Os Fortes da Praia: De Garcia d’Ávila a João Gualberto.
(por Antonio Samarone).
A Praia do Forte tornou-se um polo de ecoturismo. A convivência de condomínios de luxo, vila de pescadores, conservação do meio ambiente e uma diversificada rede de pousadas, hotéis de luxo e resort internacional. Um exemplo bem-sucedido do turismo sustentável.
O sucesso do complexo turístico Praia do Forte, não dependeu apenas das piscinas marítimas, decorrente da cordilheira de corais. Não! A conservação do meio ambiente e a integração da comunidade nativa foram decisivos. A Villa de Pescadores é o centro cultural do projeto, e os seus moradores grandes beneficiados.
A Enseada de Tatuapara foi ocupada pelos portugueses, com a chegada do primeiro Governador Geral do Brasil, Tomé de Souza (1549).
A região foi doada ao seu filho, Garcia d’Ávila, que se tornou o maior latifundiário do Brasil. Garcia, envolveu-se ativamente na conquista de Sergipe, pelos portugueses (1590).
No século XVII, o atual município de Mata de São João, onde fica a Praia do Forte, foi ponto de descanso das boiadas, oriundas dos curais itabaianenses, para o Salvador e Recôncavo.
A relação de Sergipe com essa região baiana é ancestral.
O padroeiro do Castelo de Tatuapara é Santo Antonio. Em 1705, o Santo guerreiro foi nomeado Capitão das forças públicas. O soldo era pago ao mosteiro franciscano.
A Enseada foi fazenda dos D’Ávilas, até meados do século XIX. Na década de 1980, a Praia do forte era uma Vila de Pescadores e uma bela praia deserta. Eu a visitei nesse período. Na década de 1970, a praia mais famosa no Norte da Bahia era Arembepe, uma Aldeia Hippie.
Nesse período, um alemão maluco e endinheirado, Klaus Peters, comprou a antiga fazenda dos d’Ávilas, e construiu um grande eco resort, implantando a lógica sustentável de turismo. Tudo começou com o alemão.
O alemão foi embora e faleceu, deixando as ideias e as condições para o ecoturismo florescer.
Aqui apareceu um itabaianense, o filho de João Padre, com alma empreendedora, inteligência, poder político e capital, e resolveu transformar a Praia do Forte, num gigantesco complexo de eco turismo. Deu andamento o projeto de Klaus Peters.
João Gualberto Vasconcelos, comprou a fazenda do alemão e montou um empreendimento sustentável. Viabilizou a implantação da unidade dinâmica e rentável do Projeto Tamar, para conservação das tartarugas; do Projeto Baleia Jubarte; da Reserva Sapiranga, com 757 hectares de Mata Atlântica; de um Parque com 264 hectares de Restinga e recuperou o Castelo Garcia d’Ávila (foto).
A Fundação Garcia d’Avila é um sucesso turístico e de negócios, com festas e shows. Por coincidência, em minha passagem pelo Castelo, o cenário estava sendo montado para um show de Natanzinho. Claro, me gabei que ele é de Itabaiana.
A Vila de Pescadores foi urbanizada, com hotéis e pousadas, adequadas ao ambiente bucólico, um forte comércio, respeitando as tradições culturais. No centro da Villa tem uma casa de farinha, com um beiju de tapioca divino, pé de moleque, com o exuberante sabor da Carimã. A culinária baiana raiz predomina.
A segurança é garantida pela incorporação de todos nos negócios. Uns mais, outros menos, mas todos ganham. Claro, o trade turístico é controlado pelo grande capital. Mas, não vi pedintes, morador de rua, ou outras vítimas do capitalismo selvagem.
O papel de João Gualberto foi decisivo para que a ocupação dos entornos com grande condomínios de luxo, respeitasse o meio ambiente. O Poder Público limitou a área construída a 10% dos terrenos. Sobrava uma enorme área verde, onde as matas foram respeitadas.
João Gualberto Vasconcelos, nasceu em Itabaiana, 06 de julho de 1958. Filho de João Pereira Vasconcelos (João Padre) e Dona Maria Otília Mendonça. João estudou no Murilo Braga até a oitava série.
Em 1973, João Gualberto se meteu numa encrenca em Itabaiana, sendo obrigado a mudar-se para Salvador, onde concluiu os estudos. Em Salvador, João teve a sombra de Mamede Paes Mendonça, seu tio, irmão de Dona Maria Otília.
João Gualberto, mesmo sendo sobrinho dos Paes Mendonça, cresceu na vida por méritos próprios. Formou-se em química e montou a rede de hipermercado Ideal.
Meteu-se na política. Em 2008, elegeu-se Prefeito de Mata de São João (onde se situa a Praia do Forte); reeleito em 2012; foi Deputado Federal (2015/19). Em 2020, voltou a Prefeitura. Nessa eleição, ele declarou o patrimônio de 170 milhões. Nas últimas eleições municipais (2024), João Gualberto, elegeu um correlegionário, Bira da Barraca.
O motorista do Bugre que fiz os passeios, Seu Evandro, foi direto: João Gualberto por aqui elege qualquer um, até o senhor.
João Gualberto é o líder político inconteste da Região. O povo atribui a ele e ao alemão, a virtude de terem construído um império ecológico. Transformando uma vila de pescadores, num complexo turístico internacional.
O mais importante, sem expulsar os pescadores. Teve muitos nativos que alugaram as suas casas, outros venderam e outros montaram negócios. Convivem pacificamente com os magnatas do mercado imobiliário e do turismo.
Eu não conheço João Gualberto pessoalmente, ele é 4 anos mais novo. Fui amigo de Balancinha, seu irmão, já falecido. Fui aluno de matemática de Bernadete Vasconcelos, sua irmã. E conhecia o pai, João Padre.
Hoje, João Gualberto estendeu os seus negócios a Portugal.
A família Paes Mendonça, da Serra do Machado, brilhou no comércio e na política: Pedro, dono da Rede Bompreço, em Pernambuco; Mamede, dono da Rede Paes Mendonça, na Bahia; e Euclides, chefe político em Itabaiana.
Dos descendentes, lembro-me do famoso João Carlos (87 anos), filho de Pedro do Bompreço, e João Gualberto Vasconcelos (67 anos), filho de Maria Otília Mendonça, o criador do complexo turístico Praia do Forte.
A força empreendedora dos itabaianenses vai longe.
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

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