sábado, 26 de outubro de 2024
ITABAIANA - 350 ANOS. ANTONIO SANTANA DE MENEZES
(por Antônio Samarone)
Antonio Santana foi o primeiro aluno do Murilo Braga a ingressar no curso de medicina da UFS. Formou-se na terceira turma, em 1968. Foram colegas de turma de Santana: Fedro Portugal, Eduardo Garcia, Ildete Caldas e Margarida Diniz. Depois, o Colégio Murilo Braga tornou-se um celeiro de médicos.
Antônio Santana Meneses, nasceu em Itabaiana, em 05 de agosto de 1944. Filho de Florival de Oliveira Menezes (Florival de Dario) e Dona Valdelina de Santana.
O pai era comerciário, empregado do armazém de Manoel Teles (chefe político em Itabaiana). Seu Florival morreu cedo, deixando Antônio Santana com nove anos. Santana tem 4 irmãos: Zé Torneiro, João, Maria e Nivalda.
Com a morte do pai, a vida ficou difícil para Antônio Santana. Como todo menino pobre daquele tempo, pegou carrego na feira, vendeu água em moringa, e aos dez anos, a mãe resolveu que estava na hora dele aprender um ofício. Empregou o menino na Alfaiataria de Zé Crispim (cortar ponta de linha, pregar botão, ascender o ferro em brasa). Sempre tinha o que fazer. Zé Crispim comprou uma loja de tecido, e o balconista foi Santana, aos 11 anos.
O trabalho educou e disciplinou o menino. Não o impediu de jogar bola na Praça da Feira, nem de frequentar e se sair bem na escola. Os tempos eram outros.
Antônio Santana nunca descuidou da escola. O primário começou na escola de Maria Branquinha e depois no Grupo Escolar Guilhermino Bezerra. O ginásio ele fez no grande Murilo Braga, com excelentes professores e muita organização.
As escolas públicas funcionavam muito bem. Só iam para as escolas particulares os alunos que não queriam nada. Eram escolas “papai pagou, filhinho passou”.
A dificuldade apareceu para estudar o científico, em Itabaiana não tinha. E agora, como vir para Aracaju sem ter onde ficar, sem tem como se manter. Zé Crispim, vendo aquilo, resolveu ajudá-lo. Fez contato com Valtênio Meneses, dono das lojas de tecido Maracanã, e conseguiu um emprego para Santana. Em 1960, Antônio Santana se mudou para Aracaju.
Trabalhando, pode estudar o científico, à noite, no Colégio Atheneu Sergipense, onde estudava o rico e o pobre. Foi morar numa vila de quartos, na rua Japaratuba. Santana se destacou nos estudos.
No 3º ano científico, Seu Valtênio Menezes, vendo o esforço do menino, fez uma concessão: - “você só precisa vir trabalhar depois do almoço, pela manhã fique em casa para estudar”.
Foi o suficiente! Em 1963, Antônio Santana passou no concorrido vestibular de medicina da UFS, o único pobre da turma. Só passaram 11 alunos naquele ano.
Naquele tempo eram poucos os filhos de Itabaiana que se formavam. Em medicina tivemos o filho de Manoel Teles, Dr. Airton Mendonça Teles; e agora teríamos o filho de um balconista do armazém de Manoel Teles; Antônio Santana, o primeiro Itabaianense a forma-se em medicina pela UFS.
Durante o curso, logo cedo, Antônio Santana se interessou pela psiquiatria. Aproximou-se do Dr. Hercílio Cruz, professor e dono da única clínica particular em Sergipe, o Hospital Psiquiátrico Santa Maria.
Além de Hercílio, exerciam a psiquiatria em Sergipe: Garcia Moreno, Hercílio Cruz, Renato Mazze Lucas, Jorge Cabral Vieira e Eduardo Vital Santos Melo. Um grupo pequeno, todos influentes na sociedade.
Antônio Santana Meneses concluiu o curso de medicina em 20 de dezembro de 1968. Em primeiro de janeiro, já estava empregado na Clínica Santa Maria. Em dezembro de 1970, casou-se com uma amiga de infância, uma ceboleira, Dona Carmen Santos Meneses.
Pouco tempo depois, deixou a Clínica do Dr. Hercílio para assumir a direção do Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, um velho depósito de pacientes. Mesmo recém-formado, o Secretário da Saúde não tinha alternativas, os psiquiatras famosos não aceitavam.
Antônio Santana encontrou o Adauto Botelho superlotado. Uma ala feminina, assistida pelo Dr. Renato Mazze Lucas; e uma ala masculina, sem assistência médica. Aos fundos, ainda existia um puxadinho, com os pacientes remanescentes da Colônia Eronides de Carvalho. O Adauto Botelho possui ainda uma ala dos “Sem Leitos” (eu alcancei), isso mesmo, os que dormiam no chão.
Entre os tratamentos dominantes no Adauto Botelho: a insulinoterapia (o paciente era induzido ao choque hipoglicêmico); o cardiozol (método químico de provocar convulsões); e o “sulfo”, (mistura de óleo de cozinha com enxofre em pó), que aplicado na bunda do suplicante, injeção intramuscular para produzir um abscesso, reduzia a agitação do infeliz. Um velho princípio hipocrático: “a dor maior, cura a dor menor”.
De moderno, o Adauto Botelho possuía o eletrochoque, aplicado em quase todo o mundo. O choque era a panaceia, servia para tudo. O Dr. Antônio Santana demorou pouco tempo nessa casa de horrores. Doentes no chão, sem assistência médica, sobrevivendo a base dos choques. Santana pediu demissão e foi embora para São Paulo.
Antônio Santana foi compor a imensa legião de médicos sergipanos migrantes para São Paulo. Da segunda metade do século XIX, até hoje. Formamos uma elite de paus-de-arara, que partiram em busca de uma vida melhor. Não ajudamos a construir São Paulo só com o trabalho braçal, com o suor; exportamos também cérebros, inteligências, pensamentos, arte e sensibilidade.
Em 1972, Antônio Santana foi morar em São Paulo. Residiu primeiro em Piracicaba. Em 1975 mudou-se para Presidente Prudente, onde foi trabalhar no Hospital Psiquiátrico Bezerra de Menezes. Lá viveu, exerceu a medicina decentemente, e criou os seus filhos: Carla, oftalmologista; e Claudio, patologista.
Antônio Santana desenvolveu um trabalho voluntário de combate ao alcoolismo, na cidade de Mirante de Paranapanema, próxima a Presidente Prudente.
O itabaianense Antônio Santana Meneses, o Dr. Meneses (para os paulistas), cinquenta anos de formado, reside hoje em São Paulo (capital), e ainda exerce a psiquiatria em seu consultório.
Antônio Samarone. Secretário de Cultura.
sexta-feira, 25 de outubro de 2024
ITABAIANA - 350 ANOS. MARIA CARREIRO.
Itabaiana – 350 anos. Maria Carreiro.
(por Antônio Samarone)
Maria da Graça do Amorim (Maria Carreiro), nasceu no início do século XX, em 15 de abril de 1910, no Tanque da Caatinga, nas brenhas do Campo do Brito. Filha única de Seu Manoel carpinteiro, artesão de gamelas, e de Dona Josefa.
Maria Carreiro nunca pôs os pés numa escola, onde morava não existia. Desde menina, tomava conta do carro de boi do pai, único meio de transporte naquelas bandas. Amansava boi e montava a cavalo em pelos. Fazia de tudo no trabalho agrícola.
Já moça, foi inspecionar as arapucas que tinha armado para pegar nambu, e cruzou com Constantino, um pequeno fazendeiro de Itabaiana, com pose de rico. O estranho ficou impressionado com a beleza de Maria Carreiro. Uma Tupinambá saída da mata.
Constantino Alves do Amorim era de família remediada. Filho de Chico do Carmo, irmão de João Teixeira (pai de Oviedo Teixeira). Família importante em Itabaiana. Constantino se apaixonou por Maria Carreiro. Acertado o casamento, ela impôs uma condição: quem guia o carro de boi sou eu, você abre as cancelas.
Maria Carreiro ganhou do pai, como presente de casamento, um carro de boi. Chegando no Sítio Porto, em Itabaiana, terra do marido, ela montou uma frota. Passou a trabalhar botando areia, pedra, lenha para as padarias, tudo era transportado de carro de boi.
No primeiro calçamento de rua em Itabaiana, ela passou a trabalhar para a Prefeitura, botando areia lavada para a realização da obra. Naquele tempo não existia cimento. No povoado Matapoã, em Itabaiana, existiam diversos fornos de fabricação de cal. Todo o transporte era realizado por Maria Carreiro.
Dona Maria Carreiro era respeitada por todos. Saia comprida, pelo mocotó, casaco com 4 bolsos, alpercatas de couro, chapéu de palha, um facão de 16 polegadas na cintura e, se precisasse, tinha em casa uma espingarda de “soca tempero”. Onde chegava se impunha.
Maria Carreiro nunca teve menos de 20 bois de brocha no pasto. Quando iam envelhecendo, elas mesma amansava os novos, botava cambão nos bichinhos.
O coração era udenista, mas era amiga tanto de Dona Sinhá (esposa de Euclides Paes Mendonça); como de Dona Pequena (esposa de Manoel Teles), os dois chefes políticos da região.
Maria Carreiro teve cinco filhos. Zé, Celina, Antônio, João e Inês. Dona Celina é a mãe dos Amorins famosos (Edvan e do Senador Eduardo).
Maria Carreiro enviuvou cedo. Seu Constantino foi atravessar a BR, levando a boiada para o pasto, e foi atropelado pelos carros modernos, em 05 de abril de1977.
Dona Maria carreiro era viciada no trabalho. Com chegada da modernidade e o fim dos carros de boi, Maria Carreiro abriu um comércio na feira de Itabaiana. Vendia de tudo, menos carne, ela dizia a quem perguntasse.
Dona Maria Carreiro foi um exemplo de independência e altivez. Faleceu em 02 de julho de 1997, com mais de 80 anos, sem nenhuma doença. Morreu porque chegou a hora, de velhice, como se dizia.
Numa Terra de grandes matriarcas, Maria da Graça do Amorim foi um exemplo. Em Itabaiana, na frente de cada família tradicional, tem uma grande mulher.
Antônio Samarone. Secretário de Cultura.
quarta-feira, 23 de outubro de 2024
GENTE SERGIPANA - ANTONIO LEITE CRUZ
(por Antonio Samarone)
Antônio Leite Cruz – nasceu em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, em 15 de agosto de 1940. Os pais, Teotônio Narciso da Cruz e Lourdes Leite Cruz, são sergipanos de Carmópolis. O avô, Honorino Ferreira Leite, foi Prefeito. Antônio Cruz possui três irmãs: Carmen, Sílvia e Maria Lícia.
O Pai, oficial da aeronáutica, obrigou Antônio Cruz a levar uma juventude nômade, de cidade em cidade, acompanhando as transferências do pai. Somente em 1958, com a passagem do pai para reserva, é que Antônio Cruz se estabeleceu em Sergipe. Concluiu o científico (2º e 3º ano) no Colégio Ateneu. Foi colega de turma de João Alves Filho. Chegou e se adaptou de imediato, as suas raízes estavam aqui.
Com uma boa formação escolar, Antônio Cruz foi um dos noves alunos aprovados no primeiro vestibular de medicina em Sergipe. Isso mesmo, somente nove aprovados. Os examinadores exageram nas exigências. Durante o curso, Antônio Cruz acompanhou o Dr. Fernando Sampaio, um dos pilares da cirurgia em Sergipe. Como possuía talento para cirurgia, começou a operar logo cedo.
Em um estágio em Propriá, ainda no sexto ano, o Dr. Ciro Tavares, percebendo as habilidades de Antônio Cruz, resolveu tirar férias, deixando o plantão com o estagiário. No período, Antônio Cruz realizou 9 cesáreas, fazendo também a anestesia. Todas sem complicações. No período da Faculdade, Antônio Cruz foi professor de química do Colégio Atheneu de Sergipe.
O Dr. Antonio Leite Cruz decidiu especializar-se em cirurgia pediátrica, frequentando uma residência médica de dois anos. Primeiro no Rio, com o professor José Antônio Lopes, e depois no Hospital das Clínicas em São Paulo, no serviço do professor Virgílio Carvalho Pinto. Bem formado, talentoso, retornou à Sergipe já contratado pela Faculdade de Medicina.
Foi como professor de cirurgia que teve o seu maior destaque. Didática refinada (personalizava as coisas), conteúdo atualizado e, sobretudo, uma postura ética impecável. Foi um professor que deixou lembranças. Quando se fala no professor Antonio Cruz, seus ex alunos reagem com carinho e consideração. Suas aulas sobre equilíbrio ácido/básico e reidratação eram memoráveis. Com certeza, um dos melhores professores que passaram pela medicina da UFS.
Entre 1970/711, durante o Governo de João de Andrade Garcez, o Dr. Antônio Cruz ocupou o cargo de Secretário de Estado da Saúde. Em seu primeiro Governo (1982/86), o governador João Alves Filho criou uma Fundação Hospitalar de Sergipe, visando construir um hospital público de qualidade. Para demonstrar a opinião pública ser uma iniciativa republicana, convidou o Dr. Antônio Leite Cruz para presidi-la.
A Fundação presidida pelo Dr. Antônio Cruz realizou, na mais completa lisura, o primeiro concurso público na Saúde do Estado de Sergipe. Os servidores foram contratados em um Plano de Carreira, com isonomia entre médicos e enfermeiros. E um hospital equipado num padrão de excelência foi inaugurado. Nesse período, o Secretário de Estado da Saúde era o Dr. José Alves do Nascimento.
Em 07 de novembro de 1986, foi inaugurado o hospital João Alves Filho (HUSE), com 112 médicos, 30 enfermeiras, 96 auxiliares de enfermagem, e 200 funcionários de apoio. Contudo, o hospital, com 375 leitos, em 13 alas de internamentos, só começou a funcionar em 02 de fevereiro de 1987, já no Governo de Antonio Carlos Valadares.
No início do Governo Valadares o secretário da Saúde foi o Dr. Lauro Maia (o bom Lauro); e o presidente da Fundação Hospitalar Edney Freire Caetano. O primeiro diretor do Hospital João Alves, foi o médico Salvador Antônio de Souza Matos. No segundo Governo, João Alves extinguiu essa primeira Fundação da Saúde.
O Dr. Antônio Cruz, por onde passou no serviço público, deixou o exemplo de abnegação e decência. Na clínica privada, realizou mais de 11.700 cirurgias pediátricas, foi o primeiro cirurgião pediátrico de Sergipe. Só deixou de operar em 2015, sendo a sua última cirurgia em sua cadela de estimação. Black foi atropelada na rua, os veterinários queriam amputar a perna. Antônio Cruz disse não, deixe que eu opero. Durante a entrevista, a cadela saltitava em nosso meio.
Antônio Cruz é pai de 4 filhos, Mário Luiz, André Cruz (médico), Manuela Sobral e Suzana Sobral; e avô de três netos. Aos 78 anos, cabeça boa, domina os computadores, e vive dentro dos princípios com que guiou a sua vida, sem se afastar um milímetro. Antônio Leite Cruz, um dos grandes da medicina em Sergipe.
Hoje, 23 de outubro de 2024, foi sepultado na Colina da Saudade, em Aracaju, o grande mestre Antonio Leite Cruz,
Antonio Samarone – médico sanitarista.
terça-feira, 22 de outubro de 2024
OS CAMINHOS DA FÉ
Os Caminhos da Fé.
(por Antonio Samarone)
Convidado pelo Professor Eder, visitei uma ação cultural magnifica, na fazenda de Marcos Contador, na Malhada Veia. Uma obra faraônica. Marcos está construindo em um belíssimos vale, entre serras e lagoa, um cenário real para a encenação da Paixão de Cristo. Semelhante à Nova Jerusalém, em Pernambuco.
No cume da Serra (370 metro), será erguida um cruzeiro, com a imagem de Santa Dulce. Dizem, que de lá se avista o mar.
Marcos Contador, natural do povoado, já concedeu uma parte da fazenda aos campistas, onde está sendo construído um acampamento. Agora é esse cenário da Paixão de Cristo. Tudo, sem fins lucrativos.
Ainda perguntei: Cristo só morre uma vez por ano, no restante do tempo, como será usado esse teatro ao ar livre? Ele foi sucinto: - “fica esperando a próxima Semana Santa”. Não me conformei. Um espaço grandioso, que vai custar uma fortuna, ficar sub utilizado. Ele reforçou: - aqui é a lógica da fé!
Marcos não é um fanático que toca fogo em dinheiro. Pelo contrário, sabe ganhá-lo. Ocorre, que não adora o dinheiro. Senti ele feliz, com tantas despesas. Tudo caprichado.
Uma bela história a da Malhada Veia, um povoado centenário, com o Cajueiro, a Igreja Velha, a Cova da Onça e Zanguê formam o berço primitivo da civilização portuguesa, que se implantou em Itabaiana, no início do século XVII. O vale do Rio Jacarecica, à sombra da grande Serra.
Essa história vem de longe.
Há 28 anos, Noel Dória (70 anos), um camponês, movido pela fé, organizou uma encenação da Paixão de Cristo na Malhada Veia, que deslumbra os penitentes, pelo realismo. Sessenta pessoas simples, da região, levam muito a sério a encenação. Tudo com esforço próprio: cenário, figurino, logística, até a coroa de espinho, eles compraram.
Noel, o Cristo da encenação, é nativo da Malhada Veia, filho de Zezé Dória e Dona Jovina Parteira, parente do famoso Zé das Canas, pai do Prefeito de Frei Paulo.
Na Malhada Veia, a Paixão de Cristo encontrou um mecenas: Marcos Contador! Um irrequieto, filho de Chiquinho e Dondom, católico fervoroso, um homem guiado pela fé.
Em 2025, ano jubilar em Itabaiana, a Paixão de Cristo já será encenada no cenário novo. Certamente, ainda inconcluso. Vai assim mesmo!
Os Primos, Marcos e Noel, foram juntos visitar a Nova Jerusalém, em Pernambuco. Quem conhece o povo de Itabaiana, sabe que o novo cenário da Malhada Veia, não ficará aquém. Já encomendaram a flora da Palestina, palmeiras, oliveiras, tudo lá da Jerusalém real. Os bichos, os pássaros, até o jegue vem da Terra Santa.
Em Itabaiana, qualquer evento de causa indeterminada, a primeira suspeita é de ter sido um milagre. Por exemplo: um acidente grave onde um automóvel bate de frente com uma carreta. Perda total do automóvel. Ninguém morre! Todos afirmam, mesmo antes de qualquer apuração: só pode ter sido milagre.
Itabaiana Grande nasceu junto à igreja e o padroeiro é Santo Antonio, um demiurgo universal. Em Itabaiana, a fé é um arquétipo que domina o inconsciente coletivo. Mesmo entre os ateus. (Carl Jung).
Antonio Samarone – Secretário de Cultura.
domingo, 20 de outubro de 2024
ITABAIANA - 350 ANOS. DE ONDE VEM O OURO?
(Por Antonio Samarone)
“Inicialmente, abrangia a Vila de Itabaiana uma área de cerca de 200 léguas quadradas. Sua ocupação territorial começou logo após a fixação da colonização portuguesa em Sergipe, como resultado do êxito de Cristóvão de Barros na investida contra os íncolas da região, nos começos de 1590.” Thetis Nunes.
Comprovam essa afirmativa as sesmarias concedidas a diversos proprietários já datadas dos primeiros anos do século XVII. Lento, porém, foi o desenvolvimento da Villa, prejudicado pela passagem do holandês.
A fama de terra do ouro, sem possuir nenhuma mina, acompanha Itabaiana há muito tempo. Sempre me perguntam: de onde vem esse ouro, com preço tão baixo? Eu não sei e mesmo que soubesse não diria. Não se ensina o pulo do gato.
Os invejosos se apressam: “O ouro é falso!” Calma, existem fábricas de folheados a “ouro”, mas são vendidos como bijuteria. Também existe o ouro certificado. Puríssimo!
Sigam o fio...
Primeiro foi a Prata. Em seguida o gado. Itabaiana é um planalto cercado de serras, um curral natural. Barleus, refere-se à prosperidade que gado apresentava nas bandas de "Itapuana", como denomina ele a Itabaiana.
A agricultura que, aos poucos, vai fixando o colono à terra com as plantações de algodão, mandioca e legumes. A cana se desenvolvia nos vales férteis dos rios Sergipe e Jacarecica.
“Também vinha constituindo-se um artesanato, utilizando o algodão, do qual saiam tecidos grosseiros e redes, que vão garantir a subsistência das famílias aí residentes. Um próspero comércio, decorrente dessas fabricações, se iniciou por negociantes que percorriam os sertões da Bahia, Pernambuco e Ceará levando aqueles produtos.” Thetis Nunes.
O auge da expansão foi atingida a partir de 1870 quando a máquina, a vapor, de descaroçar algodão chegou à Itabaiana. Rapidamente, se propagou o invento, e, em 1874, o Município contava com 50 vapores, o que influenciou na vida urbana itabaianense, que se torna cidade pela Resolução 1.331 de 28 de agosto de 1888.
Coube ao genovês Francisco Borsone instalar, em 1870, a primeira máquina de descaroçar algodão a vapor, em sua fábrica, à rua do Tanque do Povo, localizada no primeiro quarteirão da cidade. Nos fins do século XIX, já a população do município alcançava 27.000 habitantes.
Começa a destacar-se nessa época, a partir da instalação de um descaroçador de algodão, uma povoação situada em pleno centro das "matas" de Itabaiana, num local conhecido como Chã de Jenipapo, que toma o nome de São Paulo (atual cidade de Frei Paulo). Seria a primeira porção do Município de Itabaiana a desmembrar-se, formando uma nova unidade política.
De Itabaiana se desdobraram vários Municípios: Frei Paulo, Campo do Brito, Carira, Macambira, Ribeirópolis, Pinhão, Pedra Mole, Moita Bonita, Areia Branca, ou complementando outros que se foram desmembrando dos municípios vizinhos. Ficou a antiga Vila de Itabaiana reduzida a 337 km², um quinto, aproximadamente, de sua área inicial avaliada, em 1817, pelo Ouvidor José da Matta Bacella .
Quem vai festejar os 350 anos da Freguesia é a Itabaiana Grande, a Itabaiana histórica, sendo conciso: todo o Agreste Sergipano.
Como esclarecimento: chama-se Itabaiana Grande por conta da origem, Villa de Santo e Almas de Itabaiana Grande. Grande é a denominação da Serra de Itabaiana. Aliás, sempre foi.
“Em 1871, a população de Itabaiana era estimada em 34.876 habitantes. Itabaiana possuía 16 engenhos de açúcar. No relatório do Departamento Geral de Estatísticas, foram levantados 3.282 escravos: sendo 3.212 na agricultura, 45 jornaleiros e 21 artista.” Os escravos representavam 10% da população. Neli Santos – História de Itabaiana.
Foi a cultura do algodão, na segunda metade do século XIX, que impulsionou o crescimento urbano da Villa e a sua efetivação como cidade.
“Quando ganhou foro de cidade (1888), Itabaiana já possuía um comércio permanente com lojas de fazendas, joalherias (objetos de ouro e prata estrangeiras e nacionais), fábricas de charutos e cigarros, padarias, boticas de Cosmorama, de fogos de artifício, de bebidas, oficinas de artes mecânicas e manuais.” Neli Santos.
Na relação dos 1.998 eleitores aptos a votarem, na Villa de Itabaiana, em 1873, encontravam-se um médico, um advogado, dois padres e dez ourives. O ouro vem de longe.
“Os objetos de ouro e prata são bastante relacionados nos inventários dos sitiantes, dos fazendeiros e dos proprietários. O gosto por essas coisas, explica muito bem a presença de dez ourives nas listas de qualificações dos votantes.” Neli Santos.
“Em 1868, Maria Francisca de Almeida, moradora do Sítio Flechas, deixou, entre outros bens, um crucifixo de ouro, dois cordões de ouro fino, quebrados de ouro, um anelão, um anel de pedra e um cordão de ouro e seis colheres de prata.” Neli Santos.
Voltarei ao ouro, em breve.
Antonio Samarone – Secretário da Cultura.
sábado, 19 de outubro de 2024
ITABAIANA - 350 ANOS. PADRE FRANCISCO DA SILVA LOBO.
Itabaiana – 350 anos. Padre Francisco da Silva Lobo.
(por Antonio Samarone)
Os gregos atribuíam a Apolo a invenção da música. Pitágoras estabeleceu matematicamente a relação dos sons. Os chineses criaram uma técnica musical centrada na aritmética. A música é a harmonia entre os números e o cosmo.
A música floresceu em Itabaiana a partir de 1745, com a chegada do padre e maestro Francisco da Silva Lobo. Para fortalecer os serviços religiosos, ele criou uma orquestra sacra. O padre veio com a família. Permaneceu frente a paróquia de Santo Antonio e Almas entre 1745 e 1768.
Nas palavras de Sebrão Sobrinho, Francisco da Silva Lobo foi um “sacerdote ilustre e inteligente, entusiasta e progressista, quase doutor, licenciado coimbrense [...] que se deu de coração ao progresso do curral e do redil que lhe foram confiados”.
Continua, Sebrão Sobrinho:
“O vigário Lobo, na medida de suas possibilidades, muito trabalhou por Itabaiana, havendo sido seu primeiro cronista e, naturalmente auxiliado por seus fregueses, fundou uma orquestra a fim de acompanhar os atos religiosos, datando desse tempo a arte musical em Itabaiana ou, mais precisamente, com a música sacra, a FILARMONICA em Itabaiana, sendo seu primeiro mestre ou regente o próprio vigário, substituído por seu sobrinho, o licenciado Vito Manuel de Jesus e Vasconcelos, que foi sucedido por seu neto Francisco Manuel Teixeira, que teve como substituto o Tenente Samuel Pereira de Almeida, que a dotou de pancadaria tornando-a marcial, com a denominação de – “Philarmônicca Euphrosina”, em 1879.”
“Em 1897 a “Philarmônica Euphrosina” passaria a ser chamada “Philarmônica Nossa Senhora da Conceição, já sob regência do maestro Francisco Alves Junior. No final do século XIX (o maestro foi um dos idealizadores do novo título da filarmônica).”
O estudo de João Liberato, que cobriu o período entre 1898 e 1915, mostrou forte competição entre as duas bandas existentes em Itabaiana (Filarmônicas Nossa Senhora da Conceição e Santo Antonio) e a relação dessas disputas com a situação política da região.
A atuação da filarmônica N. Sra. da Conceição, antiga orquestra sacra do padre Francisco da Silva Lobo, já não se limitava aos serviços musicais sacros. Além dos eventos religiosos, a filarmônica tocava em bailes, eventos cívicos da cidade, comemorações e protestos.
As duas bandas de músicas concentravam a principal atividade cultural da cidade, que, de localização pouco acessível à época, ficava privada de modalidades como teatros, cinemas, dentre outras.
Em Itabaiana havia dois grupos políticos, liderados por dois coronéis, que também dominavam as duas filarmônicas.
O Coronel José Sebrão de Carvalho, comandando a Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, e o grupo denominado Peba; e o Dr. Manoel Baptista Itajahy, comandando a Filarmônica Santo Antônio e o grupo denominado Cabaú.
"As bandas filarmônicas em Itabaiana tinha função análoga às bandas militares na corte luso- brasileira. Tocava em frente à residência do seu patrono político; recepcionava os convidados e a população; acompanhava as passeatas, desfiles e procissões; executava o repertório condizente com a ocasião; era um elemento essencial no estabelecimento da pompa e ordem nos rituais." - João Liberato.
Em 1913, um relato da inauguração da primeira iluminação pública de Itabaiana nos fornece mais um testemunho:
”Pelas 7 horas da noite, ao som da filarmônica Santo Antonio e presentes o representante do presidente do Estado, Dr. Nobre de Lacerda. Do da Imprensa, jornalista Costa Filho, autoridades locais e muito povo, foi inaugurada a iluminação pública, acendendo o intendente a primeira lâmpada, como é do estilo.” – João Liberato
As bandas de músicas eram elementos essenciais nos rituais políticos e religiosos em Itabaiana.
Essa atração por música na época se explica pela falta do que fazer à noite. Itabaiana não tinha energia elétrica e a música era uma forma do homem sair de sua casa para ir fazer alguma coisa lá fora, daí o número expressivo – para aquela época – de músicos.
“As filarmônicas eram solenes. Elas tinham atas, diretoria, presidência e um corpo social e diretivo grande... Fazer parte da diretoria e do corpo da filarmônica era uma coisa importante, na época era a única coisa que tinha para a pessoa participar além da igreja.” João Liberato.
Importantes comerciantes também faziam parte da Filarmônica Nossa Senhora da Conceição. Podemos citar, como alguns deles: Josias Lapa Trancoso, negociante; Antônio Lourenço Telles, negociante; Cel. Hermelino Contreiras, muito bem-sucedido na exploração de seringais no Pará, um dos quais com o nome de Itabaiana; e Antônio de Oliveira Bezerra, ourives. O Cel. Sebrão também era um importante líder comercial.
O que caracterizava a Filarmônica Nossa Senhora da Conceição era a sua inserção e adaptação a um meio social bastante heterogêneo, quase todos encontravam lugar naquela sociedade musical. Mesmo as pessoas de origem simples e pouca instrução podiam chegar a lugares importantes, como o cargo de maestro: “O maestro Antonio Silva tinha formação primária incompleta. Desde cedo ele estava costurando e cortando pano para ter um meio de vida.”
Infelizmente a Filarmônica Santo Antônio foi extinta em 1925, por motivos de desentendimentos dos gestores, apesar de na época ter sido politicamente mais bem-conceituada; e a Filarmônica N. S. da Conceição se transformou em um complexo musical.
Em pleno século XXI, a música continua a arte dominante em Itabaiana. Além da centenária Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, que vem de longe; temos a Filarmônica 28 de agosto, preste a inaugurar uma escola de sanfona; dezenas de grupos musicais, cantoras e cantores destacados, gênios que ganharam o mundo (Mestrinho) e, anualmente, um festival da canção.
Esse ano, o Festival da Canção será no dia 13 dezembro, aniversário de Luiz Gonzaga.
Itabaiana é um magnífico concerto.
Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.
quinta-feira, 17 de outubro de 2024
UMA QUESTÃO BIZANTINA
(por Antonio Samarone)
Felizmente, a história não tem donos!
Um mesmo personagem histórico, pode ser vilão ou herói, dependendo da visão de quem interpreta. Inclusive, com o tempo, se pode passar de vilão a herói e vice-versa.
Vou tentar responder à questão bizantina: quando devemos comemorar o nascimento de Itabaiana, qual a data do seu aniversário?
Oficialmente, o aniversário de Itabaiana é 28 de agosto, feriado municipal. Alguns historiadores entenderam que Itabaiana nasceu, quando foi elevada à categoria de cidade, em 28 de agosto de 1888, através da lei provincial n.º 1331.
Outros, preferem estabelecer o nascimento de Itabaiana em 1698, na data da criação da Villa de Santo Antonio e Almas, pela Coroa Portuguesa.
Quais os critérios dessas escolhas? Não sei!
A existência do Arraial de Santo Antonio e Almas é anterior a essas datas. Segundo o historiador Almeida Bispo, entre 1590 e 1623, foram doadas 18 sesmarias, no território denominado Itabaiana. Quando eles chegaram?
Em 1665, os colonos assentados em Itabaiana, criaram uma confraria: a Irmandade das Santas Almas do Purgatório, para adquirirem um terreno e instalarem a Villa. O terreno foi comprado, e o Dr. Vladimir Carvalho já publicou as escrituras.
A comunidade de Itabaiana já existia organizada, anterior as datas propostas. Porque só iriamos nascer quando reconhecida como Villa, pela Coroa Portuguesa. Dirão os positivistas: o que determina a existência de uma comunidade é um decreto real. Discordo!
Mas vamos seguir a regra.
Em 30 de outubro de 1675, o arcebispo de Salvador, Dom Gaspar Barata de Mendonça, criou uma Paróquia no Arraial de Santo Antonio e Almas de Itabaiana. Com documentos passados e encontrados nos arquivos da Bahia. Itabaiana foi a segunda Paróquia de Sergipe, sendo antecedida apenas pela Paróquia de Nossa Senhora da Vitória, em São Cristóvão.
No próximo 30 de outubro, a Paróquia de Santo Antonio e Almas de Itabaiana, com a Prefeitura Municipal, vão instalar o 7º Jubileu de Ouro da Paróquia e do município, a ser comemorado durante o ano de 2025.
Nessa data, teremos uma missa festiva, as 16 horas e um concerto com a centenária Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, as 17 horas. Não se pode ignorar um aniversário de 350 anos.
Eu sei, o Arraial de Santo Antonio e Almas já existia no Vale do Jacarecica, antes da criação da Paróquia. Arqueologicamente, a igreja velha está lá de prova. Entretanto, a primeira instituição a ser instalada, foi a Paróquia.
Tem mais:
Em 1675, com a compra do terreno pela Irmandade das Almas, a sede do Arraial saiu do Vale do Jacarecica e veio para o Tabuleiro de Aires da Rocha, onde se encontra hoje. Aliás, sabe-se que essa mudança teve o dedo de Santo Antonio, que fugia da igreja velha para o pé de quixabeira.
A bispado na Bahia, não criaria uma freguesia (paróquia), se não existisse uma comunidade assentada. A confusão é pensar que a realidade só existe, por força de éditos reais. Itabaiana fugiu a regra. A igreja antecedeu a câmara municipal.
Muitas cidades nascem em torno de uma fortaleza, porto, mercado, minas, colinas, quarteis, etc. Itabaiana nasceu em torno da Igreja de Santo Antonio e Almas.
Foi essa fé em Antonio quem nos guiou. A cidade dos milagres tem raízes profundas.
Se a escolha para o aniversário for entre a data da lei que transformou a Villa em Cidade (1888), a data do decreto real que criou a Villa (1698), ou a data da criação da Paróquia de Santo Antonio e Almas (1675), não tenho dúvidas, nascemos espiritual e culturalmente, com a igreja.
Se soubéssemos a data da chegada da primeira família portuguesa, para ocupar a sua sesmaria e plantar os primeiros pés de cebolas, essa seria a data do nascimento. Como não se sabe, vamos comemorar com a igreja, o 7º Jubileu de Ouro (350 anos).
Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.
terça-feira, 15 de outubro de 2024
GENTE SERGIPANA - ANTONIO HIGINO
Antonio Higino – Gente Sergipana.
(Por Antonio Samarone)
Deus criou o homem com o barro da Terra.
Em Itabaiana, as atividades com o barro vem de longe. No início, foram as paneleiras, depois as olarias e as cerâmicas. Hoje, é uma forte atividade econômica. São dezenas de empresas queimando o barro. Não sei quantas, mas são muitas.
A cerâmica acompanhou o homem desde a pré-história. Quando e quem começou essa arte em Itabaiana? As paneleiras são de tempos imemoriais, chegaram com os quilombolas, no atual Bairro São Cristóvão.
As olarias foram trazidas para o Lagamar, por Antonio Higino (foto), na primeira metade do século XX. Nas olarias o trabalho é artesanal: o barro é amassado, modelado e queimado por mãos humanas.
Seu Antonio Higino era um camponês da Cova da Onça. Foi visitar uma irmã (Losa), no Povoado Roque Mendes, em Riachuelo. O seu cunhado, Jaime, além de proprietário de saveiros, possuía uma olaria. Antonio Higino se interessou, e montou a primeira olaria em Itabaiana.
Roque Mendes era um povoado importante. Uma parte da produção agrícola de Itabaiana era levada em lombos de burros (tropeiros) até Roque Mendes e, de lá, embarcava em saveiros, até o Mercado Central em Aracaju. A fama de cidade celeiro vem daí.
Antonio Higino dos Santos era casado com Dona Maria Irinea de Araújo. Tiveram simplesmente 18 filhos. Eles tocavam a olaria do pai. A escola foi amassar barro a partir dos sete anos. Os filhos de Higino: Augusto (85 anos), o mais novo, Pedrinho, Bobó, Gordinho, Juca, Nascimento e Toinho montaram a indústria da cerâmica em Itabaiana.
Depois veio a família de Manezinho Massa Crua. Não sei se o nome vem da fabricação do adobe, um tijolo maior e não queimado, mais baratos, usado pelos mais pobres. Já morei em casa de adobe.
A indústria da cerâmica só chegou a Itabaiana na década de 1960.
Para variar, Seu Antonio Higino já morou no Beco Novo, próximo a Miguel Fagundes.
A olaria de Higino veio para o Batula, mais próximo da cidade, visando facilitar o transporte das telhas e tijolos. O transporte era feito de jegue, com dois pequenos caixotes. Carregavam 50 tijolos por viagem.
No caminho do Açude Velho, final da atual Rua Miguel Teixeira, tinha o Aloque, um barreiro da olaria de Antonio Higino. Eu pensava ter sido o Aloque um curtume, pelo cheiro forte que exalava. Eu tinha medo daquele banho. A gente chamava de “Zaloque”.
Seu Augusto, montou, e possui até hoje, a Cerâmica Higino, que virou uma marca famosa. Os tijolos e as telhas Higino, dominavam até o sertão da Bahia. A tecnologia mudou muito. A indústria de cerâmica em Itabaiana se modernizou.
Nesse momento, um grupo de empresários itabaianenses, liderados por César, um neto de Antonio Higino, está em uma feira tecnológica, na China. Isso mesmo, na China! A obra iniciada por Seu Antonio Higino foi longe.
Seu Augusto, o filho mais novo de Antonio Higino, é um homem culto, sem nunca tem pisado os pés numa escola. Conhece o repertório do Rei do Baião, de fio a pavio. Frequentou o Vale do Cariri e Exu, sem ser devoto do Padre Cícero. A atração era Luiz Gonzaga.
Seu Augusto, dono da Cerâmica Higino, se casou com Dona Maria Ortência Santos (81 anos), do Beco Novo. Filha Zé de Donona Peito de Flande, o primeiro motorista de caminhão de Itabaiana. Dona Ortência (com O), é uma amante da natureza. A sua casa é ornada com belas flores.
Desse casamento brotaram 9 filhos: Acácia, César, Anchiara, Carlos Alberto, Angêla, Ana Arleide, Carlinhos e Ana Lúcia. Seu Augusto tem um defeito: torce pelo Flamengo.
Seu Augusto permanece ativo e toca a Cerâmica Higino, hoje dentro da cidade, no Bairro Marianga.
As cerâmicas, as fábricas de carroceria, a produção de folheados e o comércio do ouro são originalidades de Itabaiana e contribuem para a sua potência econômica.
A Serra não possui somente um carneiro de ouro, como diz a lenda, na serra temos um redil.
A história da cerâmica em Itabaiana é tarefa para os historiadores. Apenas, quis realçar o talento empresarial de Antonio Higino, o organizador da indústria do barro em Itabaiana.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
sábado, 12 de outubro de 2024
O VELÓRIO DE JOÃO XXIII.
(por Antonio Samarone)
Fiz a primeira comunhão aos sete anos, sob a égide do Concílio de Trento. A primeira comunhão era antecedida de aulas de catecismo. Duas passagens ficaram na memória: “Foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos, ao terceiro dia, ressurgiu dos mortos” e a mais polêmica, donde há de vir julgar os vivos e os mortos.” O Juízo Final!
Acho que me assuntei como gente aos sete anos. Nunca soube os motivos, mamãe fez uma promessa de realizar a minha primeira comunhão aos sete anos. No dia exato, era uma promessa. Caiu numa segunda-feira, igreja esvaziada, dia chuvoso, mas a promessa foi cumprida.
As sete da manhã, o primogênito de Dona Lourdes e Seu Elpídio estava pronto, roupinha de anjo, uma vela comprida na mão, ansioso, na primeira fila de bancos, na matriz de Santo Antônio e Almas de Itabaiana. Foi a primeira vez que vesti uma calça comprida e calcei sapatos.
Fui empurrado para dentro da Igreja. Depois fui tirar esse retrato, nos estúdios de Joãozinho Retratista, nos fundos de uma relojoaria.
As cerimônias da igreja ainda eram em latim. O padre celebrava de costa para os fiéis e os santos faziam milagres. A cheirosa fumaça dos turíbulos é a minha melhor lembrança.
Itabaiana transpirava a contra-reforma. As resoluções do Concílio de Trento (1554 – 1563) eram fielmente apreendidas e observadas. O pecado era um peso que amedrontava. O anjo da guarda não dormia.
Tudo girava em torno da igreja católica: festas, procissões, batizados e casamentos. A missa do galo era o centro do Natal. No sábado de aleluia, rasgavam-se as coberturas roxas dos santos, um acontecimento esperado com ansiedade.
A missa do sábado de aleluia, transcorria com as luzes apagadas, no escuro. Se o padre não encontrasse uma certa passagem no missal, era o prenúncio do fim do mundo. Nunca entendi os motivos para se procurar essa passagem no escuro, nem por que, sendo tão importante, não procuravam antes e já deixavam marcado.
As modernices do Concílio Vaticano II (dezembro de 1965) só apareceram quando eu já tinha onze anos. E não pensem que chegou em Itabaiana no outro dia. Essa estória de que Deus é amor e perdoa todo mundo, demorou a entrar na cabeça do povo.
As Santas Missões apontavam a eminência do fogo eterno, e os nossos frades pregavam a paz para os justos, a misericórdia para os aflitos e o fogo eterno para os ímpios. O castigo para os maus seria severo. Era esse medo que continha o rebanho.
Em Itabaiana, a igreja católica era soberana.
Os crentes limitavam-se aos membros da igreja de Dona Eulina Nunes, poucos, mas descentes e respeitados. As religiões africanas estavam a cargo de dois ou três macumbeiros amadores de final de semana.
Os terreiros de João de Filipinho, Cidália e Hosano, onde se batia o tambor. Eu achava tudo meio misterioso. Lá em casa meu pai se pelava de medo de mãe Bilina, ialorixá do Terreiro Santa Bárbara Virgem, em Laranjeiras, onde ele vendia rede de dormir, na feira. Papai andava com os bolsos cheios de pregos, para evitar coisas feitas.
Fui guiado pelo Concílio de Trento, pelas aulas de catecismo de mamãe, filha de Maria. Aprendi a ler com os livros de cordéis de meu avô, Totonho de Bernardinho. Já cheguei na escola taludo, e não compreendi a sua serventia.
Da escola só prestava a merenda (um achocolatado quente com bolacha) e o recreio. Ler eu já sabia. Se naquele tempo já tivessem inventado o “bullying” eu tinha me lascado.
Fui aluno gratuito na escola do Padre. Fizeram essa concessão aos filhos dos sócios do “Círculo Operário”, uma organização da igreja para combater o comunismo.
A discriminação era total, até carregar água para molhar uma quadra de areia eu carreguei. Na época, eu ignorava essas discriminações, ou melhor, não percebia. Segundo um amigo psicanalista, por isso, me tornei cascudo. Feito a formão!
O Padre Everaldo (bode cheiroso), não perdia a oportunidade de passar em minha cara que eu não pagava. Pensam que tive um trauma psicológico? Porra nenhuma, passei para a ofensiva e quando tinha oportunidade mandava todos tomar no (...).
A vida não seria um passeio, fiquei sabendo muito cedo. Aprendi a entrar em bolas divididas. Eu só temia os castigos de Deus!
Rezei muito, nos últimos dias do longo padecimento do Papa João XXIII, morto em junho de 1963, com um câncer de estômago. Eu tinha nove anos, mas acompanhei como adulto.
Os sinos da Matriz de Santo Antônio e Almas tocavam sem parar, uma sinfonia fúnebre. Dia e noite. Eu morava no Beco Novo, no fundo da igreja. Achava que os sinos estavam dentro da minha casa e da minha cabeça.
Foi o meu primeiro velório, aos 9 anos, um velório Papal!
Antonio Samarone – médico sanitarista.
sexta-feira, 11 de outubro de 2024
NOSSOS BRINQUEDOS
(Por Antonio Samarone).
O futebol era uma brincadeira. Nada de “escolinhas”, preparando um futuro profissional. O nosso desejo supremo era bater bola, brincar de bola, jogar pelada, e para isso qualquer lugar servia.
A começar pelo leito da rua. Duas pedras como trave, três de cada lado e uma bola. Cada jogo era uma final de Copa do Mundo. No final, com vitória ou derrota, sobravam os dedos desmentidos, estropiados, os joelhos ralados, a constante peleja pelo gol e a vibração incontida.
À época não existia o VAR. Cada gol era uma confusão, gritos, para saber se foi gol ou foi por cima.
A grande dificuldade da brincadeira era a bola. Ninguém que eu conhecia tinha uma bola. Nossas peladas eram com bola de meia. Explico: se pegava uma meia velha, enchia-se de pano, dava-se uma arredondada e a pelota estava pronta.
Depois apareceu a bola de borracha, um inferno, pulava muito. Finalmente, veio a bola Pelé. Para nossa sorte, Rosa de Rosalvo do Cabo Quirino, criou coragem, foi ao armazém e roubou uma bola Pelé. Até hoje não sei como ele saiu sem ser visto. Foi uma festa no Beco Novo, tínhamos uma bola.
Muito tempo depois, Beijo de Seu Bebé, ganhou do irmão que morava em São Paulo, uma couraça número cinco, quase profissional. Foi a primeira e a única bola de couro em minha rua.
Tudo era difícil.
A bola oficial daquele tempo era uma verdadeira bucha, de couro mal curtido (sola), costurada à mão pelo velho Mestre Dé, que se batesse de jeito, era nocaute inevitável. Chamava-se “bola de boca”. Comprava-se a câmara de ar, que possuía uma válvula comprida conhecida como pito. Ao se encher a bola precisava-se acomodar o pito para dentro, e só depois é que se fechava o último nó. Exatamente na “boca” da bola.
É claro que já existiam as bolas industrializadas, mais parecidas com as atuais, conhecidas como bolas argentinas. Raras e de preço incompatível com o poder aquisitivo daquela época.
Mas voltemos as “bolas de boca”. E quando chovia? Aí, meu amigo, o couro encharcava e a quase redondinha ficava oval e pesava mais de quilo. Era costume antes das partidas passar-se sebo nas bolas, para reduzir os inconvenientes do couro ressecado, e ajudar na conservação de tão raro objeto.
Somente quem conheceu as antigas bolas de boca, as chuteiras de Joãozinho Baú e os antigos “gramados” - na verdade, malicia, barro e piçarra - será capaz de entender o antigo ditado: “futebol é prá homem”. Era mesmo!
As primeiras incorporações tecnológicas do futebol itabaianense foram o suporte, a atadura e o linimento. O primeiro era uma proteção de borracha que se usava sob o calção, com o suposto objetivo de proteger as “partes fracas” do atleta; o segundo era utilizado para enfaixarem-se os pés dos atletas; e o terceiro era uma espécie de óleo canforado que se aplicava nas pernas dos jogadores, de preferência durante um massageamento, que tornavam os membros inferiores brilhosos e escorregadios. Suponho que além de facilitar a massagem, permitia colocar em evidência a musculatura dos atletas.
O atual Bairro São Cristóvão, chamava-se na época “Cruzeiro”, “Avenida”, “Sete Casa”, era o grande celeiro do futebol itabaianense. Do time de Seu Mané Barraca saíram poucos craques.
Seu Manuel, como gostava de ser chamado, era um velho rezador, doutor em mandingas, que quebrava pedras para sobreviver e gostava de futebol.
Seu Manuel tinha um time de meninos, os “11 perigos”. Em frente à sua casa existia um bom campo de pelada, que a molecada do Beco Novo usava com frequência. Era difícil derrotar o time de seu Manuel em seus domínios, principalmente com ele apitando. O clássico das manhãs de domingo, era o time de Carlos Alberto Pinheiro (“Bem”), (onde eu jogava), contra o time de seu Manuel. Uma disputa à altura de um fla-flu, com Maracanã lotado.
Seu Manuel era de família tradicional em Itabaiana, “os Barracas”, seu Euclides, guarda-noturno e fiscal do cinema de Zeca Mesquita; seu João, sapateiro, simpatizante do comunismo, pai dos craques Cosme e Damião, que não foram mais longe no futebol porque eram muito franzinos, os dois juntos não pesavam mais de 30 quilos. O Cosme, mais magrinho, era um virtuoso com a bola nos pés. Gente respeitada.
Eu já nasci querendo ser um centro avante (center forward), e em parte conseguir. Fui titular do São Paulo de Roberto de Orece, do Bahia de Melcíades, do Santos de Avací e do Cantagalo de Chico.
Na década de 1960, o Dr. Pedro Garcia Moreno aceitou tomar conta do Itabaiana. Foi uma revolução, resolveu criar um juvenil, e entregou o comando a um disciplinador, Miguel de Rola. Com ele aprendi a chegar na hora nos compromissos.
Os meninos foram chamados para fazer um teste, sábado pela tarde, no velho Etelvino Mendonça. Era a minha chance. Como já trabalhava fichado, aos 14 anos, os treinos aos sábados seria um problema, mas dava-se um jeito.
A primeira dificuldade foi escolher a chuteira. Dr. Pedro encomendou 30 pares a Joãozinho Baú, como éramos meninos, a maior era 42. Ninguém poderia adivinhar que aos 14 anos eu já calçasse 44. E agora, a minha primeira chuteira era bem menor que o meu pé.
Acostumado a jogar descalço, a chuteira fazendo calo, os pés queimando, e sem poder perder a chance. Minha carreira futebolística não poderia ter ido longe.
Em 19 de novembro de 1969, aos 15 anos, eu estava ao pé do rádio, emocionado com Pelé, que dedicou o seu milésimo gol as crianças pobres do Brasil.
Mamãe, sentada na máquina de costura, cansada da vida, das dificuldades da pobreza, me chamou a realidade: - “vá estudar, a escola é o único caminho. Através do futebol, não é possível sair do buraco. Pelé só tem um. O funil é muito estreito.”
A escola pública, era um caminho generoso de ascensão social. Deu certo. Virei cidadão! Quando recebi o diploma de médico, mamãe sentenciou: - “você me deve muito!”
Devo!
Antonio Samarone. Médico sanitarista.