domingo, 12 de abril de 2020

AS PESTES EM SERGIPE - VARÍOLA


As Pestes em Sergipe. (por Antonio Samarone)
(Varíola - Inicio do Século XX)

A situação sanitária no Estado de Sergipe, no começo do século XX, era dramática. A descrição realizada pelo Dr. Augusto Leite, em discurso durante os trabalhos Constituintes de 1934, é profundamente esclarecedora do quadro:

“Clínico, vezes sem conta, acudi a mulheres pobres, nas aflições de um parto distócico, quando já a feitiçaria esgotara todos os recursos e falharam as mais estrambóticas mezinhas. No casebre, tudo conspira de regra, contra a vida da parturiente e do nascituro.”

“Não alumia o quarto, uma réstia sequer de sol. O chão é úmido e mal batido, as paredes são enegrecidas de fuligem dos ‘pifós’ e dos tições, que fumegam a um passo da enxerga. Dir-se-ia uma ‘câmara escura’, dentro da qual, sol a pino, em pleno Nordeste, médicos trabalham, por vezes, à luz miserável de um candeeiro de querosene.”

“Nesse meio, entre pavores, a parteira é o maior pavor. Lá está o azeite rançoso para as mãos imundas, lá estão o trapo e o sarro de cachimbo com que se liga e pensa o cordão umbilical, e a infecção puerperal aí campeia livremente.”

Sergipe começou a República praticamente com os mesmos problemas sanitários herdados do Império. As epidemias continuavam grassando com desenvoltura e o poder público com as mesmas limitações, para um enfrentamento eficaz.

No final do século XIX, a bexiga (varíola) é o principal problema de saúde pública em Sergipe. As epidemias se sucediam. Em 1888, a varíola matou mais de 2 mil pessoas somente em Aracaju.

A partir de julho de 1895 e durante todo ano 1896, trazidos pelos passageiros do vapor “Santelmo”, ocorreu outra epidemia de varíola de elevada gravidade. As cidades mais atingidas foram Estância, Simão Dias, Aracaju, Riachão e Itaporanga.

Mensagem do Presidente do Estado, Manoel Oliveira Valadão à Assembleia Legislativa, publicada no Diário Oficial do Estado em 14/03/1896:

“Tendo se manifestado a epidemia de varíola em diversos pontos do Estado, nomeei comissões para se encarregarem do tratamento e isolamento dos pacientes, autorizando ao menos as despesas necessárias com os socorros dos indigentes acometidos do temível mal.”

Nada diferente do que acabou de fazer o governador Belivaldo, liberou cem reais para aos mais necessitados, enquanto durar a Peste do Covid – 19.

Em 1896, a violência das pestes em Sergipe atingiu até o centro do poder:

Em 22/03/1896, faleceu aos 33 anos de idade, atingida pela malária, a esposa do próprio Presidente do Estado, D. Joaquina Valadão. Uma equipe de sete médicos acompanhou o caso da defunta ilustre, sem sucesso.

A medicina engatinhava em Sergipe.

Antonio Samarone.

A PESTE DE DISENTERIA EM ARACAJU


A Peste de Disenteria em Aracaju. (por Antonio Samarone)

No início de 1908, Aracaju viveu uma Peste de disenteria (dejeções sanguinolentas frequentes, tenesmos violentos, cólicas e febre continua). Se levantou a suspeita sobre sua possível difusão pelo resto do Estado.

O tratamento era feito com doses mínimas de “ipeca” (Asclepias curassavica) e uma boa dose de ópio. Tintura de ópio ou elixir paregórico é um medicamento da classe dos narcóticos, de administração oral, utilizado como antidiarreico e analgésico.

Se defecava no mato, nas touceiras de bananeiras, nas praias, nos rios, nos fundos de quintais, ao pé dos muros e até nas praças.

A limpeza pública estava entregue aos urubus e às marés. Aliás, em Aracaju, a maré continua levando e trazendo excrementos para a porta das casas. Pelo menos para os que moram próximo ao Batistão.

Nos conta o Dr. Helvécio Andrade:

“A seca, a fome, a invasão de retirantes, levas de mendigos perambulavam pelas ruas do Aracaju em 1908. A epidemia foi de gravidade comparada ao flagelo da varíola de 1888.”

“A água de beber, que preocupa a população desde a fundação da cidade, continuava a mesma: uma infusão de mangue temperada com o que abunda em todos os quintais. A epidemia se alimenta desse quadro.”

Aconselha o doutor Helvécio Andrade:

“beber água fervida ou filtrada abster-se de frutas, legumes crus, usar os alimentos bem cozinhados, evitando refeições abundantes à noite”.

"O doente deve estar em aposentos vastos, asseados e muito bem ventilado. Todo cuidado com as dejeções dos doentes: o despejo deve ser levado constantemente e conter uma substância anti-séptica. É perigoso atirar no chão, nos quintais as dejeções dos doentes”.

Mesmo a tecnologia dos “water closet” WC, inglês e do bidet francês tendo chegado no Brasil no final do século XIX, o povo demorou a ter acesso a esses avanços sanitários em Aracaju.

Em Aracaju, muitos morreram e muitos escaparam da caganeira de 1908...

Antonio Samarone.

O OUTRO LADO DA PANDEMIA


O outro lado da Pandemia. (por Antonio Samarone).

As orientações da Saúde Pública concentram-se em ensinar as pessoas a proteger-se do Covid - 19. Lavar as mãos, usar máscaras, evitar aglomerações, manter a distância, isolar-se socialmente. Etc.

A medicina sabe pouco por que uma parte da população não se contamina com o Covid - 19. Não tiveram o contato ou tiveram e o vírus não contaminou?

Uma outra parcela da população se contamina, mas não tem os sintomas da doença, os “portadores sãos”.

Uns tem a doença sem gravidade, em outros a doença é grave. Para alguns a doença é letal.

A medicina não explica por que diante do mesmo Covid – 19, as pessoas reagem diferentemente. Apenas relaciona ao um genérico grau de resistência imunológica individual. Isso é muito pouco.

“A imunologia tem pouco a dizer sobre as diferenças na suscetibilidade individual as infecções, que em um extremo gera “portadores sãos” e no outro gera organismos muito suscetíveis que sofrem sintomas graves e morrem.” Nelson Vaz.

Essa variação da suscetibilidade individual ao adoecer é um tema muito mal compreendido pela medicina. não sabemos exatamente como e por que adoecemos. O vírus é necessário, mas não suficiente.

As doenças infecciosas não surgem apenas de respostas imunes insuficientes. As alergia resultam de respostas excessivas. As doenças autoimunes são respostas desviadas de seus alvos.

Quais os fatores participam deste processo do adoecer?

Muitos fatores dependem do hospedeiro (que somos nós) — imunidade prévia, genética, idade, sexo, microbioma nativo, nutrição, stress, ansiedade, bem estar emocional.

Outros fatores derivam do meio ambiente (natural, social, cultural). As epidemias são antropogênicas, acompanham a história humana.

Essa abordagem militarizada, de que o vírus é um inimigo externo a quem devemos derrotar, é o discurso da Saúde Pública do Século XIX.

Nosso modo de vida, a destruição ambiental, o modelo de sociedade em que vivemos são partes do problema.

O teor de felicidade de cada isolamento sanitário, a alegria, a paciência, a convivência harmônica, a paz e o bem estar são tão importantes no enfrentamento da Peste, como lavar as mãos com álcool gel e usar máscaras.

Tudo o que fortalece a nossa resistência imunológica é parte decisiva no enfrentamento do Covid - 19. A quarentena não é um castigo, uma pena, um local de sofrimento.

A felicidade é parte da prevenção.

Vamos lavar as mãos com um sorriso no rosto!

Antonio Samarone.

POR QUE NÃO USAMOS MÁSCARAS


Por que não usamos máscaras? (por Antonio Samarone)

As máscaras são recursos importantes na proteção contra o Covid – 19.

É tão verdade, que o seu uso é obrigatório entre os profissionais de saúde, que estão na linha de frente do atendimento. São Equipamentos de Proteção Individual (EPI).

No Brasil não se divulga, porque o serviços público não consegue fornecer nem aos médicos. As máscaras são “caras” e precisam ser trocadas frequentemente, porque quando umedecem perdem sua função filtradora.

Na Ásia (China, Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura, Taiwan e Japão) quase não existe quem ande por aí sem máscaras respiratórias especiais, capazes de filtrar o ar de vírus. Não são as habituais máscaras cirúrgicas, e sim máscaras protetoras especiais com filtros, que também são utilizadas pelos médicos que tratam os infectados.

Diante da carência, existem vídeos ensinando as pessoas construírem máscaras com garrafa pet.

Está na hora de se buscar alternativas e de se usar a criatividade. As pessoas que quiserem ajudar, mandem fazer máscaras eficazes para distribuir com o povo.

O Ministro da Saúde anunciou que está estudando um material lavável e eficaz para se fazer máscaras e distribuir com o povo.

Os coreanos já desenvolveram uma “máscara ao coronavírus” feita de nanofiltros que podem ser lavadas e podem proteger as pessoas do vírus durante um mês.

Na verdade, é uma solução muito boa enquanto não existem vacinas e medicamentos.

Antonio Samarone.

terça-feira, 24 de março de 2020

A CHINA E A PANDEMIA



A China e à Pandemia. (por Antonio Samarone)

Numa análise diferenciada e profunda, o filosofo Byung-Chu Han, professor na Universidade de Berlim, coloca novas variáveis na discussão da Pandemia. A questão deixa de ser apenas objeto de infectologistas e epidemiologistas.

Farei uma síntese de parte do pensamento de Byung-Chu Han, sobre a Pandemia, onde ele trata do uso do Big Data e do Estado policial chinês.

Vamos ao pensamento de Byung-Chu Han.

Estados asiáticos como o Japão, Coreia, China, Hong Kong, Taiwan e Singapura têm uma mentalidade autoritária, que vem de sua tradição cultural (confucionismo).

Em Hong Kong, Taiwan e Singapura há poucos infectados. Em Taiwan foram registrados 108 casos e 193 em Hong Kong. Taiwan e Coreia não decretaram a proibição de sair de casa e as lojas e restaurantes não fecharam.

Qual a novidade usada na China?

Os asiáticos apostam fortemente na vigilância digital. Suspeitam que o big data pode ter um enorme potencial para se defender numa pandemia. Poderíamos dizer que na Ásia as epidemias não são combatidas somente pelos virologistas e epidemiologistas, e sim, principalmente, pelos especialistas em informática e macro dados.

A China possui um sistema de crédito social que permite uma valorização e avaliação exaustiva das pessoas. Cada um deve ser avaliado em consequência de sua conduta social.

Na China não há nenhum momento da vida cotidiana que não esteja submetido à observação. Cada clique, cada compra, cada contato, cada atividade nas redes sociais são controlados. Quem atravessa no sinal vermelho, quem tem contato com críticos do regime e quem coloca comentários críticos nas redes sociais perde pontos.

Na China não existe a esfera privada.

Quem compra pela Internet alimentos saudáveis e lê jornais que apoiam o regime ganha pontos. Quem tem pontuação suficiente obtém um visto de viagem e créditos baratos.

Pelo contrário, quem cai abaixo de um determinado número de pontos pode perder seu trabalho. Na China essa vigilância social é possível porque ocorre uma irrestrita troca de dados entre os fornecedores da Internet e de telefonia celular e as autoridades.

Na China existem 200 milhões de câmeras de vigilância, muitas delas com uma técnica muito eficiente de reconhecimento facial. Captam até mesmo as pintas no rosto. Não é possível escapar da câmera de vigilância. Essas câmeras dotadas de inteligência artificial podem observar e avaliar qualquer um nos espaços públicos, nas lojas, nas ruas, nas estações e nos aeroportos.

Essa vigilância digital se mostrou agora ser extremamente eficaz para conter a epidemia.

Quando alguém sai da estação de Pequim é captado automaticamente por uma câmera que mede sua temperatura corporal. Se a temperatura é preocupante todas as pessoas que estavam sentadas no mesmo vagão recebem uma notificação em seus celulares. Não é por acaso que o sistema sabe quem estava sentado em qual local no trem.

As redes sociais contam que estão usando até drones para controlar as quarentenas.

Se alguém rompe clandestinamente a quarentena um drone se dirige voando em sua direção e ordena que regresse à sua casa. Talvez até lhe dê uma multa e a deixe cair voando, quem sabe.

Na China e em outros Estados asiáticos como a Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura, Taiwan e Japão não existe uma consciência crítica diante da vigilância digital e o big data.

Ao que parece o big data é mais eficaz para combater o vírus do que os absurdos fechamentos de fronteiras que estão sendo feitos nesses momentos na Europa.

O Estado sabe onde estou, com quem me encontro, o que faço, o que procuro, em que penso, o que como, o que compro, aonde me dirijo. É possível que no futuro o Estado controle também a temperatura corporal, o peso, o nível de açúcar no sangue etc.

Em Wuhan se formaram milhares de equipes de pesquisa digitais que procuram possíveis infectados baseando-se somente em dados técnicos. Tendo como base, unicamente, análises de macro dados averiguam os que são potenciais infectados, os que precisam continuar sendo observados e eventualmente isolados em quarentena.

O futuro também está na digitalização no que se refere à pandemia. É soberano quem dispõe de dados.

Em Taiwan o Estado envia simultaneamente a todos um SMS para localizar as pessoas que tiveram contato com infectados e para informar sobre os lugares e edifícios em que existiram pessoas contaminadas.

Na Coreia quem se aproxima de um edifício em que um infectado esteve recebe através do “Corona-app” um sinal de alarme. Todos os lugares em que infectados estiveram estão registrados no aplicativo.

Entenderam como funciona o Estado chinês?

A polêmica é mais profunda. A comoção é um momento propício para se estabelecer novos sistemas de Governo. É verdade!

Slavoj Žižek acredita que o vírus deu um golpe mortal no capitalismo.

Byung-Chul Han defende o contrário, que o capitalismo sairá fortalecido. Na visão de Byung, o modelo chinês de Estado policial digital, bem sucedido contra a pandemia, pode se espalhar pelo Ocidente.

Byung-Chu Han é didático:

“Após a pandemia, o capitalismo continuará com ainda mais pujança. E os turistas continuarão pisoteando o planeta. O vírus não pode substituir a razão. É possível que chegue até ao Ocidente o Estado policial digital ao estilo chinês.”

“O vírus não vencerá o capitalismo. A revolução viral não chegará a ocorrer. Nenhum vírus é capaz de fazer a revolução. O vírus nos isola e individualiza. Não gera nenhum sentimento coletivo forte. De alguma maneira, cada um se preocupa somente por sua própria sobrevivência. A solidariedade que consiste em guardar distâncias mútuas não é uma solidariedade que permite sonhar com uma sociedade diferente, mais pacífica, mais justa.”

“Não podemos deixar a revolução nas mãos do vírus. Precisamos acreditar que após o vírus virá uma revolução humana. Somos NÓS, PESSOAS dotadas de RAZÃO, que precisamos repensar e restringir radicalmente o capitalismo destrutivo, e nossa ilimitada e destrutiva mobilidade, para nos salvar, para salvar o clima e nosso belo planeta.”

A polemica está apenas começando.

Antonio Samarone.

SOCORRER OS AFLITOS


Socorrer os Aflitos. (por Antonio Samarone)

Cheio de cuidados, deixei a quarentena e fui comprar alimentos num mercadinho, na estrada do Mosqueiro. O estabelecimento estava lotado de jovens, que tomavam uma cervejinha. Fiz um alerta: Gente, cuidado com a Peste! Eles caíram na gargalhada. Besteira, tio, essa doença só mata velhos.

Mesmo não sendo verdade, aquilo me incomodou. A sociedade brasileira perdeu a empatia pelos velhos ou nunca teve?

Mesmo a Peste do Covid -19, não matando só velhos, o risco dos idosos é maior.

O que está sendo cobrado de todos é o isolamento social. A solidariedade não está em pauta. “Em tempos de murici, cada um cuide de si”, o velho lema do Exército, na segunda expedição em Canudos.

Estamos entregando a responsabilidade do acolhimento das vítimas às instituições de saúde, mesmo sabendo que o SUS vem sendo desmontado.

Os devotos do mercado vão perceber que nem tudo pode virar mercadoria. A saúde é um bom exemplo. Nessa hora, as portas do SUS precisariam estar abertas.

Sabemos que essas medidas “heroicas” do isolamento social, visam alongar o tempo da epidemia, evitar o pico rápido, minimizando as consequências para as vítimas, dado que a rede de atenção à saúde (pública e privada) não suporta e entrará em colapso.

Observando a tragédia na Itália, os profissionais de saúde e religiosos italianos, estão na linha de frente socorrendo os aflitos, mesmo correndo riscos.

A imensa maioria dos “socialmente isolados”, por enquanto, apenas batem palmas em agradecimento.

Antonio Samarone.

A PESTE NEGRA


A Peste Negra (por Antonio Samarone, resenhando Joffre)
A Peste Negra está contada na Bíblia, foi a praga que acometeu os Filisteus, descrita por Samuel.
Na História da Guerra do Peloponeso, Tucídides relatou a Peste de Atenas (428 a.C.):
“Nenhum temperamento, robusto ou débil, resistiu à enfermidade. Todos adoeciam, qualquer que fosse o regime adotado. O mais grave era o desespero que se apossava da pessoa ao sentir-se atacado: imediatamente perdia a esperança e, em lugar de resistir, entregava-se inteiramente. Contaminavam-se mutuamente e morriam como rebanhos.”
“A enfermidade desconhecida castigava com tal violência que desconcertava a natureza humana. Os pássaros e os animais carnívoros não tocavam nos cadáveres apesar da infinidade deles que ficavam insepultos. Se algum os tocava caía morto.”
A maior epidemia da história foi a Peste Negra do Século XIV.
Começou na Ásia Central e se espalhou em todas as direções. Em 1334, causou cinco milhões de mortes na Mongólia e na China.
“Em 1347 a epidemia alcançou a Crimeia, o arquipélago grego e a Sicília. Em 1348 embarcações genovesas procedentes da Crimeia aportaram em Marselha, no sul da França, ali disseminando a doença. Em um ano, a maior parte da população de Marselha foi dizimada pela peste.” Joffre
“Em 1349 a peste chegou ao centro e ao norte da Itália e dali se estendeu por toda a Europa. Em sua caminhada devastadora, semeou a desolação e a morte nos campos e nas cidades. Povoados inteiros se transformaram em cemitérios. Calcula-se que a Europa tenha perdido pelo menos um terço de sua população.” Joffre.
Assim descreveu Bocaccio os sintomas da Peste Negra:
“Apareciam, no começo, tanto em homens como nas mulheres, ou na virilha ou nas axilas, algumas inchações. Algumas destas cresciam como maçãs, outras como um ovo; cresciam umas mais, outras menos; chamava-as o povo de bubões.”
“Entre tanta aflição e tanta miséria de nossa cidade, a autoridade das leis, quer divinas quer humanas desmoronara e dissolvera-se. Ministros e executores das leis, tanto quanto outros homens, todos estavam mortos, ou doentes, ou haviam perdido os seus familiares e assim não podiam exercer nenhuma função. Em consequência de tal situação permitia-se a todos fazer aquilo que melhor lhes aprouvesse.” Bocaccio.
Uma das maiores dificuldades era dar sepultura aos mortos!
“A epidemia se apresentou de duas maneiras. Nos primeiros dois meses manifestava-se com febre e expectoração sanguinolenta e os doentes morriam em três dias; decorrido esse tempo manifestou-se com febre contínua e inchação nas axilas e nas virilhas e os doentes morriam em cinco dias. Era tão contagiosa que se propagava rapidamente de uma pessoa a outra; o pai não ia ver seu filho nem o filho a seu pai.” Chauliac.
A caridade desapareceu por completo.
Durante a epidemia, o povo procurava uma explicação. Para alguns tratava-se de castigo divino, punição dos pecados, aproximação do Apocalipse. Para outros, os culpados seriam os judeus, os quais foram perseguidos e trucidados. Somente em Borgonha, na França, foram mortos cerca de cinquenta mil deles.
Muitos médicos se dispuseram a atender aos pestosos com risco da própria vida. Adotavam para isso roupas e máscaras especiais. Alguns dentre eles evitavam aproximar-se dos enfermos. Prescreviam à distância e lancetavam os bubões com facas de até 1,80 m de comprimento.
Frades capuchinhos e jesuítas cuidaram dos pestosos em Marselha, correndo todos os riscos.
São Roque, foi escolhido o padroeiro dos pestosos. Tratava-se de um jovem que havia adquirido a peste em Roma e havia se retirado para um bosque para morrer. Foi alimentado por um cão, que lhe levava pedaços de pão e conseguiu recuperar-se.
São Roque é o padroeiro de Campo do Brito. (Você sabe o motivo?)
As consequências sociais, demográficas, econômicas, culturais e religiosas da Peste Negra foram imensas:
1. As cidades e os campos ficaram despovoados; famílias inteiras se extinguiram; casas e propriedades rurais ficaram vazias e abandonadas, sem herdeiros legais.
2. A produção agrícola e industrial reduziu-se enormemente; houve escassez de alimentos e de bens de consumo; a nobreza se empobreceu; reduziram-se os efetivos militares.
3. Houve ascensão da burguesia que explorava o comércio.
4. O poder da Igreja se enfraqueceu com a redução numérica do clero e houve sensíveis mudanças nos costumes e no comportamento das pessoas.
A Peste Negra permaneceu endêmica por muitos séculos.
Entre 1894 e 1912 houve uma outra pandemia que teve início na Índia (onze milhões de mortes), estendendo-se à China, de onde trasladou-se para a costa do Pacífico, nos Estados Unidos.
No Brasil, a peste entrou pelo porto de Santos em 1899 e propagou-se a outras cidades litorâneas. A partir de 1906 foi banida dos centros urbanos, persistindo como enzootia em pequenos focos endêmicos residuais na zona rural.
Em Sergipe, a Peste Negra teve uma passagem branda no início do século XX. Não causou maiores estragos. As nossas Pestes foram outras.
A Peste Negra foi retratada em quadros notáveis: A Peste em Atenas, do pintor belga Michael Sweerts (1624-1664), A Peste em Nápoles, de Domenico Gargiulo (1612-1679), O Triunfo da Morte, do pintor belga Pieter Bruegel, o Velho (1510-1569), e São Roque, de Bartolomeo Mantegna (1450-1523).
Na literatura, inspirou Albert Camus, prêmio Nobel de Literatura, a escrever uma de suas obras mais conhecidas: A Peste.
Antonio Samarone (resenhando Joffre).