Doce Província.
(por Antonio Samarone)
Luiz Antonio Barreto lembrava que Aracaju era um aterro embelezado. Obra dos sergipanos. A natureza foi hostil: mangues, dunas e alagados. Enquanto o Rio de Janeiro e Salvador já nasceram belas, Aracaju foi uma luta contra os pântanos. O embelezamento foi obra dos homens.
Sonhei atravessando o Rio Sergipe a nado, à altura da Ponte do Imperador. Fui salvo por Zé Peixe. Até o centenário (1955), Aracaju era um doce província, no dizer de Garcia Moreno.
Os versos de Gregório de Mattos sobre São Cristóvão, cabiam bem para capital de Inácio Barbosa: “Três dúzias de casebres remendados,/ Seis becos, de mentrastos entupidos,/ Quinze soldados, rotos e despidos,/ Doze porcos na praça bem-criados.”
A população de Aracaju, em 1960, era de 112.516 mil habitantes. A cidade possuía 22.541 edificações, sendo 21.171 residências, 960 comércios, 78 indústrias, 123 repartições públicas, 142 escolas e 67 destinadas a outros fins.
Chama a atenção a precariedade dessas edificações: 7.662 (31,7%) eram casas de taipas e 1.135 eram barracos (casas toscas, cobertas com palhas de coqueiros ou latas velhas).
Existiam 540 vilas de quartos, totalizando 3.435 quartos (habitações coletivas de um cômodo). Os quartos de vilas eram higienicamente piores que os barracos das favelas, devido ao confinamento. 18,3% das residências possuíam piso de chão batido.
A rede geral de esgoto cobria apenas 2.255 (10%) residências. Como agravante, entre as residências não cobertas pelo esgoto, 9.870 não possuíam fossa. Na prática, 10 toneladas de fezes eram jogadas nas ruas e quintais, depois drenados para o Rio Sergipe.
A metade da população não recebia água encanada e 33,8% não tinha luz elétrica em casa, viviam à luz do candeeiro.
Em 7.817 residências não existia coleta de lixo. O balneário de Atalaia só recebia coleta de lixo no período de veraneio. Na cidade foram identificados 316 chiqueiros de porcos e 54 estábulos para bovinos. Vários matadouros para suínos, ovinos e caprinos.
A fonte dos dados é um criterioso estudo do DENERu (Departamento Nacional de Endemias Rurais), publicados pelo Dr. Alexandre Menezes, na Revista Científica do Hospital de Cirurgia.
Em 2025, o saneamento continua atrapalhando Aracaju. Com a privatização, a IGUÁ adquiriu a concessão por 35 anos, do tratamento e coleta do esgoto, em 74 municípios de Sergipe, incluindo Aracaju.
Pelo tempo, não alcançarei os resultados dessa privatização desastrada. A primeira impressão da IGUÁ é negativa.
Acho que os banhos no Rio Sergipe e a travessia a nado, da Ponte do Imperador para a Barra dos Coqueiros, são sonhos inexequíveis. Por enquanto...
Antonio Samarone – médico sanitarista.

Esse texto faz, mesmo que não viveu em Aracaju, ter uma imagem mental (um retrato) de como seria viver na capital sergipano nos anos de 1960. Gostei muito!
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