Maluco Beleza
(por Antonio Samarone)
Zé Pretinho ronda a cidade, sem destino e sem objetivos. Zé anda ao léu, fala alto e fórmula sentenças aleatórias. Em nosso último encontro, ele vaticinou, aos gritos: “Haverá grandes sinais, até descer fogo do céu à terra, diante dos homens.”
Fiquei pensando, será se Zé Pretinho está prevendo a terceira guerra?
Zé Pretinho é um doido manso, querido por todos.
A medicina não cuida dos loucos, aliás, nunca cuidou. A medicina atende aos doentes mentais, que é outra coisa. Hoje essas doenças mentais são tratadas como transtornos: TDAH, TOC, TDM, TAG, Transtorno Bipolar, Borderline (TPB), Transtorno do Espectro Autista (TEA).
São quase 500 transtornos. De perto, ninguém é normal.
Eu sei, existem as psicoses, com alucinações, delírios e desorganização do pensamento. Mas o tradicional louco, o doido varrido, o maluco beleza, aluado, abilolado, lelé, tantã, lunático, pinel, doido de pedras, insano, os que rasgam dinheiro e fazem profecias, esses foram banidos.
Há um antigo adágio: “de poeta, médico e louco, todos nós temos um pouco.” Zé Pretinho, é um dos últimos. (nem atira pedras, nem rasga dinheiro). Zé tem a minha estimação.
José Matos (Zé Pretinho) é filho de Alexandre Gregório de Matos e Dona Terezinha Gregório de Matos. Nasceu na velha Rua Nova, Itabaiana, em 23 de setembro de 1969. Foi padeiro e pescador, até deixar tudo para viver livre, sob os cuidados do divino.
Zé mora só. Foi aluno da professora Nazaré, irmã de Gud-Gud, com quem aprendeu ler, escrever e contar. Ainda se lembra de tirar a prova dos noves fora. Zé tem nove irmãos vivos.
No catecismo de mamãe, doido nunca era condenado, as portas do céu estavam sempre abertas. Eu tremia de medo dos infernos, muito presente no catecismo tridentino. O fato dos doidos nunca pecarem, me encantava. Eles não tinham juízo.
Perguntei se ele era assistido pelo CAPS. Ele balançou a cabeça que sim e me mostrou a receita. O CAPS dar os remédios? Ele respondeu que esses da receita, o CAPS não tinha. Ele estava aguardando o dinheiro da aposentadoria para comprá-los.
Ele adiantou: os remédios da farmácia me deixam mole, lerdo, sem muita energia. Eu não gosto. Tenho os meus segredos: abaixou-se e pegou do alforje uma garrafa de meio litro, com um líquido preto. Fiquei curioso, o que é isso? Ele respondeu de pronto: cachaça com café! Me deixa acesso, elétrico, cheio de energia.
Zé Pretinho é quase um filósofo:
“Para evitar a ressaca, antes de sair de casa, tomo água, curtida com duas cabeças de alho. Antes, tinha mais crises. Já baixei no “psicopatio”. Agora, fumo um cigarrinho de cravo com erva-doce. As visagens desapareceram.”
Ele pensa um pouco como o Bispo do Rosário: “não quero ficar totalmente livre da loucura, perderia o direito de dizer o que penso.”
A loucura é bíblica. Tanto Saul, o primeiro Rei dos israelita, quanto Nabucodonosor, o poderoso Rei da Babilônia, ofenderam Javé, e ambos receberam uma punição terrível: foram tornados loucos.
Zé Pretinho não ofendeu Javé, mas vive resignadamente a sua jornada.
Antonio Samarone – médico sanitarista.

Itabaiana sempre teve figuras como Zé pretinho.
ResponderExcluirLembra de Leônidas, um outro que sempre usava uma capa colonial, acho que tonho doído?
Ah gostei do baseado alho com erva doce.
Lindos texto e foto.
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