quarta-feira, 27 de novembro de 2024

BANHO DE CUIA

Banho de Cuia.
(por Antonio Samarone)

O pé de cabaça (cuieira, coité, cabaceira, pé de cuia), do meu sítio, botou o primeiro fruto. Está quase maduro.

Fiz uma viagem no tempo.

Herdamos a cuia dos índios. Muito usadas em celebrações das beberagens do cauim. Na feira de Itabaiana vendiam-se cuias de todos os tipos e tamanhos.

Cansei de tomar banho de cuia. Isso mesmo, aquele banho de sopapo, que os meninos odiavam. Eu adorava! Mamãe mornava a água e, deliciosamente, despejava-a com uma cuia, aos poucos, em minha cabeça.

Lembro-me dos arrepios nas costas.

Não falo do banho de cuia das peladas, um drible humilhante, próprio dos craques, que os pedantes chamam de lençol, chapéu, balãozinho. Fazer o gol, dando um banho de cuia no goleiro, era a glória suprema.

O meu banho de cuia era com água de tanque e sabão de coco.

Antes do Sistema Métrico, a cuia era usada como medida para secos, representando 1/32 do alqueire (36,32 litros).

Alcancei farinha vendida em cuia, na feira de Itabaiana. Uma cuia de farinha era um litro bem medido, um pouco mais.

Meia cuia de farinha era um padrão para esmolas.

A cuia também serve de prato, usada pelos pataqueiros e boias-frias na roça.

Os barbeiros cortavam cabelos usando uma cuia na cabeça do cliente. Se raspava da cuia para baixo. Passava-se a máquina zero. Sobrava um toco redondo de cabelos, no “cucurute” do freguês.

No Sul, a cuia em forma de cabaça é tradicional, para quem toma chimarrão. No Norte, usa-se a cuia para se tomar o tacacá.

A cuia é parte importante de um instrumento musical, sagrado para a capoeira, o berimbau.

Quando alguém casa, vai morar junto, se diz que juntou as cuias. E quando viaja para longe, para demorar, se diz que foi de mala e cuia. Não deixou nada.

Para finalizar, a cuia pode ser usada como “marca de qualidade”. Para se desclassificar uma coisa, um objeto, um sujeito, uma mercadoria, se diz que é marca Cuia. E aí, o rádio é bom? Que nada, é um rádio marca Cuia.

Estou pensando qual será o destino dessa primeira cuia, de minha lavra.

Antonio Samarone (médico sanitarista)
 

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. PROFESSOR PEDRINHO.

Itabaiana – 350 anos. Professor Pedrinho.
(Por Antonio Samarone)

Pedro Ribeiro formou-se em odontologia na Bahia, um ano após a formatura, em medicina, de Airton Mendonça Teles, o filho do líder do PSD, em Itabaiana, Manoel Teles.

O doutor do grande Beco Novo.

Pedro Ribeiro era um homem de poucas conversas: discreto, recatado e austero. Não saia distribuindo “bom-dia”, com quem encontrasse. Morador do conhecido Beco do Ouvidor, perpendicular ao Beco Novo, atual Rua Monsenhor Constantino.

Uma rua de pobres!

A vizinhança do professor Pedrinho era gente do povo: Seu Marinho, eletricista; Cosme, funileiro; João Mena; marceneiro. Ruço, o pai de Nilson Hora; Sinhá, lavadeira; Orlando, do Bom Jardim; Alaíde, pataqueira, mãe de Fóbica e Seu Elpídio de Ascendino, vendedor de rede de dormir; e pai desse escrevinhador.

O professor Pedrinho era uma exceção na rua. Um homem estudado, ao lado da plebe. Não sei porque morava ali. Talvez por ser casado com uma filha de Zeca Mesquita e em um lado do Beco do Ouvidor, ficasse o extenso muro da mansão de Zeca Mesquita, um lorde, para os padrões itabaianenses de civilidade.

Era a nossa "Muralha da China", onde os meninos afoitos corriam por cima, como demonstração de coragem e maestria. A rua era descalça e escura. No inverno, brincávamos com os sapos.

Pedrinho, Edson e Tennyson da farmácia, filhos do Dr. Florival de Oliveira, à época, a maior expressão intelectual de Itabaiana, eram casados com três filhas de Zeca Mesquita, Lourdes, Bernadete e Maria do Carmo.

Pedro Ribeiro de Oliveira, Dentista e Professor. Nasceu em 13/01/1923, em Itabaiana. Filho de Florival de Oliveira e Filenila de Melo. Pedro Ribeiro casou-se com Maria do Carmo Silveira e tiveram 5 filhos, Iara Selma, Heliane, Marly, Samuel Augusto, Saulo Augusto e Sérgio Augusto.

Dr. Pedrinho formou-se em Odontologia, em 1948, na Faculdade de Odontologia da Bahia. Creio que o primeiro itabaianense a formar-se em odontologia.

Em Itabaiana, o seu consultório era na Praça Fausto Cardoso, na casa dos pais.

Ensinou no Murilo Braga Ciências e Francês. Em 1966, mudou-se para Aracaju. Ensinou Ciências, Biologia e Francês, nos colégios Tiradentes, Tobias Barreto e Atheneu Sergipense.

Faleceu aos 75 anos, em Aracaju. Integro, e sem deixar cabedais.

Antonio Samarone. Secretário de Cultura.
 

terça-feira, 19 de novembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. DIA DA CONSCIENCIA NEGRA.

Itabaiana – 350 anos. Dia da Consciência Negra
(por Antonio Samarone)

O dia da consciência negra é antigo em Itabaiana. Quintino de Lacerda é o herói negro do município.

Em Itabaiana, a lei municipal n.º 965, de 20 de setembro de 2001, reconheceu o itabaianense Quintino de Lacerda, líder do Quilombo do Jabaquara, Herói Negro Municipal; e instituiu o 08 de junho, dia do seu nascimento, o dia municipal da Consciência Negra.

Em Itabaiana, um importante logradouro público recebe o seu nome. Em Santos, a Rua Major Quintino de Lacerda, Jabaquara, é uma das vias principais.

Nascido escravo no Povoado Flechas, Itabaiana, em 8 de junho de 1839. Quintino (Tintino) era escravo de Antonio dos Santos Leite, da família Leite Sampaio.

Acusado de roubo, foi vendido para Santos, ao senhor Antônio Lacerda Franco, da firma Lacerda & Irmãos, de quem herdou o sobrenome Lacerda. Passando a se chamar Quintino de Lacerda.

Quintino de Lacerda liderou o Quilombo do Jabaquara, onde abrigava escravos fugitivos de toda a região e do planalto, que aqui buscavam refúgio.

Três meses antes da abolição, já não havia mais escravos em Santos. No 13 de maio, Quintino de Lacerda foi o centro das atenções e chegou a receber um relógio de ouro, homenagem popular ao mais querido líder abolicionista de Santos e região.

O relógio contava com a seguinte inscrição, segundo o historiador Francisco Martins dos Santos, em sua obra História de Santos: "Lei de 13 de maio de 1888. Homenagem popular abolicionista a Quintino de Lacerda, Santos, 1888".

Impulsionado pela abolição, Quintino lançou-se na política, agregando os negros, pela primeira vez na história de Santos, ao processo político. Elegeu-se Vereador. O primeiro escravizado no Brasil, a conseguir tal façanha.

Sua eleição como vereador, em 1895, desencadeou uma grande crise política fomentada por setores racistas da Cidade, iniciada com a negação de sua posse, pelo fato de Quintino ser analfabeto. Quintino de Lacerda chegou a Presidência da Câmara Municipal, em Santos.

Organizou e comandou um batalhão na defesa contra uma suposta rebelião para depor o Marechal Floriano Peixoto, o que lhe rendeu o título de Major Honorário da Guarda Nacional, em 1893.

Quintino de Lacerda morreu em 10 de agosto de 1898, aos 59 anos, deixando três filhos.

Seu sepultamento foi acompanhado por um expressivo número de pessoas, testemunho do reconhecimento de sua importância histórica.

Antonio Samarone (Secretário de Cultura).
 

ITABAIANA - 350 ANOS. FRANCIS DE ANDRADE.


 Itabaiana – 350 anos. Francis de Andrade.
(por Antonio Samarone)

José Francisco de Andrade (Francis de Andrade), faleceu em 21 de junho de 2021, da Peste pandêmica (Covid – 19), aos 62 anos. Um talentoso comunicador.

Francis de Andrade, nasceu em Santos, e chegou em Itabaiana com 10 anos. Um meninão diferente, de calças curtas e suspensório. Filho de Seu Brió e Dona Juanita. Moravam numa casa bonita, com muro baixo e varanda, na esquina da Praça de Eventos.

Zé de Brió (o nome de menino) teve o seu avô paterno, Luiz Pereira de Andrade, assassinado pela polícia na porta da Igreja Matriz de Itabaiana, em 1916, durante as trezenas de Santo Antonio, por conta do conflito do Coronel Sebrão com o Cônego Vicente Francisco de Jesus.

As raízes de Zé de Brió em Itabaiana são profundas.
Zé de Brió terminou o segundo grau no Murilo Braga. Foi um autodidata de grande inteligência. Nunca puxei um assunto, para ele está desinformado. Nasceu para o rádio.

Antes, Zé de Brió foi telefonista da Telergipe. Sempre com uma voz poderosa, talhada para a locução.

Quando a Rádio Princesa da Serra foi inaugurada (13/06/1978), Zé de Brió já participou da primeira equipe. Juarez do Correio montou uma equipe local, por bairrismo e economia.

Chamou os que falavam bem em serviços de alto-falante: Djalma Lobo, Messias Santos (Taquari), Fernando Pinto (do Campo do Brito), Aloiso Santos (do Saco do Ribeiro), Daniel Barros e Gilson Portela. Tentaram até o iconoclasta Zé de Álvaro.

Depois é que chegou João Batista (um profissional), ganhando a fábula de seis salários-mínimos.

Foi na Rádio Princesa da Serra que Zé de Brió começou, como disc jockey, imitando o grande Francisco Carlos, o Chicão da Paradinha, sucesso daquele tempo. Nesse momento surgiu o radialista Francis de Andrade, o nome artístico de Zé de Brió.

Depois foi trabalhar na FM – Itabaiana (93.1), onde atuava até ontem, com grande audiência. Ia esquecendo, foi locutor esportivo, no mesmo nível de Jorge Cury e Waldir Amaral.

A entrada na política foi uma consequência da entrada da Princesa da Serra na política. Fez parte das mudanças em Itabaiana.

Francis de Andrade, a voz da democracia, exerceu 4 mandatos de vereador em Itabaiana, chegando a ser o Presidente da Casa. No final do mandato de Presidente, deixou nos cofres da Câmara 116 mil reais, uma novidade.

Foi o maior animador de palanque político que conheci. Com Francis de Andrade, não existia tristeza em comícios.

Francis de Andrade, nunca teve papas na língua. Carismático, tocava fundo e com ironia nas mazelas de Itabaiana e do mundo.
Era muito inteligente, culto e de privilegiado tirocínio. Rápido nas improvisações, desconcertantes nos debates e cheio de trocadilhos.
Francis de Andrade foi um talento no rádio, desperdiçado na Província.

Francis de Andrade foi um homem livre. Usava a maconha recreativa, com um fundo cultural profundo. Já naquele tempo, em Itabaiana. Não pensem que era fácil.

Espirituoso criador de apelidos. Em Itabaiana tinha um político que vivia em cima do muro, nem cheirava, nem fedia, Francis de Andrade o denominou de “Bufa de Alma”.

Tem outros apelidos que eu não posso contar.

Minha homenagem e admiração a Francis de Andrade, talento do rádio sergipano.

Deixou seis filhos.

Francis de Andrade será homenageado, nomeando o futuro Estádio Municipal, em Itabaiana.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura.

domingo, 17 de novembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. A POESIA DE IÊDA TAVARES SILVEIRA.


 Itabaiana – 350 anos. A poesia de Iêda Tavares Silveira.
(por Antonio Samarone)

Os historiadores nativos chegaram a um consenso: Itabaiana nasceu com a criação da Freguesia de Santo Antonio e Almas, em 30 de outubro de 1675. Completará 350 anos, em 2025.

Zeca Cego, um camponês itabaianense, comuna que acompanhou a coluna Prestes e cantava a Internacional em russo, me ensinou: Itabaiana, com essa aparência machista, é um matriarcado. Uma terra de grandes mulheres.

Vou abrir um parêntese, antes de falar de Dona Iêda.

Para comemorar os 350 anos, pensei, vou contar o que sei, a partir de meados do Século XX. Um sobrinho, doutor em história, se ofereceu para ajudar. Hesitei, nem sei e nem quero escrever a história. São muitas regras, a metodologia é rigorosa, fria e inflexível. Sem emoção.

A história é uma narrativa do poder, dos eleitos, dos heróis, dos gênios e dos santos. A história não fala dos derrotados.

Por isso, resolvi escrever uma memória. Não somente a minha memória pessoal. Essa, apagou muita coisa, reescreveu outras, fantasiou, inventou, esqueceu. Pretendo narrar uma memória coletiva, de quem se dispuser a contar.

Por exemplo: Onde pesquisar sobre Carbureto? Saí perguntando...

Ninguém se lembra de muita coisa dele. Esqueceram até o nome. Antes da água encanada, Carbureto vendia água, uma mercadoria mais escassa que o petróleo. Saí implorando: quem sabe como se chamava Carbureto? Pelo menos uma foto, a certidão de óbito, qualquer coisa. Uma amiga me mandou a foto do Jegue de Carbureto, mas dele e dos filhos, nada!

Por sorte, descobri que o livro de poesia de Dona Iêda Tavares Silveira, traz um texto maravilhoso sobre Carbureto e a vida em Itabaiana, nos tempos da falta d’água.

Vou reproduzi-lo em parte:

“Era uma cidade do interior, chamada Itabaiana, onde o progresso ainda não tinha chegado. As ruas não eram calçadas, não tinha água encanada e a luz elétrica era fornecida por uma empresa particular, mas só era ligada das 19:00 às 24:00 horas, quando iam desligar davam três sinais para avisar e dar tempo aos usuários acenderem as placas ou os candeeiros.”

“A cidade era pacata e quase todos os moradores se conheciam ou eram parentes.”

“Havia na cidade diversas ruas e três praças, na principal estava situada a Igreja Matriz com seus altares e dois púlpitos pintados a ouro, nas laterais da nave no andar superior tinha as tribunas que eram alugadas para alguns fiéis. No lado oposto à Igreja estava a Intendência (hoje Prefeitura Municipal) e dos outros dois lados as casas residenciais.”

“Bem no centro desta praça tinha um belo coreto, construído sobre um poço artesiano com uma portinhola atrás por onde Seu Capitulino (o responsável pelo poço) entrava para bater a bomba e encher o reservatório que fornecia água para toda população.”

No lado de fora, uma fila enorme com seus potes, latas e baldes esperava o precioso líquido. Só que a água era salobra e não servia para beber. Por isso tinha os aguadeiros.

‘’Aguadeiros’’ eram homens que vendiam água potável para a população, eles iam apanhar a água em latas ou ancoretas (pequeno barril) em número de quatro sobre o lombo de burricos ou jegues e percorriam grandes distâncias até às nascentes dos rios. Tinham a pele curtida pelo sol, as mãos calosas e os pés, de tanto andarem descalços, tinham o plantar tão grosso que não sentiam mais as asperezas dos caminhos.

“Existiam na cidade uns cinco ou seis aguadeiros, mas só lembro o nome de dois: seu Teixeira (cego de um olho) e seu Carbureto, que era o aguadeiro da nossa casa, tanto de água potável como da salobra.

Ele era de estatura pequena, um pouco musculoso, cabelos avermelhados (sarará). Um dia eu estava estudando e ele me disse que não sabia ler nem escrever, mas trabalhava muito para que um dia seus filhos fossem letrados.”

Alguns dias depois Sr. Carbureto me perguntou: - “Menina, você que já é mais adiantada na escola podia me respondê uma coisa que tá atrapaiando minhas ideias?”

“Pois não, seu Carbureto, pode perguntar: - É que meu filho já entrô na escola e chegou lá em casa dizendo que a terra é redonda como uma laranja, é verdade? - É verdade seu Carbureto, eu também aprendi assim. “Mais isso num entra na minha cabeça de jeito nenhum, porque a Terra é toda retinha. Deu até logo e foi embora.”

“No ano seguinte fui estudar na Capital, pois na cidade ainda não tinha ginásio. A cada férias que eu ia passar em casa notava o grande progresso da cidade: ruas, calçadas, hospital, energia elétrica vinda da Usina Hidrelétrica, Ginásio, o comércio e a agricultura em expansão. Só a água encanada não chegara.”

“A maioria das pessoas tinha construído grandes cisternas (reservatórios) para enchê-las com água de chuva que servia para todas as finalidades. Os aguadeiros estavam perdendo o seu ‘ganha-pão.”

“Quando terminei o curso ginasial e o pedagógico voltei para ensinar no Grupo Escolar e depois no Ginásio. Alguns dias depois apareceu seu Carbureto, me deu os parabéns e perguntou: - “Agora que a senhora já é formada e bem letrada, eu queria saber sobre aquela história de o mundo ser redondo.”

“É verdade, Seu Carbureto e, além disso, nós moramos do lado de fora com tudo que existe e ainda mais a Terra gira, mas é tão rápido que ninguém percebe. “Virge Nossa Senhora e meu padinho Sto. Antônio o povo indoidô mesmo, isso não entra na cabeça de ninguém.”

“Não quis mais entrar em detalhes falando sobre a gravidade, nem que existiam outros planetas, e que a Terra ficava solta no espaço, para não piorar mais a situação. Ele então me explicou como era a Terra:”

“Minha filha me desculpe mais a Terra não é assim como vocês dizem não, no meu pensamento o mundo é grandão que não tem fim.”

O texto acima é de Dona Ieda Tavares Silveira.

Dona Iêda Tavares Silveira nasceu em Itabaiana, em 02 de outubro de 1926, em um sítio no Canto Escuro. Foi a filha primogênita de Francisco Araújo Tavares e Elze Araujo Tavares. Uma família com 10 filhos: Anode, Zeca, Ayrton, Manuel, Antônio, Leda, Zezé e Paulo.

Ieda fez o primário em Itabaiana, em Escolas Isoladas e depois na primeira turma do Grupo Guilhermino Bezerra (foto). Cursou o ginasial no Atheneuzinho e depois formou-se em professora na Escola Normal.

Voltou para Itabaiana, ensinou numa escola a noite, para adultos; primário no Grupo e na Escola Normal do Murilo Braga. Uma jovem professora.

Casou-se com José Silveira Filho, em 10 de junho de 1951. Tiveram 9 filhos: Mesquita, Eduardo (Tuca), Denise, Emmanuel, Dayse, Desirée, Elze, Clotilde e Chico. A família completa tem 25 netos e 15 bisnetos.

Ocupa a cadeira 26, da Academia Itabaianense de Letra. Na maturidade se revelou com habilidade para artes plásticas com pintura em tela e artesanato. Publicando o seu primeiro livro de poesia aos 80 anos.

A foto: primeira turma do Guilhermino Bezerra. Professoras sentadas: Dona Glorinha, Dona Bebé e Dona Dinorá. Alunos: Arlete, Adelson Oliveira, Cremilde, Antonio Oliveira, Eugênia, Osvaldo Carvalho, Elpídio Teixeira e Ieda Tavares.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura.

ITABAIANA - 350 ANOS. DR. PEDRO GARCIA MORENO FILHO.


 Itabaiana – 350 anos. Dr. Pedro Garcia Moreno Filho.
(por Antonio Samarone).

O neto do Monsenhor Daltro e da escrava Clara, filho do farmacêutico Pedro, de Laranjeiras e de Dona Ambrosina, incorporou a alma da Velha Loba. O Dr. Pedro Garcia Moreno Filho foi um consenso em Itabaiana. Mesmo quando disputou cargos políticos, os adversários votavam contra, sempre com muito respeito.

Dr. Pedro foi um médico que fazia de tudo em Itabaiana: parto, bicho de pé, sangrava mula, tratava gonorreia, febres e engasgos. O paciente era centro de sua atenção humanista. Só pagava quem podia. Eu enganchei para nascer, a parteira não deu jeito. Chamaram Dr. Pedro.

Pedro Garcia Moreno Filho nasceu em 22 de julho de 1920, em Maruim, numa família de sete filhos: o intelectual Garcia Moreno; Herianto; Eurianta; Anatólio, farmacêutico no Bairro Santo Antonio; Canuto, cirurgião; Paráclita e aldjebran.


Os Garcias Morenos sergipanos, devem o sobrenome ao Cardeal do Equador Gabriel Garcia Moreno, um mártir da fé.

O Dr. Pedro levou uma infância de traquinagens. Fez o curso primário em Maruim, o ginásio no Colégio Tobias Barreto e o científico no Atheneu. Formou-se em medicina na Bahia, em 1947. Foi colega de turma do filho de Manuel Teles, chefe político em Itabaiana.

Na Bahia, Dr. Pedro encontrou o seu amor. Casou-se com dona Ivone Magalhães, a filha do dono da pensão. Chega em Itabaiana em 1949, já com dois filhos (Anatólio e Ângela), para trabalhar no recém-criado Hospital Rodrigues Dórea.

Em Itabaiana, a família de Dr. Pedro cresceu: Cássia, Paráclita, Pedro, Ambrosina, Clara, João, Ângelo, Margarida, Sílvia, Angélica, Canuto, Aldgebra e Lígia

 
Um médico na cidade, para substituir o Dr. Gileno, não podia só clinicar. Dr. Pedro foi dar aulas de francês e história natural, no Ginásio Murilo Braga.

Dr. Pedro foi seu diretor do Murilo Braga, entre 1951 e 54. Além de Dr. Pedro, o Ginásio de Itabaiana teve diretores famosos: Padre Arthur, Lauro Pacheco, o Ministro Luiz Carlos Fontes de Alencar, e a grande, Maria Pereira.

Em 1955, chegou a Itabaiana o competente e politizado Padre Arthur, um grande amigo de Dr. Pedro. Passam a incomodar politicamente o chefe da UDN, Euclides Paes Mendonça. Nas eleições de 1958, em Itabaiana, o PSD não tendo um nome forte para enfrentar Euclides, lançou mão do prestígio médico de Dr. Pedro. Claro, perdeu.

Em 1961, o Dr. Pedro assume o comando do Departamento Nacional de Endemias Rurais (DENERu), em Itabaiana. Foi uma folga, para ajudar na criação de 14 filhos.

O Dr. Pedro passou a ser a cara de Itabaiana. Humilde, engraçado, gozador, sarcástico, amigueiro, simples e humano.

Conta-se que uma idosa, com um grau avançado de demência, possuía uma boneca de estimação. Com frequência, levava a boneca para ser consultada por Dr. Pedro. O doutor não hesitava, consultava a boneca.

Antes de Almir Santana, o Dr. Pedro já cuidava da saúde das prostitutas, em Itabaiana, com zelo e dedicação. Uma delas perdeu um filho pequeno, afilhado do Doutor. No dia do sepultamento, o féretro parou defronte do consultório, para receber a última benção do padrinho.

Outro fato desconcertante: encontraram Dr. Pedro rodando a feira a procura de uma paciente. Procuraram saber o motivo. Ele foi direto. Essa senhora foi a única que pagou a consulta. Achei injusto. Só ela! Vim devolver o dinheiro.

Claro, com esse comportamento, família grande, a situação financeira era precária. Um amigo, fazendeiro de Frei Paulo, ofereceu os restos do leite para Dr. Pedro vender coalhada, e melhorar a receita. Assim foi feito.

Diariamente, o neguinho da coalhada, um agregado, percorria as ruas de Itabaiana vendendo a coalhada de Dr. Pedro. Como não existia copos de plástico, a coalhada era vendido em copos de vidros, aqueles copos de bodega.

No início de 1970, o MDB de Oviedo e Zé Carlos Teixeira procuram Dr. Pedro para compor a chapa de Deputado Estadual. Dr. Pedro foi eleito com 2.895 votos.

O Natal era uma festa de muito apreço para Dr. Pedro, além de vestir-se de Papai Noel, ele montava uma vistosa árvore-de-natal.

O Dr. Pedro era chegado aos Saraus Etílicos Culturais, com uma roda de amigos diversificada, gente de todas as classe sociais: Seu Pepita, sapateiro (merece um verbete); João Quarenta, sapateiro; Oswaldo de Vivi; Oscar, motorista; Zé Silveira; Zeca Araújo; Aderlado Oliveira; Seu Martins; Josafá, da coletoria; Tonho de Pedro Delfino; Airton Tavares e Reginaldo Silveira.

Manoel Francisco de Oliveira (Pepita), retornou do Rio de janeiro em 1949, doente, quase paralítico, perturbado da cabeça, e logo estabeleceu uma profunda amizade com Dr. Pedro. Seu Pepita era filho de Amália, uma famosa fabricante de colchões de junco, os melhores de Itabaiana.

Seu Pepita passou a ser a sombra de Dr. Pedro, numa relação de carinho e profunda amizade. Além de sapateiro, Seu Pepita fabrica gaiolas. Faleceu em 1985.

Os saraus eram semanais, na casa de Marcelino, que tinha a melhor radiola de Itabaiana, som em alta fidelidade.

Dr. Pedro criou em Itabaiana, o fã clube de Francisco Alves, morto em 1952. Em todo 28 de setembro, a turma se reunia, muita cerveja e feijoada, para relembrar o Rei da Voz. No final, todos concordavam: ele canta cada vez melhor. Não sei se anda funciona.

Certa feita, Santinho de Nia, meio lá meio cá, passou por essa turma e fez o cumprimento habitual: “para Dr. Pedro, boa tarde; para os outros, merda.”

Dr. Pedro era maçom, loja Cotinguiba; flamenguista e espirita (uma herança do pai). Foi presidente da Associação Olímpica de Itabaiana (1965/68). Nesse período que o clube passou por uma revolução: a chegada do primeiro ídolo do futebol itabaianense, Horácio de Carira.

Dr. Pedro era diabético. Sofreu o primeiro infarto em 1976. Em 1979, Dona Ivone, a esposa, decidiu voltar para o seio da família, em Salvador. Em 1983, sofreu o segundo infarto.

Em 05 de janeiro de 1990, aos 69 anos, o mundo perdeu uma alma de luz. Morreu pobre. O seu corpo está sepultado no cemitério da Igreja Senhor do Bomfim, em Laranjeiras.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura

sábado, 16 de novembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. DR. SINVAL ANDRADE DOS SANTOS


 Itabaiana – 350 anos. Dr. Sinval Andrade dos Santos.
(por Antonio Samarone)

Nasceu em 31 de julho de 1938, em Itabaiana/SE, filho de José Rodrigues Santos (Zeca de Áurea) e Dona Rosália Andrade Santos. Um ceboleiro de quatro costado.

Vejam um pouco da genealogia de Sinval, no estilo Itabaianense.

Seu Zeca, o pai, era alfaiate, filho de Dona Áurea e Seu Manezinho Pricina, dono de loja de tecidos, na esquina do Beco Novo, com a Rua da Pedreira. Seu Zeca de Áurea foi casado com Dona Rosália, irmã de Antonio Magneto. Seu Zeca de Áurea era irmão de Juca Cego, que fazia o melhor vinagre artesanal do Brasil.

Sinval Andrade tem as suas raízes no Beco Novo, residiu na casa número 06, vizinho a Antonio de Mojica. É irmão de Antônio, também médico, que mora para as bandas de Araraquara; de Clodomir, homem de vasta cultura; de Maria, viúva de Benedito de Candoca e da professora Zelinda.

Sinval Andrade fez o primário em Itabaiana, no Grupo Guilhermino Bezerra. Formou-se em medicina no Rio de Janeiro, em 5 de dezembro de 1967. Fez residência médica em anestesiologia, no Hospital Souza Aguiar.

Retornou a Sergipe em 1970. Exerceu a anestesiologia por muito tempo. Hoje, exerce a acupuntura. Autor da história da anestesiologia em Sergipe. Em 1973, assumiu a chefia da primeira UTI de Sergipe, no Hospital de Cirurgia.

Mestre pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Especialista em acupuntura. Ocupa a cadeira 29, da Academia Sergipana de Medicina.

Sinval Andrade é casado com Katia, irmã do famoso Dr. Wagner da Diagnose, é pai de Vinicius/ cirurgião de aparelho digestivo, Tatiana/anestesista, Marcelo, radiologista, além da advogada Bianca, profissional de destaque no departamento jurídico da Petrobras.

Foi meu professor de Farmacologia e de Anestesiologia, na Faculdade de Medicina da UFS.

Sinval Andrade (84 anos), destaca-se pela erudição, saber científico e retidão moral. Um humanista!

Antônio Samarone. Secretário de Cultura.

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. LATA D' ÁGUA NA CABEÇA

Itabaiana – 350 anos. Lata d’água na cabeça.
(por Antônio Samarone)

A água foi escassa desde as origens. A transferência do Arraial de Santo Antonio e Almas de Itabaiana, do vale fértil do Jacarecica, para a árida Caatinga de Ayres da Rocha Peixoto, foi uma decisão para só para beneficiar o padre de São Cristóvão, que queria vender uma propriedade.

A Irmandade das Almas comprou o sítio, transferiram a Arraial e o povo acompanhou Santo Antonio Fujão. As consequências, só foram atenuadas com a chegada da água encanada (1963).

Antes, os ricos construíam cisternas, para garantir a sua água. Os remediados comprovam aos carregadores, e os pobres se largavam em busca das águas barrentas dos tanques e açudes. Tanque do Povo, no centro; Tanquinho, Santa Cruz, Aloque, Açudes Velho, Novo e do Matadouro, na periferia.

Diariamente, o Beco Novo se acordava alvoroçado, uma procissão de gente em direção ao Tanquinho, em busca de água, para se fazer o café e lavar o rosto. Banho, banho mesmo, era uma fidalguia. Só os banhos de sopapo ou de cuia.

Os meninos do Beco Novo dormiam sujos! Mamãe só exigia que esfregássemos os pés molhados numa pedra, para tirar o lodo grosso, e não sujar o lençol.

Nem os meninos escapavam dessa via-sacra em busca de água.

Quando eu passava na esquina do Beco do Ouvidor, gritava: Dona Mãezinha, não vai mandar os meninos buscar água? Ela já se levantava com cipó na mão: acorda preguiçosos, o filho de comadre Lourdes já fez três viagens ao Tanquinho. Eu saia rindo da perversidade.

Entre os carregadores de água, que abasteciam a cidade, com quatro latas no lombo dos jegues, duas de cada lado, e que viviam disso, lembro-me de Seu Carbureto, um senhor baixinho, pés descalços, calças arregaçadas e sempre avexado.

Ele enchia a caixa d’água do Bar Brasília e dos ricos da Praça. Uma lata d’água de beber, de Seu Carbureto, custava uma pequena fortuna.

Que fim levaram os filhos de Seu Carbureto, são vivos?

Sei que é quase impossível uma pessoa que sempre teve água na torneira imaginar o que estou contando. No dia em que chegou água em Itabaiana, ficamos acordados esperando os primeiros pingos na torneira. A maioria era incrédula: não vai chegar!

O milagre: por volta das 9 horas da manhã, surgiu o boato: na Rua da Vitória já chegou. Eu sair desembalado na carreira para ser o primeiro a ver novidade, na casa de Rosália de Antonio de Genoveva. E era verdade! Uma aguinha fraca, chilreando.

Passavam-se horas, para se encher um pote. Mas a água chegou. Acabou o castigo!

Aquele resenha acabou. O caminho dos tanques era uma festa. O caboclo “Vai oiando coisa a grané/ Coisas qui, pra mode vê/ O cristão tem que andá a pé.” – Gonzaga.

Como já tínhamos água da Ribeira, dentro de casa, entupiram-se os tanques para se fazer casa. Eita povo sem juízo. Aterraram a Santa Cruz, ali perto do cabaré de Laura; o Tanque do Povo para se construir um mercado. Taparam tudo. Não sobrou nem a memória.

Tem as lembranças negativas. Conta-se que o finado Euclides, chefe político da UDN, mandou prender Seu Vital da Lapa, pequeno comerciante, um homem de bem, só porque ele era do PSD.

Nessa prisão arbitrária a tortura correu solta: além de apagarem um charuto no rosto de Seu Vital, ele foi obrigado a encher a caixa d’água da cadeia com uma lata furada, indo buscar no Tanque do Povo.

Não sei se o fato é comprovado pelos historiadores; mas todo mundo em Itabaiana daqueles tempos sabia dessa estória. Eu se fechasse os olhos via Seu Vital todo molhado, com a lata furada na cabeça.

A chegada da água da Ribeira, trouxe novidades hídricas: as primeiras piscinas em Itabaiana. O banho de rio e a rede de dormir são as principais heranças lúdicas deixada pelos Tupinambá. A piscina é um luxo. Álvaro de Antonio Agostinho construiu a primeira piscina, em sua chácara. Foi um espanto.

No dia da inauguração, a cidade parou, todos queriam ver novidade. Uma procissão desceu a estrada dos eucaliptos, em direção à casa de seu Álvaro. Ocorre que a piscina era particular, só cabia os convidados.

Ainda acho um desperdício de água, encher uma piscina.

Nesse tempo, a Associação Atlética e o Aruana Clube instalaram piscinas para os sócios. As manhãs dos domingos ficaram movimentadas. Essas não chegavam para o meu bico.

A história não acabou: pobre também é filho de Deus. Um comerciante de tecidos, Abércio de Basto, resolveu fazer uma barragem em sua propriedade na fronteira do Malhador (foto). Estava criada a “Piscina de Abércio”. Foi uma farra no Beco Novo.

Era o nosso Parque Aquático.

Aos domingos e feriados, um magote de meninos saia do Beco Novo, em caravana, para a Piscina de Abércio. Quem tinha, ia de bicicleta; quem não tinha, ia a pé. Duas léguas tiranas.

Essa semana, fui visitar o local da piscina de Abércio. Um buraco dentro do mato, era o nosso encanto juvenil. Só a mangueira e a memória sobreviveram.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura.
 

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

O COLÉGIO MURILO BRAGA, COMPLETA 75 ANOS (1949 - 2024)

O Colégio Murilo Braga, completa 75 anos (1949 – 2024).
(Por Antonio Samarone.)

A escola pública era o caminho mais seguro de ascensão social. A criação do Ginásio Murilo Braga, em Itabaiana, em 1949, foi um bom exemplo.

A farda do ginásio, simbolicamente, unia pobres, ricos e remediados. Quem não via saídas, enxergou a escola.

Antes, a juventude trabalhadora, terminado o primário, tinha duas opções: 1 - as profissões artesanais (sapateiro, alfaiate, padeiro, ourives, marceneiro, carpina, oleiro, comerciário, motorista...), não cabia todo mundo; 2 - ir embora para o Rio de Janeiro ou São Paulo, como diz os versos de Patativa do Assaré: viver como escravo no Norte ou no Sul.

O Ginásio, em 1949 e o científico, em 1969, no Murilo Braga, abriram as portas das universidades, sobretudo da Universidade Federal de Sergipe. Uma legião de Itabaianenses conquistaram a cidadania nos bancos escolares. Modestamente, “Ainda estou aqui”, parodiando o filme de Walter Salles.

É impossível lembrar-me de todos os diplomados. São milhares! Tentei lembrar-me somente dos formados em medicina. Pedi ajuda da Dra. Fátima Siqueira, a mente mais fértil de Itabaiana, e levantei os nomes de alguns médicos que saíram do Murilo Braga:

O primeiro, Dr. Antonio Santana de Menezes, formado em 1968; Átalo, homeopata; Luiz Antonio das Vitalinas, clinicou em Simão Dias; os filhos de Serapião do Cartório (Bertrand, Gois e Roberto); Luciano das Vitalinas, Luciano Siqueira e Luciano de Zé Sacristão.

Continuando a lista de médicos filhos de Itabaiana:

Guilhermino Noronha; Valfredo, de Maria Tavares; Carlos Umberto (China); Luiz Carlos Andrade, Antonio Carlos Fontes e duas filhas, Andrea e Amanda; Airton Peixoto, Elio Lima, Denise Silveira, Maria Betania, filha de Tonho de Dóci, a primeira mulher; José Marcondes; Benjamin de Bebé; Luiz Antonio (Tinho); Ferreira anestesista.

Maria José, irmã de Zé Carlos Machado; Fátima Siqueira; Diana Maria Andrade; Diana Oliveira, Djalma ( irmão de China); Ana Jovina, neta de Quinho Carteiro; Ana Cristina, Anaelze e Ana Carla; Jussane Oliveira, filha de Cleunair Carapiá; Edésio, do mercadinho; Ana Patrícia; Rômulo de Oliveira, filho de Lessa; Antônio Correia, Fabian Vinicius; José Augusto Lima; Carlos Augusto, filho de Mozart, Ana, filha de Floro e Alysson.

Tem a turma mais nova, que certamente está incompleta: Edelma de Zé de Merré, Ivanilson, José Antônio Nascimento ( Toinho de Antônio Pintor); Débora Ocea; Patrícia Ocea; Roseane; Carlos Cleber, filho de José Carlos Massa Crua); Jilvan Pinto (presidente do CRM); Ana Taísa; Taísa; Victor Teles, o que passou no vestibular com 14 anos; Danilo; Matheus Peixoto; Nathan, Marifran; Simone; Geová; Ana Paula, uma filha de Paulo de Dezi; José Vieira e Jonas.

Milena, filha de Ronaldo Breu, Adilson, Carlos Alberto e Adelvan Ferreira, filho de Avelar; Matheus Carvalho e Alex; Naudson; Alan; José Jeová, Edelma; Shirley, filha de Zé Catito; Shirley, Shirlene, primas de Gleuza e Renê, filho de Purga de Cós.

Os famosos Francisco Máximo, Eduardo Amorim, Gilson Andrade (prefeito de Estância); Alberto Machado; Adilson Almeida, filho de Seu Alvino; Sinval Andrade e o irmão, Antonio Andrade; José Luiz Machado, Aguinaldo Fonseca; Reges Almeida; Marconi Ramos; Marcos Ramos; Antonio Fernandes Menezes; Edmundo da Graça e Nivaldo de Joãozinho Vermelhinho.

Os universitários eram destaque em Itabaiana. Participavam ativamente da vida social. A cidade se orgulhava dos seus estudantes. Essa foto é um exemplo: um time de universitários fazendo a preliminar dos jogos do Itabaiana. Um desafio: quem está nessa foto?

Sei que esqueci de muitos. Peço ajuda: quem lembrar médicos itabaianenses não citados, tendo ou não passado pelo Murilo Braga, passe-me os nomes.

No dia 23 de novembro, sábado, a Academia Sergipana de Medicina organizará uma “tertúlia” em Itabaiana. A atividade terá com principal atração, uma palestra de Vladimir Carvalho, sobre a história da medicina em Itabaiana. Durante o evento, médicos Itabaianenses serão homenageados.

A atividade é aberta a sociedade.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura.
 

terça-feira, 12 de novembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. PROFESSORA MARIA PEREIRA.

Itabaiana – 350 anos. Professora Maria Pereira.
(por Antonio Samarone)

“Em 1930, Itabaiana contava com um total de treze escolas primárias, das quais quatro estavam localizadas na sede do município — duas destinadas ao ensino masculino e duas ao feminino —, enquanto as nove restantes estavam situadas nos povoados.” Vladimir Carvalho.

Em 1937, instalou-se o Grupo Escolar Guilhermino e, em 1949, o Ginásio Murilo Braga.

O orgulho de vestir a farda do Ginásio, de caqui Floriano, um brim especial, com o brilho de linho. No braço da camisa da farda, o distintivo como os oficiais da polícia usavam, indicando a série que o aluno cursava. Eu me sentia garboso, mesmo sem saber o que era ser garboso.

A farda do ginásio eliminava (simbolicamente) as diferenças de classe social e riqueza. Fardados, éramos iguais. O Murilo Braga foi um viveiro de cidadania, em especial, no período dirigido por Maria Pereira (1967 – 1981).

Itabaiana é uma terra de grandes professoras: Maria Thetis Nunes, Maria de Branquinha, Tereza Cristina Souza, Etelvina Amália de Siqueira, Lourdes de Mozart, Ieda Silveira, Terezinha, Joseíta, Inês Resende, Suzana de Sizino, Josefa Eliane, Neide Sobral e Izabel Esteves de Freitas. Entre outras...

A professora Maria da Conceição (Maria Pereira), Nasceu em Itabaiana, em 20 de dezembro de 1930, filha primogênita do casal Pedro Pereira de Andrade (Pedro de Cesário) e Maria Alexandrina da Conceição. Teve 4 irmãos: Carlos, Pureza, Lourdes e Luiz. Do primeiro casamento do pai, teve outros 5 irmãos: Benjamin, Elias Andrade, Filomeno, Leandro e Irineu.

Elias Andrade foi primeiro itabaianense a brilhar nas universidades. Formou-se em Engenharia, em Salvador, sempre como o primeiro da turma. Faleceu aos 30 anos, em Fortaleza, vitimado por um acidente aéreo.

Na infância, Maria Pereira mudou-se com sua família para Aracaju, onde se estabeleceram em uma propriedade localizada próxima à atual Avenida São Paulo, no bairro Siqueira Campos. Seu pai, Pedro de Cesário, era um fabricante de fogos de artifício, sendo reconhecido como o melhor fogueteiro da região.

Maria Pereira iniciou seus estudos em Aracaju, onde frequentou o ensino primário no Grupo Escolar General Valadão, localizado no Bairro Siqueira. A sua formação no ensino secundário foi Escola Normal Rui Barbosa. Após concluir o antigo curso pedagógico e obter o título de professora, Maria Pereira retornou com sua família à cidade de Itabaiana.

Em Itabaiana, Maria Pereira inicia sua vida profissional entre o final da década de 50 e início da década de 60, lecionando no Educandário Cônego Vicente de Jesus (Escola do Padre) e vinculada à Paróquia de Santo Antônio e Almas de Itabaiana.

Fui aluno de Maria Pereira, no segundo ano primário. O Colégio do Padre era privado, mas recebia alguns bolsistas, de entidades religiosas. O meu pai era do “circulo Operário”, uma organização da Igreja católica, que fazia frente ao Centro Operário, que era comandado pelos comunistas.

Nas salas de aula da Escola do Padre as carteiras eram duplas, sempre menino com menino e menina com menina. A Escola funcionava em um velho sobrado, ao lado da Igreja. A escola do Padre fez uma revolução pedagógica em Itabaiana, sob a direção do Padre Everaldo (Bode Cheiroso).

Depois, Maria Pereira transferiu-se para o Grupo Escolar Guilhermino Bezerra, Escola Municipal Isabel, até a sua integração ao corpo docente do curso pedagógico da Escola Normal Rural Murilo Braga. Hoje, Colégio Estadual Murilo Braga (CEMB), exercendo a função de diretora entre 1967 e 1981.

Sob o comando de Maria Pereira, o Murilo Braga implantou aulas de música, com o Maestro João de Matos, depois com o maestro Valtenio, formando músicos, de iriam fortalecer a secular Filarmônica Nossa Senhora da Conceição.

Maria Pereira foi uma disciplinadora sem perder a ternura. Dura, discreta e sensata. Respeitada por todos, pelo seu comportamento isonômico. Nem protegia, nem perseguia ninguém. As suas determinações eram justas e os corretivos leves. Maria Pereira me civilizou com exemplos.

Nas escolas primárias, a palmatória metia medo.

Em 19 de julho de 2019, foi criado o Movimento Cultural Maria Pereira, uma iniciativa da Academia Itabaianense de Letras, visando fomentar a cultura, a literatura e o protagonismo estudantil na região.

A Escola Estadual Professora Maria da Conceição, situada no bairro São Cristóvão, em Itabaiana, presta homenagem a uma profissional da educação de primeira grandeza.

Maria Pereira, foi diretora no Colégio Estadual Murilo Braga (CEMB), no período de 1967-1981. Faleceu em 23 de novembro de 2010, aos 80 anos, acometida pela doença de Parkinson. Maria Pereira não se casou e nem teve filhos.

Agradeço a pesquisadora Marina Mendonça, as informações sobre a carreira profissional de Maria Pereira. A foto é do acervo de Robério Santos.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura.
 

E POR FALAR EM RETRATISTAS...

E por falar em retratistas...
(por Antonio Samarone).

O segredo de um bom retrato é captar um olhar inteligente, mesmo quando não existe um pensar correspondente. O olhar inteligente tem vida própria, só captado pelo inconsciente óptico das máquinas fotográficas, inacessível ao olho humano.

Na cultura, Itabaiana possui duas tradições: a música, com a secular Filarmônica; e a fotografia, com os mestres Paulino, Miguel Teixeira, Joãozinho Retratista, Percílio Andrade, Paulinho de Dóci, Jorge Moreira e Seu Romeu.

Só os ricos e remediados tinham acesso a esta arte.

Seu Joãozinho retratista era o mais famoso, com o seu cavalinho de madeira, anjos entregando hóstias não consagradas. Santos e cristos de papelão. Ao fundo, um cenário com o azul firmamento, carregado com nuvens de algodão. Seu Joãozinho dominava a técnica, com os seus retratos bem retocados, a lápis grafite.

Seu Joãozinho era um retratista mágico!

Miguel Teixeira (foto), o mestre da fotografia, deixou um legado sobre a vida na Villa de Santo Antonio e Almas de Itabaiana. O casario, o vestuário, as festas, folguedos, os dias santos, procissões, danças, hábitos e costumes. Um trabalho documental pouco estudado.

O acervo de Jorge Moreira se perdeu? Não sei dizer.

A fotografia era vista como um espelho do real. A fotografia não mente, é uma prova, uma mimese, uma imitação quase perfeita da realidade. A fotografia como semelhante ao referente. Um registro, uma tomada.

Os antigos retratistas oficiais se transformaram em fotógrafos profissionais. A boniteza estava na apuração técnica, na resolutividade, na iluminação e no enquadramento.

Hoje, se sabe, que a fotografia não é uma cópia do real.

O retratista Seu Justo chegou ao Beco Novo! A fotografia chegava ao povo. Seu Justo se instalou no mais famoso cruzamento de Itabaiana: Rua do Beco Novo com a Rua da Pedreira, na esquina onde funcionou a loja de tecidos de Manezinho Priscina, antiga casa do Coronel Sebrão. 

Na segunda esquina, funcionaram as barbearias de Seu Abílio, e depois de Seu Juca, pai do guarda-vala Tito. Na terceira, funcionou a padaria de Euclides e Mamede Paes Mendonça, depois o Bar de Pedro Delfino, administrado com mão ferro por Dona Isaltina; e na última esquina, era a sortida bodega de Zé Meu Mano.

Um cruzamento com muitas histórias!

Dona Isaltina enxotava quem botasse açúcar demais no café. Ela inspecionava! Tomava-se café em copos de vidro, de geleia usado. Quando se pedia um pão com requeijão, ela não se dava ao trabalho de tirar a casca. E aí daquele que reclamasse!

Outro aborrecimento, inaceitável para Dona Isaltina, era algum abusado acaçapar uma bola com força na sinuca. Ela mandava encostar o taco na hora. Seja lá quem fosse...

Lembro-me que na bodega de Zé Meu Mano vendia-se óleo de rícino, o terror no tratamento final das lombrigas; ou para os que estivessem com a barriga inchada ou fastio. Minha mãe adorava prescrever óleo de rícino, violeta-genciana, pó de sulfamida, cibalena, cafiaspirina, pomada minâncora, uvilon, piperazil, emulsão de scott, biotônico fontoura e guaiacol.

Estava lendo um clássico de Philippe Dubois, “O Ato de Fotografar”, e a mente me empurrou para Itabaiana. Terminei no óleo de rícino de Zé Meu Mano e nas delicadezas de Dona Isaltina.

Vou parar por aqui.

Antonio Samarone.
 

domingo, 10 de novembro de 2024

O CU DE SIDCLAY.


 O Cu de Sidclay...
(por Antônio Samarone)

O velho Chico Buarque diz numa canção esquecida: “Procurando bem/Todo mundo tem pereba/Marca de bexiga ou vacina/E tem caganeira, tem lombriga, tem ameba... Futucando bem/Todo mundo tem piolho/Não livra ninguém/Todo mundo tem remela...”

Lembrei-me dessa canção, ouvindo Dona Zefinha no rádio, reclamando dos médicos do SUS:

“Levei Sidcley, o meu filho mais novo, para fazer um exame de fezes no Postinho da Prefeitura, e o médico me disse que não existia mais esse exame. Como assim, me danei... Não existe, ou o senhor não quer pedir? O meu filho tá comido de vermes. Além da lombriga e o do amarelão, acho que ele pegou a caseira, aquela que ataca o olho do cu. O menino não para de coçar. Só saio daqui quando o senhor pedir o exame.”

Depois de muita insistência, o doutor terminou pedindo. Mas foi pior: quando recebeu o resultado, negativo, não deu nada. Como, Sidcley não tem verme? E essa caseira é o quê? O exame só pode tá errado. Fui conversar de novo com médico, desabafou Dona Zefinha.

Só que no rádio, Dona Zefinha não contou o final da história. Procurei saber da Unidade onde ela foi atendida, e liguei para o médico.

Ele, pacientemente, me explicou. Samarone, as verminoses são raríssimas hoje em dia. Os meninos mudaram os hábitos de higiene (acho que foi a escola); andam calçados, bebem água limpa, não fazem mais coco em baixo das bananeiras, como em nosso tempo.

Nunca mais consultei um menino com verminose, continuou o doutor, deixaram de ser um problema de Saúde Pública. Não se encontra mais ascaridíase (lombriga), ancilostomíase (amarelão), teníase nem se fala; ocasionalmente encontro um ou outro menino reclamando de uma coceirinha nos anus, examino, e tenho encontrado a oxiurose, isso mesmo, causado pelos oxiúros, o Enterobius vermicularis, um vermezinho de 2 mm.

Pensei que o Sidcley tivesse o que o povo chama de caseira. Nada, nem isso. O exame deu negativo. Os meninos de hoje tem muita alergia, TDAH e autismo. A lactose é quase um veneno.

E aí, meu amigo, se o Sidcley não está com a caseira, o que é esse formigamento no cu do menino? Formigamento não, disse-me o colega, é coceira das brabas. O cu de Sidclay está em carne viva!

A mãe me contou que Sidcley tinha botada a tripa gaiteira (a tripa gorda), para fora (prolapso retal) e ela botou para dentro com uma vara de fumo brabo. O povo se vira.

Para lhe falar a verdade, eu não sei do que se trata, disse-me o colega. Não dar para pedir uma ressonância magnética, para ganhar tempo. Nem posso dizer que é uma virose. Estou no mato sem cachorro. Não sei nem para quem encaminhar.

Coceira no olho do cu é competência de que especialidade? Eu não sei. Nem eu! Fui ver o manual de procedimentos da AMB, e não encontrei.

Me lembrei da infância no Beco Novo. Todos tínhamos lombrigas, perebas e bicho de pé. A disputa era saber quem tinha mais.

Após tomarmos os remédios de Dr. Pedro Garcia Moreno, médico do DNERU, as mães contavam quantas lombrigas os buchudinhos botavam. Passavam de cem. Peba de Seu Justino botou uma pelas ventas. E agora, fico sabendo que acabou. Virou raridade!

Encerei o telefonema alertando ao colega. Você trate de arrumar um remédio para Sidcley, senão Dona Zefinha lhe come vivo. E ainda vai ficar brotando no rádio o resto da semana, dizendo que o SUS virou uma esculhambação.

Antônio Samarone – médico sanitarista.

sábado, 9 de novembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. UM MAESTRO IMPACIENTE.

Itabaiana - 350 anos. Um Maestro Impaciente.
(Por Antonio Samarone).

Antonio Melo (1902 – 2002), maestro da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, de tradicional família de artistas, em Itabaiana. Viveu cem anos. Um exímio saxofonista, improvisava qualquer arranjo.

Eu fui aluno do maestro, por três semanas, quando ele me desenganou: “você não dá para a música”! Ele acertou. Nem toco, nem canto e nem danço. Acho que na geração anterior, fui surdo.

O maestro Antonio Melo era irmão de Zezé da Lagoa, o dono do primeiro cinema em Itabaiana; de Zé Melo; Seu Heleno, de Neusa; Jú Melo; Bobó; Gustavo; Cecinha; Zaíra; Filelina Melo (Dona Nila), esposa do Dr. Florival de Oliveira.

Vejam esse esclarecedor comentário de Wellington Mendes:

“Seu Antônio Melo, apesar da fama de ranzinza, foi uma das pessoas mais hábeis em seu instrumento que já conheci, e apesar de tudo conseguia às vezes ser bem engraçado, com um humor acérrimo tipicamente itabaianense. Grande improvisador de choros, uma qualidade rara mesmo entre os entusiastas desse gênero."

"Descendente do grande Luiz Americano, a quem ele desmascarava como nascido em Itabaiana e como persona intrigante.”

“Vivíamos dia e noite no salão da Filarmônica. Ele nos cedia a chave para ficarmos por lá, praticando, tocando temas, brincando de jazzistas, ouvindo discos que eu levava com uma vitrola... Ele muitas vezes se juntava a nós com seu Alto ou Tenor. E quando uma peça tinha duas partes, ele improvisava uma terceira rss.”

“Nosso grupo, que compreendia os nomes de Aroldo Santos, Alexandre Abraham (RIP), Roberto Millet, Gustavo Melo de Seu Bobó, Jorge 'Pi' Pinheiro de Seu Bebé e eu, habitávamos praticamente no lugar. Até hoje nos diverte lembrar seus ditos pitorescos, como: "Três vezes ao leo!" "Shernepekcetbier!"

“E uma cantiga que ele dizia ter sido ensinada por um grupo de japoneses que um dia estivera em Itabaiana, que dizia: "Shon Kinashon Shonkina Nagazaky Yokohama Acordatiôi" rss. "Música e Mulher se escrevem com a mesma letra". "A velhice é uma boa peste!" rss

“Ele sempre ressaltava: "Quem toca clarineta toca saxofone, mas quem toca somente saxofone não toca clarineta".

"Contava sobre os primórdios do cinema em Itabaiana e como foi integrante de uma pequena orquestra que tocava para animar os filmes mudos (ele nascera em 1902! - duas Guerras Mundiais e algo mais!) Lembro que fiz dele uma caricatura que ele emoldurou e conservava na parede, não sei que fim teria levado.”

(O cinema era do irmão)

Antônio de Dóci escreveu que a primeira sessão de cinema em Itabaiana ocorreu em 1913. Santinho de Tetê e Zezé da Lagoa compraram um aparelho de projeção e um gerador, e exibiram numa residência na Rua do Sol, 196. O cinema chegou a Itabaiana apenas 18 anos após a famosa primeira exibição em Paris, no subsolo do Grande Café, no bulevar dos Capuchinhos, em 28 de dezembro de 1895.

Boas lembranças, Wellington Mendes. Obrigado! Conte mais...

Antonio Samarone – Secretário de Cultura.
 

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. MAESTRO VALTENIO ALVES DE SOUZA.


 Itabaiana – 350 anos. Maestro Valtenio Alves de Souza.
(por Antonio Samarone).

Itabaiana é o reino de Apolo, deus da música.

A iniciativa do padre e maestro Francisco da Silva Lobo, em criar uma orquestra sacra em 1745, prosperou, deu resultados, Itabaiana tornou-se um celeiro de músicos.

A Filarmônica Nossa Senhora da Conceição encanta a nossa autoestima. É a maior instituição cultural de Sergipe e a mais antiga do Brasil. Possui em plena atividade: orquestra sinfônica, banda sinfônica, orquestra preparatória, orquestra experimental, banda infanto juvenil, grupo de flauta doce, classe de violão (50 músicos), grupo de percussão, fanfara, quinteto de metais, quinteto de cordas e quarteto de saxofones.

A filarmônica é composta por 350 músicos, 8 professores e 15 monitores. O maestro Ângelo Rafael Palmas Fonseca, doutor em regência, é um dos seus maestros. A filarmônica possui um laboratório de luteria, o Instituto João de Matos (escola) e um museu.

A Filarmônica é bem comandada pelo maestro Valtenio Alves de Souza.

Valtenio nasceu no pé da Serra de Itabaiana, em 30 de setembro de 1961. Filho de Seu Vieira e Dona Bonita, de uma família de seis irmãos. Estudou o primário no Educandário de Maria de Branquinha. O ginásio e o científico no Colégio Murilo Braga. Graduou-se em Educação Física, pela Universidade Federal de Sergipe.

Valtenio Alves de Souza, gostava do esporte, em especial o karatê. Entretanto, a sua alma era vocacionada para a música. Tocou corneta na fanfara da escola de Maria de Branquinha. No Murilo Braga, havia oficinas de músicas, organizadas pelo Mobral, onde Valtenio tomou um trompete emprestado e resolveu decifrá-lo.

Procurou o maestro Antonio Melo, da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição. Não teve sucesso, o exímio saxofonista Antonio Melo não tinha paciência com os discípulos.

Na verdade, a Filarmônica estava hibernando. Depois da morte de Euclides Paes Mendonça, presidente da Filarmônica, entre 1955 e 1959, o maestro Antonio Melo foi abatido pelo desânimo.

A Filarmônica Nossa Senhora da Conceição já foi comandada por dois chefes políticos: Coronel Sebrão e Euclides Paes Mendonça. Hoje está entregue aos músicos.

Depois da morte do mestre Antonio Silva, assumiu a direção musical da Filarmônica, por pouco tempo, o maestro João de Matos. Na primeira metade dos anos cinquenta, o comando passou para o maestro Antonio Melo.

Valtenio não desistiu de aprender trompete. O próprio Antonio Melo aconselhou que ele procurasse João de Matos, para aulas particulares. Não deu outra. Valtenio passou a ser aluno particular do velho maestro.

Em 1976, o governador José Rollemberg Leite enviou para o Colégio Murilo Braga, uma quantidade de instrumentos musicais, suficientes para a formação de uma banda. O que fazer, com esse cabedal? Quem iria tocá-los?


Valtenio, aluno do colégio e interessado em música, sugeriu a diretora Maria Pereira, que contratasse um professor de música e abrisse uma turma. O professor foi o maestro de João de Matos e a primeira turma teve 30 alunos. Valtenio foi o aluno mais brilhante.

Como pagar ao professor? A burocracia pública não é fácil. Maria Pereira enxergou uma saída: o dinheiro da cantina terceirizada, seria para o pagamento do maestro.

A iniciativa foi um sucesso. No 7 de setembro de 1977, a banda do Murilo Braga já desfilou garbosamente pelas ruas de Itabaiana, tocando 2 dobrados, composições do grande João de Matos.

Novas turmas se formaram, entre 1977 e 1988, até a saída do maestro. Muita gente aprendeu música no Murilo Braga, com João de Matos.

João de Matos (1912 – 1994), marceneiro, velho comunista, fez história na música itabaianense.

A experiência da escola de música no Murilo Braga não acabou com a saída de João de Matos. Entre 1988 e 2013, assumiu a função de professor de música, Valtenio Alves de Souza, já professor de Educação Física do Murilo Braga, desde 1984.

Valtenio, inteligentemente, não se afastou do Maestro da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, Antonio Melo. Conciliou as duas missões: professor de música do Murilo Braga e membro da diretoria da Filarmônica. A missão era reativar a centenária Filarmônica.

Em 1998, Valtenio, com paciência, ganhou a confiança de Antonio Melo, tornando-se Presidente da secular Filarmônica. A sua primeira obra, foi reconstruir a velha sede, na Praça da Igreja, onde hoje funciona o museu. Era uma precária casa de taipa.

Antonio Melo (1902 – 2002) de tradicional família de artistas, em Itabaiana, viveu cem anos. Um exímio saxofonista, improvisava qualquer arranjo.

Com a ascensão de Valtenio na Filarmônica, ele recrutou os melhores alunos de música do Murilo Braga, para integrarem-se. O espaço físico da sede tradicional, na Praça, ficou pequeno.

Com o fim da escola de música do Murilo Braga (2013) e a retomada das atividades da Filarmônica, uma área do Colégio Murilo Braga foi cedida, para o funcionamento do Instituto João de Matos (a escola da Filarmônica). Depois, a área foi cedida em comodato.

Ressalte-se a competente passagem pela presidência da Filarmônica, do médico, músico, filosofo e poeta, Rômulo de Oliveira Silva, período onde a Orquestra Sinfônica foi consolidada.

Valtenio casou-se em 1986, com Maria Aparecida, funcionária do SESP. O casal teve dois filhos: Tássio Vieira e Thaíse Rubeny. 

Hoje, a grandeza da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, deve muito ao maestro Valtenio Alves de Souza que, pacientemente, transpôs o período difícil da Filarmônica, recompôs, formou novos músicos e ganhou a confiança dos velhos mestres da música itabaianense.

Valtenio colocou a Filarmônica no patamar merecido!

Antonio Samarone – Secretário de Cultura.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. OS FERREIROS DA MATAPOÃ.

Itabaiana – 350 anos. Os Ferreiros da Matapoã.
(por Antonio Samarone)

Matapoã, (mata redonda, mata bonita), é um povoado de Itabaiana, onde nasce gente inteligente e troncha. A maioria dos gênios de Itabaiana é de lá.

Quando eu era menino, em Itabaiana, o povo chamava de Maitapã, onde viveu a tribo “Mathiapoa”, da Nação Tupinambá. Os meus ancestrais maternos, quando chegaram de Portugal, na primeira metade do século XIX, montaram as suas tendas de ferreiros na Matapoã.

O ferreiro João José de Oliveira (português) e Maria do Espírito Santo (Nhanha), uma Tupinambá, se estabeleceram em Matapoã. A prole desse casal, são conhecidos como os ferreiros da Matapoã: Quirino, Tertino, Antonio Francisco, Bernardino Francisco de Oliveira, Francisco Antonio, Vicente, Felismino (Nonô), Zentonho, Benvindo e Maria (Nanã).

A tragédia de Bernardino.

Numa terça-feira nublada, 17 de agosto de 1926, o velho ferreiro Bernardino Francisco de Oliveira, viúvo de dois casamentos (Maria Rosa de Jesus e Maria Wenceslau do Sacramento), 68 anos, pai de imensa prole (Felismina, Antonio Francisco (Totonho, meu avô), Francisco Antônio, Selvina, Ana, Neves, Libânio, Josefa e Maria (Lília), Agnelo, Maria (Neném) e Firmina); largou-se da Sambaíba, em Itabaiana, para comprar ferro em Maruim, matéria-prima da sua milenar profissão.

Já chegando ao destino, por volta das 9:40 da manhã, no povoado Caititu, entre Riachuelo e Maruim, KM 337 da ferrovia, o burro em que Bernardinho ia montado, assustou-se com o trem de passageiros nº 72, da “Companhia Ferro-Viária Éste Brasileiro”, que vinha de Propriá com destino a Aracaju.

O trem era conduzido por um maquinista experiente, Caetano Antônio de Jesus, que ao avistar a aflição, danou-se a apitar e puxar o freio de emergência.

A tragédia se anunciava, o velho Bernardino não conseguiu tirar a sua montaria da linha do trem, o animal agitado não obedecia às rédeas; o maquinista impotente, o local era uma curva em declive, próxima a um pontilhão. Tudo muito rápido.

A verdade é que o velho ferreiro não saltou do burro, talvez o amor ao animal. Um burro castanho de estimação, empurrou os dois para o mesmo destino.

Em frações de minutos o ferreiro e o animal estavam esmagados sob peso da locomotiva. Mamãe contava que não foi possível separar os restos de Bernardino dos restos do animal. Exagero!

Falava-se também, que em pouco tempo, como vingança, o maquinista foi esquartejado pelos ferreiros, irmãos de Bernardino. Não encontrei comprovação.

A massa ensanguentada, irreconhecível, foi recolhida com a pá de carvão, e colocada num saco, depositada num salão de chão batido, do imóvel que servia de parada do trem em Caititu. Ao final da tarde, os corpos foram transportados para o Departamento de Assistência Pública, na rua de Boquim, em Aracaju, para serem periciados.

Os Drs. Carlos Moraes de Menezes e Mário de Macedo Costa, levaram mais tempo para separar as partes do ferreiro, que para a devida necropsia. O estado de mutilação do corpo de Bernardino chocou a província.

A emissão do laudo pericial foi acompanhada pelo Senhor Doutor Chefe de Polícia do Estado, Álvaro Fontes da Silva (é como está no laudo cadavérico).

A bigorna e o fole de Bernardinho, repassados para o meu avô, Totonho, depois para os meus tios Zé e Omero, estão preservados numa tenda, no sítio do primo Arnaldo, nas Flechas.

As bigornas são como os sinos, possuem sonoridade única. Quando essa secular tenda operava, se sabia a distância: Bernardino está trabalhando.

Bernardino Francisco de Oliveira, nasceu em 11 de maio de 1858. Faleceu em 17 de agosto de 1926. Está sepultado no cemitério Santa Isabel, em Aracaju.

Antonio Samarone.
 

terça-feira, 5 de novembro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. JOSÉ AUGUSTO MACHADO.


 

Itabaiana – 350 anos. –  Professor José Augusto

A historiadora Thetis Nunes, atribuía o desenvolvimento de Itabaiana, a partir de meados do século XX, as duas mudanças estruturais: chegada de BR – 235 e a inauguração do Ginásio Murilo Braga.

A importância de um curso ginasial, em 1950, já foi comentada. Em pouco tempo, Itabaiana lotaria as Universidades, em especial a UFS. Uma geração talentosa, estudiosa, bem formada, emergiu do Murilo Braga.

O primeiro exame de admissão em Itabaiana, ocorreu em 11 de março de 1950. A primeira turma iniciou com 40 alunos. Em dezembro de 1953, somente 20, concluíram o ginasial. O Paraninfo foi o Governador José Rollemberg Leite, em gratidão.

Em 1953, Itabaiana assistiu a uma festa nova: jovens desfilando nas ruas festejando, com direito a baile de formatura. Os meninos itabaianenses das classes populares, os filhos do povo poderiam avançar nos estudos. Não seriam mais obrigados a responder, quando perguntado sobre a escolaridade: “primário completo!”

Entretanto, entre o ginásio e a universidade existia o antigo 2º grau, o chamado científico. O Murilo Braga só ofereceu o “cientifico” em 1969. O Decreto-Lei 16, de 15 de maio de 1969, criou o curso científico, o Ginásio Murilo Braga se transformou em Colégio.  

A primeira turma de cientifico em Itabaiana teve 51 alunos. Em 1971, somente 17 alunos concluíram o curso. Eu fui da 4ª turma. A divulgação dos resultados dos aprovados no vestibular da UFS, tornou-se uma festa em Itabaiana. A cidade era tomada por jovens de cabeças raspadas, com bonés de cores diferentes. Os futuros médicos, usavam bonés verdes. 

Cantávamos o samba de Martinho da Vila: "felicidade, passei no vestibular..." O futuro estava encaminhado. 

Essa festa teve um padrinho. O cientifico chegou pelo trabalho abnegado do filho de Zé da Manteiga. Nunca divulgou, fez tudo discretamente. De quem estamos falando?

José Augusto Machado (71 anos), natural de Itabaiana. Filho de José de Oliveira Machado (Zé da Manteiga) e dona Maria Maurícia Machado. Quatro irmãos: José Arnaldo (Manteiguinha), Maria do Carmo, Vera e Aparecida.

José Augusto era neto de Cândida Veridiana de Oliveira, filha de Benvindo, irmão de meu bisavô Bernardino! Era um ferreiro.

José Augusto fez o primário no Grupo Escolar Guilhermino Bezerra. Foi aluno de Maria Pereira, Helena de Branquinha, Helena Priscina, Maria do Carmo de Pedrinho e Lenita Porto.

Entrou no Ginásio Murilo Braga em 1959, após um rigoroso exame de admissão (um vestibular precoce), e concluiu em 1962.

José Augusto, como todo menino da época, Jogou bola, brincou de castanha e pião. Pegou passarinho no visgo e no alçapão. Se danou de bicicleta, pelos povoados. Tomou banhos em rios, lagoas e açudes.

Em 1963, veio para Aracaju, cursar o científico no Colégio Estadual de Sergipe, no velho Atheneu, obrigatório para quem queria continuar os estudos.

Naquele tempo, terminado o ginásio no interior de Sergipe, os meninos que podiam vinham fazer o científico em Aracaju, os que não podiam, paravam os estudos, e iam procurar do que viver.

José Augusto passou no vestibular da conceituada Escola de Química de Sergipe, sem frequentar cursos de pré-vestibular. Concluiu o Curso de Química em 13 de dezembro de 1969.

Em 1970, José Augusto já era professor no Instituto de Química da UFS.

José Augusto se casou em 1972, com Iracema Barreto Machado. É pai de três filhos: Breno, Diogo e Dênio.

Ainda estudante, José Augusto Machado se envolveu na luta para levar o curso científico para Itabaiana quase sozinho. Depois de muito vai e vem, conseguiu que a Secretária de Educação instalassem em 1969, o curso científico no Colégio Murilo Braga.

Para sanear a falta de professores, José Augusto se dispôs a lecionar três disciplinas (matemática, física e química). E o curso se viabilizou.

O científico em Itabaiana foi a salvação para muitos meninos pobres que queriam continuar os estudos e as famílias não tinham condições de sustentá-los em Aracaju. Ressaltando, que esse benefício alcançou gente de todo o agreste e de parte do sertão.

Eu fui aluno da quarta turma, em 1970.

Itabaiana anoitecia com caravanas de alunos vindos de tudo o que era lugar. Vindos de ônibus, kombi, pau-de-arara, caminhoneta, de burro, bicicleta e a pé. Chegava gente de todos cantos: Carira, Frei Paulo, Ribeirópolis, Campo do Brito, Malhador, Moita Bonita, Macambira, vinha gente até de Jeremoabo e Chorrochó.

Esse povo todo, muitos só se formaram pela chagada do científico em Itabaiana, numa escola pública. Passamos a ter esperança em melhorar de vida através da escola. Era a cidadania conquista pela escola pública.

E essa luta para levar o científico para Itabaiana, pouca gente sabe, foi travada por José Augusto Machado, um anônimo estudante de química. Sem pretensões, sem interesses pessoais, apenas para beneficiar um magote de jovens pobres, condenados a encerrar os estudos no ginásio.

Antes que apareçam padrinhos, quem levou o curso científico para Itabaiana não foi político, secretário, diretor, padre ou juiz, foi um competente e discreto estudante de química da UFS.

O professor José Augusto Machado foi vítima da Covid-19. Faleceu em 14 de março de 2021.

José Augusto Machado, muito obrigado.

Antônio Samarone – Secretário de Cultura.