quinta-feira, 30 de julho de 2026
OS HOMENS SÃO ONÍVOROS
(por Antonio Samarone)
Há 500 mil anos, o homem dominou do fogo e iniciou a gastronomia. A Mesopotâmia inventou a cozinha. Itabaiana aperfeiçoou.
No próximo final de semana (02/08), Itabaiana será a capital da fé e da comilança. A tradicional peregrinação de Santa Dulce dos Pobres (a maior do Nordeste) e o Festival de Gastronomia. O festival é uma iniciativa da Prefeitura, sob o comando de Lucas Moura, Secretário da Industria, Comercio e Turismo.
Gastronomia é cultura. O que se come e a forma como se come são específicos de cada sociedade. Muitas vezes, definem as raízes de cada povo. As preferencias alimentares são transmitidas de geração em geração. Gosta-se do que se comeu na infância.
Antes de ser caminhoneiro e comerciante, o Itabaianense foi curraleiro (criou gado), plantou algodão e produziu a melhor farinha do Brasil. Onde quer que seja produzida, a marca é farinha de Itabaiana.
Comer e beber são as principais formas de se festejar. Comilança é uma festa coletiva, que os deuses gregos chamavam de banquete.
Itabaiana vai realizar uma nova “Festa de Babette”, um filme dinamarquês de 1987, onde o centro do enredo é uma grande comilança. O filme ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro.
Em Itabaiana come-se muito e bem. A obesidade média é visível. O principal prato é a carne, no café da manhã, almoço e janta. Há uma crença, que só a carne dar sustança. São as raízes dos curraleiros. Talvez Itabaiana seja a cidade onde a promessa de Lula foi cumprida. Vá no Espetinho do Patola, e como picanha à vontade, com preços populares.
Outra marca cultural da gastronomia em Itabaiana: os comensais comem fora, coletivamente, celebrando a vida. Comer junto fortalece as amizades.
A cidade possui mais de 150 restaurantes, todos cheios. As quatro grandes churrascarias na BR (Carrasco, Riacho Doce, João de Neco e Domício), oferecem 4 mil assentos, todos ocupados nos finais de semana.
Em Itabaiana não se passa fome. É fome zero! Não se nega um prato de comida. O mandamento bíblico é cumprido. “Porque tive fome, e me deste de comer; tive sede, e me deste de beber; era estrangeiro, e me acolheste.” Mateus 25:35 “Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos.” Lucas 14:13
Em minha infância, próximo ao meio-dia, os insanos lotavam a porta de Tonho de Rosária, um rico empresário da cidade. Todos comiam. Durval do Açucar distribuía “bolsa família”. Não cito os vivos, para não tirar a força da caridade.
O Chiara parece a noite paulista. Dezenas de restaurante finos, bom atendimento e boa comida. Me lembrei do Tempero do Sertão. A partir das sextas, é comum se ficar esperando vagas.
Até os Self Services são sofisticados. O restaurante “A filha de Maria Minha”, tem uma decoração com fotos antigas da cidade.
As barracas e quiosques mais simples, compensam no tempero e no preço. Existem opções para todo mundo.
O supermercado Nunes Peixoto, na Praça de Santa Cruz, possui um restaurante popular. A fila começas as 6 da manhã, na porta, antes de abrir, e só encerra as 21 horas, quando fecha. Muita gente deixou de fazer feira. É mais barato comer fora.
A iniciativa da Prefeitura em organizar um festival gastronômico atende a uma demanda. Tenho amigos em Aracaju, que aos domingos, o principal programa é ir comer em Itabaiana. Voltam de pança cheia e satisfeitos.
É o Turismo da Gulodice. A classe média do Agreste lota os restaurantes. O Festival Itabaianense de Gastronomia é uma novidade bem-vinda.
Antonio Samarone (Secretário de Cultura de Itabaiana)
quarta-feira, 29 de julho de 2026
A ERMIDA DE SANTA DULCE, AO PÉ DA SERRA.
As trilhas religiosas se espalharam em Sergipe. A devoção por Santa Dulce, em Itabaiana, escolheu um local sagrado para construir a Capela. Simples, bela, afastada da urbe, ao lado de um santuário natural, o Parque do Falcões.
O Parque é um espaço de conservação das aves de rapina, único na América Latina, inspiração de José Percílio Mendoça Costa, um homem dedicado a vida e a natureza. Um Eremita! Santa Dulce entendeu que a capela deveria ser uma Ermida. E assim foi feito. O local já era sagrado.
Venha conferir no domingo. A trilha é de 13 km, do local do primeiro milagre, ao pé da grande Serra, onde está a Ermida. A primeira graça, todos conseguem, o cansaço desaparece. No caminho, ocorre uma grande confraternização. Um espetáculo de fraternidade.
Para não assustar as pessoas de pouca fé, existe uma trilha menor, com 3 km, saindo do Rio das Pedras. Como uma atração, passa na capela de São Francisco e na chácara de Grampão, um eremita laico.
Estudos recentes, provam que as orações nessa Ermida de Santa Dulce, ao pé dessa Serra, elevam a imunidade, aliviam depressões e ansiedades, consolam os aflitos e amenizam os sofrimentos.
Quem é ateu e viu milagres como Eu...
Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes, chegou em Sergipe, em 08 de fevereiro de 1933, aos 18 anos. Aqui ela recebeu o hábito, em 13 de agosto, e entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus. Em homenagem a sua mãe, recebeu o nome de irmã Dulce.
Não é demais inferir que Maria Rita é baiana e a Irmã Dulce sergipana. Irmã Dulce permaneceu em Sergipe, por um ano e cinco meses.
O seu primeiro milagre foi em Itabaiana, na Maternidade São José. Em janeiro de 2001, Claudia Cristiane dos Santos, deu a luz ao seu segundo filho. Claudia sofreu uma intensa hemorragia pós parto. Desenganada pelos médicos, apelou para a Irmã Dulce. O milagre aconteceu.
Em 2010, o Papa Bento XVI assinou o decreto reconhecendo o milagre. Em 2011, a Irmã Dulce foi beatificada. Em 2019, o Papa Francisco canonizou a Irmã Dulce. Nesse ano, ocorreu a primeira peregrinação em Itabaiana, saindo da maternidade, onde aconteceu o milagre, até o pé da serra, onde foi construída uma ermida. Na chegada foi celebrada uma missa campal. São 13 Km.
Em 2020 e 2021, a peregrinação foi interrompida, por conta da pandemia de Covid. A partir de 2023, ela vem ocorrendo regularmente, no primeiro domingo de agosto. Itabaiana se transformou na Cidade dos Milagres de Santa Dulce dos Pobres.
A tradição católica de Itabaiana (vide IBGE), o arquétipo dos milagres de Santo Antonio (o padroeiro) e a religiosidade atávica dos itabaianenses, tornou a adoração a nova Santa uma explosão de fé. Em pouco tempo, foram criadas instituições religiosas voltadas para a caridade e orações.
As mais relevantes: a Casa de Santa Dulce dos Pobres, voltada para assistencial social; a Paroquia Santa Clara e Santa Dulce dos Pobres; a Ermida de Santa Dulce, ao pé da Serra, ao lado do Parque dos Falcões; Casa de Acolhimento Santa Dulce. Atualmente, com 97 acolhidos.
Para a maioria dos itabaianenses, cada graça alcançada é um milagre. É regra atribuir aos milagres a solução de casos tidos com insolúveis. Mesmo em pequenas ocorrências. Por exemplo: uma criança atravessa descuidada uma rua, no momento, passa um veículo em velocidade. Não acontece nada com a criança. Qual o comentário geral dos circunstantes: não morreu por milagre.
O milagre é a causa de proteção de todos as ocorrências relevantes: uma desgraça, um risco de acidente, a cura de uma doença, um desejo alcançado. É considerado milagre, tudo o que poderia ter acontecido e não ocorre, por razões desconhecidas. Não há dúvidas, houve a intercessão de uma força superior.
Esses devotos de Santa Dulce, em Itabaiana, sonham com a construção de uma Santuário. Deus sabe o tempo certo.
Santa Dulce tem outra ligação com Itabaiana. Segundo o pesquisador Robério Santos, a Irmã Dulce possuía uma sanfona e, em uma visita ao presidio Engenho da Conceição, na Bahia, ela encontrou o cangaceiro Volta Seca (Itabaianense) e cantaram juntos “mulher rendeira”. Nasceu uma amizade.
No próximo Domingo, 02 de agosto, teremos uma nova peregrinação de Santa Dulce em Itabaiana. Os que sobraram da famosa Expedição Serigy, sairão dos sofás, divãs, esteiras e almofadas, e marcharão com cajado, cantil, botas e coragem, sob o comando do eterno ambientalista Antonio Leite. Isso mesmo, o famoso dono e fundador do bloco caranguejo elétrico, nascido e criado tomando água da Mata do Junco.
Itabaiana respira Santa Dulce. Tudo pronto para a peregrinação.
Santa Dulce dos Pobres faleceu em Salvador, à 13 de março de 1992, aos 78 anos.
Antonio Samarone – Eremita urbano.
terça-feira, 28 de julho de 2026
LOUVAÇÃO A AUGUSTO LEITE
(por Antonio Samarone)
Numa solenidade memorável, as entidades médicas e academias de letras, fizeram uma homenagem ao centenário do Hospital de Cirurgia, saudando o seu fundador, Augusto César Leite.
Auditório Cheio. A atual direção do hospital convidada. Vários familiares de Augusto Leite presentes (Walter Franco, Clara Leite...). Augusto Leite fundou e dirigiu a SOMESE por 10 anos.
O Dr. José Teles de Mendonça fez uma conferência, sobre as idas e vindas do Cirurgia. O presidente da ASL, magistrado José Anderson do Nascimento, esclareceu que na fundação da Academia, os membros escolhiam os seus Patronos. Augusto Leite, membro fundador, escolheu o Dr. José Lourenço Magalhaes.
Senti uma certa perplexidade no auditório: quem seria o tal Dr. José Lourenço de Magalhaes?
Na segunda metade do Século XIX, houve uma diáspora de médicos sergipanos. As elites locais mandavam os seus filhos estudarem medicina na Bahia e no Rio de janeiro. Quando retornavam, os doutores não encontravam mercado de trabalho no pobre e pequeno Sergipe. Migravam para o Sul. Muitos se destacaram, fizeram história.
Sergipe já exportou cérebros, especialistas, gente culta e pensante. Um dos maiores: Dr. José Lourenço de Magalhães, que dava nome ao antigo Leprosário do Bairro Vermelho, em Aracaju.
José Lourenço de Magalhaes (1831 – 1905), nasceu na Estância, em 11 de setembro de 1831. Filho do rico comerciante Português Romão Lourenço de Magalhães e D. Antônia Isabel Fernandes.
José Lourenco casou-se com D. Luísa Fernades de Magalhaes e tiveram dois filhos, ambos médicos:
José Fernandes de Magalhaes, nascido em Estância, em 23 de outubro 1861. Aos três anos, vai morar com o avô Romão, em Portugal. Formou-se em Coimbra. Tornou-se professor na Faculdade de Medicina do Porto.
Eduardo Fernandes de Magalhaes, nascido em Estância, em 16 de fevereiro de 1866. Formou-se em medicina no Rio de Janeiro. Tornou-se membro da Academia Nacional de Medicina.
O nosso personagem, José Lourenço de Magalhaes formou-se na velha faculdade de medicina, do Terreiro de Jesus, em 1856, defendendo a Tese inaugural “Como reconhecer que o cadáver que morreu de afogamento”.
José Lourenço retornou a Sergipe. Foi clinicar em Estância e depois em Laranjeiras. No início, exercia a oftalmologia. A sua curiosidade científica foi precoce. Em 1864, publicou na Gazeta Médica da Bahia, “Correção cirúrgica da Ectopia”.
Após o seu retorno, José Lourenço viveu em Sergipe até 1868. Participou ativamente do combate aos surtos de Cólera de 1862/63. Durante a grande epidemia de 1855, ele ajudou como estudante.
José Lourenço exerceu cargos políticos em sua terra natal: delegado de polícia em Estância, delegado de saúde e Deputado da Assembleia Provincial, por quatro legislaturas (1862 – 1869), chegando a ocupar a presidência.
Sergipe tornou-se pequeno. José Lourenço resolveu emigrar para o Sul, estabelecendo-se primeiro em Salvador. A Bahia era um centro de pesquisas médicas, onde vicejava a Escola Tropicalista Baiana. Talvez aí, nasceu o seu interesse pela Lepra.
No Sul (Rio e São Paulo), a sua fama como leprologista se difundiu. O pesquisador José Lourenço de Magalhaes publicou obras importantes: “a morfeia no Brasil” (1882), a curabilidade da morfeia (1855).
José Lourenço de Magalhaes não aceitava a etiologia bacteriológica da Lepra. Mesmo com a descoberta da Mycobactérium leprae já tendo ocorrido, em 1873, pelo norueguês Gerhard Amauer Hanse. Lourenço não considerava a lepra um doença contagiosa.
A segunda divergência de Lourenço: ele considerava a lepra curável e afirmava ter o método de cura. Só que ele não revelava. Ele testou o seu método de tratamento no Hospital dos Lázaros, no Bairro São Cristóvão, em 1878. Afirmava bons resultados, mesmo sem nunca tendo divulgado claramente os segredos da cura.
Ele criou, com recursos próprios, o Instituto Lourenço de Magalhães, em Cascadura, zona rural do Rio de Janeiro, para demonstrar a sua tese. O tratamento consistia em higiene pessoal rigorosa, fortalecer o organismo com dietas especais e repouso, e um medicamento, cuja a fórmula ele morreu sem divulgar.
A sua batalha decisiva deu-se em Berlim, durante a 1ª Conferência Internacional sobre a lepra, entre 11 e 16 de outubro de 1897. Lá estavam a nata do comunidade científica, inclusive o descobridor da bactéria, que no evento, foi batizada de bacilo de Hanse.
José Lourenço não foi a Berlim para ouvir, ele levou as suas convicções prontas: a lepra não é contagiosa e tem cura. Mesmo com autoridade de ex-Presidente da Academia Nacional de Medicina (1895/96), ele foi derrotado! A conferencia reconheceu a etiologia bacteriológica e recomendou o isolamento, como forma de prevenção.
A sua reputação continuou alta no Brasil. José Lourenço de Magalhaes foi o único sergipano a presidir a secular Academia Nacional de Medicina e ter projeção internacional com leprologista. Ele assumiu a Academia como membro titular, em 1885.
Com a derrota na Conferencia de Berlim, José Lourenço mudou-se para São Paulo. Foi diretor do Hospital dos Lázaros de Guapira, bairro de São Paulo, onde hoje é Jaçanã.
José Lourenço faleceu em 23 de novembro de 1905, em São Paulo, aos 74 anos.
Entre os que emigraram, ele foi o maior nome da medicina sergipana na segunda metade do século XIX, e Antonio Militao de Bragança, o maior entre os que permaneceram em Sergipe.
Augusto Leite, escolheu um grande Patrono para a cadeira nº 3, da Academia Sergipana de Letras.
Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.
sábado, 25 de julho de 2026
AS RAÍZES DA HISTÓRIA
(por Antonio Samarone)
A história oral, contada pelos mais velhos, nas rodas de conversa, é a raiz das narrativas comunitárias. Basta ouvi-las com atenção.
Este senhor da foto é Pedro Nila. Uma enciclopédia da vida itabaianense, do dia-a-dia. Um depositário das crenças, valores e modos de vida, da segunda metade do século XX.
Perguntei a Inteligência Artificial (IA), que tudo sabe, quem era Pedro Nila, de Itabaiana. Ela me respondeu que não existia nenhuma pessoa de destaque com esse nome.
Pedro Nila é um remanescente, um arquivo vivo de uma sociedade, que se acabou. Uma fonte preciosa da história que não foi escrita.
Insistir com a IA, numa forma de desafio. Ela revirou as gavetas, e foi no ponto: “Pedro Nila é um conhecido sapateiro do Beco Novo e também jogador do Cantagalo, fazendo parte daquela geração de artesões e esportistas que marcaram a história popular de Itabaiana.”
Betinho de Seu Bebé, estamos perdidos: a IA conhece o povo do Beco Novo. E agora? Vão copiar até as fotos.
Para a IA anotar:
Pedro Nila é Pedro Fraga Rocha, filho de Seu Francisquinho e Dona Nila. Nascido na Rua do Fato, em 29 de julho de 1936. Pedro tem 90 anos, com memória e juízo plenos. Lembra-se de tudo e de todos.
Um esclarecimento a IA: o nome Fato, da Rua, não é o fato contra o qual não há argumentos. O fato da Rua, são as vísceras do boi, o bucho, tripa, bofe, com os quais se faz as buchadas e a dobradinha. Quem cuida do fato não são os açougueiros, nem os magarefes. São as fateiras. O nome da Rua é uma homenagem a elas, que dominavam o logradouro.
Pedro Nila era casado com Josefa, filha do grande Santinho de Nia. O casal teve 6 filhos.
Depois de casado, Pedro domiciliou-se no Beco Novo. Montou a sua tenda, e foi criar a família fazendo sapatos. Um mestre: cortava, costurava e solava. Ele relembra: se me dessem uma folha de papel eu entregava o sapato pronto.
É que sobrava para o menino pobre em Itabaiana, era ser sapateiro (pedreiro, marceneiro, alfaiate, balconista...) e jogar futebol. O capitalismo chegou com os sapatos de fábrica, bonitinhos e ordinários) e os sapateiros foram a falência.
Perguntei a Pedro se ele tinha frequentado a escola e quem foi a sua primeira professora. Ele disse-me que frequentou, mas não lembrava quem foi a professora, nem a escola. Um esquecimento seletivo.
Lembrei-me de papai, que próximo as eleições, treinava desenhando o nome, para ter o voto garantido nas urnas. Não era permitido o voto do analfabeto, e a cidadania para ser exercida exigia a assinatura na lista de votação.
Pedro Nila, aos 90 anos, é uma fonte inesgotável da história de Itabaiana, queira ou não os letrados. Um homem gentil e sorridente, que não se lembra de ter tido inimigos.
Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.
terça-feira, 21 de julho de 2026
A FALTA D'ÁGUA EM SERGIPE
SERGIPE TEM JEITO
domingo, 19 de julho de 2026
A LOUCURA DO DR. JOÃO VIEIRA
A loucura do Dr. João Vieira.
(por Antonio Samarone)
A “loucura” do Dr. João Vieira Leite, um caso tenebroso da medicina, no início do século XX: o tratamento da “loucura” do Dr. João Vieira Leite, médico e Governador de Sergipe (por poucos dias).
O Dr. João Vieira Leite é filho do Coronel Sizenando de Souza Vieira e D. Adelaide Leite Vieira, nascido no engenho São Félix, cidade de Santa Luzia do Itanhy, a 04 de setembro de 1867. Irmão do famoso médico Dr. Berilo Leite, que fez história na Estância.
Dr. João Vieira Leite colou grau em medicina pela Faculdade da Bahia, em 27 de outubro de 1890, defendendo a tese “Apreciação dos métodos operatórios gerais adotados na operação cesariana”.
Em seu retorno a Sergipe, montou a sua clínica na praça da Matriz em Estância, sendo bastante aceito. Foi diretor e grande benfeitor do Hospital Amparo de Maria.
Em Sergipe, entre 1890 e 1901, o Dr. João Vieira teve carreira meteórica, como médico e como político. Um personagem destacado da vida sergipana.
Foi Intendente municipal em Estância (Prefeito), Deputado Estadual nas legislaturas 1894-95, 1896-97, Presidente da Assembleia Legislativa, e nessa condição, Governador de Sergipe por 44 dias, após a deposição de José Calazans (1894).
João Vieira era um homem culto. Fundou o jornal “A Razão”, periódico criado em Estância, Sergipe, pelo médico João Vieira Leite e seu cunhado, o comerciante Augusto Ramos Gomes. O recorte temporal inicia-se em 1898, ano de fundação do periódico, e 1923, ano que corresponde ao início da mudança na estrutura editorial do jornal, impulsionada pelo falecimento de Augusto Gomes. Um jornal voltado para a difusão do iluminismo.
Até quando ocorreu uma grande tragédia: o Dr. João Vieira, ainda moço, com apenas 35 anos, começou a apresentar um comportamento “estranho”, “esquisito”, o que não demorou muito tempo para que a comunidade suspeitasse de que o facultativo estivesse ficando maluco. E nessa condição de louco, foi levado à força, pela família, para o Rio de Janeiro, em busca de tratamento.
O Dr. João Vieira resistiu à ida para o Rio de Janeiro. Não houve acordo. O ex-governador de Sergipe foi apeado numa camisa de força e, sob intensa violência, embarcado para a sua última viagem.
Durante a viagem, que durava de cinco a oito dias, o Dr. João Vieira foi enclausurado num apertado compartimento do “Vapor Manaus”, da Cia. Esperança Marítima”, transformado em solitária. João Vieira reagiu à repressão insana.
Após muita violência, tortura física e mental, de bater-se insistentemente com a cabeça nas paredes, de muita luta para libertar-se, muita automutilação. João Vieira, médico, governador de Sergipe, foi abatido pelas práticas psiquiátricas da época.
Em 21 de janeiro de 1902, nas proximidades do porto de Vitória, no Espírito Santo, antes de chegar ao seu destino no Rio de Janeiro, o Dr. João Vieira não resistiu aos sofrimentos e faleceu de forma absurda, resistindo à violência da internação e lutando por liberdade.
O grande Epifânio Dória, em suas efemérides, cita a morte do Dr. João Vieira, omitindo a violência, a suposta loucura e o internamento forçado. Epifânio limita-se a dizer que ele faleceu de uma enfermidade grave. Claro, Epifânio conhecia o triste episódio, mas omite.
Dr. João Vieira Leite, um esquecido mártir da psiquiatria.
Antonio Samarone (médico sanitarista)
sexta-feira, 17 de julho de 2026
A CULTURA EM SERGIPE DEL' REY
A Cultura em Sergipe del' Rey.
(por Antonio Samarone)
A cultura sergipana é expressiva, rica, diversa e criativa. Por que não ganha protagonismo nacional? Com exceções: Mestrinho, Natanzinho... Quem mais? Eu sei, a gestão estadual é inoperante, comandada por uma elite acomodada e interesseira. Os mesmos, mandam em quase tudo. Entra e sai governo e eles permanecem.
O Governo Valadares (1987 – 1991),criou a Secretaria da Cultura e nomeou o sergipano Joel Silveira, um jornalista e intelectual nacionalmente reconhecido. Existia a Fundesc, criada em 1984, por João Alves.
Outros nomes de peso passaram pela Cultura: Aglaé Fontes, José Carlos Teixeira, Luiz Antonio Barreto, João Gama, Luiz Alberto. Hoje, vivemos um período de vacas magras.
Conta-se que, na passagem de Joel Silveira por Sergipe, diante da escassez, seu melhor amigo foi o arcebispo conservador Luciano Duarte. Como viabilizar esse convívio entre duas pessoas cultas, com pensamentos divergentes? Fizeram um pacto: nas conversas, não se falava nem de sexo, nem de política.
A competente jornalista Clara Angélica Porto, foi a secretária adjunta de Joel Silveira. Valadares apostou alto na Cultura.
Não se pode esconder a importância de João Alves para a cultura em Sergipe.
João criou o Centro de Criatividade (projeto de Jaime Lerner), o Teatro Tobias Barreto e a Orquestra Sinfônica. Déda criou o Museu da Gente Sergipana e o Palácio Museu. O Conservatório de Música é de 1945 e o Teatro Atheneu, de 1954.
No mais, resta pouco. Não me lembro de nada relevante do atual governo. Implantou a terça do arrocha? Só festas e mais festas, com artistas renomados. É muito pouco. Eu sei que a burocracia chapa branca vai enfatizar algumas ações relevantes. Mas foi quase nada.
O mais conhecido dessa elite intelectual, que comanda a cultura há meio século, me justificou sucintamente o motivo das grandes festas: “o gosto popular”! Não adianta trazer o Ballet Bolshoi, se o povo quer “arrocha”.
Fiquei pensando, será?
O governador João Alves implantou na Orla de Atalaia, um memorial ao ar livre, uma roda de convivência, com estátuas em bronze, dos 10 maiores intelectuais sergipanos.
João criou outro memorial na Orla: os formadores da humanidade, com dez nomes da história nacional. Um adendo: entre esses nomes nacionais, Marcelo Déda incluiu, com justiça, Zumbi dos Palmares. Desse memorial sobraram nove, a estátua do Barão do Rio Branco encontra-se desaparecida.
Como se não bastasse, João Alves ainda construiu um grande monumento (15 metros), em aço escovado, a Inácio Barbosa. A obra é do artista plástico Léo Santana.
Está tudo lá, mal conservados, esquecidos, mas permanecem altaneiros. A obra é de bronze, feita para durar. Com todo esse investimento cultural, qual é o monumento mais visitado na Orla de Atalaia?
Um caranguejo gigante, feito de resinas sintéticas. São filas e mais filas de turistas. Todos querem uma foto ao lado do caranguejo-uçá. Nos pacotes turísticos, não falta a grande atração: visita, com direito a fotos, ao “Ucides cordatus”.
Ia esquecendo, a transformação da antiga alfândega em Centro Cultural de Aracaju, belo projeto da arquiteta Ana Libório, também foi iniciativa de João Alves. Hoje, comporta o Palácio Museu Luiz Antonio Barreto.
Uma boa notícia: soube que a prefeita Emília Correia decidiu transformar o Palácio Inácio Barbosa, abandonado há décadas, no Memorial da Cidade. Nesse longo descaso, o Palácio chegou a ser oferecido a um empresário do ensino.
A cultura em Sergipe está na UTI, necessitando de sangue de caranguejo e um transplante.
Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.
segunda-feira, 13 de julho de 2026
O ANALISTA DA SERRA
(por Antonio Samarone)
Na primeira metade do século XX, pacientes mentalmente atormentados encontraram na terapia da fala (psicoterapia) um alívio. A psicanálise freudiana tomou corpo nos Estados Unidos. Em 1948, o psicanalista William Menninger foi eleito presidente da Associação Americana de Psiquiatria (APA).
Em meados da década de 1950, apareceu em Itabaiana, no segundo trecho do Beco Novo, um senhor de meia-idade, cabelos grisalhos, fala castelhana anasalada, o doutor Sorin, um romeno, que possuía diploma de psicanalista, assinado pelo Dr. Menninger.
Dr. Sorin se gabava de ter conhecido Freud, em Hampstead, poucos dias antes de sua morte. (setembro de 1939). Vítima de câncer de esôfago.
O Dr. Sorin montou o primeiro consultório psicanalítico em Sergipe. Na mesma época, o Dr. Gracia Moreno estreava um aparelho de eletrochoque, no Adauto Botelho. Era a época de ouro das terapias corporais da psiquiatria.
O médico romeno não foi bem-sucedido em Itabaiana. Ninguém estranhava esses peregrinos pós-guerra. Em Itabaiana, já residia um engenheiro polonês. A bronca foi outra.
Sorin era um visionário, não batia bem, montou um consultório original. O divã era uma rede de varanda, onde os pacientes eram agraciados com leves embalos relaxantes. Dizia-se que a rede onde Euclides Paes Mendonça atendia aos puxa-sacos e fuxiqueiros, era uma imitação do Divã de Sorin.
A psicanálise crescia na América do Norte. As explicações da psicanálise sobre o inconsciente fizeram grande sucesso. Freud, profeta do pessimismo, considerava a religião uma neurose, e a criação de Deus, um anseio infantil. Como tornou-se palatável num país religioso?
As duas Guerras Mundiais trouxeram consequências psiquiátricas. As neuroses de guerra e a fadiga dos combatentes. Depois das guerras, por pressão dos ex-combatentes, que reinjetavam o estigma da loucura, a APA criou uma nova categoria patológica, os “Transtornos”. O primeiro foi o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Nasceu uma psiquiatria orgânica, biológica, dependente da indústria farmacêutica. Surge os psicotrópicos. Nessa época, o Dr. Renato Maze Lucas mudou-se para Itabaiana, um psiquiatra brasileiro.
A passagem do psicanalista Sorin durou apenas 90 dias. Ele, com a sua ciência, arrumou uma encrenca com o poderoso Miguel Fagundes, delegado do Beco Novo.
Seu Miguel emprestava dinheiro a juros. Para o dinheiro não embolorar, ele, a cada 15 dias, espalhava as cédulas na calçada, dentro de arupembas, para tomar sol.
A medida extravagante não deixava de funcionar como propaganda dos serviços bancários de Seu Miguel. A agiotagem não era bem vista, condenada na Bíblia como usura e avareza, pecados capitais.
Correu um boato de que o psicanalista Dr. Sorin, calvinista, encontrou um transtorno para seu Miguel: TAC (Transtorno da Avareza Crônica). Seu Miguel não levava desaforo para casa. Deu um prazo de 24 horas, para o Dr. Sorin arrumar as malas.
Na madrugada do dia seguinte, a carroça de Zé de Sancho partiu carregada, levando os bregueços do Dr. Sorin até o ponto das marinetes de Luiz Prado. Partiu, sem deixar registro. A rede, que funcionou como divã, foi deixada para Sinhá Fonfom, sua vizinha.
Eu não conheci o doutor, mas me balancei na rede Dona Sinhá Fonfom.
Antonio Samarone (Academia Itabaianense de Letras)
domingo, 12 de julho de 2026
A PIMENTA E O SAL.
(por Antonio Samarone)
“Ó mar, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!” – Fernando Pessoa.
Em busca de especiarias, ouro e prata, os portugueses passaram além do Bojador e cruzaram o tenebroso mar. Em busca de louro, coentro, noz-moscada, açafrão, alho-poró, cominho, alho e cebola, urucum, cravo, canela e gengibre. Parece pouco...
O poeta perguntou: valeu a pena? Vocês conhecem a resposta. De positivo: eles, procurando o caminho das Índias, descobriram o Brasil.
A chegada dos portugueses, foi cantada por Antonio Nóbrega: “Mas de repente/ Me acordei com a surpresa/ Uma esquadra portuguesa/ Veio na praia atracar. Me levantei/ de borduna já na mão/ Aí senti no coração/ O Brasil vai começar.”
Especiarias eram produtos exóticos, com fins medicinais. Não apenas temperos. Segundo o “Le Thresor de Santé” (1607): “A pimenta-do-reino mantém a saúde, conforma o estômago, dissipa os gases, faz urinar, cura os calafrios, picadas de cobras e provoca aborto de fetos mortos. O cravo da Índia serve para os olhos, fígado, coração, diarreia e dor de dente.”
Encontrei todas as especiarias (pimenta-do-reino, cravo, canela e noz-moscada) na feira de Itabaiana. (veja a foto). Se os portugueses soubessem, não precisariam ter dobrado o Cabo das Tormentas. A Índia era em Itabaiana!
“Todo trabalho do homem é para a sua boca” – Eclesiastes, VI, 7.
Quem come, amansa!
Antonio Samarone – Secretário de Cultura de Itabaiana.
domingo, 5 de julho de 2026
A REFORMA SANITÁRIA EM SERGIPE.
(por Antonio Samarone).
Em Sergipe, a Lei Orgânica da Saúde (8.080/1990), que regulamentou o Sistema Único de Saúde (SUS), foi rejeitada pelo governo estadual. Não sei as razões. Eles queriam continuar no SUDS, um sistema unificado.
A sorte foi uma crise do Hospital de Cirurgia que, para não fechar, exigia um aporte financeiro. O governo estadual não tinha. Procurou-se o INAMPS, que impôs uma condição: só liberava o socorro para o Hospital de Cirurgia se o governo estadual ingressasse no SUS.
O Governo Valadares cedeu! Como os prazos estavam se esgotando, copiou-se o contrato da Bahia, só mudou o nome: onde encontrava-se Bahia, substituía-se por Sergipe. Virou piada nacional. As divergências seriam resolvidas em um cartório na Bahia. Não deu tempo de encontrar um cartório sergipano.
Tudo foi assinado às pressas.
Lembro-me de que a UFS organizou um grande seminário, pretensiosamente chamado de “Pensar Sergipe”. Um reitor, Zé Lima, um crente na ciência e no iluminismo, dizia pomposamente: “A UFS possui mil doutores (hoje é mais) e tem o compromisso de encontrar os caminhos de Sergipe.” Foi a última tentativa. Hoje, os doutores cuidam dos seus currículos.
No dia 30 de agosto de 1990, no auditório do Tribunal de Justiça, o Pensar Sergipe reuniu os doutores da UFS, as autoridades sanitárias, políticos e populares, para debaterem, de peito aberto, os caminhos da Saúde.
O conferencista principal foi David Capistrano, um sanitarista vermelho, que revolucionou o Sistema de Saúde em Santos, com destaque para a Saúde Mental. Um nome respeitado nacionalmente.
Os primeiros nordestinos que foram trabalhar no Porto de Santos, foram sergipanos, no final do século XIX. Muitos médicos (Doutor Silvério Fontes, o mais famoso, Martins Fontes, seu filho; Ranulfo Prata, entre tantos...).
Para o seminário da UFS, o governador designou o Dr. Sérgio Garcez, um conceituado sanitarista, para representá-lo.
A secretária da Saúde era Marta Barreto. Sérgio informou que, em Sergipe, os 75 municípios já possuíam autonomia na atenção básica e os programas de Saúde da Família e Agentes Comunitários estavam sendo implantados.
O doutor Ricardo Gurgel falou em nome do Hospital Universitário. A secretária municipal, doutora Rosa Sampaio, representou Aracaju. Simpaticamente, a secretária realçou o papel da UFS, alunos e professores, na construção do SUS, em Sergipe.
Muita gente perguntando, formulando ideias, fazendo sugestões. A saúde estava exposta. A saúde como um direito, ofertada gratuitamente em um sistema integrado. Um modelo assistencial humanizado. Não se perguntava quem pagaria a conta. Era o sonho do welfare state.
A saúde seguiu a sociedade. O surto neoliberal atropelou os planos e rebaixou os sonhos.
Um sanitarista pretensioso, professor de Saúde Pública da UFS, sentenciou durante o seminário: “venho tentando refletir por que as coisas em Sergipe são lentas, sempre atrasam. Nada para exaltar, nenhuma experiência exitosa do SUS.”
Ao contrário, em Sergipe, o Estado resistiu ao SUS. Historicamente, a Secretaria da Saúde se notabilizou por eleger vários Deputados Federais, sempre os mais votados. De memória, lembro-me de quase uma dezena.
À época, ingenuamente, eu não suspeitava que o SUS só era aceito no discurso. Os sindicatos dos trabalhadores queriam planos de saúde. Participei de um debate na UFS sobre o SUS, na ocasião o Reitor aproveitou para assinar um convênio dos professores e funcionários com um plano de saúde. Os servidores estaduais fugiam dos serviços do SUS. Não abriam mão dos serviços médicos do IPES.
Quem carregaria as bandeiras do SUS?
O Dr. Capistrano deu uma lição, aos mais radicais: “A saúde não é um raio de sol em um céu azul. A saúde é um processo que vai se instalando.”
Revendo os anais do Pensar Sergipe, faço uma autocrítica: as secretárias Marta Barreto (Estado) e Rosa Sampaio (Aracaju), estavam no caminho certo.
O Dr. David Capistrano encerrou o evento com uma parábola:
“Deus perguntou se as pessoas tinham fé. Elas responderam que sim. Vocês acreditam na vida eterna? Acreditamos! Acreditam no juízo final e na reencarnação? Acreditamos. Então, quem quer morrer hoje para ir para o céu? Ninguém levantou a mão."
"As pessoas têm fé, mas querem ficar aqui, neste vale de lágrimas, o máximo possível. Querem viver, ter saúde, e nós temos que estar atentos a isso: todo mundo tem direito a essa aspiração básica da humanidade.”
Encerramos o seminário nesse tom.
O principal programa de saúde do atual governo do estado é um mutirão de cirurgias. É o fundo do poço da saúde pública.
Entretanto, o secretário será um dos federais mais votados. Mantém-se a tradição.
Renovo as esperanças na Reforma Sanitária, prevista na 8ª Conferência de Saúde – 1986. Em noventa dias, teremos eleições. Deixem o povo votar livremente, sem abusos jurídicos ou financeiros, que o povo muda.
Antonio Samarone – Academia Sergipana de Medicina.
quarta-feira, 1 de julho de 2026
O REI DA MACAXEIRA
(por Antonio Samarone).
Em 1889, a Monarquia caiu no Brasil, com uma quartelada. Os Marechais assumiram, a suposta República. Contudo, popularmente, o rei não perdeu a majestade. Rei continuou sendo uma honraria concedida aos melhores. Pelé foi o rei do futebol e Roberto Carlos o rei da jovem-guarda.
Em Itabaiana, temos o rei da cenoura, a rainha do milho, o rei da sucata, e até o rei da cocada preta. Tivemos o rei das cafuas, o rei do sinuca e o rei da ginga. Por muitos anos, tivemos a rainha dos caminhoneiros. Esta última, o MP fez tantas exigências, tantos protocolos, que a brincadeira acabou.
Na esquina das ruas São Paulo com Sete de Setembro, no coração do comércio itabaianense, descobri o rei da macaxeira. Isso mesmo, do Aipim.
Logo cedo, a banca de Rodrigo está superlotado. Se faz até fila. Desde 2013, que chova ou faça sol, logo cedo, lá está ele descascando a macaxeira. O produto vem direto do sítio do seu avô, Valdo de Pureza (90 anos), no sítio Poço Terreiro, vizinho ao Alecrim, no Malhador.
A tradição de vender macaxeira descascada vem do pai de Rodrigo, Seu Petróleo, conhecido nos bairros populares do Aracaju. Rodrigo teve a quem puxar.
O sucesso de Rodrigo deve-se a simpatia no atendimento, ao preço e a qualidade da macaxeira.
O seu avô só planta macaxeira cardeal, semente herdada de Messias do Gringo, da Moita Formosa. Fiquei curioso e perguntei, por que a macaxeira se chama cardeal? Rodrigo deu uma risada: “cardeal, porque é quase papa.” É verdade! A macaxeira de Rodrigo desmancha-se na boca.
Rodrigo foi coroado pelo povo: o rei da macaxeira. Ao lado, a mãe, Dona Rachel, vende coco. Um pouco abaixo, mas perto da feira, a esposa, Dona Aline, vende jaca. Rodrigo controla uma rede de abastecimento. Entretanto, o carro chefe é a macaxeira.
Chama a atenção é que as calçadas em Itabaiana são livre, pertencem aos pedestre. Os ambulantes, ficam abaixo do meio-fio.
Com dez reais, se leva até 4 kg de macaxeira. Basta pechinchar. Se a família for pequena, passa-se o mês.
Por que o povo coroa os melhores? Alguém se destacou, o povo logo apelida de rei. É rei disso, rei daquilo. Ninguém que se destaca recebe o nome de presidente, governador, ministro, vereador, nada disso, o melhor vira rei. Alguém conhece um vereador do futebol?
Os mais apressados podem concluir que o brasileiro tem a alma monarquista. Não creio. Em 21 de abril de 1993, houve um plebiscito, uma consulta popular, para saber se o povo queria viver em uma república ou em uma monarquia. Lembram-se? A monarquia teve apenas 10% dos votos.
Como as chapas do plebiscito não informavam quem seria o Rei, gerou-se uma grave desconfiança no eleitorado. Era um salto no escuro. Os descendentes de Pedro II, eram uns príncipes esquisitos. E Rei, é um cargo de confiança de Deus. Não se vota em rei.
No final, o Centrão indicaria alguém do baixo clero para Rei, e conferia os cargos de vice-rei ao PT.
É o Brasil!
Viva o Rei da macaxeira.
Antonio Samarone – Academia Itabaianense de Letras.








