terça-feira, 29 de setembro de 2026

A MORTE DE ÁTALO CRISPIM DE SOUZA

A morte de Átalo Crispim de Souza.
(por Antonio Samarone)

A morte de uma das maiores cultura médica de Sergipe, ensejou controvérsias, e reascendeu a pretensão da medicina oficial em intitular-se única. A herdeira da ciência, portanto, a dona da verdade sobre a saúde e a doença, a vida e a morte.

A resistência de um homeopata em manter-se fiel a sua doutrina, foi tratada como inaceitável. Uma intolerância corporativa e ideológica. Claro que ele conhecia a causa bacteriana da erisipela e a eficácia da penicilina; mas conhecia também a capacidade de resistência do organismo.

Átalo era um profundo conhecedor dos agentes infecciosos, das descobertas de Pasteur ao "Príon", proteínas com memória, que se propagam no organismo. Agente bem menores que os vírus e não contém nem DNA, nem RNA, e podem causar doenças. Os príons são partículas proteicas infecciosa. Aprendi essa novidade com ele.

Hoje se sabe que as proteínas possuem memória, coisa que Claude Bernard, que inventou a medicina experimentar e descobriu o “meio interno”, não sabia no século XIX. A bioquímica que estudei na faculdade era a tradicional, onde as químicas orgânica e inorgânica ainda obedeciam às mesmas leis.

Átalo era homeopata por convicção, mas conhecia profundamente as narrativas da chamada medicina científica. O arcabouço de sustentação das ciências do corpo é fundado num físico/química tradicional, do início do século XX. Essa química comparada com a atual é quase uma alquimia.

Átalo diagnosticava a esquizofrenia pelo olfato.

Os novos conhecimentos da física quântica e da química orgânica e suas propriedades emergentes, em decorrência dos sistemas vivos, são ainda curiosidades para alguns médicos. A multiplicidade dos exames bioquímicos, hoje solicitados, ainda obedecem a lógica da revolução cientifica do século XIX. Apenas, tentam substituir a falência da propedêutica dos sentidos.

Os tratados médicos de farmacologia, quando ainda eram lidos, eram divagações hipotéticas, sobre a farmacodinâmica e a farmacocinética das substancias químicas.

A pratica médica atual ainda é centrada no paradigma celular (Virchow – 1849). A ciência já avançou para os paradigmas moleculares e atômicos. E a medicina ficou com as suas antigas certezas. A transição da pratica médica é lenta, pois contrariaria interesses e saberes constituídos. A substituição do paradigma humoral de Hipócrates e Galeno, se arrastou por 500 anos.

O organismo de Átalo foi derrotado por uma doença aguda, a erisipela, onde possivelmente a antibioticoterapia seria eficaz. Entretanto, essa é uma certeza probabilística. As evidencias de eficácia são percentuais estatísticos.

Outras comorbidades: diabetes descontrolada, estado emocional, nível de resistência imunológica reduzido, entre outras, podem ter contribuído para o desenlace. Não estou negando, apenas relativizando as certezas médicas. O método estatístico tem as suas limitações.

Sem ir longe, as dificuldades atuais no tratamento das septicemias e infecções hospitalares são conhecidas. Um outro amigo, faleceu medicado, dentro da UTI, acompanhado por uma equipe médica que dispunha todo o arsenal da indústria farmacêutica, vítima de uma septicemia originária de uma infecção urinária.

Outras práticas médicas são vistas como obscuras e lesivas. O complexo médico industrial não aceita condutas fora do seu protocolo, mesmo comprovadamente benéficas. ]

Com a hegemonia da medicina de mercado, as necessidades milenares de uma prática voltada para os cuidados e o alivio do sofrimento humano perderam importância. A tradicional dualidade ciência/arte, se tornou coisa do passado. A medicina comercial precisa de técnicos, que realizem procedimentos lucrativos, sob o manto de uma ciência adaptada aos interesses.

A medicina é anterior ao Homo sapiens. Os antigos humanos (neandertal, erectus, denisovanos...) já eram bípedes, fabricavam utensílios, enterravam os mortos e cuidavam dos doentes).

Varias medicinas conviveram por milênios, sem exclusões, com usos distintos. Uma medicina única e oniscientes é uma pretensão ideológica. A ciência é o método, não produz verdades acríticas.

A morte de Átalo foi uma grande perda para a humanidade, os gênios são raríssimos. Mas a homeopatia contina respirando.

Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.
 

sábado, 26 de setembro de 2026

PETRÕNIO GOMES, UM CRONISTA SERGIPANO.


Petrônio Gomes, um cronista sergipano.
(por Antonio Samarone)

Já passei na vida, por muita coisa trabalhosa. Mas, nada se compara em querer disciplinar o trânsito. Uma missão quixotesca. Fui diretor da SMTT, em Aracaju. Cheio de boas intensões e muita ingenuidade, tentei reduzir a velocidade permitida. Aliás, já estabelecida no Código de Trânsito.

Hoje recebi essa crônica do sergipano Petrônio Gomes, presente de um amigo. Um mimo. Uma joia literária. No mesmo nível das crônicas do capixaba, Rubem Braga. A arte e os talentos são universais.

Vou transcrevê-la:

Devagar e sempre.

O dr. Samarone disse que vai ser assim e pronto. Não adianta possuir carrão fogoso com velocímetro de três dígitos, metido a gato mestre. A fábrica inventou motor valente porque quis, mas em Aracaju tudo fica perto. Se quiser correr, procure outra freguesia.

A galera protestou: “Como é possível sair do emprego ao meio-dia, apanhar um filho em cada colégio, passar em casa e almoçar feijão frio sem lavar o rosto, voltar para o batente em uma hora, dirigindo em passo de tartaruga”.
O superintendente respondeu que ainda está para existir uma tartaruga que consiga se locomover a sessenta quilômetros por hora, uma declaração que não ofende a lógica mais elementar.

Mas as opiniões estão divididas, não entre dias facções, e sim entre meia dúzia delas. Pelas ondas radiofônicas, a população disse o que lhe passou pela cabeça, forçando os apresentadores dos programas a soltar uma risada de vez em quando para esfriar os ânimos.

Quando liguei a televisão para assistir ao jornal vespertino, o repórter olhou para mim e ameaçou: “Você, aí, telefone agora e diga sua opinião”.

Ele achou pouco um dia inteiro com um só assunto e martelar os ouvidos da gente e resolveu continuar a briga de noite. Nem dei bolas e desliguei. Mas deixarei aqui a minha opinião sincera, esperando que a maioria dos leitores desse querido jornal não ligue muito para o que eu vou dizer.

Na verdade, dr. Samarone tem suas razões legitimas para tomar suas providências no sentido de diminuir a velocidade permitida aos veículos. Sendo médico, basta-lhe mostrar ao público as estatísticas sombrias dos acidentes automobilísticos com gente estendida no asfalto e sangue para todo o lado. E, sendo o chefe atual do órgão, cabe-lhe até o direito de mudar o assunto.

Muitos dos ouvintes também falam com razão. Sabem o que está causando toda essa confusão? É que no pacote dos que querem um pouco mais de velocidade, existem os motoristas responsáveis e irresponsáveis. Estes últimos sempre falam nos mesmos motivos que levam os primeiros a protestar, perceberam? Como separar uns dos outros no calor da discussão?

O que é fato é que Aracaju tem carros em demasia. Vejam-se as ruas principais da cidade, de uma ponta a outra, em qualquer hora do dia. Existem carros estacionados de um lado e de outro. As garagens dos prédios não comportam o número dos veículos, pois existe o do dono do apartamento, o dos filhos e, as vezes, de um criado ou vigia.

Uma pessoa ligada a engenharia de tráfego me disse um dia que ninguém poderia dirigir em nossa cidade se todos os automóveis saíssem de uma só vez. Multiplique-se o tamanho em média de cada veículo pelo número dos que existem hoje em Aracaju. Em seguida, dividam o resultado pela extensão das vias públicas. E todo mundo ficará sem sair do lugar, a bordo de um carrão parado.

Tenho pena do dr. Samarone, tenho pena dos pais que almoçam feijão frio e que voltam para o batente sem vontade de rir para o chefe. Já passei por tudo isso, e em um tempo muito mais suave, quando a gente diminuía a marcha do carro para esperar que um cachorro atravessasse a rua. Vocês dirão que esse tempo era bom demais.

Nem tanto. Havia outros problemas que nem quero dizer agora. Só em outras crônicas.

Petrônio Gomes.

Antonio Samarone (Academia Sergipana de Medicina)
 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O INSTITUTO PARREIRAS HORTA.


 O Instituto Parreiras Horta.

(por Antonio Samarone)

Na Rua Campo do Brito, ao lado do Batistão, funcionava o Instituto Parreiras Horta, o templo da Saúde Pública sergipana. Um prédio de inspiração mourisca, imitando a Fundação Manguinhos, no Rio de Janeiro.

O prédio central do IPH foi abandonado há décadas. Em dezembro de 2015, o governador anunciou a cessão de uso do Prédio, para a Academia Sergipana de Medicina, visando a instalação de um memorial da medicina em Sergipe. Promessa vai, promessa vem, e o histórico prédio público continua em “reformas.”

Qual a origem desse berço da medicina em Sergipe?

No começo do Governo Graccho, em 14 de novembro de 1922, a lei n.º 836, em seu artigo 4º, letra K, autorizou a fundação de um Instituto voltado para a Saúde Pública. Em 23 de julho de 1923, a pedra fundamental foi lançada.

O medico e cientista Paulo de Figueiredo Parreiras Horta, desembarcou em Aracaju, junto com a família, em 20 de junho de 1923, para comandar a instalação de um “Instituto Pasteur”, em Sergipe.

Aqui nascia a medicina científica em Sergipe, impulsionada pelo IPH e pelo Hospital de Cirurgia.

O projeto era construir, ao mesmo tempo, um Instituto Pasteur, voltado para o combate à raiva; um Instituto Vacinogênico, para a produção da vacina anti-varíola e um laboratório de análise clínica, bacteriológica e química; e que também funcionasse como um centro de pesquisas médicas.

Entregou a responsabilidade a um médico (clínico e dermatologista), cientista experiente, diplomado pelo Instituto Pasteur na França, o ilustre Dr. Paulo de Figueiredo Parreiras Horta.

O Instituto foi construído em tempo recorde de apenas oito meses.
Em 05 de maio de 1924, ocorreu a sua festiva inauguração.

O Governador do Estado, em seu discurso durante a inauguração do Instituto, expressou uma esperança: “Sabemos que nossa Capital é tida como uma das cidades mais infamadas, avultando-se novamente o perigo de algumas febres, dizem, de origem desconhecida pelo próprio Oswaldo Cruz, que as denominou como nossas, capitulando como exclusivamente nossos os germes de que elas se geram. Que febres serão essas, que sob o encanto destas paisagens sorridentes, encontrou o seu foco ou o seu berço?

Essa tarefa o Instituto Parreiras Horta cumpriu com competência. Não somente esclareceu a etiologia dessas febres (identificadas como tifoides), como conseguiu o isolamento dos germes e a fabricação de uma vacina oral, por meio de pequenas modificações de um método do Instituto Pasteur.

Na verdade, as febres do Aracaju eram o pesado tributo pago pela população mais pobre às péssimas condições sanitárias da Capital.

A vacina contra as febres tifoide e paratifoides, que no Brasil foi produzida pela primeira vez em Sergipe, era obtida cultivando-se várias amostras de bacilos tíficos e paratíficos “A” e “B”, em garrafas contendo ágar inclinado. No fim de 24 horas, as culturas eram retiradas da superfície do ágar e emulsionadas em água fisiológica esterilizada. Fazia-se a contagem dos germes, previamente mortos com iodo, no hematímetro de Thoma-Zeiss. A solução era diluída a 2% numa solução decinormal de iodo. Após esse processo, a vacina resultante era distribuída em ampolas de 5, 10 e 20 cm3.

A vacina era empregada via oral, 20 gotas diluídas em água, tomadas em jejum, durante três dias consecutivos. Quanto à eficácia da vacina, hoje sabemos que era quase nula, mas, à época, como houve uma importante redução na incidência das febres, por outros motivos, o sucesso foi atribuído automaticamente à vacinação em massa praticada em Sergipe.

Parreiras Hortas retornou ao Rio de Janeiro, em 08 de dezembro de 1925. O comando do IPH fica em mãos do Dr. João Firmo. Na década de 1940, o IPH passou para o comando do médico itabaianese Theotonilio Mesquita.

Na visão de Augusto Leite: “O Instituto Parreira Horta dilatou os horizontes da clínica, abrindo para Sergipe uma nova e promissora fase. É amparado no homem de laboratório que o clínico de hoje caminha."

"O cirurgião e o médico, volta e meia, lhe vão pedir orientação terapêutica, a confirmação de um prognóstico mal seguro ou a traça de uma doença que é só observação lhes não permite descobrir e autenticar."

O IPH ainda tem o seu nome vinculado a criação da primeira Faculdade de Medicina de Sergipe. Foi em suas instalações, que Silvano Izquierdo Laguna, professor da Escola de Medicina de Salamanca, ministrou a primeira aula de anatomia da Faculdade de Sergipe, em 21 de março de 1961.

Atualmente, esse relevante prédio público aguarda um destino condizente com a sua história, símbolo da introdução medicina cientifica em Sergipe. O histórico prédio do IPH, se arrasta, em uma reforma interminável.

Ontem, no tradicional almoço da SOMESE, o candidato Valmir de Francisquinho, garantiu a conclusão da obra e a imediata liberação do Prédio, para a Academia de Medicina, cumprindo uma promessa de 11 anos.

Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A ESQUINA DO SEU FLORIANO.


 A Esquina do Seu Floriano.

(por Antonio Samarone)

Na década de 1960, em Itabaiana, existia uma bodega em cada esquina. Bodega ou bar. Creio que em decorrência das mudanças econômicas da cidade. De cidade celeiro (agrícola), para polo comercial.

A bodega do Seu Floriano, chamava a atenção. Era uma bodega especializada em charutos. Localizada na esquina das ruas da Pedreira e Macambira, (atuais ruas Marechal Deodoro e Antonio Dutra).

Até o início da década de 1960, o fumo (Nicotina tabacum) era um produto apreciado por muitos, visto como um hábito saudável. Usado como rapé, mascar, fumar (cachimbos, charutos e elegantes cigarros e cigarretes).

Só os granfinos, fumavam charutos Montecristo ou Romeo y Juliueta. Zeca Mesquita, o único nobre de linhagem, em Itabaiana, só andava com ternos de linho branco, engomados, relógio de algibeira, sapato e meia e, em momentos solenes, fumando um charuto importado.

Os menos ricos, mas com pose de rico, fumavam um Suerdieck, produzidos no Recôncavo Baiano. A classe média e os funcionários do Banco do Brasil, se contentavam com um charuto Walkíria, fabricados na próspera Estância.
]
O povo atrevido, se esbaldava nos ‘mata-ratos”. Acho que Durval do Açucar, mesmo rico, traçava um bom mata-rato, pelo prazer das cusparadas. O cuspe dos mata-ratos é denso, pastoso, e contamina com o cheiro forte um raio de 2 Km.

Mamãe, descendente direta dos Tupinambás, mascava capas de fumo e usava um cachimbo de bola de barro e canudo-de-pito. Um vegetal encontrado no sertão baiano. Eu não gostava do cheiro, mas, naquele tempo, menino não apitava.

A bodega de Seu Floriano tinha um bom estoque de charutos.

Não me lembro de granfinos em Itabaiana, fumando cachimbos, a moda inglesa. Desconheço imitadores de Sherlock Holmes em minha infância. Em Aracaju, eu tenho um grande amigo, um aristocrata: Ivan do Cachimbo, que desfilava solene na Atalaia Nova.

O prestigio do fumo declinou, quando um pesquisador inglês, Richard Doll, publicou em 1950, no British Medical Journal, as evidencias que o fumo causava câncer de pulmão. A notícia se espalhou rápido. Fumar virou quase uma estupidez.

Por conta da medicina inglesa, a marinete de Seu Oviedo, que fazia linha para Aracaju, estampou no para-brisa: “É proibido fumar charutos, cachimbo e cigarros de palha”. Os cigarros da Souza-Cruz, ainda eram permitidos. O hábito de fumar foi combatido.

Com a perda de prestigio do fumo, difamado pela medicina inglesa, os consumidores dos charutos diminuíram. Para a minha tristeza a bodega do Seu Floriano, sem clientes, fechou.

Deixe-me explicar. Não fiquei triste pelo fim dos charutos.

A bodega de Seu Floriano não vendia só charutos. Foi lá, que pela primeira vez eu comi “espécia”. Um doce divino, que eu chamei de ambrosia. Talvez influenciado pela ambrosia (doce de leite, com ovos), ou pela mitologia grega, onde ambrosia era um alimento dos deuses no Olimpo.

Eu ainda não tinha lido Homero, mas lembrei-me da ambrosia.
A minha ambrosia é um doce de amendoim, que não é paçoca, popularmente chamado de “espécia” ou “espeça”, composto de amendoim torrado, pisado no pilão; com raspa de rapadura ou açúcar mascavo; canela, cravo-da-índia, noz-moscada e gengibre.

O doce é uma mistura das especiarias da Índia, com a culinária portuguesa. A “espécia” recebeu forte influência árabe.

Hoje, o doce foi muito modificado. Ando a procura da “espécia” com o sabor da primeira, da bodega do Seu Floriano. Já experimentei várias, sem sucesso. Cada doceira, inventa a sua receita.

Antonio Samarone. Academia Itabaianense de Letras.

domingo, 13 de setembro de 2026

A FOME E O MOUNJARO EM SERGIPE.

A fome e o mounjaro em Sergipe.
(por Antonio Samarone)

Adiberto Souza, advertiu em sua coluna (11/09): a fome devasta Sergipe. Fui a fonte. O IBGE divulgou em sua última pesquisa: 297 mil lares sergipanos vivem com insegurança alimentar. 199 mil em grau leve, 64 mil no moderado e 34 mil em situação grave, ou seja, são 34 mil famílias passando fome.

Segundo o IBGE, fome é a redução quantitativa de alimentos, com episódios de privação.

O jornalista Adiberto alerta, o Governo limitou-se a criar o “prato do povo”, uma sub quentinha com refresco”, uma refeição de segunda a sexta. Bastava a grana que se gasta em meia dúzia de shows, e um planejamento adequado, para um Sergipe sem fome.

Esse deve ser o compromisso de qualquer governo. Aliás, do governo e da sociedade.

Já tinha percebido, em minhas andanças eleitorais, capital e interior, que os sinais de pobreza aparente, tinham crescido em Sergipe. O IBGE aponta um indicador. A fome mostra as suas garras em Sergipe.

Sergipe apresenta uma desigualdade social inaceitável. Os militantes sociais diziam: “uma parte da sociedade não dorme por conta da fome, outra, não dorme com medo dos que tem fome.” Isso é retórica. Quem tem fome, não mete medo. Eles precisam de justiça social.

A desigualdade social se manifesta por outro caminho. Vivemos em Sergipe, a febre do mounjaro. Virou moda. Os médicos estão em festa. Muitos aplicam diretamente em seus consultórios. A indústria farmacêutica, a Eli Lilly, resolveu dividir o bolo.

Atualizando a sentença: “um parte da sociedade passa fome e outra toma mounjaro.”

O mounjaro foi autorizado pela Anvisa em 2023. Entre junho de 2025 e julho de 2026, o mounjaro movimentou 13,5 bilhões em vendas e alcançou e milhões de usuários.

Atualmente, é a droga de maior faturamento no Brasil. Sem contar com o uso de canetas de mounjaro clandestinas, que ninguém controla, nem sabe a dimensão.

O mounjaro sozinho, representa 5% de todo o faturamento do varejo farmacêutico nacional. Um medicamento recente. Onde isso vai parar?

A situação não é mais grave, pelo preço da droga. Na dose de 5 mg, a caixa custa R$ 1.779 reais, o que equivale a R$ 445 reais por caneta/aplicação.

A conversa dominante em qualquer roda de granfinos em Sergipe, versa sobre quem está usando ou não o mounjaro. O uso da caneta emagrecedora é sinal de distinção social. A tirzepatida, o princípio ativo do mounjaro, é o preferido das estrelas.

Eu sei que vai aparecer algum médico, justificando o seu uso medicamentoso. Não estou tratando da clínica médica. O tema é o uso social do mounjaro. A explosão do consumo. Sem especulação: os interessados podem ler a bula. O que a Ely Lilly informa.

Nos EUA, a droga começou a ser comercializada em 2022. Lá eles são mais sofisticados. A tirzepatida é vendida com o nome comercial de mounjaro, para diabetes; e como Zepbound, para obesidade.

A febre de consumo lá é maior: 31 milhões de americanos usam a celebre caneta. 12% dos adultos estão dependentes. Usam e depois se empanturram.

Resumindo para quem não é especialista em Saúde Pública: vimemos uma distopia alimentar. Dois problemas graves de Saúde: fome e obesidade.

Em Sergipe, o IBGE quantificou: 70 mil sergipanos passam fome (o dado do IBGE é por famílias) e outros 70 mil estão mamando mounjaro (o dado é pelo volume de vendas), entupidos de alimentos.

Bastava um acordo. Promover a educação alimentar dos 5% dependentes do mounjaro, e repassar o alimento excedente para os 5% que passam fome.

Não estou simplificando. O uso do mounjaro ficaria limitado aos que possuíssem patologias, onde o uso medicamentoso fosse hipoteticamente indicado.

Antonio Samarone – médico sanitarista.
 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

RAFAEL DOS PENICOS


 Rafael dos Penicos.

(por Antonio Samarone)

Rafael Alves de Menezes, um ceboleiro do Pé do Veado, que ainda pequeno, veio morar na localidade Bom Jardim, próximo ao Riacho da Macela Preta.

Durante a construção do Açude da Macela (1955/58), passou uma estrada em seu sítio de Rafael e ele se mudou para a Rua do Futuro, depois da bodega de Nete.

Uma referência importante, Seu Toti do mingau, que vendia bolo na esquina do armazém de Sizino, era genro de Rafael.

Rafael criou a família consertando penico e guarda-chuva, ofícios extintos pelo desenvolvimento. Ninguém mais usa penico e um guarda-chuva custa 8 reais, no comércio de Itabaiana.

Rafael foi casado com Dona Menininha e tiveram 4 filhas: Maria Conceição Lisboa (esposa de Seu Toti), Maria José, Celina e Zefinha.

O seu neto mais conhecido, Zé de Toti, mora na casa que Rafael morou em Aracaju, no Bairro Matadouro. E se esconde num sítio, na Colônia Miranda, em São Cristóvão.

Rafael era um artista popular de grande repertório. Levou o teatro de bonecos para Itabaiana. Fazia todas as vozes dos personagens. Rafael também era ventrículo.

O Beco Novo parava, durante as apresentações de Rafael dos Penicos. Eu sempre estava na plateia. Permaneço encantado com aquela arte. Quando uma neta de Rafael me mostrou um retrato antigo, depois de 60 anos, a minha memória foi taxativa: É ele...

Rafael foi um palhaço engraçadíssimo. Era falador de leilões: “entreguei, tá entregue! Música...”, celebrava casamento caipira. Nos leilões, se o dono quisesse, ele vendia até a mesa.

Rafael chamava a sua arte de presépio, e carregava tudo numa mala. O genro Zé Itabaiana, era quem carregava a mala. Em Itabaiana, teatro de bonecos ou teatro de fantoches era presépio.

Em Pernambuco o teatro de bonecos é mamulengo, babau na Paraíba, João Redondo no Rio Grande do Norte. Em Itabaiana era presépio. Entenderam a origem da palavra presepada.

Quando os tempos apertavam, Rafael virava rezador. Um curandeiro muito solicitado. Quando ia rezar para a dor de dente, ele perguntava ao paciente: se a reza é só para dor, ou queria a queda do dente. Na segunda opção, o dente caia em menos de 8 dias.

Rafael era um orador consagrado, nos comícios de Euclides. Ele chegava a falar durante 2 horas, se fosse necessário. Sempre de terno, para impor respeito. Rafael se intitulava Dr. Rafael, mesmo sendo analfabeto. Só assinava o nome. Para compensar, era de uma inteligência poderosa.

Rafael era muito querido em Itabaiana.

Uma filha de Zé Crispim, botou o nome da filha Rafaela. Na hora do batizado, o Padre deu parabéns, pelo nome: - “que bela homenagem, a Irmã Rafaela”. A mãe retrucou: - “Padre me desculpe, a homenagem é a Rafael dos Penicos”. A igreja caiu no riso.

Rafael, artista, comunicativo, engraçado, se apaixonou pela política. Era cabo eleitoral de Euclides Paes Mendonça. Daqueles apoiadores chatos, ousados e encrenqueiros.

Na eleição de Governador, em 1963, Rafael falava cobras e lagartos sobre o candidato da oposição, Seixas Dórea. Irritou tanto, que os correligionários de Seixas, prometeram, que se ganhassem, iam jogar Rafael numa coivara para ele queimar a língua. E Seixas ganhou.

Em pouco tempo, mataram Euclides Paes Mendonça. Rafael entrou em desespero. Procurou o amigo, padrinho e protetor desembargador Luiz Magalhães, que tinha sido juiz em Itabaiana e tornara-se seu amigo. Magalhaes não o abandonou. Rafael, em menos de 20 dias, se mudou para Aracaju.

Saiu de Itabaiana corrido.

Rafael continuou com as suas presepadas em Aracaju, no bairro Matadouro, onde foi morar. Ia apresentar a sua arte, onde fosse convidado.

Faleceu no final na década 1980, no Hospital Santa Isabel, aos 84 anos. Está sepultado no Cemitério São João Batista.

Rafael dos Penicos vive, na memória cultural de Itabaiana.

Antonio Samarone. Secretário Itabaianense de Cultura.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

07 DE SETEMBRO & 02 DE JULHO.


 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

GEOGRAFIA SOCIAL DE ITABAIANA - 1960


 A Geografia Social de Itabaiana (1960).

(por Antonio Samarone).

A divisão social não era a europeia (burgueses X proletários). Em Itabaiana, na década de 1960, as classes sociais tinham endereço. Primeiro, a grande divisão Rural X Urbana.

Os rurais eram subdivididos em dois grupos: os proprietários, que possuíam casa de rancho, uma moradia na cidade, para as feiras e festas religiosas; e os pataqueiros, sem-terra, que viviam de ganho, da venda do dia de serviço. Muitas vezes, apenas pela comida.

Os dois grupos eram tratados pelos urbanos, com preconceito:

Eram os tabaréus. Visíveis a olho nu. Distintos pela fala, roupas, festas, apelidos, modos de vida, escolaridade e referências culturais. Mesmo os urbanos mais miseráveis, tinham um sentimento de superioridade, não queriam ser confundidos com os tabaréus.

As classes sociais entre os urbanos, eram definidas pelo endereço:

1. nas ruas do Sol e das Flores e na Praça da igreja, moravam os comerciantes, servidores federais, clero, políticos e magistrados. Os bem nascidos, os riquinhos e fidalgos ostentavam a pose dos ricos. Possuíam um clube social, a Associação Atlética, criada pelo médico da cidade, para festa e comemorações.

2. No Beco Novo e ruas Nova e do Fato, residiam os artesões (alfaiates e sapateiros, biscateiros, camelôs, comerciários, feirantes, motoristas e o povo em geral). A zona popular tinha o Clube dos Trabalhadores, criado pelos comunistas de Aldeia.

3. Nas ruas de Maraba, Sete Casa, rua do Tanquinho, residiam os “sans-culottes”, o lúmpen, os miseráveis, os deserdados da terra. Hoje, a rua de Maraba cresceu, se expandiu até a Praça João Pereira, e passou a se chamar rua Gumercindo de Oliveira (pai de Chico do Cantagalo. A região virou o bairro Bananeira.

Segundo Almeida Bispo, a rua de Maraba ocupa geograficamente os vestígios da passagem da estrada real Salvador/Olinda. Nisso em não me meto.

No gueto da rua de Maraba, brotava cultura. Rafael, que consertava penicos e guarda-chuvas, tinha um teatro de bonecos ou mamulengo. A memória de Rafael dos Penicos está se apagando, sem deixar ao menos o sobrenome. A minha hipótese, é que Rafael foi mais um flagelado, trazido pela seca, como veremos adiante.

O que unia a todos era a escola pública e a igreja católica. O Colégio Murilo Braga e Santo Antônio. O que desunia: a política e a economia. A farda do ginásio (caqui Floriano), dava uma ilusão de igualdade.

A inteligência artificial está confusa, sobre a rua de “Maraba”. Quem foi o tal “Maraba”, que deu nome à rua e quando? Também, a IA não é obrigada a saber de tudo. Como nasceu a rua de Maraba, quem foi o Maraba, que criou esse foco de pobreza extrema em Itabaiana?

A grande seca de 1951/53, aumentou a fome no Nordeste. O Governo Federal, através do DNOCS, organizou frentes de trabalho, para construir açudes, estradas e barragens. A calamidade da seca agravou a fome. Foi em 1953, que Luiz Gonzaga e Zé Dantas, lançaram um protesto musical: As Vozes da Seca.

Relembrando parte da letra:

“Seu doutor, os nordestinos têm muita gratidão/ Pelo auxílio dos sulistas nesta seca do sertão/ Mas doutor, uma esmola a um homem que é são/ Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão.

É por isso que pedimos proteção a vosmicê/ Homem, por nós, escolhido, para as rédias o poder/ Pois doutor, dos vinte estados, temos oito sem chover/ Veja bem, mais da metade do Brasil tá sem comer.

Dê serviço a nosso povo, encha os rios e barragens/ Dê comida a preço bom, não esqueça a açudagem/ Livre assim, nós da esmola, que no fim desta estiagem/ Lhe pagamo inté os juros sem gastar nossa coragem.

E o Governo Federal abriu frentes de trabalho, recrutou os flagelados, e começaram a construir açudes. Em Sergipe, o primeiro foi o açude de Carira. O barramento do riacho Grutião. O açude foi concluído em 1955.

Euclides Paes Mendonça, usando o seu prestígio, convenceu o DNOCS a deslocar uma frente de flagelados, para construir o açude da Macela (1953 – 1957). O açude foi inaugurado em 1958.

O Dr. Mazze Lucas, em um conto – Açude, descreve essa jornada dantesca.

A maior obra pública de Itabaiana, o açude novo, foi construído com o suor dos flagelados da Seca de 1951/53. A grandeza da obra era dita com entusiasmo: “A barragem é tão grande, que por cima, passa até caminhão.”

A obra foi feita por empreitadas, diretamente, por trabalhadores avulsos, pagos por produtividade, e por pequenos feitores, chefes de turma. Aqui surge Seu Maraba.

Maraba era um flagelado empreendedor, do agreste alagoano, das proximidades da Serra da Maraba. Até hoje, ainda não se sabe o nome de batismo, mesmo ele tendo construído família em Itabaiana. Tenho notícias de dois filhos: José e Miguel. O Zé de Maraba era figura habitual nas cafuas e casas de jogatina.

Seu Maraba não foi apenas um peão de trecho, que, terminada a obra, açude da Macela, ficou em Itabaiana. Um saruabo, baixo, astuto, inteligente, um pequeno empreiteiro, que ganhou dinheiro na construção do açude de Carira.

Quando iniciou a construção do Açude da Macela (1953), Seu Maraba veio ganhar a vida em Itabaiana, como feitor, chefe de turma. Logo, construiu uma bodega, e passou a vender fiado, produtos básicos, para atender aos trabalhadores da frente, miseravelmente acampados nas proximidades.

Como ele era o feitor, era quem fazia os pagamentos. Inadimplência zero. Antes de pagar o devido, ele descontava a dívida da bodega. Simples!

O canteiro de obra do açude da macela foi descrito realisticamente, por Mazze Lucas, em seu livro de contos “Anum Preto”:

“Lá embaixo, erguendo-se preguiçosamente sobre o vale do Riacho da Macela, o paredão do açude enxameava de trabalhadores, uns afanosamente operando mangueiras d’água, outros descarregando a piçarra dos caminhões, enquanto outros ainda, espalhavam-na em camadas de um palmo de espessura.”

Na hora do almoço, descreve Mazze Lucas:

“os cossacos (trabalhadores flagelados da seca), procuravam as sombras das escassas árvores das cercanias. A maioria acocorou-se no mesmo local onde estavam. Abriram as mochilas ou latas e começaram a atirar na boca, sem perder um fragmento, a farinha de mandioca e os raros pedaços de carne seca, que as vezes conseguiram encontrar. Não lavavam as mãos nem o rosto, cobertos daquele barro amarelo com tonalidade de enxofre.”

“Quando há seca no Nordeste, o governo manda construir açudes. O interesse do flagelado seria não faltar açudes para construir, porque não lhe faltaria trabalho. O governo tinha pressa, para inaugurar a obra. Daí o trabalho ser pago na base da produção.”

Outro fato importante, sobre a seca de 1951/53. O grande José Viera Lima, chegou a Itabaiana em janeiro de 1952, vindo da empreitada de construção do açude de Cocorobó. Ele foi o principal encarregado, representando o DNOCS. Veio preparar o terreno para a construção do Açude da Macela. É notória a importância do Vieira Lima, o Barão do Beco Novo, para o desenvolvimento de Itabaiana.

Em pouco tempo, o arruado em torno da bodega de Maraba, nas proximidades do futuro açude, estava formado. Nascia a Rua de Maraba. Esses migrantes do flagelo da seca, se estabeleceram em Itabaiana. Tempos depois, foi nesse espaço que foram construídas as famosas Vilas de Zé de Melinha.

A formação étnica de Itabaiana, além dos sesmeiros portugueses, árabes e judeus, as sefarditas de Amsterdã, também recebeu quilombolas e flagelados. A minha hipótese: foi essa variedade de origens, que formou a alma itabaianense.

A seca de 1951/53, trouxe para Itabaiana os flagelados, para a construção da sua maior obra pública: o Açude da Macela. Eu sei, o Posto Agropecuário Fazenda Grande, com o seu lendário Jegue, foi importante para Itabaiana, mas não era uma obra, era um serviço.

Euclides Paes Mendoça inaugurou a obra dos flagelados da seca de 1951/53, como Açude Municipal, construído pelo DNOCS, em 1958. Sem muito foguetório. Esse aspecto nunca foi acentuado. Uma obra sem padrinhos, ao contrário do Campo de Aviação, no terrenos dos Breus.

Voltei no local, e o núcleo básico da Rua de Maraba e as vilas de Zé de Melinha, continuam intactas. A foto é prova. Mudou-se a cachaça que se tomava. Hoje, a mineirinha, uma cachaça adocicada, vendida em pequenos potes, 6 reais cada, que substituiu a casca de pau.

A urbanização do Bairro Bananeira cresceu em volta. Acho que o pequeno núcleo da Rua de Maraba deveria ser preservada, para essa história não cair no esquecimento. “A função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer.” – Peter Burke.

A Rua Gumercindo de Oliveira é um prolongamento da Rua de Maraba, até a Praça General João Pereira. Não mudou o nome da Rua de Maraba.

Encontrado quem foi Seu Maraba, continuo procurando os rastros de Rafael dos Penicos, artista popular de minha infância, que morava naquela comunidade.

Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

CARLOS ALBERTO PINHEIRO (BEM)

Carlos Alberto, um filho da Cultura.
(por Antonio Samarone)

Carlos Alberto Pinheiro (Bem), nasceu em 12/12/1955, em Itabaiana. É um filho da história, descendente de personalidades da música e da política local.

O pai de Carlos Alberto, Francisco Alves, era filho de Cazuza Queiroz, intendente de Itabaiana entre 1926/28, deixando como maior obra a construção do mercado municipal, no Largo Santo Antônio.

Seu Cazuza, foi assassinado a pauladas, em 20 de fevereiro de 1955. Eram filhas de Cazuza, Dona Rosinha, casada com Antônio Sacristão e a mãe de Zé Queiroz, e Dona Odete, casada com Erisvaldo Correia, irmão do Prefeito Jason Correia (1947/51).

A mãe de Carlos Alberto, Josefa Helena, era filha de Boanerges Pinheiro (1882 – 1967) e Maria da Conceição Carvalho (Dona Ceça). Boanerges de Almeida Pinheiro, musico, compositor e fogueteiro, era filho de Samuel Almeida.

O maestro Samuel Pereira de Almeida (1853 – 1892), foi quem transformou a Orquestra Sacra do Padre Francisco da Silva Lobo (1745), na “Philarmônicca Euphrosina”(1879), incorporando os instrumentos de percussão. Samuel foi um dos 25 fundadores do Gabinete Literário de Itabaiana (1875).

Na mitologia grega, Eufrosina era uma das três graças, ao lado Agláia e Tália.

O bisavô de Carlos Alberto, Samuel Almeida) é uma referência cultural em Itabaiana.

Seu Boanerges, o avô, ao lado de Esperidião Noronha e Othoniel Dórea, fundaram a UDN em Itabaiana (1950). Depois Euclides Paes Mendonça entrou e tomou conta.

Seu Boanerges é um patrimônio de Itabaiana. Era obrigatório a passagem de um grande cortejo, defronte a sua casa, para assistir a queima de fogos, no dia Santo Antônio.

A casa é a mesma, herdada por Carlos Alberto (Bem). A avenida leva o nome do seu morador mais importante. Boanerges Pinheiro foi o elo entre a política da República Velha (Itajahy x Sebrão), com a Política da redemocratização (Euclides x Manoel Teles).

Maria da Conceição Carvalho (Dona Ceça), a avó de Carlos Alberto, era filha do músico Francisco Alves de Carvalho Junior (irmão do Coronel Sebrão). O que transformou a Eufrosina na Filarmônica Nossa Senhora da Conceição (1897).

Seu Boanerges e Dona Ceça, tiveram 15 filhos: José, Lindaura, Josefa, José Sizino de Almeida (Prefeito de Itabaiana - 1963/67), Pedro, João, Mariquinha (mãe de Maria Vieira), Helena (mãe de Bem), Cristina (mãe do Tenente Noronha), Antônio, Samuel, Manoel (morreu carbonizado, no incêndio da fábrica de fogos do pai), Maria (mãe de Tereza Cristina), Leontina, Iaiá e Eusébio.

Como se percebe, Carlos Alberto Pinheiro (Bem), teve uma genealogia privilegiada, raízes da cultura itabaianense. Por isso, fiz essa volta, para chegar a nossa personalidade.

Carlos Alberto Pinheiro (Bem), passou a primeira infância em Itabaiana, até os 16 anos. Fez as primeiras letras, com a professora Marivalda, no final da Rua do Futuro. Estudou o primário nos Educandários Santa Terezinha e João XXIII, colégios de fama no Beco Novo. Iniciou o ginasial no Murilo Braga.

Mesmo sendo um menino filho da elite cultural de Itabaiana, Bem, quando menino, carregava lavagem de ganho e botava água num jegue, para complementar a renda familiar. A mãe, Dona Helena, era inspetora no Murilo Braga. O pai era sapateiro.

Traquino e trabalhador, Bem, contava na família, que estava tentando ser expulso do Murilo Braga. A mãe, precavida, informou a Maria Pereira, eterna diretora do Murilo. “meu filho está querendo ser expulso”.

Dona Maria Pereira, que não era só diretora, era a mãe dos alunos, tranquilizou Dona Helena: “não se preocupe, Bem pode derrubar o Murilo Braga, que mesmo assim eu não o expulso.”

A família se mudou para Aracaju. Bem concluiu o científico no Atheneu Sergipense. Trabalhou na Gráfica Nacional, do tio Samuel Almeida.

Bem, foi aluno da primeira turma de comunicação social – jornalismo, da UFS (1993). O primeiro jornalista formado, de Itabaiana. Carlos Alberto, com diploma universitário em mãos, retornou a Itabaiana.

Carlos Alberto, editou vários jornais em Itabaiana, todos quase esquecidos. O jornal Movimento, onde Baldochi publicou o seu primeiro texto; o Jornal de Itabaiana, de José Queiroz (1988/89); e o Jornal A Voz de Itabaiana (1982/96), de Chico de Miguel. Todos editados pelo jornalista Carlos Alberto.

Quem possui algum número dessas raridades jornalísticas? Dessa época, só restaram arquivos completos do Jornal o Serrano (1968/86), editado pela turma da Rua do Sol. Os arquivos são públicos e estão na Secretaria Municipal de Cultura.

Ressalvados os jornais itabaianenses, editados pelo historiador Almeida Bispo, Tribuna do Povo (1982) e o Serra-Shopping (1999), registra-se o Cebolão (1978), editado por Luciano Correia; o Progresso (1941), Vanguarda (1964).

A história do jornalismo em Itabaiana ainda é uma ilustre desconhecida.

Carlos Alberto Pinheiro ainda foi dirigente do futebol menor em Itabaiana. Foi presidente do Sergipe, local. Se não bastasse, foi o segundo time, fardado, que eu joguei. O primeiro foi o Santos do Beco Novo, de Roberto de Órece.

O Sergipe de Bem, revelou para o futebol de várzea: Romilto (Dito), Baldochi, Samarone, Negro Gato, Melchíades, Ratinho, Beto de Firmino do fosforo, os filhos de Dequinha (Welligton e Wilson), os filhos de Bebé dos passarinhos (Betinho, Jurinha e Beijo) e Coquinho de Ribeirópolis. Todos, craques das peladas de rua.

Destaco em Carlos Alberto, além da atuação no jornalismo local, o seu caráter: um homem de princípios inflexíveis. Herdou do avô, seu Boanerges.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

sábado, 29 de agosto de 2026

A ARTE DE ENVELHECER - ARS LONGA, VITA BREVIS.

A Arte de Envelhecer: “ars longa, vita brevis.”
(por Antonio Samarone)

A medicina, filosofia, antropologia, psicologia, sociologia, arte e religião tratam o envelhecimento com critérios diferentes. A Academia Sergipana de Medicina vai ouvir a palavra da ciência, de um especialista (geriatra), Dr. Antônio Claudio, sobre a “arte de envelhecer”. Suponho que arte, no sentido filosófico de sabedoria.

Só ficou de fora a religião. Não sei se o tema é mesmo a velhice, ou é uma fuga, para não se tratar diretamente da morte, um tema proibido. Ficamos dando voltas em torno da morte.

É a medicina que atesta a morte, usando critérios neurológicos. A morte encefálica. Sem o atestado de óbito, não estamos legalmente mortos. Os cemitérios negam-se aos sepultamentos.

Acho que poderíamos tratar, pelo menos, da imortalidade cósmica de Borges. Ou, quem sabe, do Deus de Spinoza.

Como o tema oficial da Academia é a “arte” de envelhecer, vamos buscar na poesia de Pessoa:

“Quando vier a primavera, / Se eu já estiver morto, / As flores florirão da mesma maneira/ E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada. / A realidade não precisa de mim.”

“Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele... Porque tudo é real e tudo está certo.”

A Academia de Medicina vai falar sobre o envelhecimento, para evitar falar da morte. Não pega bem se falar da morte. Os médicos encaram a morte como uma limitação da medicina. Ou, quem sabe, até uma falha médica.

Por que a velhice é deplorável e precisamos de sabedoria para enfrentá-la? Marcus Tullius Cícero, já ensinava uma arte de envelhecer: ela nos afasta da vida ativa; enfraquece o nosso corpo; nos privas dos melhores prazeres e nos aproxima da morte. O fio da lembrança: com a velhice, a memória declina. Os velhos lembram-se sempre daquilo que os interessas.

Não se precisa de arte para ser criança.

Sócrates e Platão tratavam a morte como separação da alma do corpo. A alma seria imortal. Epicuro, simplificava: enquanto existimos a morte está ausente, quando ela chega deixamos de existir. Por que temer o que nunca experimentaremos.

Os estoicos aceitam a morte como parte da natureza. A morte só importa, porque sabemos que vamos morrer. Aliás, esse sentimento da morte não é inato.

O Cristianismo trata a morte mantendo a continuidade das pessoas. O cristianismo preserva as pessoas, com o fenômeno da ressureição. Creio na ressureição da carne e na vida eterna. Eu espero o Juízo Final.

Jorge Luiz Borges admitia que o indivíduo morre (corpo e alma), mas os seus efeitos continuam. Ele acreditava na imortalidade cósmica. Borges não desejava a imortalidade pessoal. Continuamos nos outros.

Deus é a realidade infinita da qual tudo faz parte. Deus é a natureza. Sentimos e experimentamos que somos eternos. Esse é o Deus de Spinoza.

Spinoza, Einstein e Borges chegaram, por caminhos diferentes, a uma concepção em que o indivíduo deixa de ocupar o centro do universo. Nessas concepções, a morte é o fim do indivíduo biográfico.

A questão é a eternidade e não a imortalidade. O que há de eterno em nós pertence a ordem eterna da própria natureza, isto é, Deus.

Deus é a ordem profunda da realidade – Albert Einstein.

Mas o Dr. Antônio Claúdio, nem é filosofo, nem teólogo, vamos ouvi-lo como geriatra. Nem filosofia, nem religião, ele nos ensinará a “arte” de envelhecer pelos caminhos científicos. Procurando os atalhos. Indo pela sombra.

Eu estou velho, e até agora não tenho do que me queixar. Até já abrir mão do meu direito de furar filas, o único artigo do estatuto do idoso, que se cumpre mais ou menos.

Para Hipócrates, o envelhecimento estava associado a perda do calor vital e a uma constituição mais fria e seca. Há um aforismo que afirma que os idosos suportam melhor o jejum que os jovens...

Galeno chegou a discutir se a velhice era uma doença ou um estado natural.

Saramago, em seu clássico, “As Intermitências da Morte”, as pessoas simplesmente deixam de morrer. Envelhecem, adoecem, sofrem acidentes, mas ninguém consegue morrer. Só lendo, para saber a confusão.

A imortalidade pessoal, em vez de uma benção, torna-se uma tragédia. Mesmo assim, eu sonho morrer com a idade de Matusalém.

Que a velhice não seja medicalizada!

Antonio Samarone. Membro da Academia Sergipana de Medicina.
 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A PREFEITA EMÍLIA E A CULTURA.


 A Prefeita Emília e a Cultura.

(por Antonio Samarone)

A Prefeita anunciou a transformação do abandonado Palácio Inácio Barbosa, em Palácio Museu. No térreo, funcionará a Secretaria da Cultura e no 2º andar, o gabinete especial de despacho.

O complexo terá cine-teatro e café recreio. O projeto será do nacionalmente consagrado arquiteto, Ezio Déda. A prefeitura usará recursos próprios.

Palmas! A Prefeita Emília entra para a história da cultura em Sergipe.

As grandes obras da cultura em Sergipe foram feitas por João Alves e Marcelo Déda. O Centro de Criatividade (1985), inspiração de Luiz Antonio Barreto; e o Teatro Tobias Barreto. Déda fez os dois museus (Palácio Museu e o Museu da Gente Sergipana). Já foi muito.

A importância política da cultura em Sergipe tem oscilado. Já esteve sob o comando de gente preparada, grandes nomes: Joel Silveira, Luiz Antonio Barreto, José Carlos Teixeira, Aglaé Fontes, Amaral Cavalcante, Ofenísia Freire, Núbia Marques, Luciano Correia, Luiz Alberto e Fernando Soutelo.

Atualmente, a cultura do Aracaju está sob o comando de Paulo Correia. Um nome reconhecido pelos pares, no mundo da cultura.

Por outro lado, a cultura já foi entregue a políticos decadentes, para facilitar composições eleitoreiras. Prefiro não os citar. Foram muitos. Gente acanhada culturalmente.

O palácio Inácio Barbosa foi construído por Graccho Cardoso. Inaugurado em 1º de janeiro de 1924. O projeto foi do arquiteto italiano, Hugo Bozzi, em estilo neoclássico, refletindo a belle époque de Aracaju. Muito parecido com o Palácio do Catete. O engenheiro foi Alfredo Aranha.

O Palácio Inácio Barbosa foi tombado pelo Decreto Estadual nº 16.559, de 26 de dezembro de 1997. O processo demorou 12 anos. A má vontade com a cultura em Sergipe é endêmica.

O Prefeito Marcelo, em 2005, nos 150 do Aracaju, transferiu a sede da Prefeitura para um prédio desativado do Banco do Brasil, na Rua Acre. O principal argumento foi o preço do imóvel. Uma pechincha, diziam os petistas. Além da agressão a memória histórica, a medida acentuava o esvaziamento comercial do centro da Capital.

A partir do despejo, o palácio ficou abandonado por 21 anos. Um casarão mal assombrado, em plena deterioração. Um colega, Dr. Rômulo, o filho de Lessa, médico e filosofo, todas as vezes que me encontrava, mostrava a sua indignação com o descaso das autoridades com na memória de Sergipe.

Em 2017, o Prefeito Edvaldo Nogueira ofereceu o Palácio a UNIT (lei 4.983, de 20 de dezembro de 2017), de portas fechadas, inclusive com o patrimônio histórico. Quando o reitor da UNIT, com fama de mecenas, descobriu que teria custos para a benemérita instituição de ensino, desistiu da empreitada. A UNIT enjeitou um palácio.

Em maio de 2022, o Prefeito Edvaldo anunciou pomposamente, que o belo palácio abandonado, seria transformado em uma Pinacoteca, dedicado a produção artística sergipana. O projeto nunca saiu do papel.

Finalmente, a Prefeita Emília anunciou o fim do descaso. Deu um destino cultural, com recursos próprios, a esse patrimônio dos sergipanos.

Por justiça, sou obrigado a aplaudir a inciativa da Prefeita Emília.

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

FILARMÔNICA SANTO ANTONIO (BANDA DOS CABELUDOS)


 No início do século XX, Itabaiana possuía duas filarmônicas: a Nossa Senhora da Conceição, ligada aos Pebas, do Coronel Sebrão (pelados, ou Maria do Arroz); e a filarmônica Santo Antônio, (banda dos cabeludos), ligada aos Cabaús, de Batista Itajahy.


As duas filarmônicas vestiam a camisa política dos seus donos. Sebrão & Itajahy.

A mais famosa, a Nossa Senhora da Conceição, foi criada em 31 de outubro de 1897, pelo maestro Francisco Alves de Carvalho Junior. Ela incorporou os instrumentos, as partituras e os músicos da Filarmônica Eufrosina, de 1879, que vinha, segundo Sebrão sobrinho, da Orquestra Sacra, do padre Francisco da Silva Lobo (1745).

A Filarmônica Santo Antônio, foi criada por Batista Itajahy, em 02 de outubro de 1904. A regência foi entregue ao maestro Esperidião Noronha, primeiro e único a reger essa filarmônica. Ela funcionou até 1925. Batista Itajahy faleceu em 1918.

A Banda Santo Antônio possuía dois destaques musicais: o maestro, Esperidião Noronha e Néo Sapateiro (Manoel das Neves Barreto), um virtuose do sax soprano. Esperidião também era compositor, com três destaques: Marcha de Itabaiana, Família de Vieira e Saudade de Carlota Itajahy.

Em Itabaiana, Manoel das Neves Barreto (Néo Sapateiro), é nome de rua, no bairro Anízio Amâncio de Oliveira. Segundo o caderno de anotações de Seu Jubal, o pai de Vladimir, Néo Sapateiro faleceu em 29 de julho de 1980, no mesmo dia que faleceu Seu Bidó.

No momento (2026), Itabaiana possui duas filarmônicas: a centenária Nossa Senhora da Conceição e a noviça SOFIVA (Sociedade Filarmônica 28 e agosto), que completa 15 anos de bons serviços culturais a sociedade.

A subordinação política acabou. As duas são autônomas, voltadas exclusivamente para a música. A função do poder público é apoiar e incentivar a arte, sem interferência política. Elas cumprem papeis diferentes, não disputam o mesmo espaço.

Historicamente, a música e a fotografia foram as duas primeiros manifestações artísticas, com destaque em Itabaiana. São dessas raízes profundas, que brotaram Mestrinho e Natanzinho.

Antônio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O QUE COMEMORAMOS, EM 28 DE AGOSTO.

O que comemoramos, em 28 de agosto?
(por Antonio Samarone)

O que Itabaiana comemora nesta data? Não é o aniversário! Itabaiana vem de longe. O Arraial de Santo Antônio e Alma de Itabaiana surgiu por volta de 1609. Em 30 de outubro 1675, já éramos a Freguesia (paróquia) de Santo Antônio e Almas, a segunda de Sergipe.

A Freguesia já completou 350 anos.

Não é emancipação, autonomia. Itabaiana já era Villa desde 1697, com Câmara Municipal funcionando, ou seja, autônoma há 329 anos.

Em 28 de agosto, comemoramos a passagem de Villa a Cidade, uma emenda do deputado Guilhermino Bezerra, há 138 anos. Uma mudança cinco meses após o fim da escravidão (Itabaiana possuía 1.683 escravizados), e um anos antes do fim do Império.

À época, a oposição resistiu. O Cônego Domingos de Melo Resende, do Partido Liberal, minimizou, ironizou a iniciativa. Denunciou que a medida só beneficiaria a família de Guilhermino, suas irmãs, passariam ser professoras de cidade, melhorando os seus vencimentos.

Uma simplificação, repetida por alguns historiadores.

O velho Cônego, capelense de família fidalga, filho da Capitão Mor Manuel de Melo Resende, viveu em Itabaiana por 50 anos (1852 – 1902). Domingos de Melo Resende, constituiu um harém, deixando vários filhos, todos registrados.

Cidade é civilidade, cultura, cidadania, onde vivem os "praciantes". Villa é habitação de vilões, de artesanato ou de bodegueiros, dominada pelos tabaréus. Dizia Sebrão, sobrinho.

O Cônego Domingos de Melo Resende, pregava poeticamente: “A Villa gosta de ser Villa.”

À época da mudança (1888), viviam na zona urbana da Villa de Itabaiana, três mil habitantes. Um casario modesto, a maioria casas de rancho, com 21 sobrados de taipa. Só existiam dois prédios públicos: a sede da Câmara, num sobrado, que depois virou o bar de Papinha, e a cadeia pública, na rua do Cotovelo.

Itabaiana ainda não possuía um mercado municipal. O atual mercado é de 1926, construído pelo prefeito Cazuza Queiroz, avô de Zé Queiroz.

A feira regular aos sábados, existe desde 1827. Em documento sobre a litigância entre camponeses e curraleiros, sobre a criação de gado solto, existem referências a feira de Itabaiana.

Em 1935, o Governo Provincial procura atrair os feirantes de Itabaiana para fazer funcionar a feira de São Cristóvão. Em 1952, lei 74, Euclides Paes Mendonça, amplia da feira de Itabaiana, para as quartas-feiras.

Com a derrubada das matas para se plantar algodão, a Villa cresceu, surgiu o comércio, lojas de fazenda, joalherias e a feira passou a ser semanal.

As Praças da Igreja, Santo Antônio e Santa Cruz (rua das tendas dos ferreiros), as ruas do Sol, Flores, Vitória, Futuro, Canto Escuro, Cisco, Beco Novo e início da Rua Nova.

Itabaiana possuía muitos ourives. Desconheço as razões.

A Villa de Itabaiana era pobre, isolada, sem estradas, sem água, a vida era no campo. Os homens vinham para Villa de ceroulas, uns calções compridos de pano rústico, camisa de algodão com a frente para dentro das ceroulas e a parte de trás solta, parecendo fraque.

O último Presidente da Câmara de Vereadores da Villa foi o rico caraibeiro, Cassimiro da Silva Melo, plantador de algodão, grande proprietário de terras nos povoados Chã do Jenipapo, Caraíbas, Flechas e Saco do Ribeiro. Um nome esquecido, aguardando uma homenagem.

Foi o surto do algodão a principal causa da passagem de Itabaiana de Villa a Cidade. Foi o algodão que criou a Villa de Frei Paulo (1890), a primeira a separar-se de Itabaiana, que fortaleceu as povoações de Ribeirópolis, Pedra Mole e Pinhão, que depois se tornaram municípios autônomos.
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O algodão criou riqueza para Itabaiana, o comércio estabelecido e a feira regular. O efeito adverso, foi a redução do seu território. Vários povoados foram desmembrados e tornaram-se vilas e cidades. Praticamente todo o Agreste.

Tornar-se cidade não produziu efeitos imediatos. A cidade permaneceu com a alma de Villa. À época, o fato teve pouca relevância. Epifânio Dórea, não cita entre as efemérides do 28 de agosto, a passagem de Itabaiana a cidade. Cita a morte de Fausto Cardoso (28 de agosto de 1906) e o nascimento do itabaianense General José de Calazans.

Itabaiana foi a oitava Villa sergipana a virar cidade. O desenvolvimento só veio meio século depois, mas aí já é outra história.

Nesse período, funcionava em Itabaiana a Filarmônica Eufrosina. Em 1879, o maestro Samuel Pereira de Almeida, transformou a Orquestra Sacra do padre Francisco da Silva Lobo, em Banda Marcial, incorporando a percussão.

Itabaiana passava a ter um médico residente, o lagartense Batista Itajay. Logo cedo, Itajay se casou em primeiras núpcias, com uma itabaianense, Dona Lourdes, filha Manoel Teixeira, e virou chefe político.

Antes, residiu em Itabaiana, o Dr. Francisco Dias César, que faleceu precocemente, aos 35 anos. O doutor era natural de Itaporanga, filho do Barão de Itaporanga e Dona Ana Boena César. O médico participou ativamente da criação do clube de leituras de Itabaiana (1875). Como referência, anterior ao famoso clube de leitura de Maruim (1877).

Entre 1870 e 1880, a vida intelectual é reorganizada: em 1875, funda-se o clube de Leitura e, em 1879, Samuel Pereira de Almeida, o pai de Boanerges Pinheiro, transforma a orquestra sacra do Padre Francisco da Silva Lobo, na Filarmônica Eufrosina, que em 1897, se transforma na atual Filarmônica Nossa Senhora da Conceição.

Entre os 25 intelectuais que fundaram o Clube de Leitura, destacavam-se: Samuel Pereira, Guilhermino Bezerra e os irmãos, José Martins Fontes, juiz de direito; Antônio Cornélio da Fonseca, pai de Anibal Freire da Fonseca, ministro do STF e membro titular da Academia Brasileira de Letras.

Ao lado de Batista Itajay, o outro chefe, José Sebrão de Carvalho (Coronel Sebrão), entra na vida pública como delegado de Polícia. Nascem aí os dois grupos políticos (Peba X Cabaús), que vão dominar a vida itabaianense, até a Revolução de 1930.

O cargo de Prefeito (Intendente) foi criado com a República. A primeira eleição para Prefeito de Itabaiana ocorreu em 1892, sendo vitorioso o Capitão José Ferreira Gomes de Melo, do grupo de Itajay.

Se tornou tradição, comemora-se o 28 de agosto, como feriado em Itabaiana. Aliás, comemora-se como se fosse o aniversário da cidade. Como começou? Em 08 de março de 1954, a lei 119, considerou os dias 13 de junho (Santo Antônio) e 28 de agosto (passagem de vila a cidade), feriados municipais. A lei foi sancionada pelo prefeito em exercício, Percílio da Costa Andrade.

Essa lei de 1954, foi revogada em 05 de março de 1968, pela lei 341, durante a gestão de Vicente de Belo. O 28 de agosto deixou de ser feriado.

O feriado só retorna com a Lei Orgânica, promulgada em 03 de abril de 1990. Em seu artigo 189, comete um erro histórico: a data é considerada como a Emancipação Política de Município. Não houve nenhuma emancipação, com a Resolução Provincial nº 301, de 28 de agosto de 1888. Apenas, a Villa passou a condição de cidade. O 28 de agosto volta a ser feriado.

Esse 2026, os 137 anos serão festejados, com ampla programação cívico/religiosa. Missa de ação de graça, foguetório, girândolas e galhardetes, bandeiras hasteadas e discursos comemorativos. O auge da festa é mais uma Micarana (carnaval fora de época).

As Micaranas vêm dos antigos Micaremes (o primeiro, em abril de 1949, e o ultimo, em 1963, com a morte de Euclides Paes Mendonça). Nas micaremes de Itabaiana desfilavam os blocos: Lobos do Mar, comandado por Fefi; e Gaviões da Lua, da Rua do fato e Beco Novo, comandado pelo barbeiro João Rocha.

Micaremes (Mi-carême), na França, significa festividades realizadas no meio da quaresma. Na Bahia chama-se micareta, e em Itabaiana virou micarana. Tudo carnaval fora de época. Em Aracaju, botaram o nome de pré-caju.

Em 1994, na gestão de João de Zé de Dona, o carnaval fora de época retorna, com o nome de Micarana. A festa cresceu. Agora, em 2026, será uma das maiores. Desde 1994, a micarana sofreu várias interrupções, por motivos diversos.

Tudo acompanhado pelas Filarmônicas 28 de Outubro e Nossa Senhora da Conceição, com os seus tradicionais dobrados.

Itabaiana Grande tem muito a festejar!

Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
 

terça-feira, 25 de agosto de 2026

A SUBVERSÃO EM ITABAIANA.

A Subversão em Itabaiana.
(por Antonio Samarone)

Havia uma perplexidade sobre o “porquê” da homenagem prestada ao presidente Médici, nomeando com o seu nome o Estádio de Futebol em Itabaiana. Recentemente o estádio foi rebatizado como Etelvino Mendonça.

De onde surgiu a motivação para a homenagem ao Presidente Garrastazu?

Em novembro de 1971, o 28º Batalhão de Caçadores realizou um treinamento anti-guerrilha em Itabaiana, combinado com uma ação de presença e ações cívicos sociais.

Era o Exército buscando legitimação para o regime de exceção. A manchete do Jornal “O Serrano”, sobre o acontecimento: “Exercito Comunga com o Povo.”

O Rotary Clube de Itabaiana prestou uma homenagem especial ao Exército Nacional pelas ações de treinamento anti-guerrilha em Itabaiana, na pessoa do comandante do 28º BC, João Neiva de Mello Távora.

O comandante do 28º BC, em discurso no Rotary, justificou a escolha de Itabaiana para o local dos exercícios militares: a presença da sub estação da CHESF na cidade. Contudo, o serviço de inteligência militar apontava a presença de subversivos na cidade.

Exagero!

Itabaiana sempre foi um ninho de devotos, onde se beijava as mãos dos padres (ainda de batina); guardavam-se os domingos e dias santos, ia-se ao catecismo e rezava-se todas as noites para o anjo da guarda.

A operação ante guerrilha incluía uma ação cívico social. O exército realizou atendimento médico, odontológico e veterinário em vários povoados de Itabaiana. Observando o relatório do exército, vários serviços foram realizados, incluindo 700 cortes de cabelo. O corte preferido foi o “Príncipe Danilo”.

A ação anti-guerrilha em Itabaiana, coincidiu com a visita do Presidente Médici a Sergipe. Na ocasião, foi anunciada pelo Ministro Eliseu Resende a pavimentação asfáltica da BR – 235, no trecho Aracaju / Carira. A pavimentação foi concluída em 1973.

No mesmo mês da ação, novembro de 1971, o Presidente Garrastazu Médici Visitou Sergipe. O jornal itabaianense “O Serrano” noticiou: “A viagem do terceiro presidente revolucionário as Terras sergipanas foi coroado de pleno êxito, já que Aracaju inteira se floriu com o calor da visita presidencial.”

Continuou o Serrano: “Itabaiana cumprimentou o General Garrastazu Médici através do Deputado Pedro Garcia Moreno, que lhe ofereceu uma flâmula do Tremendão da Serra. Quebrando a rigidez do protocolo, o Deputado foi a única pessoa a se dizer torcedor do Flamengo, como Médici.”

Por que uma da ação ante guerrilha em Itabaiana? Uma cidade religiosa, apesar de ser governada pelo MDB, do Prefeito Filadelfo Araújo, um pacato alfaiate. Foi ele quem transferiu o Serviço Municipal de Água, para a DESO.

Estampou o Serrano em suas páginas: “Encerrada a semana de congraçamento Exército & Povo.” A cidade ficou literalmente ocupada, com a exposição do arsenal militar.

A ação anti-guerrilha foi real. Meia dúzia de soldados (os mais feios) fantasiados de guerrilheiros, se esconderam nos quintais e matagais do Beco Novo. A Inteligência do Exército identificou uma célula subversiva no Beco Novo. O Clube dos Trabalhadores era obra deles.

A tropa, bem armada (balas de festim), eliminou os dublês de subversivos em poucos dias. No Beco Novo, ninguém entendeu. Depois da guerra, a molecada saiu procurando as cascas das balas. Eu conseguir encontrar 7 capsula, uma em meu quintal.

A boca miúda, se comentava que a escolha de Itabaiana para uma ação anti-guerrilha, foi a ameaça de um grupo de idosos, viciados em dominó. Não é piada. Vamos aos fatos: um grupo de velhos, viciados em dominó, reunia-se diariamente na Farmácia Americana. A farmácia fechou.

Para continuarem com a jogatina, eles conseguiram as chaves do Diretório Municipal do MDB, dirigido em Itabaiana, pelo deputado Baltazar Francisco dos Santos, de Ribeirópolis. Os Velhos do Dominó criaram uma nova cafua.

Não se sabe quem levou, mas foi encontrado um panfleto com a foto de Fidel Castro entre os viciados no Dominó dos Velhos. Baltazar, para evitar complicações, retomou as chaves e acabou com o nicho de subversivos.

Esse fato, colocou o 28 BC em alerta máximo. A inteligência militar decidiu por uma ação anti-guerrilha em Itabaiana. Comunista tem astúcia do Cão, inventaram até um dominó subversivo em Itabaiana.

Antonio Samarone – Secretário Municipal de Cultura.