quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O QUE COMEMORAMOS, EM 28 DE AGOSTO.

O que comemoramos, em 28 de agosto?
(por Antonio Samarone)

O que Itabaiana comemora nesta data? Não é o aniversário! Itabaiana vem de longe. O Arraial de Santo Antônio e Alma de Itabaiana surgiu por volta de 1609. Em 30 de outubro 1675, já éramos a Freguesia (paróquia) de Santo Antônio e Almas, a segunda de Sergipe.

A Freguesia já completou 350 anos.

Não é emancipação, autonomia. Itabaiana já era Villa desde 1697, com Câmara Municipal funcionando, ou seja, autônoma há 329 anos.

Em 28 de agosto, comemoramos a passagem de Villa a Cidade, uma emenda do deputado Guilhermino Bezerra, há 138 anos. Uma mudança cinco meses após o fim da escravidão (Itabaiana possuía 1.683 escravizados), e um anos antes do fim do Império.

À época, a oposição resistiu. O Cônego Domingos de Melo Resende, do Partido Liberal, minimizou, ironizou a iniciativa. Denunciou que a medida só beneficiaria a família de Guilhermino, suas irmãs, passariam ser professoras de cidade, melhorando os seus vencimentos.

Uma simplificação, repetida por alguns historiadores.

O velho Cônego, capelense de família fidalga, filho da Capitão Mor Manuel de Melo Resende, viveu em Itabaiana por 50 anos (1852 – 1902). Domingos de Melo Resende, constituiu um harém, deixando vários filhos, todos registrados.

Cidade é civilidade, cultura, cidadania, onde vivem os "praciantes". Villa é habitação de vilões, de artesanato ou de bodegueiros, dominada pelos tabaréus. Dizia Sebrão, sobrinho.

O Cônego Domingos de Melo Resende, pregava poeticamente: “A Villa gosta de ser Villa.”

À época da mudança (1888), viviam na zona urbana da Villa de Itabaiana, três mil habitantes. Um casario modesto, a maioria casas de rancho, com 21 sobrados de taipa. Só existiam dois prédios públicos: a sede da Câmara, num sobrado, que depois virou o bar de Papinha, e a cadeia pública, na rua do Cotovelo.

Itabaiana ainda não possuía um mercado municipal. O atual mercado é de 1926, construído pelo prefeito Cazuza Queiroz, avô de Zé Queiroz.

A feira regular aos sábados, existe desde 1827. Em documento sobre a litigância entre camponeses e curraleiros, sobre a criação de gado solto, existem referências a feira de Itabaiana.

Em 1935, o Governo Provincial procura atrair os feirantes de Itabaiana para fazer funcionar a feira de São Cristóvão. Em 1952, lei 74, Euclides Paes Mendonça, amplia da feira de Itabaiana, para as quartas-feiras.

Com a derrubada das matas para se plantar algodão, a Villa cresceu, surgiu o comércio, lojas de fazenda, joalherias e a feira passou a ser semanal.

As Praças da Igreja, Santo Antônio e Santa Cruz (rua das tendas dos ferreiros), as ruas do Sol, Flores, Vitória, Futuro, Canto Escuro, Cisco, Beco Novo e início da Rua Nova.

Itabaiana possuía muitos ourives. Desconheço as razões.

A Villa de Itabaiana era pobre, isolada, sem estradas, sem água, a vida era no campo. Os homens vinham para Villa de ceroulas, uns calções compridos de pano rústico, camisa de algodão com a frente para dentro das ceroulas e a parte de trás solta, parecendo fraque.

O último Presidente da Câmara de Vereadores da Villa foi o rico caraibeiro, Cassimiro da Silva Melo, plantador de algodão, grande proprietário de terras nos povoados Chã do Jenipapo, Caraíbas, Flechas e Saco do Ribeiro. Um nome esquecido, aguardando uma homenagem.

Foi o surto do algodão a principal causa da passagem de Itabaiana de Villa a Cidade. Foi o algodão que criou a Villa de Frei Paulo (1890), a primeira a separar-se de Itabaiana, que fortaleceu as povoações de Ribeirópolis, Pedra Mole e Pinhão, que depois se tornaram municípios autônomos.
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O algodão criou riqueza para Itabaiana, o comércio estabelecido e a feira regular. O efeito adverso, foi a redução do seu território. Vários povoados foram desmembrados e tornaram-se vilas e cidades. Praticamente todo o Agreste.

Tornar-se cidade não produziu efeitos imediatos. A cidade permaneceu com a alma de Villa. À época, o fato teve pouca relevância. Epifânio Dórea, não cita entre as efemérides do 28 de agosto, a passagem de Itabaiana a cidade. Cita a morte de Fausto Cardoso (28 de agosto de 1906) e o nascimento do itabaianense General José de Calazans.

Itabaiana foi a oitava Villa sergipana a virar cidade. O desenvolvimento só veio meio século depois, mas aí já é outra história.

Nesse período, funcionava em Itabaiana a Filarmônica Eufrosina. Em 1879, o maestro Samuel Pereira de Almeida, transformou a Orquestra Sacra do padre Francisco da Silva Lobo, em Banda Marcial, incorporando a percussão.

Itabaiana passava a ter um médico residente, o lagartense Batista Itajay. Logo cedo, Itajay se casou em primeiras núpcias, com uma itabaianense, Dona Lourdes, filha Manoel Teixeira, e virou chefe político.

Antes, residiu em Itabaiana, o Dr. Francisco Dias César, que faleceu precocemente, aos 35 anos. O doutor era natural de Itaporanga, filho do Barão de Itaporanga e Dona Ana Boena César. O médico participou ativamente da criação do clube de leituras de Itabaiana (1875). Como referência, anterior ao famoso clube de leitura de Maruim (1877).

Entre 1870 e 1880, a vida intelectual é reorganizada: em 1875, funda-se o clube de Leitura e, em 1879, Samuel Pereira de Almeida, o pai de Boanerges Pinheiro, transforma a orquestra sacra do Padre Francisco da Silva Lobo, na Filarmônica Eufrosina, que em 1897, se transforma na atual Filarmônica Nossa Senhora da Conceição.

Entre os 25 intelectuais que fundaram o Clube de Leitura, destacavam-se: Samuel Pereira, Guilhermino Bezerra e os irmãos, José Martins Fontes, juiz de direito; Antônio Cornélio da Fonseca, pai de Anibal Freire da Fonseca, ministro do STF e membro titular da Academia Brasileira de Letras.

Ao lado de Batista Itajay, o outro chefe, José Sebrão de Carvalho (Coronel Sebrão), entra na vida pública como delegado de Polícia. Nascem aí os dois grupos políticos (Peba X Cabaús), que vão dominar a vida itabaianense, até a Revolução de 1930.

O cargo de Prefeito (Intendente) foi criado com a República. A primeira eleição para Prefeito de Itabaiana ocorreu em 1892, sendo vitorioso o Capitão José Ferreira Gomes de Melo, do grupo de Itajay.

Se tornou tradição, comemora-se o 28 de agosto, como feriado em Itabaiana. Aliás, comemora-se como se fosse o aniversário da cidade. Como começou? Em 08 de março de 1954, a lei 119, considerou os dias 13 de junho (Santo Antônio) e 28 de agosto (passagem de vila a cidade), feriados municipais. A lei foi sancionada pelo prefeito em exercício, Percílio da Costa Andrade.

Essa lei de 1954, foi revogada em 05 de março de 1968, pela lei 341, durante a gestão de Vicente de Belo. O 28 de agosto deixou de ser feriado.

O feriado só retorna com a Lei Orgânica, promulgada em 03 de abril de 1990. Em seu artigo 189, comete um erro histórico: a data é considerada como a Emancipação Política de Município. Não houve nenhuma emancipação, com a Resolução Provincial nº 301, de 28 de agosto de 1888. Apenas, a Villa passou a condição de cidade. O 28 de agosto volta a ser feriado.

Esse 2026, os 137 anos serão festejados, com ampla programação cívico/religiosa. Missa de ação de graça, foguetório, girândolas e galhardetes, bandeiras hasteadas e discursos comemorativos. O auge da festa é mais uma Micarana (carnaval fora de época).

As Micaranas vêm dos antigos Micaremes (o primeiro, em abril de 1949, e o ultimo, em 1963, com a morte de Euclides Paes Mendonça). Nas micaremes de Itabaiana desfilavam os blocos: Lobos do Mar, comandado por Fefi; e Gaviões da Lua, da Rua do fato e Beco Novo, comandado pelo barbeiro João Rocha.

Micaremes (Mi-carême), na França, significa festividades realizadas no meio da quaresma. Na Bahia chama-se micareta, e em Itabaiana virou micarana. Tudo carnaval fora de época. Em Aracaju, botaram o nome de pré-caju.

Em 1994, na gestão de João de Zé de Dona, o carnaval fora de época retorna, com o nome de Micarana. A festa cresceu. Agora, em 2026, será uma das maiores. Desde 1994, a micarana sofreu várias interrupções, por motivos diversos.

Tudo acompanhado pelas Filarmônicas 28 de Outubro e Nossa Senhora da Conceição, com os seus tradicionais dobrados.

Itabaiana Grande tem muito a festejar!

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

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