domingo, 3 de novembro de 2024

A ALCATEIA SERRANA

A alcateia serrana.
(por Antonio Samarone).

O historiador Sebrãozinho nomeia Itabaiana de “Velha Loba”, provavelmente, uma referência a Roma. Mesmo considerando o bairrismo, parece um pouco exagerado.

Por outro lado, a família Lobo, descendentes do Padre Francisco da Silva Lobo, exerceu um papel de protagonista na vida itabaianense, sobretudo, na fotografia e no ouro.

A lenda do Bezerro de Ouro, que pastava livremente nas noites de lua cheia, na Serra de Itabaiana, se traduziu na proliferação de ourives e joalheiros, desde o século XIX.

O acordo de Bretton Woods (1944), que substituiu o padrão ouro pelo dólar, teve impacto profundo em Itabaiana. O ouro estocado caiu de preço.

Sobre a fotografia, em 1871, já existia em Itabaiana a “Photo Nacional”, certamente a primeira empresa fotográfica do Estado, sob a batuta de Miguel Teixeira da Cunha (Teixeirinha), falecido em 1938, aos 90 anos.

Aqui entram os “Lobos”, no ouro e na fotografia.

Germano Teixeira Lobo (Germano Venta), o acendedor de lampiões da cidade, e Dona Maria Francisca Lobo tiveram 8 filhos: Antonio Lobo (ourives), João Lobo (Joaozinho retratista). E cinco lobas: Bambina, Eudóxia (Dóci), Dulce, Saudalina e Florípedes. Mulheres que simbolizavam a força do matriarcado itabaianense.

Bambina, que o povo chamava de Bombina, era casado com Pita da bodega (Agripino Ferreira), dono de um boteco na rua do Futuro. Eudóxia, era a esposa de Zezé da Requinta, pai dos “dócis” famosos (Tonho, Adélson, José, Paulinho). 

Pita de Bombina presenciou a passagem de Antonio Conselheiro por Itabaiana. Ele contava detalhes.


João Teixeira Lobo (Joãozinho Retratista), aprendeu a arte da fotografia com o padrinho Teixeirinha. A acervo fotográfico por eles deixados, representa uma relevante fonte historiográfica da primeira metade do século XX, em Itabaiana.

O talento fotográfico de Joãozinho Retratista foi herdado pelo neto, Eduardinho, de elevada sensibilidade para as imagens. Tenho recebido belas fotos do Aracaju, da lavra dele, possuidor de um “drone” espião.

Antonio Teixeira Lobo, casado com Josefa Andrade Lobo (Zefa Gorda), era o melhor ourives do agreste, tendo feito, por encomenda, um anel de ouro para Lampião.

Dona Zefa era descendente do centenário tronco dos ferreiros da Matapoã, do patriarca português João José de Oliveira, meu tataravô.

O Casal Tonho Lobo e Zefa Gorda tiverem cinco filhos: Marilene, Ana Angélica, Ieda, Rosangela e o famoso Djalma Lobo, um personagem que merece um verbete especifico.

Robério Santos, em seu discurso de posse na Academia Itabaianense de Letras, esclareceu as distinções entre: Antonio Teixeira Lobo, o pai de Djalma Lobo; Antonio Teixeira Lobo Sobrinho, o filho de Joãozinho Retratista; e Antonio Teixeira Lobo Filho, Lobinho, filho de Helena Andrade.

Os Lobos (e Lobas), descendentes do padre que criou uma Orquestra Sacra, em 1747, são construtores da história de Itabaiana, com destaque no ouro e na fotografia.

A bela foto é de Dona Bambina, da lavra de Joãozinho Retratista.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura.
 

sábado, 2 de novembro de 2024

FINADOS DE 2024.

Finados de 2024!
(por Antonio Samarone)

“Eu só peço a Deus/ Que a dor não me seja indiferente/ Que a morte não me encontre um dia/ Solitário sem ter feito o que eu queria.” - Leon Gieco.

“A velhice foi presente que a vida me deu”.

Nunca imaginei que chegaria aos 70 anos. Faltam apenas 2 meses. Espero que o pessoal da “autoajuda” me dê sossego. Não sou idoso, sou velho. Idoso foi Matusalém. O desapego e o fim das ambições deixam a sabedoria, a clarividência e o discernimento fluírem livremente nos velhos.

A bíblia celebra o 70 como o número da universalidade, do fim de um ciclo.

As livrarias estão abarrotadas de livros de autoajuda: lições para sermos ricos, felizes, eternos, jovens, saudáveis e realizados. Vão todos à merda! Não preciso que me digam que lado nasce o sol.

Agora entendo o conselho, que Nelson Rodrigues deu a juventude: envelheçam...

“Deixemos a outros as armas, os cavalos e as lanças, a clava e os projéteis. A outros a caça e a corrida. A autoridade natural, eis o coroamento da velhice.” – Cícero.

Eu sei, a demência é uma ameaça! Procuro exercitar a memória. Não sei se vai funcionar.

Quanto ao corpo, percebo que ele não me pertence. Não me obedece, tem os seus caprichos. A experiência alheia mostrou-me que o corpo tem um momento que desaba. Em dias, envelhecemos um século. Viramos pós! É uma certeza bíblica.

Algumas limitações naturais da velhice, são bem-vindas. Por exemplo: a surdez nos poupa dos ruídos das bobagens. O esquecimento nos liberta das lembranças das derrotas.

A vida é formada de matéria, energia e informação. As duas primeiras obedecem às leis gerais da física e da química; já a informação, a complexidade, a organização só pode ser entendida pela metafísica. Uma rede de circuitos cerebrais, produzem a consciência. As propriedades da mente pertencem ao conjunto, não existem nas partes isoladas.

As mudanças desvendadas pela física quântica, também ocorreram ao nível das macromoléculas intracelulares. Com menos divulgação. Nem a mecânica cartesiana, nem a energia vital estavam certas. A vida é mais complexa.

A ciência descobriu que as proteínas alostéricas, macromoléculas intracelulares (a hemoglobina é um exemplo) possuem informações paralelas ao código genético. Evoluíram com certa autonomia. Funcionam desobedecendo às leis gerais da química e com reduzido consumo de energia.

A medicina, por conveniência mercantil, parou na fisiologia do século XIX, de Claude Bernard.

O paradigma molecular ainda é uma miragem para a medicina. A fisiologia cerebral passou por mudanças profundas, nos últimos 30 anos. O cérebro é plástico e dinâmico. A psiquiatria limita-se a tentar regular os níveis de serotonina.

Alcancei a pós-modernidade e o fim das verdades. Isso não me afeta. O desafio é enfrentar a velhice (sobreviver). Espero que os mecanismos biológicos de controle da vida, continuem funcionando.

A velhice me deu humildade para reconhecer, que as origens do Cosmo, da Vida e da Consciência não estão ao alcance humano.

A ciência, a filosofia e a religião tentam, sem sucesso, penetrar no domínio dos mistérios. “O cérebro inventou o mundo, com diz Nicolelis, inventou inclusive o desconhecido e o metafísico.

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

FALECEU JOSÉ QUEIROZ DA COSTA!


Itabaiana – 350 anos. José Queiroz da Costa.
(por Antonio Samarone)

O desenvolvimento de Itabaiana teve a participação de Zé Queiroz.

Na década de 1960, uma nuvem de pessimismo cobriu Itabaiana: a luta política pelo controle do comércio atacadista, terminou em um banho de sangue. As paixões foram estremecidas.

A passagem de uma economia centrada na agricultura, para um polo comercial, foi traumática, seguiu o “vale tudo” da acumulação primitiva.

A cidade ganhou a fama de violenta e estava dividida pelo ódio e pelo ressentimento. Muitas famílias migraram para Aracaju. Nada unia os itabaianenses.

Um grupo, liderado por Zé Queiroz, Dr. Pedro, Mozart, Resende, Zé de Gentil, Pedro Goes, Alemãozinho, Fefi, Faustino, Tonho de Dóci, entre outros, investiram no futebol. Encontrou-se um caminho de reunificação: Somos Itabaiana, "Cidade Celeiro”, diz o hino.

Zé Queiroz liderou uma revolução cultural, através do futebol, ajudando na reunificação da sociedade civil itabaianense.

Infelizmente, a luta política continuou nos moldes coronelísticos. A modernização política, esperou pelo século XXI, com a chegada do grupo político liderado por Valmir de Francisquinho.

Em 10 de janeiro de 1960, Zé Queiroz casou-se com Maria do Carmo Monteiro, filha de Juca Monteiro, descendentes de Nicolau, um judeu russo, plantador de fumo. Carminha e Zé Queiroz tiveram seis filhos: Carmen, Zezinho, Norma, Ivan, Nana e Rui.

A partir de 1968, Queiroz passou a contribuir com a Associação Olímpica de Itabaiana, levando a conquista de vários títulos estaduais. Inclusive, o penta campeonato de 1978-1982, e um título de campeão do Nordeste, em 1971.

Queiroz realizou um sonho: a construção da Vila Olímpica, que levou o seu nome. Por tudo isso passou a ser conhecido como o “Patrono” da Associação Olímpica de Itabaiana.

José Queiroz da Costa, nasceu em 14 de julho de 1936, em Itabaiana. Filho único de Antônio Sacristão e Dona Rosinha.

Zé participou de todas as traquinagens permitidas, naquele tempo, aos meninos do interior. No futebol, foi ponta esquerda do Cantagalo. Não chegou a ser um craque. Foi um ponta arisco, como se dizia.

O avô de Zé Queiroz, José dos Santos Queiroz (Cazuza), foi Prefeito de Itabaiana entre 1926/29. Seu Cazuza, um homem de posses, foi assassinado às pauladas, em frente a sua loja de tecidos, num sábado, as 10 horas da noite, no centro de Itabaiana.

Nessa trágica noite, a Orquestra “Almas Latinas Marimbas Mexicanas”, animava um baile na Associação Atlética. Esse crime brutal nunca foi esclarecido. As fundadas suspeitas circulam a boca miúda. Todos sabem, mas ninguém comenta publicamente.

Queiroz passou pelo Grupo Escolar Guilhermino Bezerra. Fez o curso ginasial na primeira turma do Murilo Braga, sendo o orador na festa de formatura. Serviu ao Exército Brasileiro no Tiro de Guerra, em Itabaiana. Ao lado de familiares, trabalhou no comércio, na loja do avô, herdada por sua mãe, na venda de tecidos e produtos para vestuário.

Queiroz é a encarnação da alma itabaianense. Competitivo, inteligente, irônico, prático, só entra numa disputa para vencer. Se quiser responder rapidamente, qual a natureza do itabaianense, pode dizer: do jeito de Zé Queiroz.

Zé Queiroz envolveu-se muito cedo com a vida social em Itabaiana. Participou, como tesoureiro, do Centro de Ação Social Católica de Itabaiana, na paróquia de Santo Antônio e Almas, onde participou ativamente da Construção da Maternidade São José e do Colégio Dom Bosco.

Foi funcionário do Banco do Brasil (1955), em Itabaiana, depois transferido para a capital sergipana, onde completou tempo de serviço para aposentadoria.

Outra grande contribuição de Zé Queiroz: em 13 de junho de 1978, criou a Rádio Princesa da Serra, a segunda do Interior sergipano. A emissora deu voz a Itabaiana. Levou a nossa versão, a nossa narrativa e os nossos valores. Antes, a Capital falava sozinha.

A importância da Rádio Princesa da Serra para o desenvolvimento de Itabaiana, precisa ser estudada.

Queiroz foi o distribuidor exclusivo, em Sergipe, da Editora Abril, empresa que tinha como produto de livros e revistas. Tendo sido premiado como destaque na área de vendas. Foi representante do Baú da Felicidade, empresa do Grupo Sílvio Santos.

Queiroz se meteu com cinemas, chegando a controlar 15 cinemas simultaneamente, incluindo Cine Rio Branco e Cine Palace em Aracaju, Trianon em São Cristóvão, São José em Itaporanga D’Ajuda, etc.

Iniciou as atividades com o Cinema Santo Antônio, em prédio de propriedade da Paróquia de Santo e Almas de Itabaiana, localizado na Praça João Pessoa, onde hoje funciona o Supermercado Nunes Peixoto.

Posteriormente adquiriu o Cinema Popular, de Zeca Mesquita, que após fechar as portas, passou a funcionar os estúdios da Rádio Princesa da Serra FM e AM. Em Aracaju, adquiriu o Cine Aracaju, e construiu o Cinema Plaza, com 1.250 lugares.

Na política, o neto de Cazuza Queiroz, foi eleito em 1986, Deputado Federal Constituinte, com maioria dos votos dos filhos de Itabaiana. Representou o Estado de Sergipe na elaboração da nossa Constituição, promulgada em 05 de outubro de 1988.

Queiroz participou ativamente da política municipal, chegando a ser eleito em 1996, vice-prefeito.

Pela atuação na Constituinte, como destaque, além de diversos projetos sociais, recebeu o Diploma “Palavra de Honra” concedido pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar – DIAP, em defesa dos interesses dos trabalhadores, e a “Medalha do Mérito Desportivo” concedido pelo Ministério da Educação, pela atuação em defesa do esporte.

Teve vida curta na política. A sua personalidade era incompatível com as virtudes políticas: conciliações, conchavos, composições, transigências, jeitinhos e fidelidade ao grupo. Sempre foi ele, depois ele, e, finalmente ele. Queiroz era a verdade.

Entretanto, a maior contribuição de Zé Queiroz para Itabaiana foi imaterial. O seu sucesso e a sua autoestima servem de exemplo. A alma itabaianense foi reforçada: gente empreendedora, esperta no comércio, independente e cheia de ironias e narrativas. E mais, o nosso bairrismo passou a fazer sentido, se aproximou da realidade.

O Itabaianense tem orgulho até das fragilidades. Como diz Fernando Pessoa: "o rio da minha Aldeia, (jacarecica) é maior que o Tejo."

Zé Queiroz foi um intransigente. Nunca tergiversou. Nunca cedeu, com ou sem razão. "Nunca deu o braço a torcer"! Mesmo assim, foi um vitorioso. O verso de Gonzaguinha: “vence na vida quem diz sim”, não orientou Queiroz.

Ele venceu, dizendo “NÃO”. 

Faleceu hoje, 18 de novenbro de 2024, Zé Queiroz da Costa. 

Missão cumprida! 

Antonio Samarone – Secretário de Cultura.

sábado, 26 de outubro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. ANTONIO SANTANA DE MENEZES

Itabaiana – 350 anos. Dr. Antonio Santana de Menezes.
(por Antônio Samarone)

Antonio Santana foi o primeiro aluno do Murilo Braga a ingressar no curso de medicina da UFS. Formou-se na terceira turma, em 1968. Foram colegas de turma de Santana: Fedro Portugal, Eduardo Garcia, Ildete Caldas e Margarida Diniz. Depois, o Colégio Murilo Braga tornou-se um celeiro de médicos.

Antônio Santana Meneses, nasceu em Itabaiana, em 05 de agosto de 1944. Filho de Florival de Oliveira Menezes (Florival de Dario) e Dona Valdelina de Santana.

O pai era comerciário, empregado do armazém de Manoel Teles (chefe político em Itabaiana). Seu Florival morreu cedo, deixando Antônio Santana com nove anos. Santana tem 4 irmãos: Zé Torneiro, João, Maria e Nivalda.

Com a morte do pai, a vida ficou difícil para Antônio Santana. Como todo menino pobre daquele tempo, pegou carrego na feira, vendeu água em moringa, e aos dez anos, a mãe resolveu que estava na hora dele aprender um ofício. Empregou o menino na Alfaiataria de Zé Crispim (cortar ponta de linha, pregar botão, ascender o ferro em brasa). Sempre tinha o que fazer. Zé Crispim comprou uma loja de tecido, e o balconista foi Santana, aos 11 anos.

O trabalho educou e disciplinou o menino. Não o impediu de jogar bola na Praça da Feira, nem de frequentar e se sair bem na escola. Os tempos eram outros.

Antônio Santana nunca descuidou da escola. O primário começou na escola de Maria Branquinha e depois no Grupo Escolar Guilhermino Bezerra. O ginásio ele fez no grande Murilo Braga, com excelentes professores e muita organização.

As escolas públicas funcionavam muito bem. Só iam para as escolas particulares os alunos que não queriam nada. Eram escolas “papai pagou, filhinho passou”.

A dificuldade apareceu para estudar o científico, em Itabaiana não tinha. E agora, como vir para Aracaju sem ter onde ficar, sem tem como se manter. Zé Crispim, vendo aquilo, resolveu ajudá-lo. Fez contato com Valtênio Meneses, dono das lojas de tecido Maracanã, e conseguiu um emprego para Santana. Em 1960, Antônio Santana se mudou para Aracaju.

Trabalhando, pode estudar o científico, à noite, no Colégio Atheneu Sergipense, onde estudava o rico e o pobre. Foi morar numa vila de quartos, na rua Japaratuba. Santana se destacou nos estudos.

No 3º ano científico, Seu Valtênio Menezes, vendo o esforço do menino, fez uma concessão: - “você só precisa vir trabalhar depois do almoço, pela manhã fique em casa para estudar”.

Foi o suficiente! Em 1963, Antônio Santana passou no concorrido vestibular de medicina da UFS, o único pobre da turma. Só passaram 11 alunos naquele ano.

Naquele tempo eram poucos os filhos de Itabaiana que se formavam. Em medicina tivemos o filho de Manoel Teles, Dr. Airton Mendonça Teles; e agora teríamos o filho de um balconista do armazém de Manoel Teles; Antônio Santana, o primeiro Itabaianense a forma-se em medicina pela UFS.

Durante o curso, logo cedo, Antônio Santana se interessou pela psiquiatria. Aproximou-se do Dr. Hercílio Cruz, professor e dono da única clínica particular em Sergipe, o Hospital Psiquiátrico Santa Maria.

Além de Hercílio, exerciam a psiquiatria em Sergipe: Garcia Moreno, Hercílio Cruz, Renato Mazze Lucas, Jorge Cabral Vieira e Eduardo Vital Santos Melo. Um grupo pequeno, todos influentes na sociedade.

Antônio Santana Meneses concluiu o curso de medicina em 20 de dezembro de 1968. Em primeiro de janeiro, já estava empregado na Clínica Santa Maria. Em dezembro de 1970, casou-se com uma amiga de infância, uma ceboleira, Dona Carmen Santos Meneses.

Pouco tempo depois, deixou a Clínica do Dr. Hercílio para assumir a direção do Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, um velho depósito de pacientes. Mesmo recém-formado, o Secretário da Saúde não tinha alternativas, os psiquiatras famosos não aceitavam.

Antônio Santana encontrou o Adauto Botelho superlotado. Uma ala feminina, assistida pelo Dr. Renato Mazze Lucas; e uma ala masculina, sem assistência médica. Aos fundos, ainda existia um puxadinho, com os pacientes remanescentes da Colônia Eronides de Carvalho. O Adauto Botelho possui ainda uma ala dos “Sem Leitos” (eu alcancei), isso mesmo, os que dormiam no chão.

Entre os tratamentos dominantes no Adauto Botelho: a insulinoterapia (o paciente era induzido ao choque hipoglicêmico); o cardiozol (método químico de provocar convulsões); e o “sulfo”, (mistura de óleo de cozinha com enxofre em pó), que aplicado na bunda do suplicante, injeção intramuscular para produzir um abscesso, reduzia a agitação do infeliz. Um velho princípio hipocrático: “a dor maior, cura a dor menor”.

De moderno, o Adauto Botelho possuía o eletrochoque, aplicado em quase todo o mundo. O choque era a panaceia, servia para tudo. O Dr. Antônio Santana demorou pouco tempo nessa casa de horrores. Doentes no chão, sem assistência médica, sobrevivendo a base dos choques. Santana pediu demissão e foi embora para São Paulo.

Antônio Santana foi compor a imensa legião de médicos sergipanos migrantes para São Paulo. Da segunda metade do século XIX, até hoje. Formamos uma elite de paus-de-arara, que partiram em busca de uma vida melhor. Não ajudamos a construir São Paulo só com o trabalho braçal, com o suor; exportamos também cérebros, inteligências, pensamentos, arte e sensibilidade.

Em 1972, Antônio Santana foi morar em São Paulo. Residiu primeiro em Piracicaba. Em 1975 mudou-se para Presidente Prudente, onde foi trabalhar no Hospital Psiquiátrico Bezerra de Menezes. Lá viveu, exerceu a medicina decentemente, e criou os seus filhos: Carla, oftalmologista; e Claudio, patologista.

Antônio Santana desenvolveu um trabalho voluntário de combate ao alcoolismo, na cidade de Mirante de Paranapanema, próxima a Presidente Prudente.

O itabaianense Antônio Santana Meneses, o Dr. Meneses (para os paulistas), cinquenta anos de formado, reside hoje em São Paulo (capital), e ainda exerce a psiquiatria em seu consultório.

Antônio Samarone. Secretário de Cultura.
 

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

ITABAIANA - 350 ANOS. MARIA CARREIRO.


 

Itabaiana – 350 anos. Maria Carreiro. 

(por Antônio Samarone)

Maria da Graça do Amorim (Maria Carreiro), nasceu no início do século XX, em 15 de abril de 1910, no Tanque da Caatinga, nas brenhas do Campo do Brito. Filha única de Seu Manoel carpinteiro, artesão de gamelas, e de Dona Josefa.

Maria Carreiro nunca pôs os pés numa escola, onde morava não existia. Desde menina, tomava conta do carro de boi do pai, único meio de transporte naquelas bandas. Amansava boi e montava a cavalo em pelos. Fazia de tudo no trabalho agrícola.

Já moça, foi inspecionar as arapucas que tinha armado para pegar nambu, e cruzou com Constantino, um pequeno fazendeiro de Itabaiana, com pose de rico. O estranho ficou impressionado com a beleza de Maria Carreiro. Uma Tupinambá saída da mata.

Constantino Alves do Amorim era de família remediada. Filho de Chico do Carmo, irmão de João Teixeira (pai de Oviedo Teixeira). Família importante em Itabaiana. Constantino se apaixonou por Maria Carreiro. Acertado o casamento, ela impôs uma condição: quem guia o carro de boi sou eu, você abre as cancelas.

Maria Carreiro ganhou do pai, como presente de casamento, um carro de boi. Chegando no Sítio Porto, em Itabaiana, terra do marido, ela montou uma frota. Passou a trabalhar botando areia, pedra, lenha para as padarias, tudo era transportado de carro de boi.

No primeiro calçamento de rua em Itabaiana, ela passou a trabalhar para a Prefeitura, botando areia lavada para a realização da obra. Naquele tempo não existia cimento. No povoado Matapoã, em Itabaiana, existiam diversos fornos de fabricação de cal. Todo o transporte era realizado por Maria Carreiro.

Dona Maria Carreiro era respeitada por todos. Saia comprida, pelo mocotó, casaco com 4 bolsos, alpercatas de couro, chapéu de palha, um facão de 16 polegadas na cintura e, se precisasse, tinha em casa uma espingarda de “soca tempero”. Onde chegava se impunha.

Maria Carreiro nunca teve menos de 20 bois de brocha no pasto. Quando iam envelhecendo, elas mesma amansava os novos, botava cambão nos bichinhos.

O coração era udenista, mas era amiga tanto de Dona Sinhá (esposa de Euclides Paes Mendonça); como de Dona Pequena (esposa de Manoel Teles), os dois chefes políticos da região.

Maria Carreiro teve cinco filhos. Zé, Celina, Antônio, João e Inês. Dona Celina é a mãe dos Amorins famosos (Edvan e do Senador Eduardo).

Maria Carreiro enviuvou cedo. Seu Constantino foi atravessar a BR, levando a boiada para o pasto, e foi atropelado pelos carros modernos, em 05 de abril de1977.

Dona Maria carreiro era viciada no trabalho. Com chegada da modernidade e o fim dos carros de boi, Maria Carreiro abriu um comércio na feira de Itabaiana. Vendia de tudo, menos carne, ela dizia a quem perguntasse.

Dona Maria Carreiro foi um exemplo de independência e altivez. Faleceu em 02 de julho de 1997, com mais de 80 anos, sem nenhuma doença. Morreu porque chegou a hora, de velhice, como se dizia.  

Numa Terra de grandes matriarcas, Maria da Graça do Amorim foi um exemplo. Em Itabaiana, na frente de cada família tradicional, tem uma grande mulher.

Antônio Samarone. Secretário de Cultura.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

GENTE SERGIPANA - ANTONIO LEITE CRUZ

Gente Sergipana - Antonio Leite Cruz.
(por Antonio Samarone)

Antônio Leite Cruz – nasceu em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, em 15 de agosto de 1940. Os pais, Teotônio Narciso da Cruz e Lourdes Leite Cruz, são sergipanos de Carmópolis. O avô, Honorino Ferreira Leite, foi Prefeito. Antônio Cruz possui três irmãs: Carmen, Sílvia e Maria Lícia.

O Pai, oficial da aeronáutica, obrigou Antônio Cruz a levar uma juventude nômade, de cidade em cidade, acompanhando as transferências do pai. Somente em 1958, com a passagem do pai para reserva, é que Antônio Cruz se estabeleceu em Sergipe. Concluiu o científico (2º e 3º ano) no Colégio Ateneu. Foi colega de turma de João Alves Filho. Chegou e se adaptou de imediato, as suas raízes estavam aqui.

Com uma boa formação escolar, Antônio Cruz foi um dos noves alunos aprovados no primeiro vestibular de medicina em Sergipe. Isso mesmo, somente nove aprovados. Os examinadores exageram nas exigências. Durante o curso, Antônio Cruz acompanhou o Dr. Fernando Sampaio, um dos pilares da cirurgia em Sergipe. Como possuía talento para cirurgia, começou a operar logo cedo.

Em um estágio em Propriá, ainda no sexto ano, o Dr. Ciro Tavares, percebendo as habilidades de Antônio Cruz, resolveu tirar férias, deixando o plantão com o estagiário. No período, Antônio Cruz realizou 9 cesáreas, fazendo também a anestesia. Todas sem complicações. No período da Faculdade, Antônio Cruz foi professor de química do Colégio Atheneu de Sergipe.

O Dr. Antonio Leite Cruz decidiu especializar-se em cirurgia pediátrica, frequentando uma residência médica de dois anos. Primeiro no Rio, com o professor José Antônio Lopes, e depois no Hospital das Clínicas em São Paulo, no serviço do professor Virgílio Carvalho Pinto. Bem formado, talentoso, retornou à Sergipe já contratado pela Faculdade de Medicina.

Foi como professor de cirurgia que teve o seu maior destaque. Didática refinada (personalizava as coisas), conteúdo atualizado e, sobretudo, uma postura ética impecável. Foi um professor que deixou lembranças. Quando se fala no professor Antonio Cruz, seus ex alunos reagem com carinho e consideração. Suas aulas sobre equilíbrio ácido/básico e reidratação eram memoráveis. Com certeza, um dos melhores professores que passaram pela medicina da UFS.

Entre 1970/711, durante o Governo de João de Andrade Garcez, o Dr. Antônio Cruz ocupou o cargo de Secretário de Estado da Saúde. Em seu primeiro Governo (1982/86), o governador João Alves Filho criou uma Fundação Hospitalar de Sergipe, visando construir um hospital público de qualidade. Para demonstrar a opinião pública ser uma iniciativa republicana, convidou o Dr. Antônio Leite Cruz para presidi-la.

A Fundação presidida pelo Dr. Antônio Cruz realizou, na mais completa lisura, o primeiro concurso público na Saúde do Estado de Sergipe. Os servidores foram contratados em um Plano de Carreira, com isonomia entre médicos e enfermeiros. E um hospital equipado num padrão de excelência foi inaugurado. Nesse período, o Secretário de Estado da Saúde era o Dr. José Alves do Nascimento.

Em 07 de novembro de 1986, foi inaugurado o hospital João Alves Filho (HUSE), com 112 médicos, 30 enfermeiras, 96 auxiliares de enfermagem, e 200 funcionários de apoio. Contudo, o hospital, com 375 leitos, em 13 alas de internamentos, só começou a funcionar em 02 de fevereiro de 1987, já no Governo de Antonio Carlos Valadares.

No início do Governo Valadares o secretário da Saúde foi o Dr. Lauro Maia (o bom Lauro); e o presidente da Fundação Hospitalar Edney Freire Caetano. O primeiro diretor do Hospital João Alves, foi o médico Salvador Antônio de Souza Matos. No segundo Governo, João Alves extinguiu essa primeira Fundação da Saúde.

O Dr. Antônio Cruz, por onde passou no serviço público, deixou o exemplo de abnegação e decência. Na clínica privada, realizou mais de 11.700 cirurgias pediátricas, foi o primeiro cirurgião pediátrico de Sergipe. Só deixou de operar em 2015, sendo a sua última cirurgia em sua cadela de estimação. Black foi atropelada na rua, os veterinários queriam amputar a perna. Antônio Cruz disse não, deixe que eu opero. Durante a entrevista, a cadela saltitava em nosso meio.

Antônio Cruz é pai de 4 filhos, Mário Luiz, André Cruz (médico), Manuela Sobral e Suzana Sobral; e avô de três netos. Aos 78 anos, cabeça boa, domina os computadores, e vive dentro dos princípios com que guiou a sua vida, sem se afastar um milímetro. Antônio Leite Cruz, um dos grandes da medicina em Sergipe.

Hoje, 23 de outubro de 2024, foi sepultado na Colina da Saudade, em Aracaju, o grande mestre Antonio Leite Cruz,

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

terça-feira, 22 de outubro de 2024

OS CAMINHOS DA FÉ


 Os Caminhos da Fé.
(por Antonio Samarone)

Convidado pelo Professor Eder, visitei uma ação cultural magnifica, na fazenda de Marcos Contador, na Malhada Veia. Uma obra faraônica. Marcos está construindo em um belíssimos vale, entre serras e lagoa, um cenário real para a encenação da Paixão de Cristo. Semelhante à Nova Jerusalém, em Pernambuco.

No cume da Serra (370 metro), será erguida um cruzeiro, com a imagem de Santa Dulce. Dizem, que de lá se avista o mar.

Marcos Contador, natural do povoado, já concedeu uma parte da fazenda aos campistas, onde está sendo construído um acampamento. Agora é esse cenário da Paixão de Cristo. Tudo, sem fins lucrativos.

Ainda perguntei: Cristo só morre uma vez por ano, no restante do tempo, como será usado esse teatro ao ar livre? Ele foi sucinto: - “fica esperando a próxima Semana Santa”. Não me conformei. Um espaço grandioso, que vai custar uma fortuna, ficar sub utilizado. Ele reforçou: - aqui é a lógica da fé!

Marcos não é um fanático que toca fogo em dinheiro. Pelo contrário, sabe ganhá-lo. Ocorre, que não adora o dinheiro. Senti ele feliz, com tantas despesas. Tudo caprichado.

Uma bela história a da Malhada Veia, um povoado centenário, com o Cajueiro, a Igreja Velha, a Cova da Onça e Zanguê formam o berço primitivo da civilização portuguesa, que se implantou em Itabaiana, no início do século XVII. O vale do Rio Jacarecica, à sombra da grande Serra.

Essa história vem de longe.

Há 28 anos, Noel Dória (70 anos), um camponês, movido pela fé, organizou uma encenação da Paixão de Cristo na Malhada Veia, que deslumbra os penitentes, pelo realismo. Sessenta pessoas simples, da região, levam muito a sério a encenação. Tudo com esforço próprio: cenário, figurino, logística, até a coroa de espinho, eles compraram.

Noel, o Cristo da encenação, é nativo da Malhada Veia, filho de Zezé Dória e Dona Jovina Parteira, parente do famoso Zé das Canas, pai do Prefeito de Frei Paulo.

Na Malhada Veia, a Paixão de Cristo encontrou um mecenas: Marcos Contador! Um irrequieto, filho de Chiquinho e Dondom, católico fervoroso, um homem guiado pela fé.

Em 2025, ano jubilar em Itabaiana, a Paixão de Cristo já será encenada no cenário novo. Certamente, ainda inconcluso. Vai assim mesmo!

Os Primos, Marcos e Noel, foram juntos visitar a Nova Jerusalém, em Pernambuco. Quem conhece o povo de Itabaiana, sabe que o novo cenário da Malhada Veia, não ficará aquém. Já encomendaram a flora da Palestina, palmeiras, oliveiras, tudo lá da Jerusalém real. Os bichos, os pássaros, até o jegue vem da Terra Santa.

Em Itabaiana, qualquer evento de causa indeterminada, a primeira suspeita é de ter sido um milagre. Por exemplo: um acidente grave onde um automóvel bate de frente com uma carreta. Perda total do automóvel. Ninguém morre! Todos afirmam, mesmo antes de qualquer apuração: só pode ter sido milagre.

Itabaiana Grande nasceu junto à igreja e o padroeiro é Santo Antonio, um demiurgo universal. Em Itabaiana, a fé é um arquétipo que domina o inconsciente coletivo. Mesmo entre os ateus. (Carl Jung).

Antonio Samarone – Secretário de Cultura.