terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A GESTÃO DA SAÚDE (quem manda?)


A GESTÃO DA SAÚDE (quem manda?)

Diante do cipoal do SUS, sua inoperância, do sofrimento dos pacientes, dos gastos indevidos, vamos pensar numa questão: qual o papel da burocracia no Sistema? Vamos aos fatos: Os aluguéis faraônicos das sedes das secretarias de Saúde é a parte visível, a que levanta suspeitas, a que causa indignação. Mas o problema é anterior, vamos a ele.

Os sistemas de saúde existem para prestar serviços à sociedade, enfrentar os problemas e atender a quem precisa. No Brasil, esses serviços foram organizados por uma burocracia hipertrofiada e poderosa. É muita gente administrando, pensando, planejando, mamando, analisando, supervisionando, vagando, avaliando, mandando, ensinando, para uns poucos executarem. Tem muito cacique! Cada tema tem uma coordenação, um chefe e vários cargos comissionados. São infinitas assessorias: jurídica, contábil, financeira, comunicação, política, técnica, comunitária, marketing, logística, etc. Cada rede de atenção tem outros chefes, cada um com as suas siglas e regalias. São diretores, adjuntos, gerentes, coordenadores, supervisores a perder de vista.

Tem mais: essa numerosa burocracia viaja muito e se atualiza regularmente. Vive em seminários, palestras, oficinas, conclaves, mesas-redondas, conferências, em regime de capacitação permanente. As regalias nos vencimentos são assustadoras, em média, 70% acima dos mortais que estão se esfolando na linha de frente. Parece que na prática são dois SUS. De um lado, essa burocracia, ciosa dos seus direitos; e do outro, uma massa de trabalhadores se virando para atender bem, e quando não conseguem, arcando com a justa ira popular.

Por último, essa burocracia se afastou completamente da rede de atenção, dos que executam. Os mandarins não precisam de quem está prestando serviços e muito menos dos usuários. O poder dessa burocracia provém de suas ligações políticas, do elevado saber que cultuam e das influências que cultivam. Tem gente que entra e sai dessa corte sanitária sem pôr os pés numa unidade de saúde. Por outro lado, quem está nas unidades trabalhando não presta a menor atenção aos gestores. Entra equipe, sai equipe, e o nível local fica sabendo pela imprensa. O nível local tem lógica própria. A governabilidade do nível central é muita baixa. São dois subsistemas autônomos e profundamente desiguais: um com conforto, prestígio e regalias; o outro sobrecarregado, esquecido e criticado.

Entenderam por que a burocracia funciona em prédios suntuosos e caros, e os trabalhadores diretos permanecem em maltratadas unidades?
Antonio Samarone.