Quintino de Lacerda e a Consciência Negra.
(Por Antonio Samarone)
(das Flechas ao Quilombo Abolicionista do Jabaquara).
Comemora-se 20 de novembro, como o dia da Consciência Negra nacional, em homenagem a Zumbi dos Palmares, morto em 1695. A data foi instituída em 2011, pela Lei Federal 12.519 e, em 2023, tornou-se feriado nacional.
O Brasil é surpreendente. O dia da Consciência Negra Municipal, em Itabaiana, é 08 de junho, dia do nascimento de Quintino de Lacerda (08/06/1829), instituído pela Lei Municipal 965, de 2001, ou seja, 10 anos antes, da consciência nacional. O projeto de Lei foi autoria de José Francisco Andrade (Zé de Brió).
Essa mesma lei, elevou Quintino de Lacerda a herói abolicionista municipal, em Itabaiana.
Em Itabaiana, Quintino foi escravizado por Antonio dos Santos Leite, no povoado Flechas, em suas plantações de algodão. Ele foi vendido em 1874, aos 35 anos, para Antonio Lacerda Santos, em São Paulo. Foi escravo de ganho de Lacerda, de quem se tornou amigo e herdou o sobrenome. Foi alforriado em 1882.
Quintino liderou a resistência do Quilombo de Jabaquara, em Santos–SP, lutou pela abolição, ganhou fama e se tornou o primeiro Vereador negro do Brasil, em 1895.
“Aos oito dias do mês de abril de mil oitocentos e noventa e cinco, na Secretaria da Assembleia Municipal desta cidade de Santos, às 11 horas da manhã, compareceu o Major Quintino de Lacerda, perante a mim 1º secretário em exercício da presente Assembleia, por ter resignado o cargo o cidadão José André do Nascimento Macuco, a quem dei posse por ter prestado juramento do cargo de vereador.”
Quintino de Lacerda não era igual aos outros quilombolas. Levou a marca de sua origem Itabaianense, declarava-se com uma profissão diferente. Não era roceiro como seus companheiros: dizia-se negociante. As relações pessoais que estabeleceu ao longo de sua vida com certeza abriram portas para uma ascensão social almejada.
Em sua casa, em Jabaquara, Quintino tinha uma pequena bodega: a primeira Mercearia Itabaiana.
No seu inventário, encontra-se a relação de várias peças de ouro (novamente, a alma Itabaianense). Outra herança é a religiosidade: em Santos, Quintino tornou-se membro da prestigiosa Irmandade de São benedito (o turco). Santo da mesma Ordem de Santo Antonio, a Ordem dos Frades Menores.
Antigamente, em Itabaiana, São Benedito era o único a sair na tradicional procissão de Santo Antonio. A devoção de Quintino, não era coincidência.
“Quintino de Lacerda possuía um cavalo branco e nele subia a serra, à noite, para encontrar partidas de negros fugidos, que vinham em demanda do Quilombo do Jabaquara. [...] Muitas vezes ele com sua gente enfrentou na estrada de São Paulo os capitães de mato que pretendiam prender os fugitivos, e Quintino, que era valente com as armas, os fazia fugir, para não serem trucidados.”
O ilustre Doutor Petronio Domingues, professor de história da UFS, em seu polêmico texto “João Mulungu: a invenção de um herói afro-brasileiro”, publicado em 2015, numa revista de Curitiba, também nega o heroísmo abolicionista do itabaianense Quintino de Lacerda, acusando-o de ter furado uma greve, em 1891, no Porto de Santos, e de ter oferecido serviços ao Governo de Floriano Peixoto, na Revolta da Armada, em 1893, tornando-se “Major Honorário do Exército".
O Dr. Petronio ressalva que, mesmo assim, Quintino se tronou um cidadão respeitado pela patuleia, granjeando prestígio político, tornando-se uma liderança popular e negociadora.
O doutor da UFS tem a sua régua de medir a história, os seus valores, as suas crenças e a legitimação acadêmica. Quintino foi um guerreiro pelo fim da escravidão.
A greve, que ele é acusado de furar, é um instrumento de luta dos trabalhadores livres. O negro queria liberdade e a condições de trabalho dos brancos. A greve do Porto de Santos, de 1891, foi liderada pelo anarcossindicalismo, recém-chegado ao Brasil, pelas mãos dos imigrantes italianos. Foi praticamente uma greve geral, que durou 11 dias.
A greve de 1891, no Porto de Santos, foi duramente perseguida, centenas de trabalhadores demitidos. O que se poderia esperar dos negros do Quilombo Jabaquara, desempregados, em luta pela sobrevivência, que não aceitasse os empregos do Porto, em solidariedade aos trabalhadores brancos?
O Doutor Petronio acusa Quintino de fura-greve, e minimiza a sua importância na luta abolicionista. Acho que a academia, por vezes, dar passos errados. A influência da sociologia da USP. Octávio Ianni em seu livro Escravidão e racismo, defende que o abolicionismo teria sido unicamente o resultado de uma ação política das elites.
Desconheço a luta desse anarcossindicalismo branco, pelo fim da escravidão. Pelo contrário, via-se o negro recém-liberto, mão de obra barata, como uma ameaça a sua luta. Uma contradição dentro do mundo do trabalho.
Chamar os negros de krumiros (fura-greves), é tomar partido um século depois, usando os valores da atualidade. A partir desse conflito, os trabalhadores negros tiveram acesso ao trabalho no Trapiche de Santos.
Exatamente nesse período surgem as primeiras organizações locais que pleiteavam o predomínio sobre o movimento operário, como um jornal socialista chamado A Ação Social (1892) e um centro socialista (1895), ambos tendo como principal responsável pela sua fundação o médico sergipano Silvério Fontes.
Na questão da Revolta da Armada, a contradição da crítica é mais evidente. O alto comando das forças armadas, paulistas e cariocas, ensaiam um golpe, para derrubar Floriano. Quintino, forma um batalhão de negros, para defender o governo legitimo de Floriano.
Por que Quintino deve ser condenado? A opção politicamente correta, deveria ser a defesa os golpistas? Aliás, o povo de Santos defendeu o republicanismo de Floriano Peixoto.
Desconsiderando os saberes acadêmicos, Itabaiana continuará homenageando o seu líder abolicionista. Na próxima segunda (08 de junho de 2026), no Plenário da Câmara de Vereadores de Itabaiana, vamos comemorar o dia municipal da Consciência negra e celebrar o heroísmo do abolicionista Quintino de Lacerda.
Em 14 de novembro de 2025, a Câmara Municipal aprovou a criação da Medalha Quintino de Lacerda. A Comenda será concedida, anualmente, as personalidades negras, naturais ou residentes em Itabaiana, que tenham prestado relevantes serviços a sociedade.
No dia 20 de novembro de 1926, a Câmara de Vereadores de Itabaiana vai entronizar uma estátua de Quintino, em sua sede. Merecida!
No momento da abolição, os pais de Quintino ainda estavam vivos. É possível que seus pais tenham sido vendidos para Santos juntamente com Quintino, porém cabe também dizer que seus pais poderiam ter permanecido em Sergipe e só tenham conseguido reencontrar seu filho graças às posses que Quintino conseguiu adquirir ao longo da vida, possibilitando-lhe mandar trazer seus pais para Santos.
O itabaianense, do povoado Flechas, Quintino de Lacerda, faleceu em 10 de agosto de 1898, em Santos, aos 69 anos. O seu féretro foi conduzido por uma multidão.
Todos queriam prestar suas últimas homenagens ao homem que havia dedicado “sua existência afanosa e útil em prol de todas as causas justas, liberais e humanitárias”.
Os seus restos mortais estão sepultados na Campa n.º 42, localizada no Jazigo da I.S.B. Irmandade São Benedito, no cemitério municipal do Paquetá, localizado na cidade de Santos/SP.
Com sua morte, Quintino de Lacerda deixava órfãos três filhos menores – Alzira, com 13 anos, Arcelino, com 12 anos, e Sabina, com 7 anos –, além de diversos bens representados por imóveis, móveis, semoventes, dinheiro e joias. Sua esposa, Maria Isidora de Sousa, havia falecido exatamente um ano antes, no dia 20 de agosto de 1897.
Arcelino, “com a idade de 28 anos, cor preta, estado solteiro, natural de Santos, de nacionalidade brasileira” faleceu no Hospital da Santa Casa de “tuberculose pulmonar”.
Com as epidemias tropicais que assolaram a cidade de Santos em todo o fim do século XIX e início do XX, a tuberculose era uma das principais causas de morte, principalmente nas camadas mais populares, na cidade.
Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.

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