sábado, 29 de agosto de 2026

A ARTE DE ENVELHECER - ARS LONGA, VITA BREVIS.

A Arte de Envelhecer: “ars longa, vita brevis.”
(por Antonio Samarone)

A medicina, filosofia, antropologia, psicologia, sociologia, arte e religião tratam o envelhecimento com critérios diferentes. A Academia Sergipana de Medicina vai ouvir a palavra da ciência, de um especialista (geriatra), Dr. Antônio Claudio, sobre a “arte de envelhecer”. Suponho que arte, no sentido filosófico de sabedoria.

Só ficou de fora a religião. Não sei se o tema é mesmo a velhice, ou é uma fuga, para não se tratar diretamente da morte, um tema proibido. Ficamos dando voltas em torno da morte.

É a medicina que atesta a morte, usando critérios neurológicos. A morte encefálica. Sem o atestado de óbito, não estamos legalmente mortos. Os cemitérios negam-se aos sepultamentos.

Acho que poderíamos tratar, pelo menos, da imortalidade cósmica de Borges. Ou, quem sabe, do Deus de Spinoza.

Como o tema oficial da Academia é a “arte” de envelhecer, vamos buscar na poesia de Pessoa:

“Quando vier a primavera, / Se eu já estiver morto, / As flores florirão da mesma maneira/ E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. / A realidade não precisa de mim.”

“Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele... Porque tudo é real e tudo está certo.”

A Academia de Medicina vai falar sobre o envelhecimento, para evitar falar da morte. Não pega bem se falar da morte. Os médicos encaram a morte como uma limitação da medicina. Ou, quem sabe, até uma falha médica.

Por que a velhice é deplorável e precisamos de sabedoria para enfrentá-la? Marcus Tullius Cícero, já ensinava uma arte de envelhecer: ela nos afasta da vida ativa; enfraquece o nosso corpo; nos privas dos melhores prazeres e nos aproxima da morte. O fio da lembrança: com a velhice, a memória declina. Os velhos lembram-se sempre daquilo que os interessas.

Não se precisa de arte para ser criança.

Sócrates e Platão tratavam a morte como separação da alma do corpo. A alma seria imortal. Epicuro, simplificava: enquanto existimos a morte está ausente, quando ela chega deixamos de existir. Por que temer o que nunca experimentaremos.

Os estoicos aceitam a morte como parte da natureza. A morte só importa, porque sabemos que vamos morrer. Aliás, esse sentimento da morte não é inato.

O Cristianismo trata a morte mantendo a continuidade das pessoas. O cristianismo preserva as pessoas, com o fenômeno da ressureição. Creio na ressureição da carne e na vida eterna. Eu espero o Juízo Final.

Jorge Luiz Borges admitia que o indivíduo morre (corpo e alma), mas os seus efeitos continuam. Ele acreditava na imortalidade cósmica. Borges não desejava a imortalidade pessoal. Continuamos nos outros.

Deus é a realidade infinita da qual tudo faz parte. Deus é a natureza. Sentimos e experimentamos que somos eternos. Esse é o Deus de Spinoza.

Spinoza, Einstein e Borges chegaram, por caminhos diferentes, a uma concepção em que o indivíduo deixa de ocupar o centro do universo. Nessas concepções, a morte é o fim do indivíduo biográfico.

A questão é a eternidade e não a imortalidade. O que há de eterno em nós pertence a ordem eterna da própria natureza, isto é, Deus.

Deus é a ordem profunda da realidade – Albert Einstein.

Mas o Dr. Antônio Claúdio, nem é filosofo, nem teólogo, vamos ouvi-lo como geriatra. Nem filosofia, nem religião, ele nos ensinará a “arte” de envelhecer pelos caminhos científicos. Procurando os atalhos. Indo pela sombra.

Eu estou velho, e até agora não tenho do que me queixar. Até já abrir mão do meu direito de furar filas, o único artigo do estatuto do idoso, que se cumpre mais ou menos.

Para Hipócrates, o envelhecimento estava associado a perda do calor vital e a uma constituição mais fria e seca. Há um aforismo que afirma que os idosos suportam melhor o jejum que os jovens...

Galeno chegou a discutir se a velhice era uma doença ou um estado natural.

Saramago, em seu clássico, “As Intermitências da Morte”, as pessoas simplesmente deixam de morrer. Envelhecem, adoecem, sofrem acidentes, mas ninguém consegue morrer. Só lendo, para saber a confusão.

A imortalidade pessoal, em vez de uma benção, torna-se uma tragédia. Mesmo assim, eu sonho morrer com a idade de Matusalém.

Que a velhice não seja medicalizada!

Antonio Samarone. Membro da Academia Sergipana de Medicina.
 

Um comentário:

  1. Grande Samarone. Obrigado pela atenção. Bom texto. Compatível com o Grande escritor Samarone. Grande abraço amigo. Viva a morte amiga da renovação e da evolução.

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