quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

OS FORTES DA PRAIA: DE GARCIA D'ÁVILA A JOÃO GUALBERTO.

Os Fortes da Praia: De Garcia d’Ávila a João Gualberto.
(por Antonio Samarone).

A Praia do Forte tornou-se um polo de ecoturismo. A convivência de condomínios de luxo, vila de pescadores, conservação do meio ambiente e uma diversificada rede de pousadas, hotéis de luxo e resort internacional. Um exemplo bem-sucedido do turismo sustentável.

O sucesso do complexo turístico Praia do Forte, não dependeu apenas das piscinas marítimas, decorrente da cordilheira de corais. Não! A conservação do meio ambiente e a integração da comunidade nativa foram decisivos. A Villa de Pescadores é o centro cultural do projeto, e os seus moradores grandes beneficiados.

A Enseada de Tatuapara foi ocupada pelos portugueses, com a chegada do primeiro Governador Geral do Brasil, Tomé de Souza (1549).

A região foi doada ao seu filho, Garcia d’Ávila, que se tornou o maior latifundiário do Brasil. Garcia, envolveu-se ativamente na conquista de Sergipe, pelos portugueses (1590).

No século XVII, o atual município de Mata de São João, onde fica a Praia do Forte, foi ponto de descanso das boiadas, oriundas dos curais itabaianenses, para o Salvador e Recôncavo.

A relação de Sergipe com essa região baiana é ancestral.

O padroeiro do Castelo de Tatuapara é Santo Antonio. Em 1705, o Santo guerreiro foi nomeado Capitão das forças públicas. O soldo era pago ao mosteiro franciscano.

A Enseada foi fazenda dos D’Ávilas, até meados do século XIX. Na década de 1980, a Praia do forte era uma Vila de Pescadores e uma bela praia deserta. Eu a visitei nesse período. Na década de 1970, a praia mais famosa no Norte da Bahia era Arembepe, uma Aldeia Hippie.

Nesse período, um alemão maluco e endinheirado, Klaus Peters, comprou a antiga fazenda dos d’Ávilas, e construiu um grande eco resort, implantando a lógica sustentável de turismo. Tudo começou com o alemão.

O alemão foi embora e faleceu, deixando as ideias e as condições para o ecoturismo florescer.

Aqui apareceu um itabaianense, o filho de João Padre, com alma empreendedora, inteligência, poder político e capital, e resolveu transformar a Praia do Forte, num gigantesco complexo de eco turismo. Deu andamento o projeto de Klaus Peters.

João Gualberto Vasconcelos, comprou a fazenda do alemão e montou um empreendimento sustentável. Viabilizou a implantação da unidade dinâmica e rentável do Projeto Tamar, para conservação das tartarugas; do Projeto Baleia Jubarte; da Reserva Sapiranga, com 757 hectares de Mata Atlântica; de um Parque com 264 hectares de Restinga e recuperou o Castelo Garcia d’Ávila (foto).

A Fundação Garcia d’Avila é um sucesso turístico e de negócios, com festas e shows. Por coincidência, em minha passagem pelo Castelo, o cenário estava sendo montado para um show de Natanzinho. Claro, me gabei que ele é de Itabaiana.

A Vila de Pescadores foi urbanizada, com hotéis e pousadas, adequadas ao ambiente bucólico, um forte comércio, respeitando as tradições culturais. No centro da Villa tem uma casa de farinha, com um beiju de tapioca divino, pé de moleque, com o exuberante sabor da Carimã. A culinária baiana raiz predomina.

A segurança é garantida pela incorporação de todos nos negócios. Uns mais, outros menos, mas todos ganham. Claro, o trade turístico é controlado pelo grande capital. Mas, não vi pedintes, morador de rua, ou outras vítimas do capitalismo selvagem.

O papel de João Gualberto foi decisivo para que a ocupação dos entornos com grande condomínios de luxo, respeitasse o meio ambiente. O Poder Público limitou a área construída a 10% dos terrenos. Sobrava uma enorme área verde, onde as matas foram respeitadas.

João Gualberto Vasconcelos, nasceu em Itabaiana, 06 de julho de 1958. Filho de João Pereira Vasconcelos (João Padre) e Dona Maria Otília Mendonça. João estudou no Murilo Braga até a oitava série.

Em 1973, João Gualberto se meteu numa encrenca em Itabaiana, sendo obrigado a mudar-se para Salvador, onde concluiu os estudos. Em Salvador, João teve a sombra de Mamede Paes Mendonça, seu tio, irmão de Dona Maria Otília.

João Gualberto, mesmo sendo sobrinho dos Paes Mendonça, cresceu na vida por méritos próprios. Formou-se em química e montou a rede de hipermercado Ideal.

Meteu-se na política. Em 2008, elegeu-se Prefeito de Mata de São João (onde se situa a Praia do Forte); reeleito em 2012; foi Deputado Federal (2015/19). Em 2020, voltou a Prefeitura. Nessa eleição, ele declarou o patrimônio de 170 milhões. Nas últimas eleições municipais (2024), João Gualberto, elegeu um correlegionário, Bira da Barraca.

O motorista do Bugre que fiz os passeios, Seu Evandro, foi direto: João Gualberto por aqui elege qualquer um, até o senhor.

João Gualberto é o líder político inconteste da Região. O povo atribui a ele e ao alemão, a virtude de terem construído um império ecológico. Transformando uma vila de pescadores, num complexo turístico internacional.

O mais importante, sem expulsar os pescadores. Teve muitos nativos que alugaram as suas casas, outros venderam e outros montaram negócios. Convivem pacificamente com os magnatas do mercado imobiliário e do turismo.

Eu não conheço João Gualberto pessoalmente, ele é 4 anos mais novo. Fui amigo de Balancinha, seu irmão, já falecido. Fui aluno de matemática de Bernadete Vasconcelos, sua irmã. E conhecia o pai, João Padre.

Hoje, João Gualberto estendeu os seus negócios a Portugal.
A família Paes Mendonça, da Serra do Machado, brilhou no comércio e na política: Pedro, dono da Rede Bompreço, em Pernambuco; Mamede, dono da Rede Paes Mendonça, na Bahia; e Euclides, chefe político em Itabaiana.

Dos descendentes, lembro-me do famoso João Carlos (87 anos), filho de Pedro do Bompreço, e João Gualberto Vasconcelos (67 anos), filho de Maria Otília Mendonça, o criador do complexo turístico Praia do Forte.

A força empreendedora dos itabaianenses vai longe.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

A SERGIPANIDADE NO SENADO


 A Sergipanidade no Senado.
(por Antonio Samarone)

O Senado Federal é uma representação dos Estados, por isso a igualdade nas vagas. Sergipe e a Bahia, possuem, cada, três representantes.

Sergipe, nunca deu muita importância ao Senado.

Entre 1826, primeira legislatura do Senado e a décima, em 1859, ou seja, nos primeiros trinta e três anos, foram Senadores por Sergipe, o gaúcho José Teixeira da Matta Bacellar e o baiano José da Costa Carvalho (Marques de Monte Alegre). Os dois, nunca pisaram os pés em Sergipe.

Essa desonra política original, foi solenemente esquecida.

O primeiro sergipano a representar o Estado no Senado (1859), foi o senhor de engenho Antonio Diniz de Siqueira Mello, que lutou contra a libertação dos escravos. Diniz era da família de Leandro Maciel, governador e senador por Sergipe, na segunda metade do século XX.

Durante o Império, apenas mais dois sergipanos chegaram ao cargo de Senador: João Gomes de Mello (Barão de Maruim), em 1861, e Antonio Dias Coelho e Mello (Barão de Estância), em 1885.

Com a República, entre os três primeiros senadores eleitos por Sergipe, um era baiano, Thomaz Rodrigues da Cruz. E assim, a história anda.

Sem contar o amazonense, Lopes Gonçalves, eleito Senador por Sergipe (1924 – 1930), sem saber onde ficava Sergipe. Foi cassado pela Revolução de 1930.

Sem esquecer o baiano Lourival Batista, Senador por Sergipe por 24 anos. A esquerda teve a sua vez, o carioca Zé Eduardo Dutra, também representou Sergipe no Senado (1995 – 2003).

Um amigo, bolsonarista, crente na sergipanidade, argumentou:

“Era assim antigamente, hoje, ser ou não filho de Sergipe tem peso relevante na escolha.”

Será?

Na atual bancada sergipana no Senado, dos três, um é gaúcho e o outro pernambucano.

Acho que qualquer brasileiro pode representar Sergipe. Os critérios são políticos. O estranho é porque tantos, não sergipanos. Na história, não sei se por coincidência, os melhores senadores foram os naturais de Sergipe.

É evidente que não basta ser sergipano. O desempenho dos políticos obedece a outras variáveis. Se existem bons candidatos nas duas condições, no perfil ideológico de cada eleitor, com a competência e honradez necessárias, por que optamos quase sempre pelos de fora?

Para evitar distorções, não estou defendendo votar num sergipano despreparado, só porque ele é sergipano. Entretanto, a histórica escassez de sergipanos no Senado Federal é sintomática.

Quem se lembra de um sergipano eleito Senador, pela Bahia?

Antonio Samarone – observador da política.

domingo, 21 de dezembro de 2025

DOCE PROVÍNCIA

Doce Província.
(por Antonio Samarone)

Luiz Antonio Barreto lembrava que Aracaju era um aterro embelezado. Obra dos sergipanos. A natureza foi hostil: mangues, dunas e alagados. Enquanto o Rio de Janeiro e Salvador já nasceram belas, Aracaju foi uma luta contra os pântanos. O embelezamento foi obra dos homens.

Sonhei atravessando o Rio Sergipe a nado, à altura da Ponte do Imperador. Fui salvo por Zé Peixe. Até o centenário (1955), Aracaju era um doce província, no dizer de Garcia Moreno.

Os versos de Gregório de Mattos sobre São Cristóvão, cabiam bem para capital de Inácio Barbosa: “Três dúzias de casebres remendados,/ Seis becos, de mentrastos entupidos,/ Quinze soldados, rotos e despidos,/ Doze porcos na praça bem-criados.”

A população de Aracaju, em 1960, era de 112.516 mil habitantes. A cidade possuía 22.541 edificações, sendo 21.171 residências, 960 comércios, 78 indústrias, 123 repartições públicas, 142 escolas e 67 destinadas a outros fins.

Chama a atenção a precariedade dessas edificações: 7.662 (31,7%) eram casas de taipas e 1.135 eram barracos (casas toscas, cobertas com palhas de coqueiros ou latas velhas).

Existiam 540 vilas de quartos, totalizando 3.435 quartos (habitações coletivas de um cômodo). Os quartos de vilas eram higienicamente piores que os barracos das favelas, devido ao confinamento. 18,3% das residências possuíam piso de chão batido.

A rede geral de esgoto cobria apenas 2.255 (10%) residências. Como agravante, entre as residências não cobertas pelo esgoto, 9.870 não possuíam fossa. Na prática, 10 toneladas de fezes eram jogadas nas ruas e quintais, depois drenados para o Rio Sergipe.

A metade da população não recebia água encanada e 33,8% não tinha luz elétrica em casa, viviam à luz do candeeiro.

Em 7.817 residências não existia coleta de lixo. O balneário de Atalaia só recebia coleta de lixo no período de veraneio. Na cidade foram identificados 316 chiqueiros de porcos e 54 estábulos para bovinos. Vários matadouros para suínos, ovinos e caprinos.

A fonte dos dados é um criterioso estudo do DENERu (Departamento Nacional de Endemias Rurais), publicados pelo Dr. Alexandre Menezes, na Revista Científica do Hospital de Cirurgia.

Em 2025, o saneamento continua atrapalhando Aracaju. Com a privatização, a IGUÁ adquiriu a concessão por 35 anos, do tratamento e coleta do esgoto, em 74 municípios de Sergipe, incluindo Aracaju.

Pelo tempo, não alcançarei os resultados dessa privatização desastrada. A primeira impressão da IGUÁ é negativa.

Acho que os banhos no Rio Sergipe e a travessia a nado, da Ponte do Imperador para a Barra dos Coqueiros, são sonhos inexequíveis. Por enquanto...

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

0 AUTO-RETRATO DE VAN GOGH.

O auto-retrato de van Gogh.
(por Antonio Samarone).

Eu estava, distraidamente, comendo a minha fatia matinal de manuê de arroz, num daqueles quiosques, na Praça da Igreja, em Itabaiana. Exato, onde nos tempos de Vila existia um frondoso jenipapeiro, quase em frente a antiga casa paroquial.

De forma inesperada, fui abordado por um senhor, com um olhar no infinito, atemporal, que me pediu dinheiro. As pessoas por aqui, pedem muito. Dependendo das motivações do suplicante, eu sou generoso.

Desta vez, este senhor me despertou velhas memórias. Tive uma sensação de intimidade (esse olhar não me é estranho) e fui direto: eu lhe conheço! José Hamilton, afirmei sem convicção.

Ele não falava, nem ria. Só balançava a cabeça, ou que sim ou que não. Criou-se um clima de simpatia. O senhor é de que família? Sempre pergunto. Ele continuou calado. Achei-o muito parecido com um auto-retrato de van Gogh, que eu tinha visto em Amsterdã.

Um senhor ao lado, entrou na conversa: ele mora no Cruzeiro, anda assim à toa, mas é manso. Não mexe com ninguém. Quis saber, e os outros mexem com ele? Não, respondeu o senhor.

Hipócrates identificava dois tipos de doenças da alma (manias): “os loucos pela fleuma, que são calmos, não gritam nem agitam; e os loucos pela bile, que nunca ficam quietos”.

O Conselho de Abdera (cidade grega), pediu ajuda a Hipócrates, para curar o sábio Demócrito, que ria de todos e de tudo e desprezava os seus concidadãos. A loucura de Demócrito não foi confirmada pelo Pai da medicina. Ao contrário, a loucura era da sociedade.

Esse mesmo enredo foi usado por Machado de Assis, no conto “O Alienista”. No conto de Machado, o alienista é Simão Bacamarte, que diagnosticou e internou como louco toda a cidade de Itaguaí, até mesmo a sua esposa. No final do conto, o doutor dá alta aos internos e interna-se sozinho, o louco era ele:

“Mas o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científica, trancou os ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde (o manicômio), entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada.” – Machado de Assis.

Pinel e Esquirol acreditavam que com a Revolução Francesa e fim do “ancien régime” a insanidade seria reduzida. Engano, aumentou. A modernidade criou os grandes manicômios. A loucura resistiu ao tratamento moral.

A psiquiatria de mercado nada tem a nos dizer, atribui o sofrimento mental a um desarranjo dos neurotransmissores, para a felicidade da indústria farmacêutica.

O estranho nesse encontro com Zé Hamilton, foi a minha memória que se abriu. Não sei como, mesmo sem ele ter dito nenhuma palavra, eu lembrei-me do nome dele. Uma interação das almas profundas.

O senhor é filho de Manuel Teles (Mané Lombriga) e Dona Maria Queimado, neto de Dona Zabilinha, da Moita Formosa? Ele arregalou os olhos, confirmando. Uma memória de 60 anos foi ativada.

Ele foi novo para São Paulo, como era regra para os pobres daqueles tempos. Tentar a vida no Sul. A minha memória fui buscar os arquivos de infância.

Eu não suspeitava que o meu velho cérebro ainda captava memórias tão distantes. Onde essas informações estavam arquivadas? Com certeza, não estavam guardadas nos neurônios ou em suas sinapses. Não estavam no cérebro. Não foi uma descarga físico-química. A ciência fechou-se para esse entendimento.

Voltando ao encontro.

Aí ficou fácil. Seu Mané, o pai, foi um carroceiro que ficou conhecido pelo peso que conseguia carregar nas costas: 120 quilos. Eu trabalhava num armazém de cereais, comprando farinha diretamente aos produtores, para revendê-la ao Paes Mendonça, na Bahia.

Mané Lombriga, pela disposição, era o carroceiro preferido. Como era previsível, ele fraturou a coluna cervical e morreu com a sequela, com um colete protetor no pescoço.

A família da mãe de Zé Hamilton é grande e enraizada em Itabaiana. Dona Maria (a mãe) é irmã de Sílvio, Manuel, Otília e Antonio Queimado, gente bem situada na sociedade. Filhos de João Queimado e Dona Maria Isabel dos Santos (Zabilinha).

Hamilton vive sob os cuidados de uma irmã, Vaneide, no Bairro São Cristóvão (Cruzeiro). Ele não é assistido pelo CAPS, mesmo sendo dependente do álcool. Ele resiste. Vou procurá-lo. Sei que ele tem muita coisa a contar. Em minha roda infantil de amigos, a insanidade mental era frequente.

O fato reforça a minha suspeita de que a consciência não é produzida nem armazenada no cérebro, como pensa a neurociência. O cérebro age como um receptor da consciência. Esse espaço não permite o aprofundamento dessa hipótese.

A nossa comunicação foi possível, sem que Zé Hamilton dissesse uma palavra. Tenho certeza que da mesma forma que lembrei dele, ele lembrou de mim. Houve uma vibração harmônica entre as nossas consciências.

Não adianta os colegas psiquiatras procurarem o caso no CID. Essas loucuras são doenças da alma, da consciência e da civilização.

Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana).
 

sábado, 13 de dezembro de 2025

MEMÓRIAS DE MANÉ BARRACA


 Memórias de Mané Barraca.
(por Antonio Samarone)

O banzo (loucura nostálgica) e a tísica pulmonar eram frequentes no Tabuleiro dos Caboclos. Seu Manuel cuidava do banzo. A peste branca matava. Não existia tratamento para a tuberculose: o poeta Castro Alves (38 anos) e o Imperador Pedro I (36 anos), foram vítimas.

Mané Barraca era o pajé do Tabuleiro. Um negro alto, de fala mansa e gestos imponentes. No alto do seu oratório tinha um quadro de Jacques de Molay, a caminho da fogueira; ao lado da figura de Bafomé, esculpida em barro.

Se dizia que essa influência templária, foi deixada por um “maçone”, dono de engenho no Zanguê, no final do século XIX. Um ancestral do doutor Átalo e Grampão.

Seu Manuel era um misto de sacerdote, pajé e curador. Fazia as suas mandingas em Iorubá. No canto do oratório existia um manuscrito, com a farmacopeia jesuítica, incluindo a composição do “triaga brasílica!”. Fui seu cliente. Mamãe temia o quebranto, uma prostração causada por maus-olhados.

Seu fosse necessário, em casos urgentes, o mandingueiro Mané Barraca, lancetava, sangrava, sarjava e partejava. Era pau para toda a obra. Um benemérito, não cobrava.

A casuística de Mané Barraca incluía a gota serena (avitaminose A), bicho de pé (tunga), sarna, sapinho, impingem, antraz, pereba, ventosidade, opilação, gonorreia, malinas, tosse comprida, bexiga, sezões, fleimão e unheiro. O "morbus sacer" era tida como possessão.

Entretanto, o caso mais famoso de Mané Barraca, foi a cura de Zuzu do Matebe, ex escravizado, paneleiro e Pai de Santo. Seu Zuzu entristeceu, depois que a polícia mandou fechar o seu Terreiro.

Deixou de comer, só andava muzumbudo, emburrado pelos cantos.
Seu Zuzu perdeu a liberdade religiosa e cultural. Uma melancolia profunda pela perda da liberdade. O diagnóstico foi preciso: banzo! Uma doença que acometia os escravizados, quando chegavam ao Brasil, uma nostalgia profunda da pátria africana.

Mané Barraca, percebeu as semelhanças, no fundo, era a mesma perda da liberdade.

Martim Cascavel, um poderoso Coronel do Bom Jardim, ficou sabendo do caso e se ofereceu para ajudar. O tratamento era a reabertura do Terreiro. Dito e feito. A ordem foi dada: pode abrir!

Ouvia Seu Sancho contar, nas bodegas do Beco Novo, esse caso de banzo. Talvez o último, tratado por Mané Barraca. Nesse tempo, a doença já estava em extinção. Seu Zuzu montou o novo Terreiro, nas proximidades do Açude Velho. O banzo foi curado.

Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

O REINO DE MIL ANOS

O reino de mil anos.
(por Antonio Samarone)

“Se alguém está destinado à prisão,/ irá para a prisão;/ se alguém deve morrer pela espada,/ é preciso que morra pela espada.” – Apocalipse 13,10.

A Besta foi vista no Caribe.
A Besta tem cabelos de fogo.
O tempo está próximo.
Aniquilarei os homens da face da terra.
Está próxima a grande tribulação.
Gaza já foi abandonada.
A sétima trombeta anunciou
A rosa hereditária.

É o fim das terras de Bolívar. Nos resta, uma madura solidariedade.

Eu sempre tive uma fantasia tridentina: assistir ao Armagedom pela TV, comparecer ao juízo final e ser um dos poucos escolhidos.

Entendam, o Paraíso não cabe todo o mundo. Creio que o juízo final será transmitido ao vivo, com acesso a perguntas. Basta saber o login e a senha.

Que me digais,/ Pois morri tão sem aviso,/ Se a barca do Paraíso/ É esta em que navegais?” – Gil Vicente.

Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana. 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

A MISSA DO GALO

A Missa do Galo.
(por Antonio Samarone)

Os Natais começavam com os presépios. Na primeira semana, Dona Dezí esposa de Seu Jeconias, montava o seu presépio, na sala de visitas de sua casa. O menino Jesus ficava na manjedoura, esperando os Reis Magos. Se sabia até os nomes dos monarcas orientais: Belchior, Gaspar e Baltazar. Eles seguiam uma estrela e traziam ouro, incenso e mirra. Não me perguntem, eu não sei o que é “mirra”.

O presépio de Dona Dezí era de visita obrigatória.

O Natal nasceu em Roma, como festa pagã. Saturnália e o Natalis Solis Invicti (Nascimento do Sol Invicto) celebradas no solstício de inverno (25 de dezembro). O cristianismo associou a data ao nascimento de Cristo. Eu ainda alcancei o Natal como uma festa cristã.

O Natal sempre foi um tempo de presentes e roupas novas. O ponto máximo do Natal era a missa do galo, tarde da noite.

Depois da missa, os ricos organizavam um jantar em família. Os pobres e remediados iam à Feirinha de Natal, comer arroz amigo com galinha de capoeira, nas banquinhas das cozinheiras, no final da Praça de Santa Cruz. Quando me lembro, sinto o cheiro e ainda me dá água na boca.

No Beco Novo, se dizia que um galo tinha cantado a meia-noite, anunciando a boa nova, o nascimento de Cristo. Eu, até hoje, acredito no canto desse galo. Fiquei sabendo que não existe mais a missa do galo.

Depois da missa, descíamos aos magotes para Praça de Santa Cruz, onde estava montada a Feirinha de Natal. A festa consistia num parque de diversão, totalmente artesanal. Os principais brinquedos eram: barcas, carrosséis, o balanço de Seu Otávio, a onda de Zé Costa, o trivoli de Miguel Fagundes, todos empurrados pelos músculos humanos.

Outra atração para os adultos eram os jogos de azar. Carteado, pio, roleta, argola e o jogo do preá. Os prêmios das roletas eram goiabadas, peixe e palmeiron. Meu pai gastava as economias nas roletas de natal. Ele chegava em casa, cansado, com os bolsos vazios e as mãos cheias de goiabadas.

Papai se considerava um vencedor nas roletas de Natal. Chegar em casa com as mãos abanando, era um sinal de derrota.

O jogo do preá era uma mesa enfeitada, cercada de casinhas numeradas. O coitado do preá era solto no meio da mesa e, empurrado aos gritos, para se esconder dos humanos, em uma das casinhas. O número da casa escolhida pelo atordoado preá, era o número vencedor. Naquele tempo, era permitido se maltratar os animais.

A Feirinha de Natal era sortida de vendas de doces, frutas e bugigangas. Foi numa dessas feirinhas, aos 13 anos, onde eu experimentei a maça pela primeira vez. Gastei tudo o que tinha, mas comprei a maça. Movido pela curiosidade em saber o que Adão viu na maça, para ele perder o Paraíso, e pelo cheiro de um papel azul que enrolava o fruto proibido.

Uma decepção: não gostei da minha primeira maça. Preferia ingá, tamarindo, oiti, cajarana, imbu e juá.

Ao fundo da feirinha, um alto-falante tocava boleros e mandava recados para os enamorados: alguém oferece, apaixonadamente, a uma moça de saia plissada e blusa de alcinha, as músicas que seguem. A música mais tocada era “Esta noite eu queria que o mundo acabasse...”, na voz de Silvinho.

Papai Noel já existia, trazido por Fefi, do Armarinho Tem-Tem. Porém, nunca passou no Beco Novo. Para ser sincero, eu nunca acreditei. Eu conheci o Papai Noel em Aracaju.

A chamada Festa de Natal, se repetia no Ano Bom e no dia de Reis. Cada povoado fazia a sua, em dias diferentes. Meu pai me levava para o Natal das Candeias, onde ele nasceu.

Hoje, as cidades se iluminam de leds, pisca-piscas, arvores de natal, renas e Papai Noel. Muitos, um em cada esquina tem um. Nada contra, o Natal voltou a ser uma festa pagã.

Em Itabaiana, além das luzes, montaram um moderno parque de diversões, onde tem até montanha-russa e, acompanhando as novidades, o competente Marquinhos inventou um castelo medieval, daqueles da Disney. O castelo foi fabricado pela Tuchê Impressão, uma empresa local.

A festa está bonita e animada em Itabaiana, com corais, bandas e teatro.

Eu só acho que a igreja católica, assistiu à derrota passivamente. Gente, pelo menos deixassem a missa do galo.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

AS SANDÁLIAS DA HUMILDADE

As Sandálias da Humildade.
(por Antonio Samarone)

As matas de Itabaiana foram derrubadas para se plantar algodão, na segunda metade do século XIX. Os povoados Saco do Ribeiro e Chã do Jenipapo tornaram-se Vilas, depois Cidades (Ribeirópolis e Frei Paulo).

No Brasil, as árvores perderam as identidades biológicas, para facilitar o desmatamento. Uma nobre braúna preta vira um anônimo pé-de-pau. Só recentemente, a arborização em Itabaiana se tornou realidade. As pessoas não queriam árvores, para não quebrar as suas calçadas.

Nesse Natal, o Prefeito decidiu embelezar a Praça da Igreja. Um jardinagem bem cuidada e o plantio de novas árvores. Na execução, o trabalho voluntário de um ex Deputado Federal.

Está lá o homem (foto), gadanho na mão, acompanhando os plantios de flores tropicais. Parece um Burle Marx de aldeia, um maestro da natureza.

Quem é esse Deputado?

Sua excelência Wilson Cunha (Jia). Vereador de Itabaiana por dois mandatos, Deputado Estadual (1991/95) e Deputado Federal (1995/99).

Wilson Cunha (Jia), nasceu no Povoado Água Branca, em 10 de agosto de 1951. Filho de Antonio Francisco da Cunha e Dona Joana Perpétua da Cunha. Uma família numerosa: Zé Cunha, Nivaldo, Zé Augusto, Ireno, Arnaldo (Cunha), Rivaldo, Maria, Bernadete, Neném, Carminha e João Namorador.

João Namorador morreu novo, com o amigo Carbureto, num acidente de trânsito, na perigosa ladeira de Frei Paulo.

Seu Antonio de Franco, o pai, foi um rico comerciante, represente da farinha-do-reino (Moinhos, Salvador e Sergipe), para todo o agreste. A família foi criada em rédea curta, sob férrea disciplina.

Wilson Cunha fez o primário na escola da temida Maria de Branquinha, uma professora que não se acanhava em usar a palmatória e os castigos merecidos (ou não).

Wilson começou a gazear, faltar as aulas para acompanhar a malandragem. A infração tornou-se insuportável, para os princípios do educandário.

Dona Maria de Branquinha ameaçou Wilson de expulsão. Quando Seu Antonio de Franco soube, tomou as providências. Nessas gazeadas, Wilson foi com a molecada tomar banho no Açude do Matadouro. O pai e a professora resolveram armar um flagrante, foram em comitiva buscar o peralta no banho.

Com a chegada da volante na beira do açude, os meninos saíram rapidamente e botaram as suas roupas (tomavam banhos nus). Wilson resistiu. Quanto mais a professora gritava, sai Wilson, já lhe vimos. Não precisa se esconder.

Wilson, acuado e com medo da surra, encontrou uma saída: eu sou uma Jia, vocês estão enganados, não sou eu. Um prato cheio: virou Jia até hoje.

Jia ainda foi aluno do Professor Airton Silva (Órion). Concluiu o curso ginasial no Murilo Braga. Jia não continuou os estudos.
O Pai era rico, permitiu que Jia começasse a inventar coisas.

Montou o time de futebol de salão, e batizou-o com o nome de Curitiba. Depois foi para o futebol de campo, chegando a disputar o campeonato de profissionais. O vício de Cartola é forte. Ele ainda possui uma escolinha de futebol, que se mantém com subsídios da Prefeitura.

Jia casou bem, em 16/12/1978, com uma neta de Viera do Couro. A bem nascida Vânia Vieira, e tiveram 4 filhos.

Um cidadão pacato, amigo de todo mundo, Wilson foi estimulado a entrar para a política, pelo grupo de Chico de Miguel. Elegeu-se Vereador por dois mandatos. Tomou gosto, entrou no PDT de Almeida Lima, e chegou a Assembleia Legislativa. O PDT elegeu 2 deputados. De forma inesperada, Jia foi o segundo, tomou a vaga do famoso Bosco Mendonça.

Durante o seu mandato estadual, o Governador João Alves, concedeu ao Curitiba, em comodato, o antigo Módulo Esportivo, em Itabaiana. Para facilitar a administração, Jia construiu uma casa e foi morar no Módulo.

Depois, no local, foi construído o atual Ginásio Poliesportivo Chico do Cantagalo.

Como outsider, sem pertencer aos grupos tradicionais da política, Jia elegeu-se Deputado Federal. Um milagre político. Jia votou pela reeleição de Fernando Henrique, seu principal voto. No mandato Federal, Jia passou a frequentar a intimidade do Rei Pelé (Ministro dos Esportes). Ele quer criar um monumento a Pelé, em Itabaiana.

Em outra aventura, Jia adquiriu, com escritura pública, uma área de 219 hectares no miolo da Serra de Itabaiana. Foi dono dos Poços das Moças. O objetivo era construir uma reserva particular e um Parque. Encomendou o projeto a célebre Kátia Loureiro, uma arquiteta que encantou Sergipe.

Já fora da política, Jia enfrentou reações e protestos ao seu projeto. Areia Branca se mobilizou contra. O seu pedido no IBAMA não andava.

Nesse conflito, o Presidente do IBAMA em Sergipe, conseguiu, em 15 de junho de 2005, a aprovação do decreto, criando o “Parque Nacional Serra de Itabaiana”, com 8 mil hectares, que continua sem as necessárias desapropriações.

Os 219 hectares do Parque de Jia, foram desapropriados por uma ninharia: 300 reais por hectares. Fazendo a conta: R$ 65.700,00, ou seja, só o Poço das Moças valia mais. Nesse episódio, Jia foi acusado de ter invadido a Serra de Itabaiana.

O pacato Jia, 75 anos, vive da aposentadoria de deputado estadual. Não possui patrimônio, em seu nome. Vive modestamente. Não ficou rico. Como forma de retribuir o que recebeu dos itabaianenses, dedica-se a jardinagem pública. Sente-se bem com a beleza das flores.

Jia conseguiu uma velhice feliz, sem apegos as coisas materiais.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

O DIREITO DE MIJAR


 O Direito de Mijar.
(por Antonio Samarone)

A Constituição Federal, de 1988, em seu artigo 5º, estabeleceu os direitos fundamentais. O direito de ir e vir, lazer, transporte, liberdade de expressão, inviolabilidade, de expressão, de resposta, de propriedade... , etc. Quase uma centena.

E o direito de mijar? Nada! Vamos apresentar uma emenda coletiva, de iniciativa popular.

A necessidade incontida de mijar, sem um local disponível, é um sofrimento que só sabe quem precisa. Nas festas públicas, ensopados de cervejas, os brincantes mijam atrás dos postes, dentro de garrafas PET ou em um canto escuro.

A lei obriga a existência banheiros provisórios. Um horror: quentes, inseguros, sem privacidade, malcheirosos, sem papel higiênicos e piso sujo. Um inferno!

Se alguém soltar o barro nesses banheiros, ficam interditados para o resto da festa. O mau cheiro chega ao palco.

No dia-a-dia, os idosos, diabéticos, os que sofrem de algum tipo de incontinência, padecem em via pública, em busca de um simples sanitário.

Os bares e restaurantes são obrigados a ofertarem esse serviço a clientela. Como transeunte, tente usá-los. Será recebido com uma cara feia. No mínimo.

A maioria desses banheiros estão fechados, a pessoa que precisar, vai pedir a chave ao gerente, que deixa claro, com a má vontade, que está lhe fazendo um grande favor. Na Bahia, os turistas pagam uma taxa do mijo.

Antes, as Prefeituras construíam banheiros nas praças, mercados e logradouro. O difícil era a manutenção. A sujeira e a depredação eram regras. O que fazer?

A Prefeitura de Itabaiana recorreu à Inteligência Artificial, e implantou banheiros públicos, que se limpam sozinhos. Liberam bom ar. O papel higiênico é automático, o cristão basta não se mexer muito.

Vejam a foto. A máquina é automática.

O mais interessante, o banheiro fala. O abençoado para na porta, o banheiro ordena: aperte o botão. A porta se abre, o banheiro parece que nunca foi usado. Cem por cento limpo e cheiroso.

O banheiro comanda: pode começar. O sujeito, desconfiado, olha para ter a certeza que não tem uma câmara escondida. E relaxa. Terminado o serviço, o banheiro detona a descarga. E ainda pergunta, satisfeito? Você não sabe se responde ou apenas balança a cabeça confirmando.

Terminada a necessidade, o banheiro avisa: você ainda tem 15 minutos. Tem que fique, só admirando.

Não adianta querer mijar fora do vaso. O banheiro não deixa. Nada de depredações, nada de escrever bobagens nas paredes (como nos antigos banheiros públicos), cuspir no chão, nem falar alto. O banheiro é uma lição de higiene.

Soube, que já existem caravanas, que veem fazer compras em Itabaiana, só para aproveitar o sanitário inteligente e mijarem sossegados. E ainda, sair contando para os descrentes.

Tem gente que vai aproveitar o Natal em Itabaiana, só para soltar o mijo preso.

A Revolução Francesa esqueceu de incluir em seus “Direitos Humanos”, o direito de mijar, a hora que precisar, protegido dos olhares indiscretos.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O CORETO DE ROUPA NOVA

O Coreto de roupa nova.
(Por Antonio Samarone)

Os Coretos nasceram na China. Originalmente, um local ao ar livre para apresentações musicais, sobretudo os cânticos.

Quando o homem começou a cantar, já dançava, soprava flauta, pintava e esculpia. Todas voltadas para a sobrevivência. Só o canto é sublime. Canta-se para seduzir os deuses.

Os antropólogos conhecem as dificuldades para as mulheres sertanejas entoarem as “excelências”, em velórios e sepultamentos. Os cânticos sacralizam os velórios, encantam os deuses e aproxima a eternidade.

Os Templários subiam as fogueiras cantando. Quem canta, seus males espantam.

“A ferida de Ulisses, feita pelo javali no monte Parnaso, foi sarada pelo filho de Autólicus, cantando a fórmula que fazia cessar a hemorragia.” – Câmara Cascudo.

No Brasil, os coretos datam do período colonial. Entretanto, a sua disseminação deveu-se ao movimento Tenentista, na ânsia de difundir o nacionalismo. As bandas marciais precisavam de um espaço para os seus dobrados.

A Revolução de 1930, trouxe os coretos. O de Itabaiana (foto) é de 1934, construído na gestão do Intendente Othoniel Dorea. Um coreto quase centenário, 91 anos.

Com o tempo, os coretos caíram em desuso. Foram meio esquecidos.

Esse ano, em Itabaiana, os velhinhos da Praça da Igreja tomaram as dores do coreto. Protestaram: não é justo a prefeitura colocar na praça, sanitários comandados pela inteligência artificial, que até fala, e deixar o velho coreto abandonado.

A Praça está sendo ajardinada nos moldes de Versalhes, superando os jardins suspensos da Babilônia. Já é a Praça mais bela de Sergipe.

Pedido atendido: o coreto foi embelezado e entrará o ano novo de roupa nova.

Por falar em Natal, Itabaiana acenderá as luzes na sexta-feira, dia 05, depois da missa das 19 horas, na Matriz de Santo Antonio e Almas. Vale a pena.

Antonio Samarone – Secretario de Cultura de Itabaiana.
 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

PEDRO DA JABÁ

Pedro da Jabá.
(por Antonio Samarone)

A carne salgada e seca é milenar, não foi inventada no Nordeste. Aqui, virou carne do sol. Nos Pampas, a carne seca, salgada, com cura úmida e prensagem, virou Jabá (charque), que teve excelente aceitação no Nordeste.

A jabá pode ser consumida crua, conservada fora da geladeira e combina com farinha. A farofa de jabá de Zefinha de Catulino, já é servida nos melhores restaurantes de Paris.

Nas feijoadas, o único prato exclusivamente brasileiro, cabe de tudo, mas só não pode faltar a jabá. Pode faltar até pé e orelha de porco, mas a jabá é imprescindível.

A paçoca é uma iguaria.

Jabá ou jabaculê também é sinônimo de propina. O tradicional “jabá com abóbora”, oferecido por Rosalvo Alexandre aos jornalistas, em Aracaju, no final do ano, era uma sátira provocativa bem recebida.

Itabaiana, já foi um centro distribuidor do charque. A banca de Joãozinho de Norato era a mais sortida da feira. Joãozinho era casado com Dona Melinha, filha de Nicolau do Fumo.

Joãozinho de Norato morreu “de repente”, num domingo de 1959, no mesmo dia em que o Itabaiana foi campeão da Zona Centro. Guardei na memória esse dia.

Joãozinho e Melinha tiveram uma prole numerosa. Melinha, era irmã da minha avó, Maria do Céu.

Aqui entra o nosso personagem. Pedro da Jabá, que por 30 anos, monopolizou a distribuição da jabá em Sergipe.

Pedro Almeida Meira (Pedro da Jabá), nasceu em Itabaiana, no povoado Alto do Coqueiro (atual Moita Bonita), em 30 de janeiro de 1924, filho de Francisco Antonio Meira e Maria Francisca de Jesus.

Pedro, tirou a sorte grande, casou-se, em 1947, com Zuzu (Maria Amélia), filha de Joãozinho de Norato. Com pouco tempo, envolveu-se com o sogro no negócio da Jabá. Com o talento empreendedor nato, Pedro começou a crescer.

Pedro se meteu em política, apoiando Jason Correia, do PSD. Euclides Paes Mendonça, da UDN, virou chefe politico e botou Pedro para correr de Itabaiana.

Aracaju, foi um paraíso para os negócios de Pedro. Com a morte do sogro, herdou o negócio da jabá. Montou a Casa do Charque, na Avenida José do Prado Franco. Depois montou filiais na Rua Santa Rosa e na Avenida Coelho e Campos. Se tornou o Rei da Jabá.

Pedro da Jabá importava toda a produção do Sul do País. Passou a integrar uma plêiade de comerciantes itabaianenses, regionalmente bem sucedidos, a partir da década de 1950.

Lembrando alguns: Oviedo Teixeira, Mamede Paes Mendonça, Albino Silva da Fonseca, José Francisco da Cunha (Zé de Luiz de Rola), Pedro Paes Mendonça, Gentil Barbosa e Noel Barbosa. Faltou alguém?

Em meados do século XX, com a chegada da BR – 235, Itabaiana tornou-se um polo comercial. Um salto no desenvolvimento. A mudança foi impulsionada pelos caminhoneiros e talento mercantil dos ceboleiros. O itabaianense é bom de balcão, ou seja, sabe vender o “peixe”.

Sem bairrismo, o tino comercial do itabaianense, até hoje, é mola propulsora da economia sergipana. Pedro da Jabá foi pioneiro, deixou o exemplo.

Pedro da Jabá e Dona Zuzu deixaram muitos filhos: Reges Meira (médico oncologista), Regivalda, Rivanda, Renato, Ronaldo (Chita, meu colega das peladas de praia, no sítio Bonanza) e Ronmildo. Deixou uma centena de netos e bisnetos.

Pedro da Jabá cresceu por méritos, e compõe a galeria de ceboleiros que iniciaram a caminhada, que desembocou na grandeza econômica de Itabaiana.

Um nome que não pode ser esquecido. Pedro da Jabá, faleceu em 12 de março de 1997, aos 73 anos. Está sepultado no Cemitério de Santo Antonio e Almas.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.