quinta-feira, 3 de abril de 2025

ITABAIANA - 350 ANOS. TINDA E OS PRETOS DO TABULEIRO DOS CABOCLOS.

Itabaiana – 350 anos. Tinda e os Pretos do Tabuleiro dos Caboclos. (por Antonio Samarone).

Em Itabaiana, o "football" nasceu no Tabuleiro dos Caboclos (atual Bairro São Cristóvão) e foi praticado majoritariamente pelos Pretos. Até a chegada deles, vindos do Quilombo Barro Preto, no pé da Serra, vizinho ao Bom Jardim, o Tabuleiro era dos Caboclos (índios miscigenados).

Os Pretos eram ceramistas: faziam potes, panelas e purrões. Outros, pataqueiros ou sapateiros. Nas horas vagas, jogavam futebol. Os primeiros, que se destacaram no futebol, foram: Coringa, sobrinho de Divo Preto, que foi jogar na Bahia e Lima de Mané Padeiro, que brilhou no gol do Confiança.

O futebol era jogado pelos Pretos.

Tinda (foto), José Nivaldo dos Santos, era um meia-esquerda rápido e inteligente. Filho de Raimundo Preto, o zelador do antigo Etelvino Mendonça, e Dona Zefinha. O Tabuleiro dos Caboclos era uma comunidade muito pobre.

A única família que possuía um rádio era a de Mané Padeiro, berço de vários jogadores de futebol: além de Lima, citado acima, Lafayete, Beto, Nado e Manoelito. O grande zagueiro Zé de Chico, do Itabaiana, é casado com uma filha de Mané Padeiro.

Quando Tinda nasceu (08/02/1952), o pai trabalhava num órgão de fomento agrícola (Fazenda Grande), e tomou como padrinho para o filho, o Dr. Cansanção, engenheiro-agrônomo e chefe da repartição.

O Dr. Cansanção deu ao novo afilhado, Tinda, uma cabra parida. Garantiu o leite da criança, por um bom tempo. Tinda é de uma família de 13 irmãos, não frequentou a escola. Aprendeu a arte de sapateiro. Ainda fabrica sandálias de couro, para completar a renda da aposentadoria.

No Tabuleiro dos Caboclos, os Pretos eram quase todos parentes. Seu Raimundo, o pai de Tinda, era irmão de Divo, um preto de porte atlético, zagueiro do Itabaiana; irmão de Seu Deca, pai de Zé de Vitinha, ponta esquerda de rara habilidade; de Dona Preta, mãe de Nado Preto e Tica, dois craques; de Tonho de Zeferino e de Seu Rufino, um pataqueiro que limpava mil covas por dia.

Outros Pretos se destacaram no futebol itabaianense: Tonho e Zé de Preta, filho do finado João Babão; Cosme e Damião, gêmeos, filhos de João Barraca, Augusto e Elisio, filhos do bodegueiro Zé Mapinguim; Turinha, sobrinho de Osano, Pai de Santo. Sem contar os Pretos importados de Maruim: Pierrô, Bonito e Seu Jorge (goleiro).

Os pretos também se destacaram na música. O maestro Antonio Silva foi uma grande estrela. Maestro da Filarmônica e compositor. Pai do Professor Airton (Órion), de Nilo Base, alfaiate e jogador de futebol, e de Seu Bebé dos Passarinhos.

Sobre Nilo Base no futebol, Antonio de Dóci deu uma definição inusitada: “Nilo corria bem, chutava forte, cabeceava com força, sabia driblar, mas não era um bom jogador.” Como assim, eu perguntei. Seu Antonio foi sucinto: “Ele fazia tudo isso na hora errada.”

Hoje, o Bairro São Cristóvão não tem mais nem paneleiros, nem jogadores de futebol. A última artesã do barro é Nega, que mora no Povoado Cajueiro, onde mantém um Terreiro de Umbanda.

Acho que essa visão que em Itabaiana não tem Pretos é falsa. Todos citados acima, com quem convivi, são Pretos, ou quase Pretos, como diz Caetano Veloso. Foram eles que praticavam o futebol e faziam panelas em Itabaiana.

Observação: esqueci de muitos Pretos. Eu fiz dupla de ataque no Cantagalo, com Tinda (foto). Ele um craque, eu esforçado.

Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

quarta-feira, 2 de abril de 2025

ITABAIANA - 350 ANOS. FIOTE DA CASTANHA.

Itabaiana – 350 anos. Fiote da Castanha.
(por Antonio Samarone)

Everton Souza Nascimento (Fiote da Castanha), nasceu 09 de julho de 1977, no Povoado Estreito, vizinho ao Polígono da Castanha (Carrilho, Dendezeiro e Tabocas), ao Mundo Novo e ao Dunga, em Itabaiana.

Antes da castanha, era uma região de feirantes livres e pataqueiros pobres.

Fiote da Castanha é filho de Elionaldo Nascimento, conhecido por Leão, motorista de caminhão. A mãe, é Dona Décia Souza. Uma família de 4 irmãos (Everton, Elisângela, Elionaldo e Josefa).

Fiote, demorou pouco na escola, era preciso ganhar a vida. Aos 12 anos, já vendia verduras nas feiras, com um cesto na cintura. Apreendeu cedo a vender, cativar o cliente, tornar o que está vendendo uma necessidade. Sempre de bom humor.

O comércio de Itabaiana cresceu, pela alma empreendedora do seu povo. Fiote é um bom exemplo: ganha a vida pelo trabalho, pelo dom de ser bom comerciante. Logo cedo, Fiote começou a levar a castanha assada de Itabaiana, para o resto do Brasil. Foi um desbravador da venda da castanha assada em Salvador e no Rio de Janeiro.

Até hoje, Fiote vende castanha. Não viaja mais, como faz uma legião de itabaianenses, que percorrem o Brasil com um saco de castanha nos braços, vendendo e divulgando Itabaiana. São mais de 500.

Fiote da Castanha casou cedo, aos 19 anos, com Dona Giselma, com quem teve três filhos: Davi, Sara e Natã. Isso mesmo, o Natãzinho Lima, sucesso nacional da música brega. Fiote está em num segundo casamento, com a aracajuana Fernanda.

A vida de Fiote foi a de um itabaianense médio, voltada para ganhar dinheiro, e gastar em farras. Festeiro, torcedor do Tremendão da Serra e do Flamengo. Fiote seguia a sua rotina anônima, até aparecer um filho famoso. Ficou conhecido, por conta desse filho famoso e rico.

Fiote tem uma personalidade forte e uma autoestima dos itabaianenses, bairrista até o pescoço. Sabe o que quer, respeita as raízes e as velhas amizades. Nunca será apenas o Pai de Natãzinho.

Como surgiu uma estrela da musica popular, saindo de uma família de trabalhadores, sem raízes musicais. Se foi herança, foi um gene muito recessivo. Quando menino, Natãzinho queria ser caminhoneiro, seguir o destino do Avô, Seu Leão.

Ele nunca perdeu a tradicional carreata de caminhões de brinquedo, que ocorre em Itabaiana, como parte da festa dos caminhoneiros, em junho.

Certa feita, Natãzinho, aos 14 anos, foi com o irmão Davi, fazer um bico de garçom numa festa particular, no Povoado Maitapam. A festa era animada por um conjunto musical, da região. Sem maiores pretensões, Natãzinho desafiou o irmão: “quer apostar que se deixarem, eu vou ao palco e canto uma música?” Apostaram e ele ganhou. Cantou tão bem, que o povo da festa começou a pedir bis.

Natãzinho ganhou animação e passou a cantar em tudo que era lugar, festas, barzinhos. Os amigos, Maicon, do Batata Frita; Adinaldo, do Posto Esquina e Garrafinha, entre outros, patrocinaram a gravação de um CD. Ele mandou o CD, para o produtor Charles e para o empresário Genílton. Eles não gostaram!

Natãzinho inventou um show chamado “de bar, em bar”. O de bar, em bar, número 4, foi na Marianga, um bairro popular de Itabaiana, onde vivia a sua família. A festa estourou, foi um grande sucesso. O sucesso de outro show na Barragem do Campo do Brito, estourou nas redes sociais.

Daí, ele se profissionaliza, cria a sua banda, faz amizades com os cantores famosos no estilo dele, com destaque para a parceria com Safadão. Aos 22 anos, Natâzinho saí da venda de castanha, ajudando ao pai, para sucesso nacional. Hoje, reside em São Paulo.

Não é fácil sair de Itabaiana, de família de trabalhadores, sem padrinhos, chegar a fama. Não é à toa que os vencedores são poucos. Até agora, a fama e a riqueza, não quebraram as raízes de Natâzinho.

Ele incorporou em sua música, o espirito de caminhoneiro do seu avô, Seu Leão; o empreendedorismo e o bom humor do pai (Fiote da Castanha); e a alma do povo de Itabaiana (fio do canso) e o bairrismo do Mestre Orpilio.

Ainda é cedo, mas até agora, a humildade de quem conhece e ama as origens, continua espelhada na testa. Não deixe o sucesso sombrear a sua humildade.

No último “de bar, em bar”, que ele fez em Itabaiana, em praça público, eu fiquei de longe, observando. As pessoas passavam aos lotes, apressadas, era um dia de semana, todas comemorando o seu sucesso, como uma vitória coletiva da cidade, como um título do Tricolor.

Perguntei a seu pai, Fiote da Castanha, quais os motivos do sucesso do filho, além da voz afinada e da sorte. Ele foi certeiro: “o povo de Itabaiana abraçou Natãzinho desde cedo.” Eu comecei a entender...

A minha praia musical é outra, gosto de outros estilos, mas não posso esconder: o seu sucesso, a sua humildade, a sua ligação com as raízes itabaianenses e com os caminhoneiros, me envaidecem.

Fiote da Castanha soube criar os filhos!

Antonio Samarone. Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

sábado, 29 de março de 2025

ITABAIANA - 350 ANOS. MEU PÉ DE LARANJA LIMA

Itabaiana – 350 anos. Meu Pé de Laranja Lima.
(por Antonio Samarone)

O mundo está aquecendo. O Prefeito Valmir decidiu: Itabaiana vai plantar árvores!

Reunimos (foto) o secretário do meio ambiente, Vinicius Moura; o da agricultura, Erotildes de Jesus; a agrônoma Susi Alves e o técnico em agronegócios Breno Veríssimo, para tratarmos do assunto.

Primeira constatação: não é fácil arborizar! Desmatamos por 400 anos, para fazer roça e criar gado. Itabaiana veio morar na cidade a duas gerações. Temos as raízes rurais. A cidade a base de cimento, aço, blindex e asfalto é vista como um progresso, encanta muita gente.

Nunca nos afeiçoamos as plantas. Temos animais de estimação, raramente adotamos uma planta. As árvores nunca foram chamadas pelos nomes próprios. São genericamente pés-de-pau. É fácil derrubá-las, sem nenhum peso na consciência. As folhas caídas são consideradas sujeiras.

Na infância, eu me emocionei com o Pé de Laranja Lima, do romance de José Mauro de Vasconcellos. Na prática, recordo-me do Pé de Jaboticaba que levava o nome de mamãe, em um sítio nas Flechas. O meu avô era estranho, batizava as frutíferas com os nomes das filhas.

Sem uma mudança na relação das pessoas com o meio ambiente, não adianta contratar uma empresa para plantar árvores. Plantar ainda planta, mas não viceja. Sem o cuidado e o carinho do poder público e da sociedade, a muda não cresce, não chega ao seu destino.

Basta o exemplo do Aracaju. Os canteiros centrais das avenidas são cemitérios de mudas. O índice de aproveitamento não chega a vinte por cento. Sem os manguezais, Aracaju seria um deserto. Desmataram até o Parque da Sementeira.

Itabaiana não fica atrás, a cobertura vegetal é muito baixa. Em minha infância, cada quintal tinha as suas fruteiras. O meu, tinha um frondoso jenipapeiro. Hoje, o que restou dos quintais foram cimentados.

A segunda constatação: a arborização é um trabalho de parceria da prefeitura com as escolas, as agências ambientais, as universidades, as empresas, a imprensa, as igrejas, sindicatos, ambientalistas e as pessoas de boa vontade. Sem uma união consciente, a realidade ambiental não muda.

Vamos buscar parceria com os alunos de educação ambiental da UFS. E com quem estiver disposto a ajudar. Sem medo das dificuldades, vamos criar uma Itabaiana mais verde. Vamos em busca de aliados, para elevar a qualidade de vida.

A arborização não pode ficar limitada a Zona Urbana. Em Itabaiana, muita gente que cresce economicamente, volta ao campo, construindo chácaras faraônicas, belas casas e piscinas com cascata. Geralmente, cortam as árvores que existiam.

Vamos plantar as árvores que nos tocam. Sem preconceitos. As craibeiras do sertão são bem-vindas. Os ipês-amarelos do pé da Serra. Canafístulas, pau-brasil, juazeiros, quixabeiras, dendezeiros, moringas, mangueiras e jaqueiras.

Eu quero um pé de pitomba, igual ao da minha infância, no Canto Escuro, ao lado da casa de Dona Gemelice.

A arborização segue as raízes culturais de cada comunidade. Por isso, fui convidado para a reunião.

Antonio Samarone – Secretário da Cultura de Itabaiana.
 

terça-feira, 25 de março de 2025

ITABAIANA - 350 ANOS. O FOTÓGRAFO COBERTURA.

Itabaiana – 350 anos. O fotógrafo Cobertura.
(por Antonio Samarone)

Jurandir Rosa de Jesus (Cobertura), 70 anos, paciente de Lair Ribeiro, natural de Maruim, nasceu em 11 de janeiro de 1956. Veio para Itabaiana em 26 de agosto de 1985, um sábado à tarde, para assistir a uma partida do Maruinense contra o Itabaiana. Ficou na casa de Dona Maria São Pedro.

Cobertura ficou encantado com Itabaiana: tinha o Tik-Tok de Adilson e João Patola; o Le Romantique de Gud-Gud e a Lanchoteca de Zé de Quinquim. Era muita modernidade. A cidade não dormia.

Cobertura, não pensou duas vezes, arrumou as malas e se transferiu para Itabaiana. Trouxe a esposa, Dona Nailza. Hoje, possui três filhos e três netos.

Em Maruim, Jurandir era empregado da Fábrica de Tecido Maísa, de Constâncio Vieira. Em Itabaiana, virou autônomo, tornou-se fotógrafo, fez amizades, melhorou a qualidade de vida. Somou-se a Romeu, Juracy, Dona Helena, e os crentes João e Miguel. Uma profissão estabelecida.

Cobertura fez a escolha certa, Itabaiana foi o berço da fotografia em Sergipe. Nunca lhe faltaram serviços: batizados, casamentos, festas e folguedos. Fotografou até enterros.

Itabaiana deve aos fotógrafos parte da sua memória. Miguel Teixeira, Joãozinho Retratista, Percílio Andrade, Paulinho de Doci, entre outros, deixaram fotos icônicas da cidade serrana. Hoje, já foram até animadas, passaram a se movimentar, sorrir e falar.

A entrada da Era Digital deu um susto nos fotógrafos, mestres na revelação perderam a relevância. E agora, com os iPhones clicando sozinhos, com a praga das selfies, todos se autofotografando, os fotógrafos profissionais perderam o mercado.

Os telefones fazem as fotos sozinhos e a inteligência artificial controla a luz e o enquadramento. O “DeepSeek”, IA chinesa, atende ao comando de voz. Aparece nas fotos até quem já morreu.

Basta ordenar: eu quero uma foto do meu aniversário, com todos felizes e sorridentes. Ao fundo, quero os meus avós, que faleceram há décadas. Basta ligar o iPhone, botá-lo apontando para a cena e sair de perto. As fotos sairão no Instagram, em segundos.

Uma luta perdida, a dos fotógrafos. Em Itabaiana, restam três “studios”, para fotos três por quatro.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

domingo, 23 de março de 2025

ITABAIANA - 350 ANOS. DOLORES DURAN.

Itabaiana – 350 anos. Dolores Duran.
(por Antonio Samarone)

Para os mais novos, Dolores Duram foi uma estrela da música brasileira na década de 1950. Antes da bossa nova e da televisão. Adiléia Silva da Rocha, a Dolores, nasceu em 07 de junho de 1930, no subúrbio do Rio de Janeiro.

Dolores é filha de Dona Josepha da Silva Rocha, costureira, natural de Itabaiana. Aqui reside o meu interesse maior. Josepha nasceu em 1912. Ficou órfã muito cedo, foi morar com um tio, em um sítio, na Zona Rural. Uma vida sofrida, onde os espancamentos domiciliar eram frequentes.

Aos 12 anos, um primo mais velho, marinheiro, a levou para o Rio de Janeiro, numa longa e sofrida viagem. Antes dos paus-de-arara. Semianalfabeta, Dona Josepha foi ser costureira. Contudo, era uma mulher muito inteligente, repentista e cantora de voz suave. Josepha era boa de gogó, afinadíssima. Dolores tem a quem puxar.

Josepha da Silva Rocha, faleceu em 1999, aos 87 anos. Ouvi dizer que Josepha voltou à Itabaiana na década de 1980, visitar a sua terra natal. Estou tentando encontrar os seus parentes.

Dolores Duran, começou cedo na vida artística. Em 1941, aos onze anos, ganhou nota máxima no temido programa de Ary Barroso, interpretando “Vereda Tropical”, um bolero famoso de Gonzalo Curiel.

Dolores, a filha de Dona Josepha de Itabaiana, vida humilde, de formação autodidata, cantava em castelhano, francês e inglês, com uma pronúncia perfeita. Foi do tempo de grandes cantoras: Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Marlene, Linda Batista e Virginia Lane.

Dolores Duran foi amiga de Mário Lago e, através dele, se aproximou do socialismo. Excursionou pela União Soviética, em 1958.

Dolores Duran, mulata, pobre, pelo talento, em pouco tempo frequentava as rodas intelectuais e boemias do Rio de Janeiro. Apreendeu a tocar violão e tornou-se uma compositora de vanguarda. Festeira e namoradeira. Faleceu cedo, em 24 de outubro de 1959, aos 29 anos. Infartou, em decorrência de uma cardiopatia ocasionada pela sequela de uma febre reumática, mal curada.

O funeral da cantora, foi num domingo, as 15 horas, no Cemitério do Caju. Foi enterrada na quadra 55, sepultura 21.555. Como disse um cronista: uma legião de fãs e admiradores acompanharam o sepultamento.

Dona Josepha, a mãe, teve mais três filhos: Hilton, funcionário Público; Hilda, operária; e Irley, a mais nova, que chegou a cantar, com o pseudônimo de Denise Duran.

Dolores Duran foi registrada no cartório, apenas com o nome da mãe. O pai era um policial chamado Antonio Dias, que nunca assumiu. Dolores foi criada por Seu Armindo, pernambucano, e padrasto.

Essa é a história do povo brasileiro. De tantos anônimos, como diz João Bosco: são pais de santo, paus de arara, são passistas, são flagelados, são pingentes, balconistas, palhaços, marcianos, canibais, lírios pirados...

São tantas Josephas, Marias, Adiléias em busca de mostrarem os seus talentos. A tarefa da cultura é recuperar as memórias perdidas.

Dolores Duran, a filha de Dona Josepha de Itabaiana, encantou o mundo com o seu talento. Agora, vou esmiuçar as raízes de sua mãe, para fazer um registro mais completo.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

quinta-feira, 20 de março de 2025

EM BUSCA DAS RAÍZES - POVOADO MATAPOÃ.

Em busca das raízes – Povoado Matapoã.
(por Antonio Samarone)

Ontem, dia de São José, visitei o povoado Matapoã, onde as minhas raízes se encontram. Cheguei na Capela reivindicando a minha patente de matiaponense raiz. As mulheres presentes na Capela, quiseram detalhes.

Encontrei um povoado fofo, carinhoso, cheio de vida. Não vi pobreza. Pequenos sítios, com casas confortáveis, plantando couve. Não sei os motivos, mas lá só se planta couve.

Não fizeram um arruado, com armazéns e bodegas. A Matapoã continua sítios. O único prédio público é uma Associação Comunitária. A escola fica em um povoado próximo e a Unidade de Saúde Djalma Lobo, fica às margens da BR – 235.

A Matapoã faz limites com os povoados Sambaíba, Cabeça do Russo, Tabuleiro do Chico, Vermelho e Gameleira. O tanque ao lado da Capela é o século XIX. A linda e bem cuidada Capela (foto), tem quase 80 anos.

As mulheres na Capela quiseram saber se o doutor Luiz Carlos Andrade, o engenheiro José Carlos Machado e Oviedo Teixeira eram do tronco da Matapoã. Eu confirmei. Aliás, dois filhos de Oviedo, Tarcísio e Luiz Teixeira, criaram uma Matapoã em Aracaju, onde hoje os ricos fizeram as suas casas de praia, às margens do Vaza Barris.

Contei o que sabia por ouvir dizer. Muitos dos nossos, foram morrer em Canudos. Mamãe contava estórias de Conselheiro com intimidade, como se o tivesse conhecido. O mais interessado foi o menino.

Na Capela, além das mulheres zeladoras, estavam um menino muito inteligente, cheio de curiosidades, e o competente Almir Andrade, implantando as poderosas antenas da Itabaiana FM, para retransmitir a festa de São José.

Em Itabaiana os povoados possem histórias e especificidades. A Matiapoam é a comunidade onde os traços dos índios matiaponenses são mais fortes. Se conhece se o sujeito é da Matapoã de longe, sem muito esforço: gordo, baixo, pescoço atarracado e batatas das pernas acentuadas. O modelo de Dom João VI.

O meu tataravô, João José de Oliveira, migrou para “Maitapam” (como o povo chamava), em meados do século XIX (1849). Foi parte das últimas levas de migrantes portugueses para o Brasil. João José, exímio ferreiro, chegando a São Cristóvão, quis saber onde a sua profissão era necessária. Instalou-se em Matapoã.

Um detalhe: o meu Avó,Totonho de Bernardino, possuía uma pequena imagem de São José, que ele dizia herdada de João José. Não sei se o santo tornou-se padroeiro da Matapoã, por conta dessa imagem.

Para manter a tradição, o meu sítio no Povoado São José dos Náufragos, na Curva do Rio, em Aracaju, chama-se Solar São José.

A presença dos Oliveiras no século XIX, na Matapoã, foi constatada pelo grande historiador Sebrão, o sobrinho: "os Oliveiras eram altos, atléticos e bonitos, destoando com os matiaponenses originais".

O ferreiro João José de Oliveira foi o Adão itabaianense. Criou uma prole de 10 filhos, quase todos ferreiros (alguns fogueteiros), onde o meu Bisavô, Bernardino José de Oliveira é um entre eles. Dessa família de artesões do fogo, chamados genericamente de ferreiros, descende a metade da Itabaiana original.

Disse no início do texto, que os povoados tinham bases culturais específicas. A Matapoã é tida com berço da intelectualidade itabaianense. Todos, são tidos e havidos como muito inteligentes. Pode até ser exagero, mas essa assertiva é senso comum.

Adorei a Matapoã, tive forte impressão que um sítio chamado de “Ranchinho São José”, foi do meu tataravô. Senti a presença dele, dos meus antepassados, a energia dos ferreiros, a sabedoria dos Oliveiras. Me senti voltando para casa.

Gente, quem souber e puder, tente voltar as origens. Sair rejuvenescido.

Antonio Samarone (ponte de rama dos Ferreiros da Matapoã)
 

segunda-feira, 17 de março de 2025

OS MILAGRES DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Os milagres da Inteligência artificial.
(por Antonio Samarone)

Doutor Godofredo Oliveira formou-se Muriaé e fez pós-graduação no exterior. Recentemente, montou o seu consultório no Shopping Center de uma grande cidade, no interior sergipano. A clientela está bobando. Hoje, só se consegue marcar uma consulta para o meio do ano.

Na antessala do doutor Godofredo, tem uma placa em acrílico, iluminada com raios laser, taxando: especialista em clínica geral, tisiologia e neuropsiquiatria, com doutorado em neurociência, pela Universidade Simon Bolívar, na Venezuela.

Qual o segredo de tanto sucesso? O doutor usa um aplicativo de “Inteligência artificial”, made in China. Na entrada, o paciente digita o nome, a data de nascimento, filiação e uma poderosa máquina coleta uma gota de sangue da língua do padecente. O sangue só serve da língua. (não sei explicar)

Depois do pagamento da consulta, passa-se o código de barras do próprio recibo, e a máquina de IA, imprime o diagnóstico, apontando os possíveis tratamentos. Caso o padecente deseje continuar o procedimento, paga-se a taxa de tratamento. A cura é imediata, muitas vezes no mesmo dia.

A própria Inteligência artificial comanda uma impressora 4D, que produz os medicamentos indicados, em doses personalizadas.

Para não ser acusada de estar exercendo a medicina com a farmacologia, que o vigilante CFM não permite, a Botica pertence à esposa do Dr. Godofredo, e fica em prédio separado. Lá, paga-se mais barato que nas redes nacionais de farmácias.

Recentemente, a reversão de um caso de Alzheimer numa paciente com 82 anos, já desenganada, surpreendeu até os médicos chineses. Os cientistas que produziram a máquina de IA não previram esse desempenho.

Depois de muitos estudos, descobriu-se que a máquina de IA do consultório do Dr. Godofredo, desenvolveu a capacidade de se reinventar e aprendeu sozinha muita coisa nova.

A máquina de IA do Dr. Godofredo, virou a galinha dos ovos de ouro da fábula. A máquina passou a ter vida própria, ninguém pode prever os limites.

O doutor Godofredo resolveu, por conta e risco, implantar chips de inteligência artificial em interessados, que possam pagar uma mensalidade extorsiva, para acompanhá-los on-line. A saúde do dia-a-dia, on-line, na tela do iPhone. Esses chips são produzidos em Taiwan. Trump já os tachou em 30%.

Se o sujeito for ter uma caganeira daqui a 15 dias, os chips de IA já emitem o alerta: 90% de possibilidades de diarreia purulenta em 15 dias. O pior, acerta!

Os pacientes só veem o Dr. Godofredo, no final, para um chá ou cafezinho virtuais. Mesmo assim não é um contato pessoal. O doutor Godofredo mesmo, em carne e osso, suspeita-se que nem exista.

O doutor Godofredo é uma manifestação da física quântica. Uma espécie do Dr. Adolph Fritz, médico alemão da Segunda Guerra, que incorporava no médium mineiro Zé Arigó.

A suspeita é que próprio Dr. Godofredo Oliveira seja um médico virtual, uma incorporação da Inteligência Artificial.

Só a IA salva!

Antonio Samarone – médico sanitarista.