sábado, 18 de fevereiro de 2017

LOUCOS DE TODO O GÊNERO (PARTE UM)



Loucura, doidice ou alienação mental – Perturbação das faculdades intelectuais

"Causas: o sexo feminino, o temperamento nervoso, uma educação viciosa, o celibato, as profissões que exigem grande esforço do espirito, que agitam fortemente e põe em lida a vaidade, a ambição, etc.; as grandes revoluções políticas, a superstição, os terrores religiosos, a saciedade de todos os gozos, os excessos venéreos, os licores fortes, a leitura dos romances e dos maus livros, o ócio, a congestão cerebral frequente, são as causas que predispõe a loucura. Mas as causas que a determinam ordinariamente consistem quase todas nas afecções morais vivas ou continuas, tais como a cólera, o susto, uma perda súbita de fortuna, uma felicidade inesperada, um pesar violento, os excessos de estudos, a ambição malograda, o amor próprio humilhado, o ciúme, os acontecimentos políticos, os pesares domésticos, o amor contrariado, o fanatismo, etc."

"Sintomas. A invasão da loucura é lenta ou súbita; mas de qualquer maneira que principie, eis aqui os sintomas gerais que lhe são próprios. Ordinariamente as impressões feitas sobre um ou mais sentidos são vivamente percebidas ou mal julgadas. Assim, os doidos umas vezes percebem vivamente e com desagrado a luz, os sons, os cheiros ou sabores; outras vezes tomam um objeto, um indivíduo, um ruído, etc. por outros. As vezes veem pessoas, ouve vozes ou sons, e sentem cheiros que não tem realidade nenhuma e não existem a não ser em seus cérebros doentes."

"As desordens das faculdades intelectuais são extremamente variadas, e apresentam frequentemente a singular mistura de perfeita razão em certos pontos com delírio completo em outros. Em quase todos os alienados a lembrança do passado é preservada, mas a indiferença completa ou aversão para com seus parentes, filhos e amigos, substituem os sentimentos de afeição; uma paixão, como a alegria e a tristeza, o medo e o terror, o pesar e o transporte, a astúcia e a malícia, o orgulho e a vaidade, a inclinação ao suicídio e o homicídio, os desejos amorosos, dominam a desordem intelectual."

"Os alienados cometem as vezes homicídio, doidos furiosos atiram-se, em seus acessos, a tudo quanto encontram. Uns imaginam reconhecer, nas pessoas que os rodeiam, inimigos, espiões, gênios malfazejos, carcereiros, dos quais julgam dever vingar-se; outros julgam que Deus ou uma voz interna, mandam-lhes matar tal ou qual indivíduo. O doutor Pinel cita o fato de um alienado que, em dois diferentes paroxismos, matou filhos seus para purifica-los por um batismo de sangue, e fez muitas tentativas desse gênero sobre outras pessoas, sempre pelo mesmo motivo."

"Os sintomas da loucura oferecem-se ao observador sobre três aspectos principais. As vezes o delírio tem só por objeto uma ideia fixa, dominante, exclusiva, ou consiste na exageração de uma paixão ou de uma inclinação, e em geral o doente discorre com muito acerto quando está distraído do objeto que o preocupa, esse gênero de loucura foi chamada de monomania. Outras vezes o delírio é geral e estende-se a tudo, é sempre acompanhada de exaltação, e frequentemente de furor, toma então o nome de mania. Outras vezes, enfim, a uma indiferença ou apatia moral junta-se a inatividade, o enfraquecimento ou a perturbação completa da inteligência; isto é, a demência."

"Eis aqui as variedades principais da monomania. Uns julgam-se reis, imperadores, papa, profetas, rainhas, princesas, e suas ações correspondem a essas ideias; outros queixam-se de ter perdido a amizade das pessoas que lhe são mais caras; estes têm desejos venéreos violentos; aqueles a cabeça preocupada de um objeto que adoram; que ornam de todos os encantos, aos qual fala sem cessar (erotomania). Alguns são atormentados por escrúpulos religiosos, perseguidos pelo medo do inferno (monomania religiosa). Outros julgam-se em poder do diabo (demoniomania). Em alguns monomaníacos a tristeza, o aborrecimento, o pesar, o temor, são sintomas dominantes (melancolia); em outros predomina o ódio a seus semelhantes (misantropia). Há alguns que se julgam transformados num indivíduo de outro sexo, ou em cão, leão, pássaro, etc."
 

"Duração e prognóstico. A loucura não é sempre continua, de ordinário é intermitente. A sua duração é variável, assim, pode ser somente de oito a quinze dias, ou alguns meses na mania, mas muitas vezes e de um ou muitos anos, e até pode durar toda a vida. A loucura pode curar-se pela reaparição de uma secreção ou de uma hemorragia suprimida, por vômitos, evacuações alvinas abundantes, por suores, hemorragias espontâneas, e além disto pela maior parte das observações morais vivas."

Dicionário de Medicina Popular e das Ciências Acessórias de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, 1890.