domingo, 5 de abril de 2026

UMA TARTARUGA ENCALHADA

Uma tartaruga encalhada.
(por Antonio Samarone).

Fazendo a caminhada matinal nas Praias do Aracaju, no domingo da páscoa. Estirando as pernas, em companhia dos doutores Jorge Motta e Luciano Correia, nos deparamos com uma realidade pouco divulgada: as tartarugas desovam nas Praias do Aracaju, no trecho entre o Robalo e o São José dos Náufragos.

Desovam e são protegidas pelo competente Projeto Tamar. Conversamos com uma profissional do Projeto Tamar, presente no local, que nos prestou todos os esclarecimentos.

Uma diferença profunda: na Bahia, na Praia do Forte, a proteção ambiental do TAMAR é atração para o turismo ambiental. Em Aracaju, o mesmo projeto é quase desconhecido. Só as tartarugas são as mesmas.

Para evitar aborrecimentos, eu sei que a primeira base do Projeto Tamar, foi em Pirambu – Se (1982), sei também da grandeza do nosso Oceanário, o primeiro do Nordeste, e que abriga mais de 30 espécies. O projeto Tamar monitora 150 km de praias em Sergipe, 800 desova e 600 mil filhotes chegam ao oceano.

A minha queixa: precisa mais divulgação!

Estamos vaidosos, eu e os doutores da caminhada, por termos salvo uma tartaruguinha. Com fé em Deus, em breve será uma tartarugona. O Dr. Jorge, em um exame rápido, confirmou que era menina.

Luciano politizou a vivência: “não precisa ser especialista, para saber, que o turismo em Sergipe é o mais atrasado do Nordeste. Não aproveitar uma trilha ecológica, na Praia, tomada por tartarugas e carcarás, é a mais profunda incompetência.”

Encontramos essa tartaruguinha da foto, perdida, desorientada, no vasto areal da Praia. As irmãs acharam o mar, pela madrugada, ela não. Pensamos, vamos salvá-la? Eu logo concordei: “achei que nem era fácil, nem difícil.”

Os eruditos doutores, consultaram primeiro a Inteligência Artificial. O relatório da IA, tinha mais de 50 páginas. Um curso completo sobre as tartarugas.

O meu pragmatismo beco-novista, me empurrou para a ação. Pincei cuidadosamente a recém-nascida pelo casco, e levei-a ao Oceano. Ela balançava freneticamente as frágeis nadadeiras, em sinal de agradecimento.

Pensamos: se tivéssemos socorrido uma baleia encalhada, à noite, estaríamos no Fantástico; como o salvamento foi de uma modesta tartaruga, seremos literalmente ignorados.

Gente, ajude!

Antonio Samarone.
 

sexta-feira, 3 de abril de 2026

O ESPETÁCULO DA FÉ.

 O Espetáculo da Fé.

(por Antonio Samarone)
 
As origens do teatro no Brasil são religiosas. No Brasil Colônia, os jesuítas usavam o teatro, como ferramenta de catequese e pedagogia. As peças de José de Anchieta se destacavam. Os autos de Natal eram os mais recitados. 
 
Em Aracaju, em 1904, foi fundado o Teatro Carlos Gomes, criado pelo italiano Nicolau Pungitori. Depois renomeado Cine Teatro Rio Branco, em 1912.
 
Em Itabaiana, os registros são de 1913, com o cinema mudo. O teatro ganhou folego, com a chegada de luz de Paulo Afonso, e a fundação do Cinema de Zeca Mesquita. 
 
Na década de 1950, o teatro notabilizou-se em Itabaiana, com dramaturgo e ator, José Amâncio Bezerra, discípulo de Procópio Ferreira. Entretanto, a arte em Itabaiana floresceu com a música e a fotografia. O teatro nunca foi protagonista.
 
Eu conheci o teatro, nos dramas, do Circo de Zé Bezerra: Antes da chegada da TV, com as suas novelas na TV, Itabaiana ficava acordada, esperando a hora dos dramas no Circo. 
 
Além de circo, com palco e picadeiro, era também teatro. Cada dia com uma peça diferente. A louca do Jardim era casa cheia. A peça era uma adaptação para o teatro de um cordel, que começava em versos: “vinde musa mensageira, do reino de Eloim/Traz a pena de Apolo e escreva aqui por mim/o assassino da honra ou a louca do jardim.” 
 
Instalado num alçapão no centro do palco do circo ficava o “Ponto”, profissional do teatro responsável por “assoprar”, em voz baixa, as falas que deviam ser repetidas, em voz alta, pelos atores.
Eu conheci o teatro no Circo de Zé Bezerra, e fiquei com boa impressão. 
 
A minha memória cultural fixou a passagem do Centro Popular de Cultura, por Aracaju, lembro-me da encenação do “Recital sem Opus”, de João Costa, o maior nome do Teatro em Sergipe. As participações de Luiz Antonio Barreto, João Gama, Chico Varela, Orlando Vieira, Zelita Correia, Aglaé Fontes, Clodoaldo Alencar, e outros que esqueci.
 
O Secretário de Educação era Luiz Rabelo Leite, no Governo de Seixas Dórea.
 
Quem são os herdeiros de João Costa, em Sergipe?
 
Atualmente, funcionam vários grupos teatrais, em Sergipe: Imbuaça, Mamulengo Cheiroso, Raízes, Caixa Cênica, Boca de Cena, Atualona e o Quilombo Ubuntu de Teatro Negro, Teatro Velho Chico, Cobras e Lagartos (Lagarto), loucos por loucos (São Cristóvão), Teatro Retalhos e 7 panos (Lagarto).
Não sou especialista em teatro. Vejo até onde os meus olhos enxergam, ou seja, as aparências. Sinto que em Sergipe, o teatro passa por dificuldades. Um ou outro abnegado. 
 
Sinto que a política cultural em Sergipe, deu as costas ao Teatro.
 
Esse arrodeio, é para chegar ao atual teatro religioso, em Itabaiana. Na Semana Santa, ocorrem três representações da Paixão de Cristo, em povoados diferentes: Mangabeira, Tabuleiro do Chico e Malhada Velha. São representações grandiosas, e com grande público.
 
Nesses atos, mesmo a religiosidade sendo o tema, o que move é o teatro. Atores e atrizes se desdobram na representação. Ser o Cristo é uma distinção disputada. Das três representações, a da Mangabeira é a mais antiga.
 
A Paixão de Cristo no Tabuleiro do Chico, nasce em 2011, por iniciativa do casal Adelson e Hosana. Antes era uma via-sacra, que foi crescendo. Inicialmente, eles botaram um Cristo, Zé de Galdino, carregando uma cruz, que ia de casa em casa, de estação em estação. 
 
São 115 atores, locais e dos povoados vizinhos. O cenário é ao ar livre. A natureza facilitou, pois o Tabuleiro do Chico, parece com a Palestina. O Cristo é o mesmo.
 
Na Mangabeira, a encenação começou em 1990. No início também foi uma via-sacra. Hoje, participam cem pessoas. A ideia foi de Dona Rita. O cenário é montada em frente a Capela Santa Ana/São Joaquim, onde existe um belo anfiteatro. 
 
A encenação na Mangabeira possui iluminação e som profissionais. O grupo foi institucionalizado e é comandado por Glasdston. Por lei municipal, a Paixão de Cristo da Mangabeira é Patrimonio Cultural e Imaterial de Itabaiana. 
 
A encenação da Mangabeira é transmitida ao vivo, pelo YouTube.
 
Por último, a encenação da Malhada Velha passa por mudanças profundas. Antes, liderada por Noel, chamava a atenção pelo realismo e simplicidade. O flagelo de Cristo era próximo ao real. O Fel servido a Cristo é mais amargo do que o original, da Palestina.
 
Um empresário, nativo da Região, Marco Contador, resolveu investir na criação do cenário, dentro do Modelo da Nova Jerusalém, em Pernambuco. Essa mudança está ocorrendo, a cada ano, os palácios de Pilatos, o cenário estão sendo construído, com muito zelo.
 
Itabaiana considera as três encenações da Paixão de Cristo, em seus povoados, manifestações culturais de fé, demonstrações da criatividade do seu povo.
 
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.