mundial.

Os neoliberais estão aflitos: e as bolsas, e a ciranda financeira, e os nossos lucros?

Vamos fazer o Isolamento Vertical dos velhos, e liberar a economia, defende o mercado. Dois epidemiologistas americanos, John Loannidis e David L. Katz, estão respaldando “cientificamente” essa tese.

Economicamente, a Peste de Covid – 19 vai eliminar os improdutivos.

A tragédia é que vão nos eliminar com crueldade, acusando-nos de levarmos a rede hospitalar ao colapso. Nos isolam, sem visitas (nem dos netos), e quando o Corona chegar, morreremos de insuficiência respiratória, em hospitais improvisados.

Morreremos com os pulmões encharcados, como se tivéssemos nos afogando. Na ante sala da morte, também não receberemos visitas de familiares. Se não bastasse, ainda seremos acusados de levarmos os necrotérios ao colapso.

Canalhas! Canalhas!

Não aceitamos essa morte. Vamos reagir! Sei que a experiencia de vida trás o ceticismo, mas nessa hora, ou reagirmos ou seremos tragados.

Velhos de todo o Mundo, Uni-vos!

Antonio Samarone.