sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

0 AUTO-RETRATO DE VAN GOGH.

O auto-retrato de van Gogh.
(por Antonio Samarone).

Eu estava, distraidamente, comendo a minha fatia matinal de manuê de arroz, num daqueles quiosques, na Praça da Igreja, em Itabaiana. Exato, onde nos tempos de Vila existia um frondoso jenipapeiro, quase em frente a antiga casa paroquial.

De forma inesperada, fui abordado por um senhor, com um olhar no infinito, atemporal, que me pediu dinheiro. As pessoas por aqui, pedem muito. Dependendo das motivações do suplicante, eu sou generoso.

Desta vez, este senhor me despertou velhas memórias. Tive uma sensação de intimidade (esse olhar não me é estranho) e fui direto: eu lhe conheço! José Hamilton, afirmei sem convicção.

Ele não falava, nem ria. Só balançava a cabeça, ou que sim ou que não. Criou-se um clima de simpatia. O senhor é de que família? Sempre pergunto. Ele continuou calado. Achei-o muito parecido com um auto-retrato de van Gogh, que eu tinha visto em Amsterdã.

Um senhor ao lado, entrou na conversa: ele mora no Cruzeiro, anda assim à toa, mas é manso. Não mexe com ninguém. Quis saber, e os outros mexem com ele? Não, respondeu o senhor.

Hipócrates identificava dois tipos de doenças da alma (manias): “os loucos pela fleuma, que são calmos, não gritam nem agitam; e os loucos pela bile, que nunca ficam quietos”.

O Conselho de Abdera (cidade grega), pediu ajuda a Hipócrates, para curar o sábio Demócrito, que ria de todos e de tudo e desprezava os seus concidadãos. A loucura de Demócrito não foi confirmada pelo Pai da medicina. Ao contrário, a loucura era da sociedade.

Esse mesmo enredo foi usado por Machado de Assis, no conto “O Alienista”. No conto de Machado, o alienista é Simão Bacamarte, que diagnosticou e internou como louco toda a cidade de Itaguaí, até mesmo a sua esposa. No final do conto, o doutor dá alta aos internos e interna-se sozinho, o louco era ele:

“Mas o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científica, trancou os ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde (o manicômio), entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada.” – Machado de Assis.

Pinel e Esquirol acreditavam que com a Revolução Francesa e fim do “ancien régime” a insanidade seria reduzida. Engano, aumentou. A modernidade criou os grandes manicômios. A loucura resistiu ao tratamento moral.

A psiquiatria de mercado nada tem a nos dizer, atribui o sofrimento mental a um desarranjo dos neurotransmissores, para a felicidade da indústria farmacêutica.

O estranho nesse encontro com Zé Hamilton, foi a minha memória que se abriu. Não sei como, mesmo sem ele ter dito nenhuma palavra, eu lembrei-me do nome dele. Uma interação das almas profundas.

O senhor é filho de Manuel Teles (Mané Lombriga) e Dona Maria Queimado, neto de Dona Zabilinha, da Moita Formosa? Ele arregalou os olhos, confirmando. Uma memória de 60 anos foi ativada.

Ele foi novo para São Paulo, como era regra para os pobres daqueles tempos. Tentar a vida no Sul. A minha memória fui buscar os arquivos de infância.

Eu não suspeitava que o meu velho cérebro ainda captava memórias tão distantes. Onde essas informações estavam arquivadas? Com certeza, não estavam guardadas nos neurônios ou em suas sinapses. Não estavam no cérebro. Não foi uma descarga físico-química. A ciência fechou-se para esse entendimento.

Voltando ao encontro.

Aí ficou fácil. Seu Mané, o pai, foi um carroceiro que ficou conhecido pelo peso que conseguia carregar nas costas: 120 quilos. Eu trabalhava num armazém de cereais, comprando farinha diretamente aos produtores, para revendê-la ao Paes Mendonça, na Bahia.

Mané Lombriga, pela disposição, era o carroceiro preferido. Como era previsível, ele fraturou a coluna cervical e morreu com a sequela, com um colete protetor no pescoço.

A família da mãe de Zé Hamilton é grande e enraizada em Itabaiana. Dona Maria (a mãe) é irmã de Sílvio, Manuel, Otília e Antonio Queimado, gente bem situada na sociedade. Filhos de João Queimado e Dona Maria Isabel dos Santos (Zabilinha).

Hamilton vive sob os cuidados de uma irmã, Vaneide, no Bairro São Cristóvão (Cruzeiro). Ele não é assistido pelo CAPS, mesmo sendo dependente do álcool. Ele resiste. Vou procurá-lo. Sei que ele tem muita coisa a contar. Em minha roda infantil de amigos, a insanidade mental era frequente.

O fato reforça a minha suspeita de que a consciência não é produzida nem armazenada no cérebro, como pensa a neurociência. O cérebro age como um receptor da consciência. Esse espaço não permite o aprofundamento dessa hipótese.

A nossa comunicação foi possível, sem que Zé Hamilton dissesse uma palavra. Tenho certeza que da mesma forma que lembrei dele, ele lembrou de mim. Houve uma vibração harmônica entre as nossas consciências.

Não adianta os colegas psiquiatras procurarem o caso no CID. Essas loucuras são doenças da alma, da consciência e da civilização.

Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
 

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